domingo, 15 de março de 2026

10 - O OFÍCIO DA PALAVRA EM TEMPOS DE VERTIGEM - CRÔNICA-ENSAIO LITERÁRIO DE @ ALBERTO ARAÚJO

 

A literatura é chama que resiste ao vento. Em meio ao tumulto das horas, quando a vida se fragmenta em notificações e imagens fugidias, escrever e ler tornam-se gestos de insubmissão. Não é apenas arte: é memória, é resistência, é a mais íntima das revoluções. 

Vivemos uma encruzilhada. De um lado, a abundância: nunca tantas vozes se ergueram em simultâneo. De outro, a dispersão: nunca se leu tão apressadamente, nunca se abandonou tão rápido uma narrativa. O escritor contemporâneo sabe que disputa a atenção com o fluxo incessante das redes, mas é justamente nesse embate que a literatura reafirma sua vocação, ser o espaço da pausa, da densidade, da escuta interior. 

O romance, a crônica, o poema, todos se erguem como resistência contra a velocidade que nos rouba o sentido. A literatura não compete com a tecnologia; ela a atravessa, absorve, transmuta. O livro digital, o audiolivro, a narrativa interativa são apenas novas máscaras de uma mesma essência: contar histórias para que o humano não se dissolva. 

Eis a multiplicidade: escritores de periferias, mulheres, povos originários, autores antes silenciados encontram brechas para inscrever suas narrativas. O cânone, outrora muralha, hoje se vê atravessado por fissuras. Cada livro publicado por uma voz antes marginalizada é ato de reparação simbólica. A literatura contemporânea não é apenas estética: é política, é social, é testemunho.

O leitor já não é apenas receptor. É coautor, comentarista, crítico instantâneo. A obra circula em tempo real, sujeita a aplausos e linchamentos virtuais. Isso exige do escritor coragem renovada: escrever sabendo que sua palavra será atravessada por milhares de olhares simultâneos. Mas talvez seja justamente aí que resida a beleza da literatura atual, na sua capacidade de sobreviver ao excesso, insinuando-se como chama discreta no meio da vertigem. 

A palavra convive agora com algoritmos, com inteligências artificiais, com sistemas capazes de gerar textos em segundos. Há quem tema que a máquina substitua o escritor. Mas a literatura não é apenas soma de palavras: é sopro humano que lhes dá sentido. O algoritmo pode imitar estilos, pode compor narrativas, mas não conhece o silêncio que antecede a frase, nem a hesitação que molda o ritmo. 

Cada povo escreve para não desaparecer. Cada língua se inscreve nas páginas como forma de resistência contra o esquecimento. A literatura atual, marcada pela pluralidade, nos mostra que não há uma única narrativa capaz de conter o mundo. Escritores indígenas, afrodescendentes, periféricos ampliam o repertório estético e reconfiguram a identidade cultural. Cada livro que nasce de uma voz silenciada é ato de afirmação: “Estamos aqui, e nossa história também merece ser contada.” 

O futuro da literatura não se desenha apenas nas páginas impressas, mas nos múltiplos suportes que se multiplicam diante de nós. O leitor contemporâneo lê em telas, escuta em fones, interage em plataformas digitais. A leitura se torna experiência expandida, atravessando formatos e linguagens. Mas o que significa ler em tempos de excesso? Talvez o futuro da leitura não esteja em consumir mais, mas em aprender a ler melhor. 

A literatura é também herança. Cada livro é ponte entre o passado e o futuro, entre aqueles que já viveram e aqueles que ainda virão. O escritor escreve não apenas para seus contemporâneos, mas para leitores que talvez nem tenham nascido. Os clássicos continuam a nos falar, mesmo em meio à vertigem contemporânea. Ler Machado de Assis, Clarice Lispector, Guimarães Rosa é descobrir que o humano permanece. Ler autores jovens é perceber que o futuro já está sendo escrito. 

A literatura não se faz apenas de palavras. Ela nasce também do silêncio que as antecede, da pausa que lhes dá ritmo, da contemplação que as sustenta. Em tempos de ruído incessante, recuperar o valor do silêncio é quase ato revolucionário. O silêncio é matéria invisível da literatura: sem ele, a palavra se torna apenas barulho. 

E há ainda o mito e a imaginação. Desde as primeiras narrativas, o ser humano inventa histórias para explicar o inexplicável, para dar forma ao mistério, para enfrentar o desconhecido. Mesmo na literatura atual, marcada pela tecnologia e pela velocidade, o mito permanece. Ele se reinventa em romances fantásticos, em narrativas distópicas, em universos de ficção científica. O mito não desaparece: ele se transforma. Porque o ser humano continua a precisar de histórias que transcendam o cotidiano, que ofereçam sentido ao caos.

Chegamos ao fim desta travessia, mas não ao fim da literatura. Porque a literatura não se encerra: ela se prolonga em cada leitor, em cada silêncio, em cada palavra que se abre como janela. A literatura é casa. Casa feita de palavras, de memórias, de sonhos. Uma casa sem paredes, mas capaz de abrigar todos os que nela entram. O escritor constrói essa casa com tijolos de linguagem, e o leitor a habita com sua própria experiência. 

Em tempos de vertigem, essa casa se torna ainda mais necessária. Porque nela encontramos o que o mundo nos nega: pausa, sentido, profundidade. A literatura nos lembra que somos mais do que dados, mais do que consumo, mais do que pressa. Somos seres de palavra, de imaginação, de silêncio. 

E enquanto houver alguém disposto a escrever, e alguém disposto a ler, a literatura continuará a existir. Não como luxo, mas como necessidade. Não como passatempo, mas como fundamento. Porque sem literatura, o humano se perde. 

Assim, ao concluir este ensaio-crônica, deixo uma certeza: a literatura é a casa onde o humano se reconhece. E é nessa casa que, mesmo em tempos de vertigem, ainda podemos encontrar repouso, beleza e sentido.

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

      ABDALA JUNIOR, Benjamin. Literatura, história e política: literaturas de língua portuguesa no século XX. São Paulo: Ateliê Editorial, 2007.

     ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 5. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

      AZEVEDO, Luciene; MOLINA, Cristian Vidal; PALOMA, Cristian. Autoria na cultura do presente. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, Brasília, n. 55, p. 1-20, 2018.

       BIRMAN, Daniela; HARDMAN, Francisco Foot; ZHENGQI, Lu (orgs.). Literatura brasileira contemporânea: aproximações e divergências. Campinas, SP: Unicamp; Publicações IEL, 2022.

      MENDES, Fábio Marques. Realismo e violência na literatura contemporânea: os contos de Famílias terrivelmente felizes, de Marçal Aquino. São Paulo: Editora UNESP; Cultura Acadêmica, 2015.



Nenhum comentário:

Postar um comentário