No dia 13 de janeiro de 1906, nascia no Rio de
Janeiro uma figura que se tornaria um dos mais inquietos e generosos agitadores
culturais do Brasil: Pascoal Carlos Magno. Filho de imigrantes
italianos, Nicola Carlomagno e Filomena Campanella, cresceu em meio às tensões
de uma cidade que se modernizava rapidamente, mas que ainda guardava traços
coloniais e provincianos. Desde cedo, revelou uma sensibilidade artística que o
levaria a transitar entre múltiplos campos: o teatro, a poesia, a diplomacia, o
jornalismo e a política. Sua vida foi marcada por uma energia incansável, por
uma crença quase utópica na força da juventude e por uma convicção de que a
cultura poderia transformar sociedades inteiras.
Pascoal Carlos Magno não foi apenas um ator ou
dramaturgo, mas um verdadeiro renovador do teatro brasileiro. Em 1926,
estreou como ator na peça Abat-Jour, e logo percebeu que o palco não era
apenas um espaço de representação, mas também de experimentação e de formação.
Dois anos depois, já escrevia crítica literária para O Jornal, mostrando
sua capacidade de reflexão e sua vocação para o debate cultural. Em 1930, sua
peça Pierrot foi premiada pela Academia Brasileira de Letras,
consagrando-o como jovem talento e abrindo caminho para uma trajetória que se
tornaria cada vez mais abrangente.
Ao mesmo tempo, sua atuação não se restringia ao
campo artístico. Formado em Direito, engajou-se em campanhas estudantis e foi
um dos principais responsáveis pela criação da Casa do Estudante do Brasil
(TEB), inaugurada em 1937. O TEB não foi apenas uma instituição, mas um
verdadeiro laboratório cultural, onde se reuniam jovens, artistas e
intelectuais, e onde se gestavam ideias que iriam marcar o futuro da cena
teatral brasileira. Foi através do TEB que Magno montou, em 1948, uma versão de
Hamlet de Shakespeare, revelando o talento de Sérgio Cardoso e mostrando
que o teatro estudantil podia alcançar níveis de excelência comparáveis ao
profissional.
Sua inquietação o levou também à diplomacia.
Durante o governo Vargas, atuou como representante cultural no exterior,
levando a dramaturgia brasileira para palcos europeus. Em 1946, sua peça Tomorrow
Will Be Different foi apresentada em Londres e em outras cidades, recebendo
elogios da crítica e consolidando sua imagem como embaixador da cultura
nacional. Essa dimensão internacional de sua carreira mostra como Magno
entendia a arte como linguagem universal, capaz de atravessar fronteiras e de
dialogar com diferentes públicos.
Mas talvez sua maior contribuição tenha sido a
introdução da função de diretor teatral no Brasil. Até então, o teatro
brasileiro era marcado por uma estrutura mais artesanal, em que atores e
companhias se organizavam de forma espontânea. Magno trouxe a ideia de que o
diretor era uma figura central, responsável por dar unidade estética e conceitual
às montagens. Essa inovação profissionalizou o teatro nacional e abriu espaço
para uma geração de encenadores que transformariam a cena brasileira nas
décadas seguintes.
Em 1952, inaugurou em sua própria residência, em
Santa Teresa, o Teatro Duse, espaço que funcionava com entrada franca e
que se tornou um dos mais importantes centros de experimentação cultural da
época. Ali foram revelados autores como Antônio Callado e Rachel de Queiroz, e
ali se consolidou a ideia de que o teatro podia ser acessível, democrático e
formador. O Teatro Duse foi, em muitos sentidos, um prolongamento da utopia do
TEB: um espaço onde se cruzavam juventude, arte e cidadania.
Sua relação com o presidente Juscelino Kubitschek
foi decisiva. JK o transformou em um verdadeiro “agitador cultural oficial”,
encarregando-o de dinamizar a cultura e de buscar talentos artísticos em todos
os recantos do país. Nesse espírito, Magno organizou o Festival Nacional de
Teatros de Estudantes, reunindo centenas de jovens e fomentando a criação de
grupos teatrais em diferentes estados. Em 1962, como secretário-geral do
Conselho Nacional de Cultura, criou a Caravana da Cultura, que percorreu
Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Sergipe e Alagoas com 256 jovens, levando
espetáculos de teatro, dança e música a populações que raramente tinham acesso
a esse tipo de manifestação. Era a cultura como missão, como peregrinação, como
gesto de generosidade.
Em 1965, fundou a Aldeia de Arcozelo, em
Paty do Alferes, Rio de Janeiro. Transformou uma fazenda histórica do século
XIX em centro de treinamento e retiro artístico. O projeto, grandioso e
utópico, acabou por dilapidar sua fortuna, obrigando-o a vender seu casarão em
Santa Teresa. Mas a Aldeia permanece como símbolo de sua visão: um espaço de
convivência, de formação e de experimentação, que hoje funciona como Centro
Cultural Pascoal Carlos Magno. A Aldeia é, em muitos sentidos, a síntese de sua
vida: um sonho generoso, difícil de sustentar, mas que deixou marcas profundas
na memória cultural brasileira.
Em 1974, lançou a Barca da Cultura, que
desceu o rio São Francisco de Pirapora a Juazeiro, levando arte às populações
ribeirinhas. Embora não tenha tido a mesma dimensão grandiosa de seus
empreendimentos anteriores, a Barca reafirma sua convicção de que a cultura
deve ser itinerante, deve ir ao encontro das pessoas, deve ser partilhada como
bem comum.
Ao completar 70 anos, em 1976, foi homenageado por
Carlos Drummond de Andrade em uma crônica publicada no Jornal do Brasil.
Drummond escreveu que, por sua vida “curtida e generosa”, o aniversário de
Pascoal Carlos Magno deveria ser feriado nacional. Essa frase resume o
sentimento de muitos: Magno foi um homem que dedicou sua vida à cultura, que
acreditou na juventude, que apostou na democratização da arte, que se
sacrificou financeiramente e pessoalmente por seus projetos, mas que nunca
deixou de sonhar.
Sua obra literária é vasta e diversificada.
Escreveu poesia desde cedo, com títulos como Tempo que Passa (1922), Chagas
de Sol (1925) e Poemas do Irremediável (1972). Produziu peças
teatrais como Pierrot (1931), O Brasil é Nosso (1932), Tomorrow
Will Be Different (1946) e Amanhã Será Diferente (1952). Publicou o
romance Sol Sobre as Palmeiras (1944) e a autobiografia Não acuso,
nem me perdôo (1969). Sua produção revela uma mente inquieta, que
transitava entre diferentes gêneros e que sempre buscava novas formas de
expressão.
Recebeu inúmeros prêmios e homenagens, entre eles o
título de “Estudante Perpétuo do Brasil” concedido pela União Nacional dos
Estudantes em 1956, o Prêmio Apolo da Sociedade Teatro de Arte em 1958, a
Medalha Artur Azevedo em 1960 e o Prêmio Conchita de Moraes da Fundação
Brasileira de Teatro em 1965. Em 1982, dois anos após sua morte, foi inaugurado
em Novo Hamburgo o Teatro Pascoal Carlos Magno, perpetuando seu nome e
seu legado.
Pascoal Carlos Magno faleceu em 24 de maio de 1980,
no Rio de Janeiro, deixando um vazio imenso na cultura nacional. Mas sua
memória permanece viva em cada festival estudantil, em cada grupo amador que se
organiza, em cada jovem que descobre no teatro uma forma de expressão e de
cidadania. Ele foi, em muitos sentidos, um visionário cultural, alguém
que acreditava que a arte podia transformar o mundo e que dedicou sua vida a
tornar esse sonho realidade.
Celebrar os 120 anos de seu nascimento é
reconhecer que o teatro brasileiro moderno deve muito a ele. É lembrar que sua
energia, sua ousadia e sua generosidade continuam a inspirar artistas,
educadores e gestores culturais. É afirmar que Pascoal Carlos Magno foi mais
que um homem: foi um movimento, uma força, uma utopia encarnada. E que, como
disse Drummond, sua vida foi tão intensa e generosa que mereceria ser celebrada
como feriado nacional.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
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