terça-feira, 28 de julho de 2026

O CANTO DAS RAÍZES PIAUIENSES - PROSA POÉTICA REGIONALISTA E MEMORIALISTA DE © ALBERTO ARAÚJO

Sou filho da terra vermelha, onde o sol se deita preguiçoso sobre os carnaubais e desperta o canto das cigarras. Luzilândia é meu berço, e nas águas do Velho Monge banhei não apenas o corpo, mas também a alma. Ali, entre correntezas e silêncios, aprendi que o rio é mais do que água: é memória, é caminho, é bênção. 

O Piauí é terra de dualidades: o verde dos milharais que se abre como promessa de fartura, o dourado da mandioca que alimenta gerações, o branco do coco babaçu que sustenta famílias inteiras. Cada fruto, cada folha, cada raiz carrega consigo a história de um povo que nunca se curva, que transforma a dureza da vida em canto e celebração. 

O Velho Monge guarda segredos de pescadores, risos de crianças, lágrimas de saudade. Suas águas refletem o céu e devolvem ao povo a certeza de que tudo passa, mas tudo permanece. Quem nele se banha leva consigo uma marca invisível, uma tatuagem de pertencimento. 

A carnaúba, árvore da vida, ergue-se como sentinela do sertão. Dela se tira o mel, a cera, o sustento. É símbolo de resistência, de adaptação, de generosidade. Cresci vendo seus troncos finos apontarem para o céu, como se fossem orações silenciosas. E aprendi que o nordestino é como a carnaúba: firme, resiliente, capaz de florescer mesmo em solo árido. 

O milho, com suas espigas douradas, é festa e alimento. É pamonha, é canjica, é bolo quente na mesa da roça. Cada grão é promessa de continuidade, cada colheita é celebração da vida. O milharal é também poesia: fileiras verdes que dançam ao vento como se fossem sanfonas tocando para o sertão. 

A mandioca é raiz sagrada. É farinha que alimenta, é tapioca que adoça, é beiju que sustenta. É símbolo de permanência, de cultura que se renova a cada geração. A mandioca é a prova de que a terra, mesmo dura, pode ser generosa. 

O babaçu é resistência feminina. São as quebradeiras de coco que, com mãos calejadas, transformam dureza em sustento. O babaçu é metáfora da vida nordestina: duro por fora, mas generoso por dentro. É óleo, é carvão, é futuro. É também canto de luta, pois cada coco quebrado é afirmação de dignidade. 

Minha mãe, Maria, é a guardiã da fé. Aos olhos de Santa Luzia, ela me ensinou que ver é mais do que enxergar: é compreender, é acolher, é amar. Sua bênção é meu escudo, sua fé é meu guia. Santa Luzia, protetora da visão, ilumina os caminhos de quem busca esperança. 

Ser nordestino é carregar no peito um coração que bate em ritmo de sanfona. É dançar forró sob a lua cheia, é ouvir o aboio dos vaqueiros, é sentir o cheiro da terra molhada quando a chuva finalmente chega. É saber que cada seca traz consigo a promessa de um inverno generoso. 

O Piauí é terra de poetas, de cantadores, de artesãos. É terra que transforma dor em arte, ausência em saudade, saudade em canção. 

Sou da terra onde o sol arde,

mas também onde a lua acaricia.

Sou filho do Velho Monge,

banhado em águas de memória.

Sou bênção de Maria,

olhos de Santa Luzia.

Sou carnaubal que resiste,

milharal que floresce,

babaçu que alimenta,

mandioca que sustenta.

Sou nordestino,

sou piauiense,

sou Luzilândia.

 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural 

 








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