quinta-feira, 19 de março de 2026

160 ANOS EM SILÊNCIO: A RESSURGÊNCIA DA BATUTA DE AUGUSTO PORTUGAL - CRÔNICA DE © ALBERTO ARAÚJO

Há histórias que não se deixam apagar. Mesmo quando o fogo consome papéis, roupas e lembranças, há objetos que resistem como se carregassem dentro de si uma centelha de eternidade. A batuta de prata de Augusto Portugal presenteada pela sociedade paulistana ao maestro que era discípulo de Giuseppe Verdi reapareceu 160 anos depois como testemunho vivo de uma linhagem que une Itália, Portugal e Brasil é um desses símbolos. 

Ela atravessou gerações como um fantasma silencioso, ora lembrada, ora perdida, disputada entre mãos que sabiam que ali havia mais que madeira e metal: havia memória, havia destino. 

O maestro português, aluno de Giuseppe Verdi, morreu jovem, aos 39 anos, vítima da febre amarela no Rio de Janeiro. Tudo dele foi queimado, como se a história quisesse apagar sua passagem. Mas a batuta sobreviveu. E, como em todo bom registro, o tempo se encarregou de costurar os fios soltos, trazendo de volta o objeto ao palco da vida. 

Hoje, 160 anos depois, ela ressurge nas mãos de Noel Nascimento, tetraneto do maestro. Noel, que já regeu “O Guarani” em Washington, repetiu o gesto do tetravô que foi o primeiro a conduzir a obra no Brasil. É como se o tempo desse uma segunda chance, como se a música tivesse decidido que sua história não poderia terminar em silêncio. 

O reencontro com esse objeto não é apenas familiar. É cultural, histórico e profundamente simbólico. A mesma batuta que regeu companhias líricas na Europa e a estreia de “O Guarani” no Brasil retorna às mãos de Noel Nascimento, tetraneto do maestro. 

O início. Giuseppe Fortunino Francesco Verdi que no século XIX era o maior compositor nacionalista da Itália, presença central do romantismo musical europeu, ao lado de Richard Wagner. Quando os portugueses tentaram trazê-lo ao Brasil, Verdi recusou por compromissos inadiáveis, mas indicou um aluno brilhante: Augusto Portugal. 

Português de origem, Augusto instalou-se em São Paulo, casou-se com Zulmira e construiu carreira como regente e comerciante de instrumentos musicais. Era amigo de Verdi e logo se tornou amigo de Carlos Gomes, o maior nome da ópera brasileira na época. 

Carlos Gomes, protegido de Dom Pedro II, compôs “O Guarani” inspirado no romance de José de Alencar. A ópera estreou em Milão em março de 1870, destacando-se pela fusão inédita entre elementos indígenas e a tradição lírica europeia. 

No Brasil, a estreia ocorreu em 02 de dezembro de 1870, aniversário do imperador. O regente escolhido foi Augusto Portugal. A noite consagrou Carlos Gomes e marcou a história da música brasileira. 

A abertura da obra, imortalizada como tema do programa radiofônico “A Voz do Brasil”, tornou-se um dos sons mais reconhecíveis da cultura nacional. 

Pouco depois, Augusto Portugal foi vítima da febre amarela no Rio de Janeiro. Sem conhecimento sobre o vetor da doença, a recomendação era queimar roupas, livros e documentos. Assim, quase toda a memória material do maestro se perdeu. Restaram apenas duas composições e a batuta de prata, com seu nome gravado. 

Augusto morreu aos 39 anos, às vésperas de reger no Scala de Milão. Sua trajetória foi interrompida, mas a batuta sobreviveu, disputada e perdida ao longo das gerações, até ser reencontrada em Barra do Piraí, no Rio de Janeiro. 

O objeto passou de mãos em mãos dentro da família: de Waldemiro, poeta parnasiano, para sua esposa professora Maria Dulce; depois para Leia, irmã de Dalma; em seguida para Hélio, em Barra do Piraí; e finalmente para Iolanda. Em meio a tantas transferências, perdeu-se. 

Foi Claudio Nascimento, filho de Dalma, quem descobriu o paradeiro da batuta. Noel, informado, partiu para buscá-la. Escurecida pelo tempo, mas ainda imponente, carrega a inscrição de Augusto Portugal e a memória de uma linhagem musical. 

O reencontro com a batuta ganha contornos extraordinários ao se cruzar com a trajetória de Noel Nascimento, tetraneto de Augusto Portugal. 

Noel é maestro e pianista, neto da escritora Dalma Nascimento. Talentoso e reconhecido, recebeu duas medalhas de honra da Embaixada dos Estados Unidos por sua atuação brilhante e contribuições culturais. 

Em 02 de maio de 2022, no Teatro Strathmore Music Center, em Washington, Noel regeu a protofonia de “O Guarani”, representando o Brasil. Por coincidência do destino, repetia o gesto de seu tetravô, que havia sido o primeiro maestro a reger a obra em solo brasileiro. 

A batuta será restaurada, polida, devolvida ao brilho original. Mais que uma restauração física é um gesto de continuidade. Dalma Nascimento chamou esse retorno de “Ressurgência: a batuta 160 anos depois.”

Há coincidências que não são apenas acaso: são encontros que o tempo prepara com paciência. A batuta de prata, escurecida pelo esquecimento, volta agora às mãos de Noel Nascimento.

Não é apenas um objeto herdado. É um elo entre séculos, entre destinos interrompidos e sonhos retomados. Quando Noel erguer a batuta restaurada e fizer soar novamente a protofonia de “O Guarani”, não será apenas ele quem regerá. Será Augusto Portugal, será Verdi, será Carlos Gomes, será toda uma linhagem que permanece e que resiste ao tempo. 

Caro leitor, a cultura tem dessas ironias: aquilo que parecia perdido retorna, trazendo consigo a força da memória. A batuta não é só madeira e prata. É símbolo de continuidade, de resistência contra o esquecimento. 

E no dia, no brilho de um palco, quando Noel fizer ecoar novamente os acordes de “O Guarani” com a batuta de seu tetravô, será como se o maestro interrompido pela febre amarela finalmente completasse sua jornada.

A saga da batuta de prata é metáfora da própria cultura: aquilo que parece perdido pode ressurgir, trazendo consigo a força da memória. 

De Verdi a Gomes, de Augusto Portugal a Noel Nascimento, a história da música brasileira ganha um capítulo de impacto. Certamente, a ressurgência da batuta é a ressurgência de uma linhagem, de uma tradição que insiste em sobreviver. 

O tempo, afinal, não apaga. Ele guarda. Ele devolve. E a música, como a batuta, nunca morre. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural

 






Noel Nascimento em 02 de maio de 2022, no Teatro Strathmore Music Center, 
em Washington, a protofonia de “O Guarani”, representando o Brasil.




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