quarta-feira, 25 de março de 2026

LUIZA LOBO E A POÉTICA DA RESISTÊNCIA NA ASA

O entardecer de domingo, 22 de março de 2026, em Botafogo, não foi apenas uma marca no calendário cívico do Mês das Mulheres. Foi, antes de tudo, um encontro de correntes subterrâneas da história que emergiram à superfície no casarão da Rua São Clemente. Quando a Associação Scholem Aleichem (ASA) abriu suas portas, o que se viu não foi meramente uma palestra, mas uma celebração da palavra em sua forma mais refinada e necessária. 

Ali, no coração de uma instituição que respira a memória da diáspora, da resistência e da cultura ídiche, a presença de Luiza Lobo atuou como um catalisador de tempos e espaços. A atual presidente da União Brasileira de Escritores (UBE-RJ) trouxe consigo não apenas o currículo vasto de uma acadêmica de renome internacional, mas a aura de quem habita a literatura como quem habita a própria pele. 

Luiza Lobo não apenas "passou o tema"; ela o teceu diante de uma plateia hipnotizada. Com a autoridade de quem traduziu os silêncios de Virginia Woolf e as sutilezas de Katherine Mansfield, Luiza conduziu os presentes por um labirinto de conquistas e silenciamentos. Sua postura, marcada por uma serenidade que só o profundo conhecimento concede, transformou a sala da ASA em um anfiteatro universal. 

Durante uma hora de exposição, o tempo pareceu curvar-se. Sua fala, dotada de um lirismo que não abdica do rigor crítico, resgatou a trajetória das mulheres na escrita universal. Luiza possui o dom raro de humanizar o cânone; ao falar das pioneiras, ela não cita apenas nomes e datas, mas evoca a pulsação de mulheres que, através dos séculos, transformaram o isolamento doméstico em vanguarda literária. 

A representatividade de Luiza Lobo na cultura brasileira é um pilar de sustentação para as novas gerações. Carioca de alma e cosmopolita de formação, sua trajetória, iniciada em 1968 com a ousadia dos contistas novos é um testemunho da persistência criativa. Ao vê-la discorrer sobre a "Mulher na Escrita Universal", percebe-se que Luiza não é apenas uma estudiosa do tema, mas uma das arquitetas contemporâneas dessa mesma escrita. 

O sucesso estrondoso do evento confirmou-se na segunda hora: o momento das perguntas. O que se seguiu à palestra foi um diálogo vibrante, uma troca orgânica que demonstrou o quanto o público ansiava por aquela lucidez. Luiza Lobo respondeu com a generosidade dos grandes mestres, acolhendo cada questionamento com a precisão de quem navegou pelas águas de Oxford, Sorbonne e Yale, mas com o calor humano de quem valoriza o chão da cultura internacional. 

Sua voz é uma ponte. Ela liga o Rio de Janeiro ao Maranhão de Maria Firmina dos Reis; conecta o Vale do Paraíba das suas "Terras Proibidas" ao Arco do Triunfo de suas ficções mais recentes. Sua obra, que transita entre o ensaio denso e a poesia delicada, reflete essa versatilidade que o público da ASA teve o privilégio de testemunhar. 

Não poderia haver palco mais adequado para esta exaltação do que a ASA. Fundada na década de 1920 por imigrantes que trouxeram na bagagem o amor pelos livros e a urgência da justiça social, a instituição é o espelho da jornada de Luiza. Se a ASA nasceu para preservar o ídiche e a identidade progressista, Luiza dedica sua vida a preservar a dignidade da palavra e a visibilidade das margens. 

A convergência entre a missão da ASA e o vigor criativo de Luiza Lobo criou uma atmosfera de rara beleza. Foi um evento que honrou o passado, as lutas das imigrantes, as escritoras do século XIX, ao mesmo tempo em que lançou luz sobre o futuro. Quando a palestra se encerrou, o sentimento comum era o de que não havíamos apenas assistido a uma aula, mas participado de um rito de passagem cultural. 

Falar de Luiza Lobo é falar de uma intelectual que não se encastela. Seja como pesquisadora nível 1 do CNPq ou como a romancista premiada de Terras Proibidas, ela mantém o olhar atento à formação da nossa identidade. Seu trânsito pelas universidades europeias não a afastam do debate urgente sobre a igualdade e a diversidade. Pelo contrário, fortalecem sua voz como uma das mais respeitadas vozes da ficção brasileira contemporânea. 

O domingo na ASA foi uma prova de que a cultura, quando conduzida por mãos magistrais e corações generosos, tem o poder de unir, educar e emocionar. Luiza Lobo, com sua trajetória multifacetada de mais de 20 livros e centenas de ensaios, reafirmou que a literatura é, essencialmente, um ato de liberdade. 

Ao final, entre aplausos e conversas que se estenderam pelo estacionamento da São Clemente, ficou a certeza: a cultura brasileira respira com mais força quando personalidades como Luiza Lobo ocupam o centro da cena, lembrando-nos que escrever é, acima de tudo, uma forma de existir no mundo com coragem e beleza. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural








Nenhum comentário:

Postar um comentário