No dia 9 de janeiro, o tempo se dobrou em reverência, como as ondas da Baía da Guanabara que sussurram segredos às montanhas e devolvem ao vento a música da eternidade. Dalma Nascimento, a Sacerdotisa da Palavra, completava 91 primaveras, não como quem soma anos, mas como quem tece claridades em fios de versos e prosas que atravessam gerações. Sua vida é um tear invisível, onde cada linha borda memória, cada ponto é poesia, cada trama é cultura.
Não foi aniversário comum, mas um ritual surpresa, orquestrado pelo filho Claudio Nascimento, maestro de afetos, que reuniu mãos carinhosas: Ana Maria Tourinho, Izaura Sousa e Silva, Lynnea Hassen, os filhos Noel e Leon Nascimento, e o toque afetuoso de Cristiana Silva, secretária fiel, guardiã dos mistérios do cotidiano de Dalma como quem protege relíquias.
Às 17h, com pontualidade britânica que Machado ironizaria como “exagero de relógio”, tudo se armou em cenário de devoção: mesa que prometia o doce paraíso fluminense, flores como oferendas à sacerdotisa, perfumes que se confundiam com lembranças de infância. Chegaram os convocados pelo afeto, não convidados, mas chamados pela força invisível da amizade e da palavra: Izaura Sousa e Silva; Ana Maria Tourinho e o esposo, Euderson Kang Tourinho; Márcia Pessanha; Lucia Regina de Lucena; Ângela Guerra; eu, Alberto Araújo, com minha Shirley; os editores Mauro Carreiro Nolasco, Paulo Carvalho e Valéria Albuquerque, filha de Izaura. Lynnea Hassen, Noel e Leon, Cristiana, todos, astros de uma constelação cultural que se alinhava em torno da estrela maior.
O ambiente era de festa, mas também de rito. Cada gesto parecia carregado de simbolismo: o bolo personalizado por Lynnea, altar doce; o champanhe de Izaura, borbulhando como risos eternos; o pudim lembrança de aconchego; a musse de Lucia Regina, delicadeza em forma de sabor; as guloseimas de Cristiana, pequenas oferendas de ternura. Tudo se transformava em metáfora: doces como a vida de Dalma, tranças de beleza e carinho, 91 anos de fogo ensaístico que não se apaga, mas se multiplica em centelhas.
Dalma surgiu, elegante como uma rainha ensaística, o corpo marcado pela enfermidade que a limita, mas o espírito intacto, erguendo-se altivo como palmeira no sertão que desafia a seca e resiste ao tempo. Sua presença irradiava dignidade, e os aplausos que a envolveram eram cálidos como abraços de mãe, ternos como o colo que embala. Seus olhos vibraram, estrelas piscando emoção, cintilando como constelações que se acendem no céu da memória. Os convidados a cercavam com souvenires e apertos de mão que diziam sem palavras: “Você é eterna”. Abraços que curam, presentes que cantam, gestos que transformavam o instante em rito de consagração.
O ato desdobrou-se em sinfonia afetiva e cultural, lira de Orfeu afinada nas claves de um salão niteroiense. Primeiro, os netos: Noel Nascimento, maestro de dons divinos, dedos de um “divo” no piano, evocou melodias que bailavam como rios fluminenses e nordestinos, correndo livres entre serras e mares. Cada nota era pétala, cada acorde, sopro de eternidade. Performance impecável, que fez o silêncio se curvar em reverência.
Depois, Leon, voz de veludo que encarna Elvis Presley renascido, ergueu-se como jovem Orfeu diante do destino. Interpretou “My Way” com vigor divino, cada verso atravessando o ar como flecha de emoção. Os aplausos trêmulos ecoaram como trovões brandos, celebrando não apenas a música, mas a coragem de cantar a vida em sua plenitude. Era como se o tempo se dissolvesse, e naquele instante Dalma fosse coroada não só pela família, mas pela própria arte, que a reconhecia como sacerdotisa da palavra e guardiã da memória.
Ana Maria Tourinho ergueu-se, voz cintilante como folha ao vento do Piraí, lendo mensagem que brotava do coração, um elixir de afeto para os 91 anos de Dalma Nascimento. “Hoje, acordei pensando em você, amada Dalma”, iniciou, tecendo o 9 de janeiro como Dia do Fico e aniversário, refrão em vasto poema fluminense. Dalma, estrela no firmamento da cultura brasileira, árvore frondosa nascida na confluência dos rios Paraíba e Piraí: raízes profundas em bilhetes amorosos da juventude, folhas vibrantes em análises literárias que devoram o mundo, como a releitura de “Pérolas & Pimentas”, eternizada no Facebook.
Ofertou um lindo lenço de seda; Dalma, frenética de alegria, cingiu-o ao pescoço, feito manto de sacerdotisa viniciana, ecoando sonetos trocados por páginas insaciáveis. Dalma, voz essencial em universidades, academias e associações, promoveu aulas como melodias suaves nos corredores da UFRJ; sob os legados de Clarice Lispector e Nélida Piñon, é guardiã viva de suas histórias. Dama da Literatura Fluminense no ano passado, prenúncio de novas primaveras. Ponte entre oceanos de cultura. “Que cada amanhecer traga inspiração”, rogou Ana, “sua luz brilha apesar das dificuldades, crônica escrita em letras de amor.” “Amo-te, Dalma! Feliz aniversário!”
Então, o vídeo de Lisboa: Dyandreia Portugal, presidente da Rede Sem Fronteiras, enviava bênçãos transatlânticas. Dalma ouviu, fisionomia banhada em lágrima feliz.
Lucia Regina de Lucena, acadêmica de alma generosa e coração que pulsa em compassos de poesia, foi convidada por Ana para entregar honrarias que mais parecem relíquias de um templo cultural à aniversariante. Emocionada, com mãos que tremiam como folhas ao vento, impôs a Medalha de 50 Anos da ANLA – Academia Nacional de Letras e Artes, instituição que preside com devoção, e o Diploma de Mérito Cultural. “Este mérito é para quem tece o universo cultural brasileiro”, proclamou, voz ecoando como sino de mosteiro, reverberando nos corações presentes.
Ângela Guerra, Diretora Social, ergueu o diploma e o leu como quem decifra pergaminho de glória: nele, o nome de Dalma se entrelaça aos gigantes da letra, como hera que se prende às colunas eternas da tradição. Lucia observou que, sobre o piano, repousava a estatueta “Rosa de Píndaro”, pomo de ouro colhido nos jardins míticos, nome escolhido pela mestra Stella Leonardos e moldado nas digitais de Dorée Camargo Correa, artista de renome internacional. Símbolo raro, entregue pela UBE-RJ quando Lucia a presidia, reservado apenas aos grandes escritores que sabem transformar silêncio em verbo e verbo em eternidade. As lentes capturaram o instante: poses para fotos, sorrisos suspensos, o tempo cristalizado em imagens que se tornam memória. Lucia, em sua aura da arte de dizer a palavra, declamou versos em homenagem a Dalma, a viniciana suprema. “Cotidiano” e “Soneto de Fidelidade” surgiram como navalhas doces, cortando o ar com ternura: “Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure.”
Dalma, especialista em Vinicius de Moraes, anunciou o preparo de “A Lira de Orfeu nas Claves de Vinicius”, volume que promete desvendar o cotidiano em sonetos, revelando o sublime no simples.
Eis que se revela a grande surpresa, ato de pura consagração cultural, clímax de um Macunaíma mítico que se ergue como insígnia de brasilidade. Mauro Carreiro Nolasco, editor visionário, aproximou-se com gestos ritualísticos: primeiro, rodeou a cena com chocolates, oferendas doces à sacerdotisa da palavra, como pequenos cálices de ambrosia. Em seguida, com solenidade festiva, entregou o presente tão aguardado, embrulhado em papel cintilante e fitas que lembravam serpentinas de carnaval: o volume recém-nascido, “Macunaíma – Mundo Mágico-Mítico em Tranças de Memórias Culturais” com 330 páginas, as lindas ilustrações do artista plástico Luiz Zatar e com o selo da Parthenon Centro de Arte e Cultura, sob os designers de Mauro Carreiro Nolasco. Dalma, ao receber, abriu o livro com olhos esbugalhados em êxtase, como quem contempla um relicário. Ali repousava o fruto de sua própria essência herói-mítica: páginas que se entrelaçam em tranças de folclore brasileiro, memórias que dançam como mulatas no terreiro, girando saias de cores vivas sob o tambor ancestral. O ambiente tornou-se solene, impregnado de emoção: aplausos irromperam como fogos de artifício, ecoando em ondas de entusiasmo. Claudio, de coração em festa, vibrou e distribuiu exemplares como quem espalha sementes de imortalidade, lançando ao vento promessas de eternidade literária.
Nós, da editoria do Focus Portal Cultural, recebemos o nosso exemplar como quem recolhe uma estrela caída do céu, ainda quente de luz, ainda vibrante de eternidade. O livro, tão aguardado, pulsa em nossas mãos como coração recém-nascido, e, já em leitura ávida, se deixa devorar, revelando segredos, mitos e memórias que se entrelaçam em tranças de brasilidade. Uma resenha, certamente já em gestação, prestes a nascer como fruto crítico e amoroso, testemunho de que a obra não é apenas papel e tinta, mas chama que arde no espírito coletivo.
O instante, marcado por rituais e símbolos, transcende o simples ato editorial: é celebração da memória, da mitologia e da cultura que se perpetua. Macunaíma, herói sem nenhum caráter e, ao mesmo tempo, espelho de todos nós, renasce em páginas que se tornam altar, e Dalma, sacerdotisa da palavra, consagra-se como guardiã desse mito que nunca se apaga. Sua presença é rito, sua voz, cântico, sua obra, oferenda.
Cantam-se os “Parabéns”, vozes em coral que se erguem como hinos de gratidão. As mesas convidam ao banquete da vida: bolo personalizado por Lynnea Hassen; champanhes cintilantes de Izaura Sousa e Silva; o pudim; musse suave de Lucia Regina; guloseimas de Cristiana. Cada doce é metáfora, cada sabor é lembrança: doces como a vida de Dalma, tranças de açúcar e palavra, 91 anos de fogo poético que não se consome, mas se multiplica em centelhas.
E, como se o céu de Copacabana se abrisse em música, Ângela Guerra, em gesto espontâneo, oferece uma palhinha a capela: entoa o hino “Dio Come Ti Amo”, de Gigliola Cinquetti, voz solta como pássaro em voo, celebrando Dalma com notas que se confundem com ondas, eternizando em canto o que já estava gravado em poesia.
Dalma, Sacerdotisa, sua luz não apaga. Ilumina Niterói, o Brasil, o mundo. Sua trajetória é holofote que guia navegantes da literatura, sua voz é ponte que liga passado e futuro, sua escrita é chama que doma o caos, como Macunaíma rindo do destino.
Assim, entre livros, doces e cantos, Dalma se eterniza. Sua vida é poema em movimento, sua obra é canto que não se cala. E nós, leitores e amigos, celebramos não o tempo que passa, mas o tempo que permanece: o tempo da palavra, o tempo da poesia, o tempo da cultura que se perpetua. Dalma se eternizou mais uma vez, guardiã da memória literária, senhora de 91 primaveras.
E nós, testemunhas desse momento, sentimos que não participamos apenas de uma festa, mas de uma cerimônia sagrada, onde cada gesto é símbolo, cada aplauso é oração, cada sorriso é promessa de continuidade.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural

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