quarta-feira, 8 de julho de 2026

O SILÊNCIO ELOQUENTE DAS ESTANTES - CRÔNICA © ALBERTO ARAÚJO

Existe certo tipo de magia que acontece quando atravessamos o umbral da porta de alguém pela primeira vez. Não falo da mobília, da iluminação ou do cheiro de café fresco, embora estes elementos componham o cenário. Falo da alma daquela casa, da sua verdadeira arquitetura. Como bem pontuou o arquiteto Chicô Gouvea, em uma reflexão que ressoa como uma verdade universal: “O livro é o objeto de decoração mais honesto que existe”. 

Muitos de nós passamos a vida buscando a casa ideal, caçando em revistas de design ou no feed de redes sociais por aquela composição que transmita sofisticação. Buscamos peças de design assinado, tapetes que conversem com as cortinas e cores que tragam harmonia. Não há nada de errado nisso. Contudo, há um paradoxo moderno que insiste em isolar a intelectualidade do convívio. Frequentemente, escondemos nossas bibliotecas no quarto, em corredores estreitos ou atrás de portas esquecidas, como se o saber fosse um segredo íntimo demais para ser compartilhado com a visita. 

O livro, diferentemente de uma escultura decorativa comprada por catálogo, não mente. Ele não está ali apenas para preencher um vazio na parede ou para combinar com a paleta de cores do ambiente. Ele está ali porque foi escolhido, porque foi lido, porque tocou uma fibra sensível na alma de quem habita aquele espaço. 

Uma estante cheia de livros é um inventário do que nos formou. Ali, entre as lombadas de Dostoievski, os clássicos brasileiros de Machado de Assis ou as histórias de fantasia que nos fizeram viajar sem sair de casa, reside o mapa da nossa identidade. Quando entramos em uma casa e nos deparamos com esses guardiões de papel, já sabemos muito sobre quem ali vive, sem que uma única palavra precise ser dita. 

Não é uma questão de erudição, mas de honestidade. Uma estante, por mais caótica ou organizada que seja, revela a curiosidade, as angústias, os gostos musicais que se traduzem em biografias, as crenças que nos movem e os mundos que desejamos habitar. Enquanto um objeto decorativo impessoal nos diz apenas quem gostaríamos de parecer para o mundo exterior, o livro nos diz quem somos quando estamos a sós. 

O Meu Mundo Particular. Digo isto com a convicção de quem encontra, na convivência com os livros, uma forma de paz que poucas coisas no mundo podem oferecer. Tenho, na minha própria casa, a alegria de possuir um escritório que é, na verdade, uma biblioteca. É ali que o tempo ganha uma elasticidade diferente.

Quando entro naquele cômodo, fecho a porta para o ruído do mundo lá fora e abro a página de um exemplar qualquer, sinto que voltei para casa. É o meu mundo. Ali, o brilho da tela do computador ou o conforto do sofá perdem a importância diante da promessa de uma nova ideia. Cada livro naquelas prateleiras é um marco no meu próprio crescimento, um lembrete de fases superadas, de descobertas que me mudaram ou de contos aos quais sempre volto, como quem visita um velho amigo. 

As casas mais interessantes que já visitei não tinham lustres caros, acabamentos de luxo ou tecnologia de ponta. Elas tinham, invariavelmente, paredes ocupadas pelo saber. Eram lares que nos convidavam a ficar, a sentar, a discutir ideias, a deixar a hora passar. Eram casas com "vida".

Talvez o convite aqui seja para quebrarmos esse tabu de reservar o conhecimento apenas aos espaços privados. Que tal trazer aquele livro que você mais ama para a sala? Que tal permitir que a nossa estante seja a protagonista da nossa decoração, e não um acessório escondido? 

Ao colocar nossas leituras onde as visitas podem ver, não estamos apenas exibindo nossos gostos; estamos abrindo as janelas da nossa mente. Estamos dizendo, de forma silenciosa, que nossa casa é um lugar de troca, de pensamento e de humanidade. Afinal, uma casa sem livros é apenas uma estrutura; uma casa com livros é um convite ao eterno. 

E vocês? Também têm seus tesouros de papel espalhados pela casa, esperando para contar sua história a quem quiser ouvir?

Baseada nas reflexões de Chicô Gouvea (Consultor de Arquitetura) publicadas na página “Página de Mistérios” do Facebook. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural

 


Nenhum comentário:

Postar um comentário