Sei que seria possível erguer o mundo justo
Não apenas nas praças lavadas de luz,
Mas nos olhos que se encontram sem medo,
Nos abraços que desfazem silêncios,
Na mesa onde o pão se reparte sem cálculo.
O céu, o mar e a terra esperam,
Mas é no coração que a promessa se cumpre:
- Cada gesto pode ser reino,
- Cada palavra pode ser liberdade,
Se não houver traição ao humano que nos habita.
A forma justa não é só perfeita,
É imperfeita e viva,
É lágrima que se transforma em canto,
É ferida que se abre em flor,
É o riso que insiste mesmo na noite.
Por isso recomeço,
Não apenas na página em branco,
Mas no olhar que ofereço ao outro,
Na esperança que se levanta do chão,
E este é meu ofício de humano:
Reconstruir o mundo com ternura.
© Alberto Araújo
A FORMA JUSTA
Sophia de Mello Breyner Andresen
Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos – se ninguém atraiçoasse –
proporia
Cada dia a cada um a liberdade e o reino
— Na concha na flor no homem e no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em
branco
E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo.

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