domingo, 8 de março de 2026

DON JUAN TENÓRIO, DON JUAN DE MARCO E A MULHER INTELECTUAL: UMA HOMENAGEM A DALMA NASCIMENTO NO DIA INTERNACIONAL DA MULHER


Ensaio cultural com tom jornalístico e homenagem intelectual

© Alberto Araújo – Focus Portal Cultural 

No imaginário ocidental, poucas figuras atravessaram os séculos com tanta força simbólica quanto Don Juan. Desde Tirso de Molina, que lhe deu forma dramática no teatro barroco espanhol, até as releituras contemporâneas que o inserem em cenários urbanos e cinematográficos, Don Juan permanece como arquétipo do desejo insaciável, do sedutor que nunca se sacia, do finório que joga com as regras sociais apenas para subvertê-las. 

Dalma Nascimento, em sua obra “Seduções e Sedições do Finório Don Juan Tenório” (2024), nos convida a revisitar esse mito com olhar renovado, articulando erudição e sensibilidade, crítica e poesia, para revelar como o personagem continua a nos interpelar e a nos provocar. Mas o mérito maior de sua leitura está em confrontar Don Juan com a ascensão da mulher como sujeito histórico e literário. Se antes o sedutor encontrava terreno fértil em uma sociedade que relegava à mulher o papel de objeto passivo, agora ele se vê diante de resistências, de vozes que não se deixam capturar. 

Essa perspectiva é essencial para compreender o que significa homenagear Dalma Nascimento no Dia Internacional da Mulher. Pois, ao revisitar Don Juan, a autora não apenas ilumina o mito masculino, mas sobretudo revela a força da mulher intelectual, capaz de dialogar com os mitos sem se submeter a eles.

Dalma Nascimento descreve Don Juan como um “caçador de afetos, mas também fugitivo da completude, sempre em busca de uma mulher mítica que lhe devolva o paraíso perdido”. Essa busca, porém, é marcada pela frustração, pela impossibilidade de fixar o objeto do desejo, pela eterna tensão entre ideal e realidade. 

O mito, portanto, não é apenas sobre sedução, mas sobre ausência. Don Juan deseja o que não pode possuir, e é nesse vazio que reside sua força simbólica. Dalma aproxima essa dimensão da poesia de Vinicius de Moraes, especialmente em “A mulher que passa”, onde o desejo se revela como promessa e ausência, como sonho e desencanto.

Mas se Don Juan é o arquétipo da fuga, a mulher intelectual é o arquétipo da permanência. Ela não se deixa capturar, mas também não se dissolve na ausência. Ao contrário, afirma-se como sujeito, como voz, como presença crítica que ressignifica o mito. 

DON JUAN DE MARCO: O CINEMA E A REINVENÇÃO DO MITO 

Se Don Juan Tenório é o mito literário, Don Juan de Marco é sua versão cinematográfica. Interpretado por Johnny Depp no filme de 1994, Don Juan de Marco é um jovem que acredita ser o maior amante do mundo. Sua figura é ao mesmo tempo paródica e poética, revelando como o mito pode ser reinventado em chave contemporânea. 

No filme, Don Juan não é apenas sedutor; é também narrador de si mesmo, criador de sua própria ficção. Ele seduz porque acredita na sedução, porque constrói um universo em que o amor é absoluto. Mas, ao mesmo tempo, sua figura revela a fragilidade do mito: o sedutor é também seduzido por sua própria narrativa. 

Essa dimensão dialoga com a leitura de Dalma Nascimento. Don Juan é figura que seduz e é seduzida por sua própria ficção. Ele é mito que se reinventa, mas que encontra resistência na mulher contemporânea, consciente de seu valor e de sua autonomia. 

A MULHER INTELECTUAL: SUJEITO DA NARRATIVA 

O ponto central da obra de Dalma Nascimento é a ascensão da mulher como essência histórica e literária. Com o avanço dos movimentos feministas e a valorização da voz feminina, o poder de sedução de Don Juan encontra resistência. A mulher deixa de ser objeto passivo e passa a ser agente de sua própria narrativa. 

Essa mudança é fundamental. Pois, ao se tornar sujeito, a mulher não apenas desafia Don Juan, mas também ressignifica o mito. O sedutor já não pode agir impunemente; ele se vê diante de presenças que o obrigam a se reinventar.

Dalma celebra essa nova mulher como figura antenada, consciente de seu valor e capaz de dialogar com os mitos sem se submeter a eles. Essa leitura é essencial para compreender como o mito de Don Juan se transforma diante da presença feminina.

ENTRE TENÓRIO E DE MARCO: O ESPELHO DA CONDIÇÃO HUMANA 

Ao aproximar Don Juan Tenório e Don Juan de Marco, percebemos que ambos revelam dilemas existenciais e filosóficos. O primeiro é o arquétipo da fuga; o segundo, o arquétipo da ficção. Mas ambos expressam a mesma tensão: o desejo por completude em um mundo marcado pela ausência. 

Dalma Nascimento mostra que Don Juan não é apenas personagem literário, mas espelho das inquietações humanas. Ele encarna o “pathos” do desejo, a tensão entre liberdade e responsabilidade, entre sonho e frustração, entre sedução e sedução de si mesmo. 

Mas é a mulher intelectual que dá sentido a esse espelho. Pois, ao se afirmar como sujeito, ela revela que o desejo não é apenas masculino, mas humano. O mito de Don Juan, portanto, só se mantém vivo porque encontra na mulher contemporânea sua interlocutora crítica, sua resistência, sua reinvenção. 

HOMENAGEM A DALMA NASCIMENTO 

No Dia Internacional da Mulher, homenagear Dalma Nascimento é reconhecer sua contribuição para a leitura crítica do mito de Don Juan. Sua obra alia erudição e sensibilidade, crítica e poesia, para construir uma narrativa que é ao mesmo tempo análise e celebração, reflexão e provocação. 

Dalma nos mostra que Don Juan não pode ser compreendido sem a mulher. Pois é a mulher que dá sentido ao mito, que revela sua fragilidade, que desafia sua sedução. Ao trazer a mulher intelectual para o centro da narrativa, Dalma não apenas revisita o mito, mas também celebra a condição humana em sua busca incessante por sentido. 

CONCLUSÃO: A MULHER COMO TRAVESSIA

Ao final, o que se impõe é a percepção de que Don Juan Tenório e Don Juan de Marco são figuras que só existem porque a mulher existe. O sedutor só é sedutor porque há quem resista, quem desafie, quem se afirme como sujeito.

Dalma Nascimento nos convida a pensar o amor não como completude, mas como movimento; não como posse, mas como travessia; não como fim, mas como eterno recomeço. 

No Dia Internacional da Mulher, essa leitura é mais do que homenagem: é celebração da mulher intelectual, da mulher que pensa, que escreve, que ressignifica os mitos. É celebração da mulher que, como Dalma Nascimento, nos mostra que o desejo não é apenas sedução, mas também reflexão; não apenas ausência, mas também presença; não apenas mito, mas também realidade.

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural






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