sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

NORDESTE EM DUAS VOZES COMPANHEIROS DA PEDRA E DO SOL CRÔNICA DE ALBERTO ARAÚJO


Epígrafe: “O sol do Nordeste nos une em palavra e pedra, em canto e rigor.” 

Hoje celebramos 106 anos do nascimento de João Cabral de Melo Neto, nascido em Recife em 9 de janeiro de 1920. Ele já partiu, mas sua presença continua viva, como se caminhasse ao meu lado pelas veredas do Nordeste. Eu sigo aqui, companheiro nas letras, conterrâneo de sol e de pedra, e sinto que sua voz ainda ecoa entre os canaviais, nos mangues e nas águas do Capibaribe. 

Eu caminho pelas veredas do Nordeste, terra de sol que não se apaga, onde o vento traz o cheiro da cana e o rumor dos rios que cortam a paisagem. E ao meu lado, como companheiro de jornada, sinto a presença de João Cabral de Melo Neto, poeta que fez da palavra uma pedra clara, viva e luminosa. Somos filhos do mesmo universo geográfico, moldados pela luz incandescente e pela aspereza fértil. 

João Cabral fala: “A poesia não é ornamento, é construção. É como erguer uma casa de tijolos, cada palavra ajustada com rigor, cada verso sustentando o peso da verdade.” E eu respondo: “Sim, irmão das letras, mas também deixo que o sol do Nordeste me aqueça, que o canto dos pássaros me envolva, que o lirismo se derrame como chuva breve sobre a caatinga.” 

Somos nordestinos, herdeiros de uma geografia que é ao mesmo tempo seca e abundante, dura e generosa. O Nordeste é o sertão que resiste, é o mar que se abre em azul infinito, é o mangue que pulsa vida, é o engenho que guarda memórias. É terra de sol brilhante, mas também de sombra que ensina a paciência. 

João Cabral insiste: “A palavra deve ser limpa, sem resíduos sentimentais, como pedra polida pelo tempo.” E eu replico: “Mas a pedra também canta, também guarda em seu silêncio o rumor da eternidade. O Nordeste é feito de rigor e de canto, de geometria e de flor, de seca e de esperança.”

Foi assim que seguimos, eu e João Cabral, companheiros nas letras, irmãos na mesma raiz. Ele, já em outra dimensão, deixou sua poesia de precisão, que ergue pontes entre o concreto e o abstrato. Eu continuo aqui, com minha voz que se abre em cores e perfumes, celebrando o sol que nos une. Juntos, abraçamos o Nordeste com palavras-palavras: terra de fogo e de água, de dor e de festa, de pedra e de sonho.

E nessa irmandade, o que nos resta é cantar: cantar o Nordeste como quem ergue uma catedral de versos, como quem planta esperança no chão árido, como quem sabe que a palavra é sol que nunca se apaga. João Cabral partiu, mas sua obra permanece como holofote. Eu sigo, companheiro de sua memória, celebrando os 106 anos de seu nascimento com a certeza de que o Nordeste continua vivo em nossas vozes, em nossas letras, em nossa irmandade de pedra e sol. 

O tempo passa, mas o Nordeste permanece como paisagem e como destino. É chão de resistência, palco de festas populares, berço de poetas e cantadores. É o lugar onde o sol se derrama em ouro sobre os coqueirais, onde a seca ensina a inventar esperança, onde cada palavra é colhida como fruto raro. João Cabral soube traduzir essa terra em versos duros e luminosos, e eu, que continuo aqui, busco dar-lhe cores e perfumes, como se nossas vozes se completassem.

Celebrar João Cabral é celebrar o Nordeste em sua inteireza: o sertão e o litoral, o mangue e a caatinga, o engenho e a cidade. É reconhecer que sua poesia nos ensinou a olhar para o real com rigor, mas também a perceber que na pedra há canto, e no silêncio há eternidade. 

Hoje, ao lembrar seus 106 anos, sinto que não estamos distantes. Ele segue comigo, companheiro invisível, irmão de sol e de palavra. E juntos, seguimos chamando o Nordeste com palavras-palavras: terra de fogo e de água, de dor e de festa, de pedra e de sonho.

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural



 

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