O Real Gabinete Português de Leitura, encravado no centro do Rio de Janeiro como uma joia de cantaria e talha, é mais do que uma biblioteca; é um manifesto geográfico da alma luso-brasileira. Ao cruzarmos seus umbrais de inspiração neomanuelina, somos imediatamente envolvidos por um silêncio que não é ausência de som, mas acúmulo de vozes. No entanto, entre os milhares de lombadas de couro e os bustos de navegadores e poetas, duas presenças femininas se erguem com uma força que transcende a cronologia: a Rainha Dona Amélia de Orléans e a Professora Cleonice Berardinelli.
Este ensaio propõe uma reflexão sobre
como essas duas figuras, uma vinculada ao trono e à linhagem, a outra à cátedra
e ao verbo, tornaram-se as sentinelas espirituais de uma das instituições mais
belas do mundo.
I. Dona Amélia: A Majestade entre o Sangue e o Estuco
Dona Amélia (1865–1951) não habita o Real Gabinete apenas como uma imagem decorativa. Seu retrato a óleo, imponente e solitário em sua representação feminina naquela escala, é o testemunho de uma era de transição dolorosa. Filha dos Condes de Paris e última rainha consorte de Portugal, Amélia foi uma mulher que compreendeu, talvez antes de seus contemporâneos, que a monarquia só encontraria sobrevida se fincasse raízes no cuidado social e na preservação da cultura.
Sua conexão com o Gabinete é, antes de tudo, um ato de reconhecimento institucional. Foi seu marido, Dom Carlos I, quem concedeu o título de "Real" à instituição em 1906, apenas dois anos antes da tragédia que mudaria o curso da história europeia. Mas a presença de Amélia no Gabinete carrega um simbolismo mais profundo: a resiliência.
Em 1º de fevereiro de 1908, no Terreiro do Paço, Amélia viu o mundo desmoronar sob o estampido dos tiros que ceifaram a vida do rei e do príncipe herdeiro. Ali, naquela carruagem ensanguentada, a rainha não foi apenas uma vítima; foi uma combatente que, com um ramo de flores em mãos, tentou desviar o destino. Essa força trágica e digna é o que emana de seu retrato nas paredes do Gabinete. Ela representa a Portugalidade que não se curva ao tempo, a tradição que sobrevive ao exílio e à queda dos regimes. No Gabinete, Amélia é a memória viva de uma "Casa" que se expandiu para além do território físico para se tornar uma casa de saber.
Sua atuação em prol da saúde pública e das artes em Portugal reflete o espírito do Gabinete: a ideia de que o conhecimento e o cuidado são as únicas ferramentas capazes de civilizar uma nação. Ao olhar para o retrato de Dona Amélia, o visitante do Real Gabinete não vê apenas a nobreza de nascimento, mas a nobreza de propósito. Ela guarda as chaves simbólicas de um passado que fundamenta a nossa língua.
II. Cleonice Berardinelli: A Alquimia
da Palavra e o Reino do Pensamento
Se Dona Amélia é a moldura histórica, Cleonice Berardinelli (1916–2023) é o fôlego vital que percorre os corredores de livros. Se a rainha recebeu o título de "Real" para a casa, a professora deu ao Gabinete a sua "realeza intelectual". Cleonice não era apenas uma frequentadora; ela era a personificação da exegese luso-brasileira.
Por mais de seis décadas, "Dona Cleonice", como era chamada com uma reverência que misturava carinho e admiração, transformou as mesas de madeira do Gabinete em laboratórios de descoberta. Sua relação com a instituição não era passiva. Ela lecionou, pesquisou e, acima de tudo, decodificou os grandes mestres. Foi ela quem trouxe Fernando Pessoa para o centro do debate acadêmico brasileiro com uma tese pioneira em 1958. Imagine-se o cenário: em um mundo acadêmico ainda dominado por homens, uma mulher debruçava-se sobre a complexidade dos heterônimos, desvelando a angústia metafísica e a solidão que habitavam os versos do poeta do "Desassossego".
O Memorial Cleonice Berardinelli, instalado na Galeria dos Estuques, é um espaço de peregrinação intelectual. Ali, o fardão da Academia Brasileira de Letras descansa, não como uma peça de museu, mas como o símbolo de uma conquista. Cleonice provou que a imortalidade não vem do sangue real, mas da tinta que se gasta para explicar o mundo. Suas anotações à margem dos livros de Camões ou de Gil Vicente são diálogos diretos com o passado.
Para Cleonice, o Real Gabinete era o seu "Reino". Ela navegou por aqueles mares de papel com a mesma coragem dos nautas de 1500, mas sua bússola era a filologia e sua estrela-guia era a poesia. Ela humanizou o Gabinete. Através dela, o mármore tornou-se carne, e a literatura deixou de ser um objeto estático para se tornar uma experiência viva.
III. O Encontro das Duas Guardiãs:
Onde o Passado e o Futuro se Abraçam
O que acontece quando colocamos Dona Amélia e Cleonice Berardinelli sob a mesma análise? Surge a verdadeira face do Real Gabinete Português de Leitura.
A instituição é sustentada por essa dualidade. Por um lado, a institucionalidade e a tradição (Amélia), que garantem que o local seja um monumento de respeito e continuidade. Por outro, a investigação e a renovação (Cleonice), que garantem que os livros não se transformem em cinzas ou poeira, mas que continuem a iluminar novas mentes.
Ambas enfrentaram seus próprios
"regicídios". Amélia enfrentou a morte da monarquia e o exílio;
Cleonice enfrentou o preconceito de gênero na academia e a imensidão do
desconhecido literário. Ambas venceram através da cultura.
O Real Gabinete, com suas claraboias
que deixam entrar a luz do Rio de Janeiro, celebra essas duas mulheres como
pontes. Dona Amélia é a ponte para o Portugal que fomos; Cleonice Berardinelli
é a ponte para o Brasil que podemos ser através do saber. No Gabinete, a rainha
e a professora não são figuras opostas; são complementares. Uma protege o
prédio e sua história; a outra protege o conteúdo e sua interpretação.
Para nós, observadores do tempo e da cultura, a lição que Dona Amélia e Cleonice Berardinelli deixam é clara: uma instituição só é "Real" se for capaz de abrigar a grandeza humana em todas as suas formas. O Real Gabinete Português de Leitura é, hoje, um santuário de resistência feminina.
A cada vez que um pesquisador abre um
livro raro sob a supervisão do olhar pintado de Amélia, ou que um estudante se
inspira na trajetória de Cleonice no Memorial, o Gabinete cumpre sua missão.
Ele deixa de ser um edifício de 1887 para se tornar um organismo eterno, onde a
nobreza do espírito e a nobreza da história caminham de mãos dadas, rumo à
imortalidade da língua portuguesa.
Estas são as nossas sentinelas. Uma rainha que se fez silêncio e dignidade; uma professora que se fez voz e sabedoria. No Real Gabinete, o tempo para, apenas para que possamos ouvi-las.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
Fontes Primárias e Audiovisuais:
SOARES, Raquel (Apresentação). As Mulheres do Real Gabinete:
Dona Amélia e Cleonice Berardinelli. Vídeo institucional/documental. Rio de
Janeiro: Real Gabinete Português de Leitura, 2026.
REAL GABINETE PORTUGUÊS DE LEITURA.
Memorial Cleonice
Berardinelli: Acervo e História. Disponível em: [Site Oficial do RGPL].
Acesso em: 24 mar. 2026.
Obras de/sobre Cleonice Berardinelli:
BERARDINELLI, Cleonice. Poesia e Poética de Fernando Pessoa. Rio de Janeiro: Ed. Duas Cidades, 1958 (Tese original consultada no acervo do RGPL).
BERARDINELLI,
Cleonice. Estudos de
Literatura Portuguesa. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985.
ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Perfil da Acadêmica Cleonice Berardinelli. Cadeira nº 8. Rio de Janeiro: ABL.
Obras sobre Dona Amélia e Contexto
Histórico:
SÁ, Maria João da Câmara Schwalbach de. Dona Amélia: A Rainha de Portugal. Lisboa: A Esfera dos Livros, 2011.
PONTES, Paulo. O Real Gabinete Português de Leitura: 180 anos de história e arquitetura. Rio de Janeiro: RGPL, 2017.
MAGALHÃES JÚNIOR, R. Machado de Assis e o Real Gabinete. (Consulta contextual sobre a fundação e títulos da instituição).

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