Esta é uma ode à passagem, não um lamento. Hoje, 14 de julho de 2026, o silêncio que se instala não é de ausência, mas de uma plenitude que se transfigura. Maria Amélia Amaral Palladino, nossa querida e inesquecível companheira de letras, não partiu; ela apenas se retirou para a biblioteca infinita onde as grandes almas, finalmente, podem ler os originais de todas as poesias que aqui apenas vislumbramos.
Falar de Maria Amélia é falar de uma luz que não se apaga, apenas muda de plano, como o sol que se põe para incendiar o horizonte de cores que nossos olhos, ainda terrenos, mal podem descrever. Ela foi, entre nós, o verbo que se fez carinho, a arquitetura de uma civilidade que parecia tecida em fios de seda e resistência.
Nas academias que frequentamos, nas salas onde o ar vibrava com o peso das tradições e a leveza das novas ideias, a presença de Maria Amélia era um centro de gravidade. Não era uma liderança imposta por decretos, mas exercida pela força magnética de sua doçura culta.
Lembro-me de vê-la entre os pares. Ela não entrava em um recinto; ela o iluminava. Havia nela uma dança silenciosa entre a autoridade de quem detém o saber e a humildade de quem está sempre aprendendo. Sentada à mesa, com aquela postura altiva que herdou da nobreza das letras, ela ouvia. E como ela ouvia! Quando falava, sua voz tinha a cadência de uma partitura bem executada. Ela não apenas debatia temas literários ou protocolos acadêmicos; ela dava vida ao pensamento.
Para ela, a Academia não era um museu de mármore frio, mas um jardim. Um jardim onde cada escritor, cada acadêmico, era uma flor diferente que ela, como a jardineira mais dedicada, sabia regar com elogios precisos e críticas tão gentis que pareciam pétalas caindo sobre o nosso ego. Ela vivia o cotidiano acadêmico como uma celebração. Cada posse, cada conferência, cada café nos intervalos, era para ela um momento de comunhão. Ela via em nós, seus pares, seus amigos, a continuidade do que ela tanto amou: o idioma.
Maria Amélia possuía o dom alquímico de transformar a formalidade em afeto. Quem a conheceu sabe: ela não tratava ninguém como uma peça em um tabuleiro institucional. Para Maria Amélia, cada pessoa era um livro aberto que ela fazia questão de ler com atenção.
Havia em seu olhar um convite constante à amizade. Ela nos amava com a generosidade de quem entende que o amor é a única coisa que realmente justifica o esforço de escrever. Ela não escrevia apenas para os leitores; ela escrevia para nós, seus contemporâneos, deixando rastros de seu carinho em cada prefácio, em cada nota de rodapé, em cada bilhete manuscrito que, hoje, guardamos como relíquias.
Sua vivência nas academias foi um testemunho de que o intelecto e o coração podem habitar a mesma morada. Ela provou que se pode ser rigorosa na gramática e infinita na ternura. Ela nos ensinou que a nossa pátria, a Língua Portuguesa, é um país sem fronteiras, onde o único documento de identidade exigido é a capacidade de se emocionar com uma metáfora bem colocada.
Ao olharmos para a Cadeira que ela ocupava, para o lugar que ela habitava nas instituições que tanto amou, não vemos um vazio. Vemos a marca indelével de sua passagem. Ela nos deixou o mapa de um caminho que agora nos cabe trilhar com a mesma elegância.
Maria Amélia é a brisa que sopra nas estantes da Academia. É o eco de um verso de Fernando Pessoa, Olavo Bilac, Luiz de camões que ela declamava com um brilho singular nos olhos. É a segurança de sabermos que, mesmo na finitude do corpo, a palavra, essa que ela tanto honrou, permanece como um monumento inabalável.
Não nos despedimos hoje de uma mestre; celebramos a existência de uma amiga que nos ensinou a arte de ser, de estar e de sentir. Ela foi a nossa bússola lírica. E, embora a ausência física seja um dado inevitável da nossa condição humana, o sentimento que nos une a ela é imortal.
Maria Amélia, receba nosso preito de gratidão não como uma despedida, mas como um agradecimento pelo banquete que foi conviver com a sua alma. Que sua jornada agora seja de luz, de poesia e de toda a beleza que você, tão generosamente, semeou em nossos corações. Você continua viva em cada vírgula que colocamos, em cada palavra que escolhemos para expressar o que é belo. Você é, e sempre será, a nossa eterna e inesquecível companheira de letras.
Que o silêncio de hoje seja apenas o intervalo necessário para que a próxima estrofe de sua vida eterna comece a ser escrita. Nós seguiremos aqui, guardando a sua voz e celebrando, em cada encontro, o privilégio imenso que foi caminhar ao seu lado. O amor que sentimos não conhece a morte; ele se transforma em memória, e a memória, como você bem sabia, é a forma mais elevada de permanência.
Nesta nova etapa da jornada, há o reencontro que a alma tanto anseia. Maria Amélia parte agora para os braços de seu amado Jácomo Palladino, que a precedeu no caminho para preparar, com o zelo de quem ama, o jardim da eternidade. Lá, onde o tempo não impõe distâncias, eles se reencontram para, juntos, caminharem sob o olhar sereno dos anjos e a luz infinita do Senhor do Universo, perpetuando o diálogo de amor e sabedoria que aqui apenas começaram a escrever.
Descanse em paz, querida e adorável companheira Maria Amélia. Ou melhor: siga em frente, na luz, onde os poetas nunca se calam.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
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