segunda-feira, 20 de julho de 2026

O OFÍCIO DE ESTAR JUNTO HOMENAGEM DO FOCUS PORTAL CULTURAL © ALBERTO ARAÚJO AO DIA DO AMIGO

O tempo é um rio que corre sem margens definidas, e nós, navegantes incautos, tentamos, por vezes, ancorar a vida em portos que mudam conforme a maré. No entanto, há entre as desordens do existir uma constante, um silêncio que se faz música quando compartilhado: a amizade. 

Diziam os antigos, e com razão, que "a amizade é uma alma com dois corpos", como sabiamente sentenciou Aristóteles. Não é apenas a coincidência de passos ou a partilha de horas mortas; é o reconhecimento, no outro, de uma geografia que também nos habita. É o encontro de duas solidões que, ao se tocarem, não se anulam, mas se expandem, criando um território vasto onde o medo perde a sua eficácia. 

Neste 20 de julho, em que o mundo insiste em nomear o que é, por natureza, inominável, percebo que a amizade é o exercício mais elevado da nossa liberdade. Não se exige, não se prende, não se cobra. Como escreveu Antoine de Saint-Exupéry: "Numa amizade, o que há de mais belo é o que não se diz". E é verdade. Existe um vocabulário invisível entre os amigos verdadeiros, composto por olhares que traduzem o que a língua atropela e por presenças que bastam, sem o ruído das palavras. 

A amizade é, talvez, o único antídoto contra a efemeridade. Somos feitos de instantes, de fragmentos que a memória insiste em colecionar. Contudo, quando estamos com um amigo, o relógio parece esquecer sua função tirânica. O tempo se torna espesso, ganha densidade, deixa de ser uma medida para se transformar em substância. Como bem observou Fernando Pessoa, "a amizade é uma espécie de amor que não precisa de presença constante, mas que sobrevive na saudade e na confiança". 

É curioso como buscamos desesperadamente o sentido da vida em grandes feitos, em construções de pedra ou em legados de papel, esquecendo-nos de que o sentido está no gesto simples de oferecer o ombro, de dividir o riso que nasce sem causa, de caminhar lado a lado na penumbra. O amigo é o espelho onde nos vemos sem os disfarces que o mundo nos obriga a usar. Com ele, não precisamos da armadura; a vulnerabilidade não é uma derrota, é um convite.

Devemos, pois, celebrar o amigo não como um troféu, mas como um caminho. Cecília, se aqui estivesse, talvez dissesse que "a vida só é possível reinventada" e a amizade é a ferramenta mais delicada e potente desta reinvenção diária. É o abraço que nos devolve a nós mesmos quando a dispersão tenta nos fragmentar. 

Neste dia, lembremo-nos de que amigos não são apenas os que nos trazem conforto, mas aqueles que nos impulsionam à nossa própria verdade, ainda que o caminho seja íngreme. Como lembrou Khalil Gibran, "na doçura da amizade, que haja risos e partilha de prazeres. Pois no orvalho das pequenas coisas, o coração encontra sua manhã e é renovado".

Que o 20 de julho não seja apenas uma data no calendário, mas uma pausa para reconhecer esses seres iluminados que tornam a nossa travessia, por mais breve e misteriosa que seja, uma obra de arte compartilhada. Pois, no fim, o que nos resta é a luz que conseguimos acender uns nos outros, num mundo que tanto insiste em nos entregar ao breu. 

Sejamos, pois, esse fanal e esse porto. Pois, como dizia o poeta, "quem tem um amigo, mesmo que um só, não importa onde se encontre, jamais estará sozinho". 

© Alberto Araújo 






 

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