A cinematografia clássica é repleta de
instantes efêmeros, mas poucos alcançaram a densidade semiótica e o valor
icônico da sequência em que Don Lockwood (Gene Kelly) desafia a intempérie em Cantando na Chuva (1952).
Mais do que uma simples coreografia de
entretenimento, a cena se ergue como um tratado estético sobre a catarse, o
lirismo urbano e a vitória da subjetividade humana sobre as contingências do
meio.
Tudo começa
no instante mágico do desfecho de uma despedida. Don acaba de dar o último
adeus da noite a Kathy Selden (Debbie Reynolds). Atrás dele, ficam os
bastidores conturbados de uma Hollywood em pânico, tonta com a dolorosa
transição do cinema mudo para o falado. Mas nada disso importa. O amor
recém-descoberto instala nele uma euforia tão radiante que o mundo exterior
perde o poder de incomodar.
O táxi
parte. O céu desaba em um temporal impagável. Qualquer pessoa prudente correria
em busca de um teto, mas o verdadeiro apaixonado enxerga a chuva como cenário.
Em vez de se proteger, Don fecha o guarda-chuva, sente as primeiras gotas no
rosto e sorri. É o sinal verde para a poesia.
Com uma
leveza que esconde o rigor técnico da sétima arte, ele começa a cantar
suavemente a música-tema. A rua escura da cidade vira um palco iluminado. Ele
caminha, balança no candeeiro enquanto zomba das nuvens carregadas com um
carisma avassalador, e faz do asfalto encharcado seu playground. O auge vem no
sapateado vigoroso sobre as poças d'água: cada pisada forte lança gotas para
todos os lados, transformando a água da chuva num instrumento de percussão
vivo.
Nem a
chegada surpresa do policial, que o observa intrigado tentando entender aquele
delírio urbano, quebra o encanto. Don apenas sorri, aceita a comicidade da
própria loucura e se afasta calmamente, deixando no ar a certeza de que a
felicidade é contagiosa.
Setenta anos
depois, essa sequência continua intacta no imaginário coletivo. Ela nos lembra
de que, às vezes, as tempestades não servem para nos recolher, mas para nos
convidar a dançar. Cantando na
Chuva atravessa gerações, por isso: porque enquanto houver paixão e vontade
de celebrar a vida, sempre haverá alguém disposto a encarar o temporal de
braços abertos.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural


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