Era 1º de dezembro, e o calendário parecia conspirar a favor da beleza. O dia nasceu comum, mas carregava em si a promessa de algo extraordinário. Recebemos o convite gentil de Marne Serrano, nosso amigo aniversariante, esposo da incomparável Dama do Piano, Licia Lucas. O convite não era apenas para celebrar mais um ciclo de vida, mas para mergulhar em uma noite de espiritualidade, cultura e amizade, ingredientes raros e preciosos como conchas encontradas ao acaso na areia da praia em Icaraí, que guardam em seu interior o segredo do mar e o eco das marés antigas.
Dirigimos-nos à Paróquia São Judas Tadeu para a missa das 18h. O templo, com sua arquitetura acolhedora e atmosfera de paz, foi o cenário perfeito para o início de nossa jornada. Ali, entre cânticos e reflexões, sentimos o tempo desacelerar. A fé nos envolveu como um manto suave, preparando-nos para o que viria depois. Cada palavra do evangelho parecia nos conduzir a um estado de contemplação, como se estivéssemos diante de uma partitura divina, onde cada nota era um gesto de esperança.
Ao final da celebração, seguimos para o restaurante La Mole. O sol já havia se despedido, mas a noite nos presenteava com um espetáculo silencioso. Do salão do restaurante, avistávamos o Cristo Redentor, iluminado e majestoso, abençoando o nosso encontro. A Baía de Guanabara refletia luzes tímidas, como se também quisesse participar da festa, como se o próprio mar fosse cúmplice de nossa alegria.
Chegamos ao restaurante com o coração leve e a alma aberta. Marne e Licia pediram Pizza Marguerita, eu e minha Shirley optamos pela de Frango com Muzzarela. Mas o verdadeiro banquete foi a conversa. Certamente, foram mais de três horas de trocas intensas, profundas, saborosas como o suco que acompanhava a refeição, e tão ricas quanto um concerto de Beethoven executado sob o céu estrelado.
Falamos de cultura como quem toca uma sinfonia invisível. Revisitamos os tempos longínquos, discutimos a crença do ser humano em Deus, e destacamos aqueles que são ungidos pela mão divina, pessoas que, como Licia Lucas, transformam o mundo com seus dons. A música, a arte, a espiritualidade e a história se entrelaçaram em nossa mesa como velhos amigos reencontrados, como vozes de um coro que atravessa séculos.
Marne, descontraído e com brilho nos olhos, nos levou em palavras até La Gomera, uma das Ilhas Canárias da Espanha. Uma ilha pequena em tamanho, mas imensa em significado. Com sua paisagem vulcânica dramática, ravinas profundas e o Parque Nacional de Garajonay, uma floresta de laurissilva pré-histórica, La Gomera é um refúgio ecológico e espiritual. Lá, o Silbo Gomero, uma língua assobiada reconhecida pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade, ecoa entre os vales, como se a própria natureza falasse, como se os ventos fossem mensageiros de um tempo primordial.
Foi nesse cenário mágico que há muito, Licia Lucas se apresentou ao piano, acompanhada pela Orquestra Garajonay. Marne nos contou com emoção sobre esse momento, e nós ouvimos como quem escuta uma lenda. A trajetória de Licia é marcada por apresentações em palcos internacionais, e a imagem das orquestras que a acompanharam, da Filarmônica de Moscou à Sinfônica de Maracaibo, é um testemunho da sua grandeza artística. Cada palco, cada orquestra, cada aplauso é uma página dourada no livro da música universal.
Falamos também das mais de 50 orquestras que cruzaram o caminho de Licia: da Rússia, Portugal, Espanha, Itália, Estados Unidos, México, Cuba, Argentina, Venezuela… Cada nome citado era uma nota de uma partitura que compõe a sinfonia da vida dessa artista singular. A música, para ela, não é apenas arte, é missão, é ponte entre mundos, é oração. É o sopro que une o humano ao divino, o instante que suspende o tempo e nos coloca diante da eternidade.
Fizemos fotos, eternizando sorrisos e gestos. E eu, tomado pela emoção, presenteei Marne com um livreto, um texto que escrevi em sua homenagem, recheado de memórias e imagens que falam por si. O gesto foi simples, mas carregado de significado. Era minha forma de dizer: “Você é muito importante. Sua história merece ser lida.” E naquele instante, percebi que a literatura também é música, que as palavras podem soar como acordes e que cada página é um palco onde a vida se apresenta.
A noite seguiu como um concerto de almas. Falamos de tudo: da música que transcende, das histórias que nos moldam, da fé que nos guia. E ali, entre pizzas e lembranças, entre o som imaginado do piano e o silêncio do mar, celebramos não apenas um aniversário, mas a eternidade que habita os encontros verdadeiros. Era como se o tempo tivesse se transformado em poesia, e nós fôssemos os versos.
A conversa fluiu como um rio sereno. Falamos de cultura, de espiritualidade, de arte sacra. Revisitamos o hino em francês: "Peuple, à genoux, attends ta délivrance: Noël! Noël! Voici le Rédempteur!" - "Povo, de joelhos, espera a tua libertação: Natal! Natal! Eis o Redentor!", entoado brilhantemente pelo coral regido pelo Maestro Joabe Ferreira. Relembramos passagens bíblicas, discutimos o papel da religião na formação do ser humano. Shirley, com sua sensibilidade aguçada, trouxe reflexões sobre a Bíblia. Licia, com sua voz doce e firme, falou da emoção de ouvir a música francesa em lugares sagrados, onde o som parece dialogar com o divino, como se cada acorde fosse uma oração.
Marne, com seu humor refinado e inteligência afiada, nos conduziu por histórias de vida, viagens, encontros e descobertas. Falou de uma pescaria em alto mar, onde o mar revolto impedia que a pesca fosse mais emocionante, mas onde o verdadeiro espetáculo estava na dança das ondas e no diálogo silencioso entre o homem e o oceano.
E eu, entre uma taça e outra, entre uma risada e uma lágrima, senti que aquela noite era um presente. O aniversariante era Marne, mas quem ganhou um presentão fomos nós. Um presente que não se embrulha, mas se vive. Um presente que não se guarda, mas se compartilha. Um presente que se transforma em memória e que, como a música, nunca se apaga.
Ao final, nos despedimos com abraços carinhosos e promessas de novos encontros. Saímos do La Mole com a alma cheia e o coração em festa. A cidade dormia, mas nós sabíamos: algo havia despertado em nós. Algo que não se explica, mas se sente: a amizade verdadeira, que é, em si mesma, uma obra de arte e um ato de fé.
© Alberto Araújo


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