segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

ECOS DO PARNASO E EFEMÉRIDES CELEBRANDO OS 136 ANOS DE NASCIMENTO E OS 90 ANOS DO ENCANTAMENTO DE LUIZ ANTÔNIO GONDIN LEITÃO, LILI LEITÃO

Este texto busca integrar e dar coesão às histórias sobre Luiz Antônio Gondin Leitão, o irreverente Lili Leitão, poeta, dramaturgo e jornalista niteroiense, personalidade central da boemia literária da cidade. Líder-mor do Café Paris, em sua essência é mais do que um perfil individual, trata-se de um retrato coletivo de um movimento cultural que floresceu em Niterói na década de 1920, tendo como epicentro o lendário Café Paris. 

Luiz Antônio Gondin Leitão nasceu em 25 de janeiro de 1890, em Niterói, e faleceu em 14 de junho de 1936. Conhecido pelos pseudônimos de Bacorinho, Armando Prazeres e, sobretudo, Lili Leitão, destacou-se como poeta satírico, dramaturgo e jornalista. 

Funcionário da Prefeitura de Niterói desde 1911, exerceu cargos administrativos até se aposentar por invalidez em abril de 1936. Pouco depois, faleceu vítima de tuberculose. Sua vida profissional burocrática contrastava com sua intensa atividade cultural e boêmia. 

Lili Leitão colaborou em diversos periódicos da cidade, como A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã e O Fluminense. Criou o jornal carnavalesco O Almofadinha, publicado anualmente às vésperas do Carnaval, como forma de arrecadar recursos para celebrar o reinado de Momo. Essa iniciativa revela sua criatividade e sua ligação visceral com a festa popular. 

Sua estreia nos palcos ocorreu em 1914, com a peça Tudo na Rua. Seguiram-se outras obras de caráter satírico e popular, como:

Logo Cedo; O Rapa; O Espora; Pra Cima de Moi; Niterói em Cueca; Caiu no Laço; A Ceia dos Coronéis (paródia de A Ceia dos Cardeais, de Júlio Dantas) 

Essas peças, muitas vezes paródicas, refletiam o cotidiano da cidade e a crítica social, tornando-se expressão da cultura popular niteroiense. 

O POETA DOS SONETOS 

Lili Leitão foi sobretudo um sonetista. Publicou três livros em vida:

“Sonetos (1913)”, em parceria com Sylvio Figueiredo.

“Vida Apertada (1926)”, com 32 sonetos humorísticos, incluindo o célebre Elas, posteriormente plagiado por João de Barro (Braguinha).

“Comida Brava”, edição limitadíssima de sonetos pornográficos, sob o pseudônimo de Armando Prazeres.

Sua poesia satírica e humorística, marcada pela irreverência, é considerada uma obra de circunstância, voltada para o ridículo e o grotesco do cotidiano. Essa característica, embora brilhante, contribuiu para sua marginalização no cânone literário.

O CAFÉ PARIS E SEUS LÍDERES 

O Café Paris, localizado na Rua Visconde do Rio Branco, nº 417, no Centro de Niterói, foi o epicentro da vida boêmia e intelectual da cidade. Ali se reuniam poetas, jornalistas e dramaturgos que formaram uma verdadeira confraria literária. 

Entre os líderes e participantes da roda do Café Paris estavam:

Luiz Antônio Gondin Leitão, Lili Leitão; Nestor Tangerini; Mazzini Rubano; René Descartes de Medeiros; Apollo Martins; Gomes Filho; Luiz de Gonzaga; Mayrink; Brasil dos Reis; Olavo Bastos; Oscar Mangeon; Anísio Monteiro; Luis Pistarini; Armando Gonçalves; Benjamin Costa.

Esses nomes, hoje em grande parte esquecidos, agitavam a vida intelectual da cidade fundada por Arariboia, o “Cacique Cobra da Tempestade”. O grupo produzia poesia, teatro e jornalismo, mas enfrentava resistência da chamada “grande crítica” brasileira, concentrada na capital federal. O isolamento e o boicote, somados às disputas por empregos públicos e anúncios jornalísticos, contribuíram para sua exclusão do cânone literário. 

A poesia satírica e humorística, ao transformar o universal em particular, tende à efemeridade. No caso de Lili Leitão e dos poetas do Café Paris, essa característica foi agravada pelo contexto político e cultural da época. Ainda assim, sua produção representa um testemunho vivo da Belle Époque niteroiense, marcada pela boemia, pela irreverência e pela crítica social. 

Os poetas do Café Paris, liderados por Lili Leitão, deixaram uma contribuição significativa para a cultura de Niterói e do Brasil. Sua obra, embora de circunstância, revela a vitalidade de uma geração que fez da boemia um espaço de criação e resistência. 

O nome de Lili Leitão permanece vivo na memória da cidade, seja em seus livros, em suas peças ou na rua que leva seu nome no bairro do Fonseca. Mais do que um autor, foi um cronista da vida boêmia, um intérprete das ruas e dos cafés, um poeta que soube transformar o riso em arte. 

Este Ecos do Parnaso busca integrar as diferentes narrativas sobre Lili Leitão, destacando sua trajetória individual e coletiva. Ao trazer à tona os líderes do Café Paris, resgatamos não apenas a personalidade de um poeta irreverente, mas também o espírito de uma geração que marcou a vida cultural de Niterói. Entre o humor e a crítica, entre a boemia e a burocracia, Lili Leitão e seus companheiros do Café Paris permanecem como símbolos de criatividade e resistência cultural.


BIOGRAFIA DE LUIZ ANTÔNIO GONDIM LEITÃO (LILI LEITÃO) 

Luiz Antônio Gondim Leitão nasceu em Niterói, no dia 25 de janeiro de 1890, em uma cidade que já pulsava como centro cultural e político do Estado do Rio de Janeiro. Filho da terra de Arariboia, cresceu entre ruas que respiravam história e cafés que abrigavam intelectuais. Desde cedo, revelou inclinação para as letras, para o humor e para a observação crítica da vida cotidiana. 

Conhecido por diferentes nomes, Lili Leitão multiplicava sua identidade literária em pseudônimos como Bacorinho e Armando Prazeres. Cada nome carregava uma faceta de sua produção: ora o poeta satírico, ora o cronista irreverente, ora o autor de versos eróticos que circulavam apenas entre amigos íntimos. Essa multiplicidade revela não apenas sua criatividade, mas também sua habilidade em transitar entre diferentes públicos e estilos.

Em 1911, ingressou na Prefeitura Municipal de Niterói como extranumerário. Mais tarde, ocupou cargos como amanuense da Diretoria de Obras, auxiliar da Repartição do Expediente e ajudante de inspetor da Limpeza Pública. A rotina burocrática, no entanto, nunca apagou sua chama criativa. As mesas dos bares, especialmente as do lendário Café Paris, tornaram-se sua verdadeira escrivaninha. Ali, entre copos de chope e conversas acaloradas, nasciam sonetos, crônicas e peças teatrais. 

Lili Leitão colaborou em diversos periódicos da cidade, como A Capital, Jornal de Niterói, Gazeta da Manhã e O Fluminense. Sua escrita era marcada pela ironia e pelo humor. Criou o jornal O Almofadinha, publicado anualmente às vésperas do Carnaval, como forma de arrecadar recursos para celebrar o reinado de Momo. Essa iniciativa revela sua ligação visceral com a festa popular e sua capacidade de transformar a vida em literatura. 

Sua estreia nos palcos ocorreu em 1914, com a peça Tudo na Rua. A partir daí, sua produção teatral ganhou fôlego, com títulos como: Logo Cedo (1917); O Rapa; O Espora (1918); Pra Cima de Moi (1916); Niterói em Cuecas (1924); Caiu no Laço; A Ceia dos Coronéis (paródia de A Ceia dos Cardeais, de Júlio Dantas); Minha Sogra é do Outro Mundo (1933); Tudo pelo Brasil (1933, em parceria com Nestor Tangerini). 

Suas peças, muitas vezes de caráter satírico, dialogavam com o cotidiano da cidade e com as figuras típicas da sociedade niteroiense. A paródia, o humor e a crítica social eram elementos recorrentes, tornando sua dramaturgia uma expressão viva da cultura popular. 

Se no teatro exercitava sua veia satírica, na poesia encontrou o espaço ideal para sua criatividade. Exímio sonetista, produziu grande parte de sua obra nesse gênero. Seus sonetos, ora irreverentes, ora líricos, revelam a versatilidade de um autor que sabia transitar entre o riso e a emoção. 

Em 1913, publicou o livro Sonetos, em parceria com Sylvio Figueiredo. Em 1926, lançou Vida Apertada, reunindo trinta e dois sonetos de fino humor, incluindo o célebre Elas, posteriormente plagiado por João de Barro (Braguinha). Sob o pseudônimo de Armando Prazeres, reuniu em Comidas Bravas poemas de caráter pornográfico, vendidos apenas a amigos íntimos. 

O Café Paris, localizado na Rua Visconde do Rio Branco, nº 417, no centro de Niterói, foi o epicentro da vida boêmia e intelectual da cidade. Ali se reuniam poetas, jornalistas e dramaturgos que formaram uma verdadeira confraria literária. Entre eles, além de Lili Leitão, estavam Nestor Tangerini, Mazzini Rubano, René de Medeiros, Apollo Martins, Olavo Bastos, Oscar Mangeon, Benjamin Costa, entre outros. 

A poesia satírica e humorística, ao transformar o universal em particular, tende à efemeridade. No caso de Lili Leitão, essa característica foi agravada pelo contexto político e cultural da época. Ainda assim, sua produção representa um testemunho vivo da Belle Époque niteroiense, marcada pela boemia, pela irreverência e pela crítica social. 

Seus versos, como os sonetos Eu, Treze e Não, revelam o humor ácido e a ironia que caracterizavam sua escrita. Ao mesmo tempo, mostram a sensibilidade de um poeta que, mesmo entre risos, refletia sobre a vida, a morte e o destino. 

Aposentado por invalidez em abril de 1936, faleceu pouco depois, vítima de tuberculose. Sua morte marcou o fim de uma trajetória intensa, vivida entre a burocracia e a boemia, entre o humor e a poesia.

Apesar de marginalizado pela crítica oficial, Lili Leitão deixou uma contribuição significativa para a cultura de Niterói e do Brasil. Sua obra, embora de circunstância, revela a vitalidade de uma geração que fez da boemia um espaço de criação e resistência. Seu nome permanece vivo na memória da cidade, seja em seus livros, em suas peças ou na rua que leva seu nome no bairro do Fonseca. 

Esta biografia lírica e jornalística de Luiz Antônio Gondim Leitão (Lili Leitão) foi desenvolvida apenas para esta postagem do Ecos do Parnaso, quadro cultural dos companheiros que já partiram ao Parnaso. Entre o humor e a crítica, entre a boemia e a burocracia, Lili Leitão permanece como símbolo de irreverência, criatividade e paixão pelas letras. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural







 

Café Paris, à noite. A roda antiga

ali sentava-se a beber cachaça…

Amigo Bento! Como o tempo passa,

mas deixa sempre uma lembrança

Era o Isaac Cerquinho… que barriga!

E que talento de orador sem jaça!

O Olavo, bonachão, que em rimas traça

da “Dama loura” a imagem que o fustiga.

Depois vinha o Lili trocadilhista,

o Mazzini, o Mesquita, o Afrânio, em cada

da glória o brilho a refletir na vista…

E os boêmios, de almas quase que infantis,

vão debandando na alta madrugada…

E dorme em sombras o Café Paris.

 

Este poema encontra-se No livro Passeio das letras na taba de Araribóia - a literatura em Niterói no Século XX (Niterói Livros, 2003), de Wanderlino Teixeira Leite Netto. Trata-se de um poema que lhe foi dedicado por Benjamim Costa - na verdade, o último escrito por este, na manhã de 30 de dezembro de 1953, na varanda da casa de Lourenço Araújo, conforme relata Wanderlino em seu livro. Poema que retrata algumas facetas da roda literoboêmia do Café Paris:









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