domingo, 4 de janeiro de 2026

A GEOMETRIA DO OLHAR - POEMA DE © ALBERTO ARAÚJO


​Não busco as rimas fáceis dos poetas antigos,

prefiro a crueza das calçadas de Icaraí,

o som dos pneus sobre o piche quente

e o hálito de sal que o oceano sopra contra os prédios.

 

O dia começou como qualquer outro,

com o ruído metálico da cidade acordando,

mas havia uma clareza diferente no ar,

uma luz que não pedia licença para entrar.

 

​Almoçamos entre o tilintar dos talheres e o murmúrio das gentes,

vimos a vida passar apressada pelas janelas do restaurante,

enquanto o tempo, só para nós, parecia ter estancado.

 

Havia beleza na simplicidade do prato, no café fumegante,

mas eram apenas acessórios.

​A verdadeira arquitetura do dia não estava nas montanhas do Rio,

nem no contorno sinuoso do MAC recortando o céu.

A beleza estava estacionada na curva dos teus cílios.

 

O mundo lá fora, o trânsito, as barcas, o vento, era apenas um cenário cinzento e necessário para que o brilho dos teus olhos se tornasse o centro de tudo.

 

​Caminhamos pela areia como quem descobre um continente.

O sol começou sua lenta descida, um gigante cansado,

derramando cores violentas sobre as águas da baía.

 

E enquanto os turistas erguiam seus celulares para o horizonte,

eu olhava para o lado oposto.

 

​Porque o pôr do sol, por mais vasto e magnífico,

era apenas um reflexo pálido do que vi em ti.

 

A luz morria no horizonte para renascer no teu rosto.

Vi o ouro das nuvens se dissolver nas tuas pupilas, e entendi que a natureza, em toda a sua força, estava apenas tentando imitar a luz que tu emanas.

 

​Agora, quando o sol já se foi e a noite ocupa as ruas, não sinto o frio da despedida da luz.

Levo comigo essa claridade que não depende do céu,

essa beleza urbana, orgânica e profunda,

que encontrei no detalhe do teu olhar

enquanto o mundo, distraído, achava que o espetáculo era apenas o sol.

 

 © Alberto Araújo


 

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