sexta-feira, 31 de julho de 2026

O VELHO MONGE E A ETERNIDADE DAS ÁGUAS - CRÔNICA DE © ALBERTO ARAÚJO A LEVY PINTO DE CASTRO FILHO

A palavra tem o poder misterioso de rasgar o tempo. Quando meu confrade Levy Pinto De Castro Filho lançou ao vento digital a sua bênção poética, desejando que o Velho Monge ainda estivesse em condições favoráveis para um mergulho nas águas divinas que abençoaram a minha infância, algo em mim estremeceu. Não foi um simples comentário de rede social; foi uma chave enferrujada que girou no portal da memória, escancarando os porões da saudade mais profunda. 

O Velho Monge não é apenas um acidente geográfico, tampouco um mero acidente de curso d'água traçado nos mapas escolares. Para quem nasceu sob a sua tutela, o Rio Parnaíba é uma entidade viva, um patriarca ancestral que carrega nos ombros largos da correnteza a história, o suor e a alma de dois estados irmanados: Piauí e Maranhão. Ele é a fronteira que une, o espelho que reflete o céu escaldante do trópico e o ventre líquido que embalou os sonhos de menino que hoje habitam a minha maturidade.

Responder ao Levy de forma protocolar seria trair a grandiosidade desse amor. Eu disse a ele, num impulso matinal, que o Velho Monge continua com a sua imponência. E continua. Serpenteando altaneiro de norte a sul, cortando as terras piauienses e maranhenses como uma cicatriz luminosa de prata e barro. Mas as palavras iniciais pareceram curtas, quase tímidas diante do oceano de afeto que sinto por aquelas margens.

Falar do Parnaíba é falar de sobrevivência e poesia. É lembrar do som abafado das matas ciliares ao amanhecer, do balé silencioso dos barcos de pesca deslizando sobre o espelho d'água, do cheiro da terra molhada quando a primeira chuva de inverno beija a caatinga sedenta. Nas águas turvas e fortes do Velho Monge, eu não apenas aprendi a nadar; eu aprendi a contemplar a permanência. Enquanto tudo ao redor muda, as cidades crescem, os rostos envelhecem, os amigos partem e os ipês florescem e caem, o rio permanece. Ele passa, mas fica. É o eterno retorno.

A infância da gente nunca morre de todo; ela apenas se refugia no curso das coisas que nos formaram. Cada mergulho de outrora, quando o sol escaldante do Piauí feria a pele e a água morna trazia o alívio imediato, está cravado na minha espinha dorsal. E saber que essas mesmas águas continuam alimentando o meu povo, regando a lavoura, saciando a sede, alimentando o imaginário dos poetas e embalando os ribeirinhos,  me dá a certeza de que há algo sagrado que resiste ao tempo.

Por isso, a provocação carinhosa do confrade Levy Filho ecoa como um chamado. Sim, o Velho Monge ainda está lá. E enquanto eu tiver fôlego para alinhavar palavras e coragem para olhar para dentro, mergulharei de cabeça nessas mesmas águas divinas. Porque um homem pode deixar as margens do seu rio, mas o rio, ah, esse jamais sai de dentro dele.

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural








 

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