Há algo na escrita de Pablo Neruda que não se explica apenas com a razão; sente-se na pele, como a brisa que chega da Baía de Guanabara aqui em nosso refúgio em Icaraí. Hoje, 12 de julho de 2026, quando o calendário marca os 122 anos do nascimento desse gigante chileno, eu me sinto como um aprendiz diante de uma imensidão. Como jornalista e escritor, aprendi que as palavras são pontes, e nenhuma ponte foi tão bem construída, entre o humano e o divino, quanto os versos que ele nos deixou.
Não é de hoje que Neruda habita minha mesa de trabalho. O meu exemplar de Cem Sonetos de Amor, esse livro que já traz as marcas do manuseio, as páginas amareladas pelo tempo e as dobras que guardam as minhas paradas mais demoradas, é um companheiro de todas as horas. Abrir aquele livro é como abrir uma janela para um oceano particular. Cada verso ali contido não é apenas uma sentença, mas um suspiro, uma confissão, um ato de entrega. Neruda tinha a capacidade alquímica de transformar o cotidiano em ouro puro, tornando o amor um objeto sagrado, palpável, quase material.
E como não falar daquela outra forma de poesia que é o cinema? Inúmeras vezes, perdi-me nas imagens de O Carteiro e o Poeta (Il Postino). Aquele filme, para mim, é uma das traduções mais belas da força transformadora da literatura. Ver a amizade entre o carteiro Mario e o poeta em sua exilada Isla Negra é entender o que significa o encontro de duas almas. A poesia, naquele filme, não é um objeto de elite, mas algo que respira, que ensina a metáfora como uma forma de enxergar o mundo além da superfície. Cada vez que assisto, reencontro ali a razão de ser do meu próprio ofício: o dever de levar a beleza, de traduzir o invisível para os leitores do Focus Portal Cultural.
Mas a minha biblioteca, esse território de afetos que cultivo aqui em Icaraí, reserva-me sempre reencontros profundos. Ao folhear hoje o Canto Geral, sinto a pulsação de toda uma América Latina em versos; é uma obra de fôlego, um épico que transcende o tempo e me faz ver a história com a lente da grandiosidade. E há, também, a sutileza de O Rio Invisível, que me lembra de que a poesia mora naquilo que não se diz, naquilo que apenas se intui entre uma margem e outra da vida. Ter essas obras ao alcance das mãos é, para mim, um exercício diário de humildade e deslumbramento. São volumes que conversam entre si, que compõem o mosaico do poeta que não se esgota, e que me ajudam, diariamente, a filtrar o essencial para o Focus Portal Cultural.
Neruda ensinou-me a observar o mundo com olhos de quem descobre o universo em uma gota de orvalho. Ele foi o poeta das coisas elementares: o sal, o pão, o mar, as mãos que trabalham. Em seus Odes, ele não cantava apenas a glória, mas a dignidade do simples. E é exatamente essa a essência que busco imprimir em minha curadoria: a celebração da cultura como um bem comum, um patrimônio que, tal como as ondas de Isla Negra, nunca param de renovar a costa da nossa existência.
Às vezes, enquanto escrevo aqui do meu escritório, olho para o horizonte, para esse mar que me cerca em Niterói, e me pergunto quantas vezes Neruda olhou para o Pacífico com essa mesma sede de infinito. O poeta nunca morre, porque ele se dispersa na natureza. Ele está no vento, nas estrofes que leio em voz alta, na inspiração que busco para meus próprios textos.
Hoje, celebra-se o homem, mas, sobretudo, celebra-se o que ele despertou em nós. Celebro a minha admiração por esse mentor distante, cujos sonetos moldaram a minha sensibilidade. Celebro a sorte de ter encontrado na poesia um lar, um lugar de paz, um porto seguro contra as intempéries da vida moderna.
Que os 122 anos de Pablo Neruda sejam um convite para que todos nós, leitores e sonhadores, voltemos às páginas de um livro, que possamos escutar o mar em nossa memória e, acima de tudo, que possamos escrever nossas próprias vidas com a coragem e a delicadeza de quem sabe que a beleza é a única linguagem que, no final das contas, nos mantém vivos.
A ti, Neruda! Que o teu canto continue a ser a bússola que orienta nossos horizontes.
© Alberto
Araújo
Curadoria – Focus Portal Cultural
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122 ANOS DE PABLO
NERUDA: O HORIZONTE ETERNO DA POESIA
Hoje, 12 de julho de 2026, o mundo
celebra o legado de um homem que transformou a própria linguagem em um elemento
da natureza. Pablo Neruda pseudônimo de Ricardo Eliecer Neftalí Reyes Basoalto,
completaria 122 anos.
Para o Focus Portal Cultural, sob minha curadoria,
reverenciar Neruda não é apenas recordar uma data, mas mergulhar na fonte
inesgotável de um dos maiores artesãos da palavra que a humanidade já conheceu.
Neruda não escrevia sobre a vida; ele
parecia descrevê-la como se a estivesse criando no instante em que a tinta
encontrava o papel. Desde sua estreia, em 1923, ficou claro que estávamos
diante de uma voz que não se contentava com o óbvio. Ele deu nome aos ventos,
forma às paixões e dignidade ao cotidiano mais simples.
Sua obra é
um vasto oceano, e navegar por ela é um exercício de autodescoberta. Seja no
lirismo juvenil de Vinte Poemas
de Amor e uma Canção Desesperada, livro que, para muitos de nós, foi a
porta de entrada para o despertar dos sentimentos, ou na maturidade de seus Odes Elementares, onde a cebola,
o gato, a alcachofra e o mar ganham contornos épicos, Neruda nos ensinou a
olhar. Ele nos ensinou que a poesia está escondida nas pequenas coisas, na luz
que entra pela janela ou no murmúrio do mar em Isla Negra.
Ao abrir as páginas de Canto Geral, em minha estante,
não encontro apenas versos; encontro a geografia da alma latino-americana. É
uma obra que ressoa como um hino à natureza, à terra que pulsa e à beleza que
nos rodeia. Neruda possuía o dom raro de fazer com que o leitor sentisse o sal
do mar na pele e o frescor das chuvas do sul do Chile através das palavras.
Sua escrita
é universal porque é profundamente humana. Ele celebra a celebração da própria
vida. Ao ler seus versos, percebemos que o poeta não buscava apenas a métrica
perfeita, mas a vibração exata de um sentimento. Ele capturou a essência do
amor, da amizade e da melancolia, transformando-os em arte pura, acessível a
todos aqueles que se permitem sentir.
No Focus Portal Cultural, acreditamos que a cultura é o
tecido que nos une. Neruda é um dos fios mais resistentes e brilhantes desse
tecido. Celebrar seus 122 anos é reafirmar nosso compromisso com a beleza e com
a arte que eleva o espírito.
Que a
leitura de Pablo Neruda continue a ser um refúgio para muitos, um convite ao
encantamento diário e uma fonte de inspiração. Como ele bem demonstrou, a
poesia não é apenas uma forma de arte, é uma forma de estar no mundo.
Alberto Araújo
Curadoria – Focus Portal Cultural
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