segunda-feira, 30 de março de 2026

PERDI O JAIRO CRÔNICA DE © ALBERTO ARAÚJO – INSPIRADA EM FRASE DE MAGDA BELLOTI

O salão da Academia Fluminense de Letras exalava aquela solenidade característica que as paredes centenárias guardam com zelo. Entre o brilho das medalhas, o murmúrio das conversas intelectuais e o protocolo da nova diretoria, o tempo parecia ditar um ritmo próprio, compassado e grave. Era 28 de março, e o ambiente estava repleto de amigos, de abraços e daquela euforia contida que enlaça a intelectualidade nos grandes ritos culturais. 

Ao meu lado, Magda Belloti. Ela, que empresta à vida a mesma harmonia que dedica ao canto lírico, movia-se com a elegância de quem conhece as nuances das grandes árias. Mas, em um átimo de segundo, algo mudou na partitura do momento. O olhar dela, sempre atento e vívido, buscou um ponto de ancoragem no meio da multidão e não o encontrou. 

— Perdi o Jairo... — ela disse, com uma voz que não carregava o peso da tragédia, mas o susto da lacuna. 

Aquela frase, solta entre as mesas de guloseimas, os confrades e amigos, suspendeu o mundo por um instante. "Perdi o Jairo". Para quem ouve de fora, a frase pode soar como um lamento, uma despedida definitiva. Mas, no dicionário particular de quem ama, "perder" o outro em um salão lotado é, na verdade, um dos maiores atestados de presença que o coração pode emitir. 

O que Magda sentiu naquele breve intervalo não foi o vazio da ausência, mas o "impulso do pertencimento". É um fenômeno curioso: passamos a vida ao lado de alguém, dividindo o café, os silêncios e os planos, e acabamos por acreditar que a presença do outro é uma constante física inabalável, como a gravidade. Até que, de repente, o Jairo não está ali. Ele foi ao banheiro, buscou um copo d’água ou parou para cumprimentar um confrade, e o cenário, antes completo, ganha uma moldura vazia. 

Nesse instante, o coração dá um solavanco. É o lembrete de que aquela pessoa não é apenas uma companhia, mas a nota fundamental que dá sentido à melodia. Perder o Jairo, por metros de distância ou cinco minutos de relógio, é perceber que o "eu" se habituou tanto ao "nós" que a individualidade momentânea causa um estranhamento doce. É o susto de descobrir que o nosso centro de gravidade deu um passo para o lado. 

Magda, com sua alma de artista, traduziu em palavras o que muitos sentem e poucos confessam. O medo da perda, transmutado em uma busca ansiosa pelos olhos. Não era uma perda real, era a saudade instantânea. Uma saudade de milímetros. 

E então, o milagre do reencontro cotidiano aconteceu.

Lá estava ele. Surgindo entre os convidados, alheio ao pequeno drama lírico que sua ausência provocara. O Jairo apontou. Não houve necessidade de trombetas ou de grandes árias. Apenas o gesto simples, o braço erguido, o olhar que reencontra o seu par. 

Naquele momento, o "perdi" se dissolveu em um "achei" iluminado. O rosto de Magda se iluminou com uma alegria que não era de alívio por um perigo evitado, mas de celebração por uma presença reafirmada. É nesse "reaparecer" que o amor se renova. Quando o marido retorna ao lado da esposa, ele não traz apenas a si mesmo; ele traz a confirmação de que o porto seguro continua ali, exatamente onde deveria estar. 

Essa crônica de um desencontro de minutos na AFL nos ensina algo precioso sobre a essência dos afetos. Muitas vezes precisamos "perder o Jairo" por um instante para lembrar o quanto o Jairo nos preenche. Precisamos da breve ausência para que o retorno tenha o gosto de uma nova conquista. 

O amor feliz não é aquele que nunca se perde, mas aquele que se busca com os olhos em cada salão, em cada esquina da vida, com a certeza de que, em algum momento, ele irá apontar de volta. 

Que sorte a de Magda, que em meio à beleza da música e das letras, mantém o coração tão afinado a ponto de sentir falta de um abraço mesmo quando ele está apenas a uma porta de distância. E que sorte a do Jairo, que é tão amado a ponto de sua ausência ser notada como se faltasse o ar em uma sala cheia.

No final das contas, a solenidade continuou. Os convidados se deliciaram com as guloseimas da Valéria, os sorrisos ecoaram e a história da Academia ganhou mais uma página. Mas, para mim, a maior lição daquela tarde não estava nos livros ou nos cargos ocupados. Estava naquela frase curta, lírica e profundamente humana: o amor é o eterno exercício de nunca querer perder o outro de vista. Nem por um minuto.

E eu, enquanto continuava a registrar os momentos, tive a prova final dessa entrega. Por uma feliz "ironia" do destino, Jairo provou que jamais se perderia: ele e Magda fizeram questão de nos trazer em casa. Ali, no trajeto seguro de volta, ficou a confirmação de que o amor que cuida de si também transborda para os amigos, garantindo que eu também não perdesse, nem por um minuto, a companhia da minha amada. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural




 

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