A atmosfera solene da Academia Fluminense de Letras (AFL) costuma ser palco de grandes discursos e posses memoráveis, mas, recentemente, foi o eco de uma harmonia secular que resgatou uma das memórias mais profundas da pianista, cantora, acadêmica Gisela Peçanha. Durante a apresentação do Coral Carpe Diem, regido pelo Maestro Joabe Ferreira, um anúncio específico no repertório funcionou como uma chave de ouro capaz de abrir as portas da infância: o Ave Verum Corpus, de Wolfgang Amadeus Mozart.
Para quem observava Gisela na plateia, talvez não fosse possível mensurar a tempestade de emoções que aquela partitura evocava. No entanto, o brilho no olhar e a postura de quem conhece cada nota revelavam que ali não estava apenas uma espectadora, mas uma artista cuja trajetória profissional foi selada por aquela exata composição, há décadas, sob a batuta de outros tempos e mestres.
A história de Gisela com o canto coral começou cedo, nos corredores do Centro Educacional de Niterói. Dos 8 aos 18 anos, ela integrou o corpo vocal da instituição, sob a regência do saudoso Maestro Ermano Soares de Sá. O que começou com a simplicidade lúdica dos cânones a três vozes e as canções do folclore brasileiro logo se transformou em um desafio que moldaria seu destino.
Aos 12 anos, a maturidade vocal de Gisela já não passava despercebida. Foi quando o Maestro Ermano, reconhecendo um talento acima da média, tomou uma decisão audaciosa: transferiu a menina diretamente para o coro juvenil. O aviso do mestre foi claro: "Agora você irá cantar músicas muito mais difíceis, porque você já está preparada".
Entre jovens de 15 a 17 anos, a pequena Gisela, com apenas 12, viu-se diante do deslumbramento e da complexidade da partitura de Mozart. Sem ainda dominar a leitura técnica de partituras, ela valeu-se da percepção auditiva e de uma dedicação rara, gravando a melodia e decorando cada nuance da obra em apenas dois dias.
O divisor de águas na vida da cantora tem data, hora e local: uma apresentação às 18 horas na Igreja Porciúncula de Santana. Gisela recorda aquele momento como algo místico. A acústica perfeita do templo, o som dos sinos e a magnitude da composição de Mozart criaram o cenário ideal para uma revelação pessoal.
Naquele dia, enquanto seu coração parecia pulsar no ritmo das vozes, a decisão foi tomada: ela seria cantora. O Ave Verum Corpus não era apenas uma música de repertório, era o seu batismo artístico. A partir dali, a voz que se destacava no coral infantil ganharia o mundo, levando-a aos bancos da Faculdade de Canto na Escola de Música da UFRJ e a uma carreira profissional sólida, onde a obra de Mozart a acompanharia como solista em inúmeras cerimônias e recitais.
No último sábado, na Academia Fluminense de Letras, o ciclo parecia se fechar, ou melhor, se renovar. Ao ver o Coral Carpe Diem prestes a executar a peça que definiu sua vida, Gisela sentiu o impulso legítimo de quem deseja retornar às origens. De forma discreta, ela solicitou ao regente a oportunidade de se juntar ao grupo, no fundo do coral, apenas para rememorar a vivência da infância.
Apesar do rigor do protocolo, que impediu a participação oficial, a essência artística de Gisela Peçanha não aceitou o silêncio. Sentada estrategicamente próxima às sopranos e ao lado do teclado do maestro, ela não se conteve. Se não pôde estar formalmente no palco, sua voz profissional e experiente uniu-se ao coro de forma orgânica.
O Maestro Joabe Ferreira pôde ouvir, em alto e bom som, a performance de uma mulher que, embora tenha trilhado caminhos acadêmicos e palcos diversos, mantém intacta a pureza daquela menina de 12 anos que se encantou com Mozart. Muito feliz em está vivenciando tudo aquilo. Gisela não cantou, mas posou com o coral. Na ocasião, Gisela foi homenageada pela Academia Fluminense de Letras, onde recebeu pela sua apresentação pianística embelezando o evento em Homenagens às Mulheres, uma Moção de Reconhecimento das mãos da presidente Márcia Pessanha. O Focus registrou esses momentos.
O Focus Portal Cultural homenageia Gisela Peçanha não apenas pelo seu currículo como bacharel em canto pela UFRJ, mas pela sua sensibilidade. Sua trajetória nos ensina que a técnica se aprimora, mas o dom é uma chama que, uma vez acesa pela beleza de uma obra de arte, jamais se apaga. Naquele salão da Academia, através de uma foto e de muitos tons, o que se viu foi a celebração da música como fio condutor da própria existência.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
30 de março de 2026
Gisela Peçanha disse por intermédio de áudio: “Querido Alberto, tentei escrever diversas mensagens, mas a emoção não me permitiu digitar; por isso, prefiro enviar este áudio. Estou profundamente comovida com a homenagem que você me fez. É um texto impecável, sensível e belíssimo.
Posso dizer que você tocou o âmago do meu coração de menina. A profundidade da sua escrita é tamanha que parece que você viveu aquela situação comigo. Ao ler, pensei: 'Meu Deus, parece que fui eu quem escreveu', tamanha a perfeição com que você captou o que senti.
Aquele dia na Porciúncula de Santana,
aos meus 12 anos, ao cantar
o Ave Verum Corpus, de Wolfgang Amadeus Mozart , foi de fato o meu batismo na música. Sua colocação foi perfeita; eu me senti exatamente assim, sendo batizada. Naquele momento, decidi que seria cantora e que queria cantar aquilo, mesmo sem saber ainda o que era ser uma cantora lírica.
A Porciúncula, os sinos tocando... foi
um momento mágico que você resgatou com uma sensibilidade extraordinária.
Reitero: você escreveu como se a história fosse sua, tamanha a profundidade e
perfeição do relato. Muito, muito obrigada.” Gisela.

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