quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

EFEMÉRIDES – 13 DE JANEIRO - 120 ANOS DO NASCIMENTO DE PASCOAL CARLOS MAGNO – FOCUS PORTAL CULTURAL



No dia 13 de janeiro de 1906, nascia no Rio de Janeiro uma figura que se tornaria um dos mais inquietos e generosos agitadores culturais do Brasil: Pascoal Carlos Magno. Filho de imigrantes italianos, Nicola Carlomagno e Filomena Campanella, cresceu em meio às tensões de uma cidade que se modernizava rapidamente, mas que ainda guardava traços coloniais e provincianos. Desde cedo, revelou uma sensibilidade artística que o levaria a transitar entre múltiplos campos: o teatro, a poesia, a diplomacia, o jornalismo e a política. Sua vida foi marcada por uma energia incansável, por uma crença quase utópica na força da juventude e por uma convicção de que a cultura poderia transformar sociedades inteiras.

Pascoal Carlos Magno não foi apenas um ator ou dramaturgo, mas um verdadeiro renovador do teatro brasileiro. Em 1926, estreou como ator na peça Abat-Jour, e logo percebeu que o palco não era apenas um espaço de representação, mas também de experimentação e de formação. Dois anos depois, já escrevia crítica literária para O Jornal, mostrando sua capacidade de reflexão e sua vocação para o debate cultural. Em 1930, sua peça Pierrot foi premiada pela Academia Brasileira de Letras, consagrando-o como jovem talento e abrindo caminho para uma trajetória que se tornaria cada vez mais abrangente.

Ao mesmo tempo, sua atuação não se restringia ao campo artístico. Formado em Direito, engajou-se em campanhas estudantis e foi um dos principais responsáveis pela criação da Casa do Estudante do Brasil (TEB), inaugurada em 1937. O TEB não foi apenas uma instituição, mas um verdadeiro laboratório cultural, onde se reuniam jovens, artistas e intelectuais, e onde se gestavam ideias que iriam marcar o futuro da cena teatral brasileira. Foi através do TEB que Magno montou, em 1948, uma versão de Hamlet de Shakespeare, revelando o talento de Sérgio Cardoso e mostrando que o teatro estudantil podia alcançar níveis de excelência comparáveis ao profissional.

Sua inquietação o levou também à diplomacia. Durante o governo Vargas, atuou como representante cultural no exterior, levando a dramaturgia brasileira para palcos europeus. Em 1946, sua peça Tomorrow Will Be Different foi apresentada em Londres e em outras cidades, recebendo elogios da crítica e consolidando sua imagem como embaixador da cultura nacional. Essa dimensão internacional de sua carreira mostra como Magno entendia a arte como linguagem universal, capaz de atravessar fronteiras e de dialogar com diferentes públicos.

Mas talvez sua maior contribuição tenha sido a introdução da função de diretor teatral no Brasil. Até então, o teatro brasileiro era marcado por uma estrutura mais artesanal, em que atores e companhias se organizavam de forma espontânea. Magno trouxe a ideia de que o diretor era uma figura central, responsável por dar unidade estética e conceitual às montagens. Essa inovação profissionalizou o teatro nacional e abriu espaço para uma geração de encenadores que transformariam a cena brasileira nas décadas seguintes.

Em 1952, inaugurou em sua própria residência, em Santa Teresa, o Teatro Duse, espaço que funcionava com entrada franca e que se tornou um dos mais importantes centros de experimentação cultural da época. Ali foram revelados autores como Antônio Callado e Rachel de Queiroz, e ali se consolidou a ideia de que o teatro podia ser acessível, democrático e formador. O Teatro Duse foi, em muitos sentidos, um prolongamento da utopia do TEB: um espaço onde se cruzavam juventude, arte e cidadania.

Sua relação com o presidente Juscelino Kubitschek foi decisiva. JK o transformou em um verdadeiro “agitador cultural oficial”, encarregando-o de dinamizar a cultura e de buscar talentos artísticos em todos os recantos do país. Nesse espírito, Magno organizou o Festival Nacional de Teatros de Estudantes, reunindo centenas de jovens e fomentando a criação de grupos teatrais em diferentes estados. Em 1962, como secretário-geral do Conselho Nacional de Cultura, criou a Caravana da Cultura, que percorreu Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Sergipe e Alagoas com 256 jovens, levando espetáculos de teatro, dança e música a populações que raramente tinham acesso a esse tipo de manifestação. Era a cultura como missão, como peregrinação, como gesto de generosidade.

Em 1965, fundou a Aldeia de Arcozelo, em Paty do Alferes, Rio de Janeiro. Transformou uma fazenda histórica do século XIX em centro de treinamento e retiro artístico. O projeto, grandioso e utópico, acabou por dilapidar sua fortuna, obrigando-o a vender seu casarão em Santa Teresa. Mas a Aldeia permanece como símbolo de sua visão: um espaço de convivência, de formação e de experimentação, que hoje funciona como Centro Cultural Pascoal Carlos Magno. A Aldeia é, em muitos sentidos, a síntese de sua vida: um sonho generoso, difícil de sustentar, mas que deixou marcas profundas na memória cultural brasileira.

Em 1974, lançou a Barca da Cultura, que desceu o rio São Francisco de Pirapora a Juazeiro, levando arte às populações ribeirinhas. Embora não tenha tido a mesma dimensão grandiosa de seus empreendimentos anteriores, a Barca reafirma sua convicção de que a cultura deve ser itinerante, deve ir ao encontro das pessoas, deve ser partilhada como bem comum.

Ao completar 70 anos, em 1976, foi homenageado por Carlos Drummond de Andrade em uma crônica publicada no Jornal do Brasil. Drummond escreveu que, por sua vida “curtida e generosa”, o aniversário de Pascoal Carlos Magno deveria ser feriado nacional. Essa frase resume o sentimento de muitos: Magno foi um homem que dedicou sua vida à cultura, que acreditou na juventude, que apostou na democratização da arte, que se sacrificou financeiramente e pessoalmente por seus projetos, mas que nunca deixou de sonhar.

Sua obra literária é vasta e diversificada. Escreveu poesia desde cedo, com títulos como Tempo que Passa (1922), Chagas de Sol (1925) e Poemas do Irremediável (1972). Produziu peças teatrais como Pierrot (1931), O Brasil é Nosso (1932), Tomorrow Will Be Different (1946) e Amanhã Será Diferente (1952). Publicou o romance Sol Sobre as Palmeiras (1944) e a autobiografia Não acuso, nem me perdôo (1969). Sua produção revela uma mente inquieta, que transitava entre diferentes gêneros e que sempre buscava novas formas de expressão.

Recebeu inúmeros prêmios e homenagens, entre eles o título de “Estudante Perpétuo do Brasil” concedido pela União Nacional dos Estudantes em 1956, o Prêmio Apolo da Sociedade Teatro de Arte em 1958, a Medalha Artur Azevedo em 1960 e o Prêmio Conchita de Moraes da Fundação Brasileira de Teatro em 1965. Em 1982, dois anos após sua morte, foi inaugurado em Novo Hamburgo o Teatro Pascoal Carlos Magno, perpetuando seu nome e seu legado.

Pascoal Carlos Magno faleceu em 24 de maio de 1980, no Rio de Janeiro, deixando um vazio imenso na cultura nacional. Mas sua memória permanece viva em cada festival estudantil, em cada grupo amador que se organiza, em cada jovem que descobre no teatro uma forma de expressão e de cidadania. Ele foi, em muitos sentidos, um visionário cultural, alguém que acreditava que a arte podia transformar o mundo e que dedicou sua vida a tornar esse sonho realidade.

Celebrar os 120 anos de seu nascimento é reconhecer que o teatro brasileiro moderno deve muito a ele. É lembrar que sua energia, sua ousadia e sua generosidade continuam a inspirar artistas, educadores e gestores culturais. É afirmar que Pascoal Carlos Magno foi mais que um homem: foi um movimento, uma força, uma utopia encarnada. E que, como disse Drummond, sua vida foi tão intensa e generosa que mereceria ser celebrada como feriado nacional.

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural

 
















 


 

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