terça-feira, 13 de janeiro de 2026

A CATEDRAL DOS LIVROS: 120 ANOS DA LIVRARIA LELLO

O Porto e o seu templo literário. Na Rua das Carmelitas, número 144, ergue-se desde 1906 um monumento que transcende o comércio de livros: a Livraria Lello. Mais do que uma livraria, é uma verdadeira catedral da cultura, onde cada detalhe arquitetônico celebra a palavra escrita. Francisco Xavier Esteves, engenheiro e visionário, concebeu um espaço que une a funcionalidade ao esplendor estético, inspirado nas artes decorativas francesas e na ambição de transformar o ato de ler em experiência sensorial. 

No dia 13 de janeiro de 1906, figuras como Guerra Junqueiro, Júlio Brandão e Aurélio Paz dos Reis testemunharam a abertura de um espaço que se tornaria ícone. Junqueiro, poeta combativo, poderia ter visto na Lello a materialização de sua crença de que “o livro é uma arma carregada de futuro”. A livraria nascia já como palco de encontros e debates, irradiando cultura para além das suas paredes. 

A escadaria vermelha, sinuosa e quase etérea, tornou-se símbolo universal. Os vitrais filtram a luz como se fossem páginas iluminadas, e as colunas ornamentadas parecem sustentar não apenas o teto, mas também séculos de imaginação. Cada visitante é convidado a percorrer um caminho que é, ao mesmo tempo, físico e espiritual: subir degraus é como ascender ao universo da literatura. 

Reconhecida como uma das mais belas livrarias do mundo, a Lello transcende fronteiras. É destino de peregrinação para leitores, turistas e artistas. Fernando Pessoa, ainda que nunca tenha escrito diretamente sobre a Lello, ecoa em sua essência: “A literatura, como toda arte, é a confissão de que a vida não basta.” A livraria é essa confissão materializada em pedra, vidro e madeira. 

Ao longo de 120 anos, a Lello enfrentou crises e transformações. Sobreviveu às mudanças do mercado editorial e às revoluções tecnológicas, sem perder sua alma. Hoje, além de vender livros, edita obras próprias, promove autores e organiza eventos que mantêm viva a chama da cultura. É um espaço que se reinventa sem trair sua origem. 

Em tempos digitais, a Livraria Lello lembra que o livro físico é insubstituível. O toque das páginas, o cheiro do papel, o peso de uma obra nas mãos: tudo isso compõe uma experiência que nenhuma tela pode replicar. Como disse José Saramago, “somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos”. A Lello é um baluarte dessa memória coletiva, preservando o valor do livro como objeto cultural.

Ao celebrar 120 anos, a Livraria Lello reafirma sua vocação de ser mais do que um espaço comercial: é um templo cultural, um lugar onde passado e futuro se encontram. Que continue bela e ativa, inspirando gerações de leitores e escritores. Que permaneça, como escreveu Sophia de Mello Breyner, “um lugar onde o mundo se torna mais claro e mais belo”.

Conheci essa maravilhosa Livraria, comprei vários livros. Hoje celebro com o coração cheio de lembranças a Livraria Lello, essa joia cultural que tive a felicidade de conhecer. Caminhar por sua escadaria vermelha, sentir a luz filtrada pelos vitrais e estar cercada por livros que parecem respirar é uma experiência que nunca se esquece. Que bela história de 120 anos! Vida longa à Livraria Lello, que continue a inspirar gerações e a guardar em suas paredes o segredo da beleza e da cultura. Eu, que já a vi de perto, guardo para sempre a sensação de ter estado dentro de um sonho, disse: Shirley Araújo.


© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural















Nenhum comentário:

Postar um comentário