Há um silêncio muito específico que só habita as varandas de Botafogo às cinco e vinte e oito da manhã. É um hiato no tempo, um suspiro profundo que a cidade dá antes de mergulhar na sua habitual correria. Como sempre o admirável fotógrafo nos presenteia com maravilhas. Por isso digo que a lente de Euderson Kang Tourinho, esse instante não foi apenas registrado; foi consagrado. Quando o outono se instala no Rio de Janeiro, ele traz consigo uma nitidez que o verão, em seu mormaço úmido e febril, muitas vezes nos rouba. No outono, o céu não apenas clareia; ele se revela.
A primeira imagem nos apresenta o prólogo da existência. O horizonte é uma linha de fogo frio, um degradê que desafia a paleta de qualquer mestre renascentista. O azul profundo do zênite ainda guarda as memórias da noite, mas na linha do mar, o laranja e o ocre começam a empurrar as sombras. O Pão de Açúcar, essa sentinela de granito que vigia a Baía de Guanabara há eras, surge como uma silhueta absoluta. É a geometria sagrada da natureza em sua forma mais pura. Ali, entre o Morro da Urca e as montanhas de Niterói ao fundo, a cidade é um presépio de concreto ainda adormecido, onde as luzes das janelas são pequenos vaga-lumes humanos resistindo à imensidão do despertar.
"O outono é a segunda primavera,
onde cada folha é uma flor", dizia Camus. No Rio, o outono é o momento em
que a luz deixa de ser um peso e passa a ser uma carícia.
Se a primeira foto é a expectativa, a segunda é o arrebatamento. À medida que os minutos avançam, o sol, esse grande maestro, decide que é hora de entrar em cena. E ele não entra discretamente. Ele irrompe por trás das montanhas como uma ostensória de ouro, lançando feixes de luz que rasgam o tecido do dia.
É interessante notar como a luz de outono em Botafogo tem uma densidade diferente. Ela é oblíqua, dourada, quase sólida. Os raios que cruzam a imagem de Euderson funcionam como cordas de uma harpa gigante, tocando uma melodia que só os olhos conseguem ouvir. A Enseada de Botafogo, pontilhada por barcos que parecem flutuar sobre um espelho de bronze líquido, reflete essa glória. O sol se posiciona exatamente no "V" entre as montanhas, como se a própria geografia do Rio tivesse sido desenhada para emoldurar esse momento.
Morar em Botafogo e ter essa vista é viver em um constante estado de diálogo com a história e a cultura brasileira. Olhar para esse amanhecer é lembrar dos ecos da Bossa Nova que nasceu nessas águas, é sentir a presença de poetas como Carlos Drummond de Andrade, que certamente, em algum momento de sua caminhada pela orla, parou para contemplar essa mesma luz.
Mas a crônica dessas fotos não fala apenas do que é visível. Ela fala da paciência. Para capturar o Rio às 5h28min, é preciso estar em sintonia com o ritmo do mundo. É preciso acordar antes da cidade para ver a cidade nascer. Euderson, de sua varanda, agiu como um cronista visual, documentando o milagre da renovação. Enquanto o mundo discute crises, pressas e algoritmos, o sol cumpre sua promessa milenar de retornar, tingindo o Morro da Urca com uma aura de santidade laica.
Essas fotos são um lembrete necessário de que, apesar de todas as feridas, o Rio de Janeiro mantém uma dignidade estética inabalável. O outono carioca é generoso; ele limpa o ar, suaviza as temperaturas e nos devolve a capacidade de contemplação. O Pão de Açúcar, banhado por esse ouro matinal, deixa de ser um ponto turístico para se tornar um símbolo de resiliência. Ele está lá, imóvel, testemunhando a passagem dos séculos, enquanto nós, efêmeros espectadores em nossas varandas, tentamos prender o tempo em um clique.
Ao final, o que fica desses registros é uma sensação de pertencimento. Ao olhar para o sol que nasce entre as montanhas, somos lembrados de que cada dia é uma nova oportunidade de "cariocar", de encontrar beleza no cotidiano e de agradecer pela luz que, teimosamente, insiste em iluminar nossos caminhos.
Obrigado, Euderson, por nos emprestar seus olhos e sua varanda. Através das suas fotos, o outono no Rio não é apenas uma estação; é um estado de espírito
@ Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
ABAIXO AS FOTOS ORIGINAIS



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