terça-feira, 13 de janeiro de 2026

O MUNDO HUMANO - POEMA DE © ALBERTO ARAÚJO - PARAFRASEANDO A FORMA JUSTA DE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


Sei que seria possível erguer o mundo justo

Não apenas nas praças lavadas de luz,

Mas nos olhos que se encontram sem medo,

Nos abraços que desfazem silêncios,

Na mesa onde o pão se reparte sem cálculo.

 

O céu, o mar e a terra esperam,

Mas é no coração que a promessa se cumpre:

- Cada gesto pode ser reino,

- Cada palavra pode ser liberdade,

Se não houver traição ao humano que nos habita.

 

A forma justa não é só perfeita,

É imperfeita e viva,

É lágrima que se transforma em canto,

É ferida que se abre em flor,

É o riso que insiste mesmo na noite.

 

Por isso recomeço,

Não apenas na página em branco,

Mas no olhar que ofereço ao outro,

Na esperança que se levanta do chão,

E este é meu ofício de humano:

Reconstruir o mundo com ternura.

 

© Alberto Araújo

 

 

A FORMA JUSTA

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Sei que seria possível construir o mundo justo

As cidades poderiam ser claras e lavadas

Pelo canto dos espaços e das fontes

O céu o mar e a terra estão prontos

A saciar a nossa fome do terrestre

A terra onde estamos – se ninguém atraiçoasse – proporia

Cada dia a cada um a liberdade e o reino

— Na concha na flor no homem e no fruto

Se nada adoecer a própria forma é justa

E no todo se integra como palavra em verso

Sei que seria possível construir a forma justa

De uma cidade humana que fosse

Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco

E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo.


 

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