quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A VALSA DA BORBOLETA - CRÔNICA DE © ALBERTO ARAÚJO

Da minha janela em Icaraí, o mundo desperta devagar, como se o dia tivesse preguiça de abrir os olhos. É uma janela simples, de apartamento antigo, mas a persiana moderna dança ao sopro da Baía de Guanabara. 

Aqui vivo com minha Shirley, diante do mar e do Cristo Redentor, que nos abençoa diariamente com seus braços eternamente abertos. O mar, preguiçoso, acaricia as pedras da praia com a paciência de quem sabe não ter pressa. 

Uma borboleta amarela passa, frágil, batendo as asas contra o vidro. Quer entrar ou sair? Não sei. Mas me lembra de que a vida é assim: um voo breve, uma valsa com o vento, até se transformar ou cair. E me leva de volta ao Piauí da infância, correndo atrás de borboletas pelas ruas de terra, subindo em mangueiras altas com pés ágeis, colhendo frutos que pingavam suco doce nas mãos. Banhos no Rio Parnaíba, o Velho Monge, águas mornas que guardavam segredos antigos. Minha mãe, Maria, rezava o terço, contas deslizando entre dedos calejados, pedindo proteção. “Cuidado, filho, as borboletas voam, mas o rio engole”, dizia, cruzando-se. 

Acordo cedo, café na mão, Shirley ainda dormindo, e observo o cotidiano de Icaraí. Vizinho apressado, senhora com sacola de feira, cachorro latindo para o nada. O bairro, de classe média, finge boemia. Do outro lado, o prédio novo reflete o sol como espelho vaidoso. 

E a borboleta? Sumiu. Mas deixou no parapeito um pó de asa, como bilhete secreto: “Voe mais alto”. Recordo meu pai, fumando no balcão de bar, narrando pescarias no Parnaíba, quando o rio era limpo e borboletas cobriam as redes como véus dourados. 

O Cristo vigia de longe, santo moderno na minha janela. Decido sair. Caminho até o MAC, o Museu de Arte Contemporânea, encravado na Boa Viagem como nave branca flutuando sobre a baía. Pela orla, pés na areia quente, cheiro de sal e quitutes de barraca, lembranças do perfume de manga madura da infância. Dentro do museu, quadros que não entendo, mas que me falam. Um abstrato azul, céu do Piauí em dia de chuva. Imagino: a borboleta pousaria ali? Ou seguiria direto ao teto? 

De lá, miro a Pedra do Índio, rosto eterno voltado ao mar. Subo a trilha, suor escorrendo, coração tambor. De cima, Icaraí vira miniatura: janelas como olhos, mar como tapete azul. Uma brisa sopra, e vejo a borboleta valsando entre folhas. A Pedra guarda histórias de guerreiros que viram os portugueses chegar. Eu, cronista de janela, sinto o peso. 

Continuo a valsa. 

Na barca, o balanço é de berço, lembrança das águas do Velho Monge. O mar sussurra segredos. Passageiros comuns: estudante, operário, turista distraído. A Igreja da Boa Viagem surge, altiva, cercada de verde. Dizem que ao lado há grutas onde ecos guardam amores proibidos. 

Desço. Uma borboleta cruza meu caminho, pousa numa flor, asas abertas em valsa suspensa. Penso: a vida é isso, pedras e flores. Lembro-me da tia-avó contando lendas, de um tio que se perdeu no rio e voltou como fantasma. “Ele dança na Pororoca”, dizia, olhos úmidos. Eu ria, criança. Hoje sinto o giro da valsa, como o terço de mãe.

O sol sobe, e sigo. De Itapuca, contemplo o Rio, o Pão de Açúcar apontando o céu. No Catamarã rumo à Praça XV, o Rio me recebe com buzinas, mate gelado, cheiro de poluição misturado a café. 

No bondinho, subo ao Cristo. A fila é longa, suor escorre, mas lá em cima o Cristo abre os braços, abraçando a cidade inteira. Guanabara abaixo, Niterói ao lado, irmãs separadas pelo mar. O vento forte levanta roupas, e borboletas giram no abismo. O Cristo não fala, mas parece sussurrar: “Dance devagar”, abençoando como o terço de Maria. 

Desço pelo Leme, Copacabana, ondas lambendo a areia como amantes. Mas a valsa me chama de volta. Ônibus lotado, ponte Rio-Niterói tremendo como corda bamba. Chego ao Campo de São Bento, coração verde de Icaraí. O sol poente pinta tudo de laranja. Famílias passeiam, crianças correm atrás de pipas, velhos jogam dominó. Sento num banco, exausto, e vejo a borboleta pousar na grama. Valsa no cotidiano manso. Recordo domingos de piquenique, risadas, avó bordando, pai contando piadas ruins. Dias que se foram, mas voltam na brisa, como asas batendo. 

Caminho até a Praça Getúlio Vargas, guardiã de bronze. Estátuas e bustos se erguem serenos: Ary Parreiras, Getúlio Vargas, Antônio Parreiras, Luís Antônio Pimentel. Acaricio a base fria do busto de Pimentel. Memória literária: encontros na praça, amigos queridos, tantos já no Parnaso. O mestre Sávio Soares de Sousa, que um dia me ofertou O Homem e sua Hora de Mário Faustino, em gracejo, dizia: “Escrevam do coração, da janela aberta”.

A praça valseia com o tempo, memórias pousadas como poeira de asa. Líamos poemas sob as árvores, debatendo Clarice, Machado, Bilac, enquanto borboletas nos acompanhavam. 

Da janela, já à noite, Shirley prepara o jantar. Lembro tudo: o Velho Monge, o Cristo, as mangueiras, o MAC, as preces de Maria, as estátuas da praça, o Campo, os mestres eternos. A borboleta voou, mas deixou sua essência: a vida é uma dança leve, do Piauí a Niterói, tecida de memórias. Amanhã, outra janela, outro voo. E eu escrevo, para valsar mais um pouco, sob o olhar do Cristo. 

© Alberto Araújo



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