Em 1966, a música negra americana
vivia uma combustão criativa. Se o álbum "Woman of Fire" tivesse
chegado às lojas naquele ano, teria selado o destino do Soul como a linguagem
definitiva da emoção humana. De um lado, Etta James trazia a bagagem do Blues e
do R&B visceral. Sua voz, marcada por uma aspereza elegante e uma entrega
que parecia sempre à beira de um desabafo, injetava realismo em cada nota. Etta
era a sobrevivente, a voz da experiência que transformava dor em autoridade.
Do outro lado, Aretha Franklin
estava em um momento de transição divina. Vinda do gospel, ela trazia uma
técnica impecável e uma extensão vocal que desafiava a gravidade. Em 1966,
Aretha injetava uma dignidade soberana no gênero, preparando o terreno para se
tornar a Rainha. "Woman of Fire" seria o diálogo entre a rua e a
igreja: o timbre profundo e "sujo" de Etta contrastando com os agudos
cristalinos e potentes de Aretha.
O álbum teria sido um manifesto de força feminina em uma década de transformações. Entre baladas de arrancar o fôlego e hinos de "up-tempo" conduzidos por metais pesados, as duas cantoras não apenas dividiriam o microfone, mas duelariam com respeito, elevando o padrão do que significava ser uma intérprete de Soul. Um clássico perdido que, mesmo no imaginário, queima com a intensidade de mil sóis.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural

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