O encontro entre a voz profunda de Maria Bethânia e a escrita revolucionária de Guimarães Rosa é um dos momentos mais altos da cultura brasileira
"Direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, o amor pega e cresce, é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na ideia, querendo e ajudando. Mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço, fatal, carecendo de querer. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois. Tudo turbulindo. Esperei o que vinha dele. De um aceso de mim, eu sabia: o que compunha minha opinião era que eu, às loucas, gostasse de Diadorim.
No fim de tanta exaltação, meu amor inchou, de empapar todas as folhagens. E eu, ambicionando de pegar em Diadorim, de carregar Diadorim em meus braços, beijar, as muitas demais vezes, sempre!
Abracei Diadorim com as asas de todos os pássaros. Diadorim é minha neblina. Amor é a gente querendo achar o que é da gente."
COMENTÁRIO DO FOCUS PORTAL CULTURAL
Este vídeo captura a essência do que chamamos de "Sertão Universal". Quando Maria Bethânia declama Riobaldo, ela não está apenas lendo um livro; ela está dando corpo a uma das maiores questões existenciais da literatura: a natureza do amor e do desejo.
Bethânia possui uma dicção "rosiana" natural. Guimarães Rosa não escrevia para ser lido apenas com os olhos, mas para ser ouvido. Sua linguagem é neológica e musical, bebendo da oralidade do sertanejo mineiro, mas elevando-a a um patamar metafísico. A interpretação de Bethânia respeita as pausas e as "turbulências" do texto, transformando a confissão de Riobaldo em uma prece laica.
O trecho foca na relação entre Riobaldo e Diadorim. No livro, essa paixão é o grande conflito do protagonista, que se vê atraído por outro jagunço, sem saber, até o final, a identidade de gênero biológica de Diadorim.
A frase "amor é a gente querendo achar o que é da gente" resume a busca pela identidade através do outro. Rosa sugere que o amor "fatal" independe da vontade própria; ele é uma força da natureza que "empapa todas as folhagens".
Ver uma artista da magnitude de
Bethânia, que carrega em sua identidade a Bahia e o misticismo, interpretar um
autor que é o símbolo das Gerais, reforça a unidade da língua portuguesa como
um território de afeto. É a prova de que o sertão, como dizia o próprio Rosa,
"está em toda parte".
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
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