Receber um elogio é sempre um bálsamo para quem escreve, mas há adjetivos que parecem carregar o peso de séculos. Quando a presidente Matilde cravou seu veredito em meu texto feito para celebrar o meu aniversário no dia 23 de julho: A TRAVESSIA DAS ÁGUAS E DAS LETRAS: SOB O OLHAR DO VELHO MONGE de: "Texto antológico. Parabéns para todo o sempre nosso querido jornalista", a primeira reação foi a alacridade. O que faz um texto comum, nascido da urgência do cotidiano, atravessar a fronteira do efêmero e ser alçado a essa dimensão quase mítica?
Na
raiz da palavra, antologia remete à colheita de flores. Na Grécia Antiga, era o
termo usado para reunir as melhores poesias, aquelas que resistiam ao tempo e
mereciam ser preservadas em um só jardim literário. Quando Matilde utilizou o
termo, ela não estava apenas elogiando uma boa tirada ou uma estrutura
gramatical correta; ela falava da eternização do efêmero.
A
grandiosidade do que a presidente quis dizer reside na capacidade que a escrita
tem de capturar o indizível. No jornalismo do dia a dia, escrevemos sobre o
agora: o fato que estampa a manchete, a reclamação da rua, o calor do momento.
É uma literatura de relógio, feita para expirar com o sol do dia seguinte.
Porém,
quando um texto atinge a categoria "antológica", ele deixa de ser
sobre o hoje e passa a ser sobre a condição humana. Matilde enxergou ali algo
que transcende a notícia. Percebeu que a crônica havia tocado em uma corda
sensível, universal, capaz de fazer o leitor de amanhã se reconhecer nas mesmas
angústias e alegrias do leitor de hoje.
Dizer
"para todo o sempre" é um ato de ousadia poética em um mundo obcecado
pelo descarte imediato. As redes sociais rolam a tela em segundos; os artigos
de opinião viram estatísticas de visualizações. Contudo, o elogio institucional
e afetuoso da presidente resgatou o valor perene da palavra impressa ou lida
com alma.
No
fim das contas, a dimensão do texto antológico não pertence apenas a quem o
escreve, mas a quem o lê com generosidade. Matilde não estava apenas avaliando
parágrafos; ela estava celebrando o instante raro em que a literatura cumpre o
seu pacto mais sagrado: transformar o pó dos dias em algo digno de ser lembrado
para sempre.
©
Alberto Araújo


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