sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

CHUVA EM ICARAÍ, SERTÃO NA ALMA - CRÔNICA © ALBERTO ARAÚJO


Aqui em Icaraí, sob este céu de janeiro que se rompe em lençóis grossos de água, abro Grande Sertão: Veredas pela enésima vez. É uma delícia, confesso, essa leitura em plena tormenta. A chuva martela o zinco do ar condicionado do meu escritório, na rua que desce para a baía, e eu me encolho na rede, lembrança de alma nordestina, com o livro aberto no colo como um mapa do infinito. Guimarães Rosa não escreveu para dias de sol; ele teceu palavras para quando o mundo se fecha em si, como o sertão se fecha em veredas escondidas. E aqui, nesse canto de Niterói onde o mar se confunde com o céu cinzento, o sertão dele invade a alma como uma enxurrada boa. 

Penso em Riobaldo Tatarana, jagunço de dúvidas eternas, enquanto a água escorre pela vidraça. A chuva aqui não é sertaneja, seca e traiçoeira como nas Gerais; é farta, carioca, que lava as ruas e incha o mar. Mas Rosa une tudo: o sertão é o mundo inteiro, e Icaraí, com suas palmeiras encharcadas e os bondes fantasmas da memória, vira um pedaço dele. 

Recordo a primeira vez que li Rosa, numa noite abafada de verão carioca. Agora, nesta chuva de 2026 que parece não ter fim, a obra se revela mais viva. Rosa inventou uma língua que é sertão em ebulição: jagunçagem, despovoado, queixume. Palavras que grudam na pele como barro molhado. Leio em voz alta, para que o som se misture ao tamborilar da água: “Veredas são os caminhos do destino, que o homem traça com os pés e o coração.” Aqui, na minha vereda de Icaraí, o destino é esta casa onde vivo com minha companheira artista, pintando céus assim, enquanto eu rabisco crônicas para portais culturais.

A chuva engrossa, e avanço nas páginas. Diadorim, enigma de saias e segredos, me faz pensar nas mulheres de Rosa: fortes como o couro dos gibões, frágeis como o orvalho no cacto. No sertão, o amor é feito de coragem e silêncio; aqui, sob este céu, é a chuva que molha o coração seco. 

Ontem, caminhando pela praia da Icaraí após uma garoa fina, vi casais se abraçando sob guarda-chuvas e pensei: são Riobaldo e Diadorim, perdidos na vereda do afeto. Icaraí tem disso: bairro de classe média, edifícios altos, vista para o Pão de Açúcar, mas alma de sertão interiorano. O povo fala rápido, como jagunço, e xinga o tempo com poesia bruta.

Fecho os olhos e viajo. O Grande Sertão não é só o Veredas do livro; é este Brasil inteiro, de Minas ao Nordeste, passando pelo Rio chuvoso. Em Icaraí, medimo-nos com o trânsito engarrafado da Ponte Rio-Niterói, com as notícias do jornal, com o amor que resiste à rotina. Mas ler Rosa cura. É delícia pura, como morder uma manga madura no meio da tempestade. A água bate na vidraça, e eu continuo: “O amor, senhor, é assim: uma febre que não explica.” 

Penso em Rosa, médico e diplomata, cavalgando pelo sertão para tecer sua epopeia. Ele via grandeza nos olhos dos bois, nas veredas perdidas, nas paixões dos cabras. A chuva diminui, o sol tenta furar as nuvens, dourando a baía. Riobaldo diria: “É o tempo mudando de casaca.”

Aqui em Icaraí, o sertão de Rosa ensina a viver na encruzilhada. Não há vereda reta; todas são tortas, cheias de espinhos e flores. Shirley, minha pintora de mares, entra na sala com as mãos cheias de tintas e pinceis e sorri: “Lendo o velho Rosa de novo?”. Concordo, e ela se senta ao lado, partilhando a rede. Juntos, lemos um trecho sobre o amor impossível, e o céu lá fora chora conosco. É isso: Rosa não se lê sozinho. É para dias chuvosos, para almas sedentas, para quem mora em Icaraí e sonha com o sertão. 

A tarde avança, a chuva vira garoa fina. Fecho o livro, mas as palavras ficam: “Vida é assim: grande, sertão: veredas.” Amanhã, talvez, escreva outra crônica. Por ora, saio à varanda, sinto o cheiro de asfalto molhado misturado a jasmim. 

Icaraí, meu sertão particular, onde Rosa reina eterno sob céus assim. E você, leitor, já provou Rosa numa chuva dessas? É delícia que não explica.

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural



 

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