A palavra tem o poder misterioso de rasgar o tempo. Quando meu confrade Levy Pinto De Castro Filho lançou ao vento digital a sua bênção poética, desejando que o Velho Monge ainda estivesse em condições favoráveis para um mergulho nas águas divinas que abençoaram a minha infância, algo em mim estremeceu. Não foi um simples comentário de rede social; foi uma chave enferrujada que girou no portal da memória, escancarando os porões da saudade mais profunda.
O
Velho Monge não é apenas um acidente geográfico, tampouco um mero acidente de
curso d'água traçado nos mapas escolares. Para quem nasceu sob a sua tutela, o
Rio Parnaíba é uma entidade viva, um patriarca ancestral que carrega nos ombros
largos da correnteza a história, o suor e a alma de dois estados irmanados:
Piauí e Maranhão. Ele é a fronteira que une, o espelho que reflete o céu
escaldante do trópico e o ventre líquido que embalou os sonhos de menino que
hoje habitam a minha maturidade.
Responder
ao Levy de forma protocolar seria trair a grandiosidade desse amor. Eu disse a
ele, num impulso matinal, que o Velho Monge continua com a sua imponência. E
continua. Serpenteando altaneiro de norte a sul, cortando as terras piauienses
e maranhenses como uma cicatriz luminosa de prata e barro. Mas as palavras
iniciais pareceram curtas, quase tímidas diante do oceano de afeto que sinto
por aquelas margens.
Falar
do Parnaíba é falar de sobrevivência e poesia. É lembrar do som abafado das
matas ciliares ao amanhecer, do balé silencioso dos barcos de pesca deslizando
sobre o espelho d'água, do cheiro da terra molhada quando a primeira chuva de
inverno beija a caatinga sedenta. Nas águas turvas e fortes do Velho Monge, eu
não apenas aprendi a nadar; eu aprendi a contemplar a permanência. Enquanto
tudo ao redor muda, as cidades crescem, os rostos envelhecem, os amigos partem
e os ipês florescem e caem, o rio permanece. Ele passa, mas fica. É o eterno
retorno.
A
infância da gente nunca morre de todo; ela apenas se refugia no curso das
coisas que nos formaram. Cada mergulho de outrora, quando o sol escaldante do
Piauí feria a pele e a água morna trazia o alívio imediato, está cravado na
minha espinha dorsal. E saber que essas mesmas águas continuam alimentando o
meu povo, regando a lavoura, saciando a sede, alimentando o imaginário dos
poetas e embalando os ribeirinhos, me dá
a certeza de que há algo sagrado que resiste ao tempo.
Por
isso, a provocação carinhosa do confrade Levy Filho ecoa como um chamado. Sim,
o Velho Monge ainda está lá. E enquanto eu tiver fôlego para alinhavar palavras
e coragem para olhar para dentro, mergulharei de cabeça nessas mesmas águas
divinas. Porque um homem pode deixar as margens do seu rio, mas o rio, ah, esse
jamais sai de dentro dele.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
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