Não busco as rimas fáceis dos poetas
antigos,
prefiro a crueza das calçadas de
Icaraí,
o som dos pneus sobre o piche quente
e o hálito de sal que o oceano sopra
contra os prédios.
O dia começou como qualquer outro,
com o ruído metálico da cidade
acordando,
mas havia uma clareza diferente no ar,
uma luz que não pedia licença para
entrar.
Almoçamos entre o tilintar dos
talheres e o murmúrio das gentes,
vimos a vida passar apressada pelas
janelas do restaurante,
enquanto o tempo, só para nós, parecia
ter estancado.
Havia beleza na simplicidade do prato,
no café fumegante,
mas eram apenas acessórios.
A verdadeira arquitetura do dia não
estava nas montanhas do Rio,
nem no contorno sinuoso do MAC
recortando o céu.
A beleza estava estacionada na curva
dos teus cílios.
O mundo lá fora, o trânsito, as
barcas, o vento, era apenas um cenário cinzento e necessário para que o brilho
dos teus olhos se tornasse o centro de tudo.
Caminhamos pela areia como quem
descobre um continente.
O sol começou sua lenta descida, um
gigante cansado,
derramando cores violentas sobre as
águas da baía.
E enquanto os turistas erguiam seus
celulares para o horizonte,
eu olhava para o lado oposto.
Porque o pôr do sol, por mais vasto e
magnífico,
era apenas um reflexo pálido do que vi
em ti.
A luz morria no horizonte para
renascer no teu rosto.
Vi o ouro das nuvens se dissolver nas
tuas pupilas, e entendi que a natureza, em toda a sua força, estava apenas
tentando imitar a luz que tu emanas.
Agora, quando o sol já se foi e a
noite ocupa as ruas, não sinto o frio da despedida da luz.
Levo comigo essa claridade que não
depende do céu,
essa beleza urbana, orgânica e
profunda,
que encontrei no detalhe do teu olhar
enquanto o mundo, distraído, achava
que o espetáculo era apenas o sol.
© Alberto Araújo

Nenhum comentário:
Postar um comentário