Existem trajetórias que nos lembram de que a vida não é apenas um caminhar cronológico, mas uma sucessão de renascimentos. Hoje, o Focus Portal Cultural tem o privilégio de compartilhar um relato que transborda humanidade, força e uma dedicação inabalável à cultura e ao próximo. Recebemos, com muita distinção, um vídeo-testemunho de nossa companheira Reliane de Carvalho, Presidente do Elos Clube de Lisboa, que generosamente nos abriu as janelas de sua alma.
A história de Reliane não é feita apenas de títulos ou cargos, mas de uma resiliência rara. Do chão vermelho de Deodápolis, no interior do Mato Grosso do Sul, às históricas calçadas de Lisboa, sua jornada foi marcada por desafios que fariam muitos recuarem. Enfrentar a fragilidade da vida em três momentos de coma profundo não a silenciou; pelo contrário, deu-lhe uma voz que entende o "cuidado" como a maior das artes.
Como psicóloga, hipnoterapeuta e agora líder de uma das instituições mais nobres da lusofonia, Reliane encarna a essência do Elos Clube. Ela não apenas preside; ela sustenta o sentido de união entre os povos de língua portuguesa, honrando o legado de figuras como o saudoso Dr. Fernando Cardoso e projetando o movimento para um futuro onde a cultura é, acima de tudo, um porto seguro para o humano.
A editoria do Focus Portal Cultural, gostaria de cumprimentar e felicitar publicamente Reliane de Carvalho. Sua trajetória é um exemplo de que a dor, quando transmutada em propósito, torna-se uma escola de luz. Sua dedicação ao Elos Clube de Lisboa é um presente para todos nós que acreditamos na força dos vínculos e na preservação da nossa identidade cultural.
Convidamos todos os nossos leitores e amigos a mergulharem no vídeo publicado nesta revista e na transcrição emocionante. É mais do que um depoimento; é uma lição sobre como transformar a existência em uma ponte contínua de fraternidade.
Reliane, receba o nosso aplauso e a nossa admiração.
© Alberto Araújo
Editor do Focus Portal Cultural
(CLICAR NA IMAGEM PARA VER O VÍDEO)
MEMÓRIAS E ELOS - UMA TRAJETÓRIA DE VIDA E PROPÓSITO
(transcrição do vídeo)
Não sei exatamente em que momento o Elos começou a existir dentro de mim; talvez porque certos pertencimentos não começam quando chegam, mas começam quando nos reconhecem desde sempre. Nasci em Deodápolis, no interior do Mato Grosso do Sul, uma cidade de horizontes largos, de chão vermelho e de pessoas profundamente ligadas à terra, onde o olhar aprende cedo a reconhecer o outro e o sentido nasce do vínculo, da proximidade e da partilha. Quando menina, deixava muitas vezes as brincadeiras para me sentar com um livro, não por isolamento, mas porque ali, entre letras, algo respirava dentro de mim. Era como se eu soubesse que a palavra podia ser abrigo, que o silêncio podia ser encontro e que a cultura podia ser casa.
A arte chegou cedo, não como adorno, mas como necessidade: mãos que criavam o que o coração ainda não sabia dizer, roupas, imagens e arranjos que nasciam da alma antes mesmo de haver palavra. E a música? A música já entrava pela janela da minha infância, pela janela da vida: Beethoven, Mozart, Bach, Chopin e a ópera. Eram sons que eu ainda não sabia nomear, mas que o corpo já reconhecia. Depois, ainda criança, descobri a música do Brasil e o fado, ouvidos em silêncio e solitude, como se a saudade fosse um destino pronto a nascer em mim.
A vida cedo me ensinou que existir não é algo garantido. Aos nove anos, entrei em coma profundo devido ao diabetes tipo 1, diagnosticado tardiamente. Com o corpo suspenso e o tempo quieto, vi uma cidade inteira a rezar. Eu voltei sem sequelas visíveis, mas com uma outra forma de olhar o mundo: o mundo como algo que se cuida. Aprendi, então, que a dor sem sentido perde a dignidade, mas a dor como direção torna-se escola, e a vida com propósito chama. Escrevi o meu primeiro livro aos 12 anos e o publiquei aos 15. Nos recortes de jornal da época, não estavam apenas palavras; estava o início de um caminho.
Aos poucos, a vida foi me conduzindo por projetos diferentes, mas com o mesmo centro: projetos de cuidado, de escuta e de construção. Lugares onde o humano precisava ser visto por inteiro, no corpo, na emoção, na história e no espaço onde vive. Depois, Lisboa chamou. Eu vim e quase não fiquei. Enfrentei outro coma, uma paragem cardiorrespiratória e a desfibrilação. A vida, mais uma vez, disse que ainda não havia acabado. E eu voltei, outra vez.
Foi em Lisboa que me aproximei da psicologia e do estudo das emoções, esse mundo interno que tantas vezes ignoramos até que ele grite. Durante o mestrado, quando tudo parecia finalmente ganhar forma, o corpo voltou a silenciar-se: uma convulsão prolongada, um terceiro coma e a vida novamente suspensa por um fio invisível. Ainda assim, voltei sozinha e sem sequelas, como quem regressa porque ainda há caminho a percorrer e palavras por dizer.
Foi também aqui que o Elos entrou definitivamente na minha vida, embora ele já existisse antes de mim. O Elos Internacional nasceu como nascem as ideias necessárias: quando o tempo já não suporta a distância entre povos que partilham a mesma língua e o mesmo sentido de humanidade. Em 8 de agosto de 1959, na praia de São Vicente, diante da enseada onde a memória das caravelas ainda respira, o médico santista Eduardo Dias Coelho, com 12 companheiros, transformou visão em gesto. Ali nasceu o Elos, não como um clube social, mas como um movimento cultural e humanista para aproximar povos, preservar a língua portuguesa e sustentar a fraternidade como valor civilizacional. Chamou-se primeiro "Clube das Oliveiras", símbolo da paz, mas depois encontrou o nome exato: Elos, porque ligar, unir e entrelaçar sempre foi a sua essência.
O Elos não ficou parado; ele partiu, espalhou-se pelo Brasil, atravessou o Atlântico, chegou a Portugal e continuou seu caminho. Criou raízes em cidades da Europa, estendeu-se à África, alcançou comunidades na América do Norte e chegou à Ásia, sempre onde houvesse uma comunidade lusófona disposta a transformar língua em encontro e cultura em cuidado. O Elos tornou-se presença em muitos lugares do mundo, não como uma imposição ou estrutura rígida, mas como um espaço vivo onde a palavra reúne, a arte aproxima e o humano é o centro.
Em 1963, o Elos chegou a Lisboa, onde criou raízes e tornou-se casa. O Elos Clube de Lisboa nasceu como um espaço de pensamento, cultura, arte e convivência, feito de encontros que atravessam gerações. Nunca foi apenas um clube; é um movimento humanista onde a palavra cria pontes e o encontro é uma escolha consciente. Por esta casa passaram muitas direções, muitas mãos e muitos nomes, um trabalho silencioso que, embora nem sempre escrito em listas, permanece no tempo.
Ao lado do Professor Doutor Fernando Cardoso, aprendi que liderar não é ocupar um lugar, é sustentar um sentido. Quando o Doutor Fernando partiu, em abril de 2025, o Elos ficou mais silencioso, pois algumas presenças são referências fundamentais. Assumi a presidência interinamente com respeito e responsabilidade e, em outubro de 2025, fui eleita Presidente do Elos Clube de Lisboa, não como uma conquista, mas como um compromisso. Hoje, caminho com uma direção que honra essa história e com cada elista que, pela sua presença, mantém essa corrente viva. Afinal, o Elos é feito de quem entra para ouvir, para partilhar e para sentir.
Atualmente, divido meu tempo entre vários mundos: o Elos, a clínica, a hipnoterapia e uma nova formação em psicologia, transitando entre a Suíça e Viseu. Nesse mesmo gesto de cuidado, acompanho também pessoas em momentos decisivos de suas trajetórias, quando precisam escolher onde "pousar a vida". Trabalho com a compra e venda de casas por compreender que o espaço onde se vive modela silêncios, afetos, rotinas e até a forma como o futuro é imaginado. Uma casa não é apenas paredes; é o cenário onde a história continua a ser escrita.
Nada disso me afasta do essencial; pelo contrário,
ancora-me. Permaneço no cuidado da clínica, na responsabilidade da saúde e na
construção diária do Elos, esse lugar onde a cultura também trata, onde a
palavra também cuida e onde o humano encontra espaço para ser inteiro. Quando o
humano é respeitado, quando a cultura é levada a sério e quando a emoção
encontra lugar, a vida responde. O Elos é isso: uma ponte, uma casa, um rito de
encontro. Se hoje estou aqui, é porque muitos vieram antes e muitos caminham
comigo. Que esta corrente não se rompa; que o Elos continue a ser sentido,
presença e humanidade.



%20-%20Copia.png)
Nenhum comentário:
Postar um comentário