A minha infância nasceu entre o pó vermelho da terra e o brilho das águas do Rio Parnaíba. Luzilândia, pequena cidade do Piauí, guardava em cada esquina uma história, em cada rosto uma fé, e em cada gesto uma simplicidade que moldou quem eu sou. Era ali, sob o olhar protetor de Santa Luzia, padroeira que iluminava nossas esperanças, que cresci menino, correndo descalço, com o vento quente do sertão atravessando meu corpo e a alma leve como o canto dos pássaros ao amanhecer.
Minha mãe, mulher de fé inabalável, tinha o terço sempre entre os dedos. Devota da Virgem Maria ajoelhava-se diante de seu pequeno altar de madeira, onde flores improvisadas e velas acesas criavam um cenário de devoção. Às seis da tarde, quando o sino da igreja anunciava o Ângelus, o silêncio se espalhava pelas casas. Eu a via rezar, com os olhos fechados e a voz baixa, como se conversasse diretamente com o céu. Aquele momento era sagrado: a cidade inteira parecia se recolher, e até o rio diminuía seu rumor para ouvir as preces que subiam.
O Rio Parnaíba era mais que paisagem: era vida. Os pescadores, com suas canoas estreitas e redes gastas, deslizavam sobre suas águas como sombras que conheciam cada correnteza. Eu os observava, fascinado, enquanto puxavam peixes prateados que brilhavam sob o sol. O rio era generoso, mas também exigia respeito. Havia dias em que a correnteza parecia querer engolir tudo, e outros em que se tornava espelho do céu, refletindo nuvens preguiçosas que se arrastavam sobre nós. Para mim, menino, o Parnaíba era aventura: mergulhava em suas águas, sentia o frescor que quebrava o calor da tarde, e emergia rindo, com os cabelos grudados na testa e o coração batendo forte.
As mangueiras eram minhas fortalezas. Eu subia nos galhos grossos, sentindo a casca áspera sob as mãos, e lá de cima via o mundo se abrir em horizontes largos. O cheiro doce das mangas maduras misturava-se ao pó da terra vermelha, e eu me sentia dono de um reino secreto. Muitas vezes, ficava ali escondido, ouvindo ao longe o chamado da minha mãe, que me procurava para a reza ou para ajudar nos afazeres. Mas o desejo de liberdade era maior: eu queria voar, queria ser parte do vento que atravessava os quintais e se perdia nas margens do rio.
As festas de Santa Luzia eram o auge da nossa fé e da nossa alegria. A cidade se enfeitava com bandeirolas coloridas, e o som dos fogos anunciava a novena. As pessoas se reuniam na praça, trazendo promessas, agradecimentos e esperanças. Eu me lembro da procissão, das velas acesas que iluminavam os rostos cansados, mas cheios de devoção. Era como se toda Luzilândia se transformasse em um só coração, pulsando ao ritmo das ladainhas e dos cânticos. A fé era o fio que nos unia, e eu, menino, sentia que havia algo maior nos protegendo, algo que não se via, mas que se sentia em cada gesto de devoção.
As manhãs começavam cedo. O sol nascia com força, tingindo o céu de vermelho e dourado, e o cheiro da terra aquecida se espalhava pelo ar. Eu corria pelos quintais, os pés cobertos de pó, e o riso ecoava como música. O mundo era simples: brincar de roda, soltar balões improvisados, caçar passarinhos com estilingue, ou apenas deitar na sombra das árvores e inventar histórias. A vida era feita de pequenos milagres: o café fervendo no fogão de lenha, o cheiro do beiju assado, o som das galinhas ciscando no terreiro. Tudo tinha um ritmo próprio, lento e eterno, como se o tempo não tivesse pressa em passar.
À tarde, o calor se deitava sobre nós como um manto
pesado. As sombras se alongavam, e o rio chamava com sua promessa de frescor.
Eu mergulhava, sentia a água me envolver, e ficava ali, boiando, olhando o céu
que se tingia de laranja. Era nesse instante que a infância se tornava
infinita: o silêncio do rio, o canto distante dos pescadores, o som das rezas
que começavam nas casas. O Ângelus voltava a marcar o tempo, e eu sabia que
minha mãe estaria ajoelhada, com o terço entre os dedos, pedindo proteção para
nós.
Luzilândia era mais que cidade: era memória viva. Cada rua de terra, cada pedra da igreja, cada árvore carregava histórias que se misturavam às nossas. O Parnaíba, com sua força e sua beleza, era testemunha de tudo: das brincadeiras, das rezas, das lutas e das esperanças. Santa Luzia, com seu olhar sereno, era o farol que guiava nossas vidas. E eu, menino, correndo pela terra vermelha, subindo nas mangueiras e mergulhando no rio, guardo até hoje a certeza de que ali, naquele pedaço de mundo, encontrei a essência da vida: simplicidade, fé e liberdade.
Hoje, quando fecho os olhos, ainda sinto o cheiro da terra quente, o gosto doce das mangas, o frescor do rio. Ainda ouço a voz da minha mãe rezando, ainda vejo os pescadores puxando suas redes, ainda sinto o calor das festas de Santa Luzia. Essas memórias não são apenas lembranças: são raízes que me sustentam, são luzes que me guiam, são pedaços de eternidade que vivem dentro de mim.
© Alberto Araújo
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