A baía é, antes de tudo, um palco. E o que se desenrola nela o cruzar constante, o ir e vir eterno entre Rio e Niterói, não é apenas um deslocamento geográfico, mas um ritual de civilização. No vídeo, vemos o encontro: a Apolo I e a Urca III. Nomes que carregam a mitologia e a geografia, colidindo suavemente no vasto espelho azul da Guanabara. Esse instante, capturado pela lente de um transeunte, é uma metáfora perfeita para o encontro de escritores na cultura brasileira: dois mundos que se cruzam, que se reconhecem e que, por um segundo, dividem o mesmo destino antes de seguirem seus caminhos solitários.
Na literatura brasileira, o "encontro" raramente é físico. Ele é, quase sempre, uma troca de cartas, um prefácio lido sob a luz de um candeeiro, ou a leitura de um autor que descobre em outro, distante no tempo ou no espaço, a mesma angústia. Pense na correspondência de Clarice Lispector, ou nos encontros casuais (ou formais) entre Drummond e Bandeira. Eles eram como essas barcas. Navegando em rotas distintas, mas dentro do mesmo corpo líquido que é a língua portuguesa, as tradições, as dores e as alegrias do Brasil.
O que as barcas nos ensinam sobre a escrita é a paciência. Ninguém apressa a travessia. Ela tem o tempo da maré, o tempo do motor, o tempo da espera. O escritor brasileiro, muitas vezes, é um navegador solitário. Ele olha para o horizonte, vê as montanhas que circundam a baía (o Pão de Açúcar, o Corcovado) e escreve como quem tenta desenhar o mapa do que ainda não existe. Mas, quando ele cruza com outro escritor, quando o seu livro encontra a estante de outro, o que acontece é esse "apito" silencioso entre a Apolo I e a Urca III. É o reconhecimento de que, apesar da imensidão, não estamos sós.
A cultura brasileira é feita desses cruzamentos. É um arquipélago de subjetividades que, de tempos em tempos, se permite a comunhão. Somos um povo que, como as barcas, vive entre margens. O Rio de Janeiro é a margem da euforia, da pressa, do brilho; Niterói, a margem do olhar atento, da contemplação, do recuo. O escritor vive, quase sempre, no meio do caminho, entre as duas margens, sentindo o balanço da água.
E é nesse balanço que a escrita acontece. O encontro das barcas no vídeo não é uma colisão, é um cumprimento. Uma breve sinfonia metálica que corta o silêncio do mar. Na literatura, é a citação, é a epígrafe, é o diálogo que se estabelece entre um poema de ontem e um romance de hoje. Quando um escritor homenageia o outro, ele está, metaforicamente, diminuindo a velocidade, deixando que a sua embarcação flutue ao lado da outra, reconhecendo a carga, o destino e, sobretudo, a bravura de quem também escolheu a imensidão da escrita como ofício.
Portanto, que saibamos, como as barcas da Guanabara, transitar entre as nossas próprias margens. Que possamos entender que a nossa solidão de escritor é apenas uma parte da viagem, e que a verdadeira beleza, a beleza que sustenta a nossa cultura, reside na capacidade de, em meio à vastidão do oceano, levantar os olhos, acenar para o outro que passa e continuar, com firmeza e propósito, rumo ao nosso porto.
O encontro das barcas é, afinal, o encontro das nossas vozes. E, enquanto houver alguém para assistir a esse movimento da margem, a literatura brasileira continuará, resiliente, a atravessar o mar.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
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