O jornalismo, em sua essência mais pura, não é apenas o registro do factual. Ele é, antes de tudo, uma tentativa desesperada de capturar o efêmero, de transformar o instante que foge em algo que possa ser guardado na memória coletiva. Quando publiquei a entrevista com Raquel Naveira, essa voz que é o próprio estuário da lírica e da erudição, eu sabia que estava entregando ao público um fragmento de algo maior. Mas não imaginei que a repercussão ganharia contornos de poesia.
Entre as mensagens que chegaram, uma luz se destacou com uma força telúrica. Era a voz de Matilde Carone Slaibi Conti, presidente do Elos Internacional, Núcleo da Rede Sem Fronteiras em Niterói, Cenáculo Fluminense de História e Letras e outras instituições brasileiras. Mineira da gema, nascida em Visconde do Rio Branco, ela carrega no DNA a sensibilidade de quem conhece o peso e o valor da terra. Para quem traz o chão de Minas, aquele solo que guarda a história do Brasil em cada minério e cada montanha, reconhecer a alma de outra região é um gesto de quem entende que a pátria é feita de pó, pedra e memória.
Ao ler suas palavras, senti o chão de Campo Grande, cidade natal de nossa entrevistada, vibrar sob meus pés. Ela não apenas elogiou; ela transmutou a entrevista em uma metáfora viva. Ao lembrar-nos que Mato Grosso do Sul é apelidado de “Cidade Morena”, Matilde não estava apenas usando uma licença poética; ela estava rebatizando o espírito do estado com a ancestralidade do solo que nos sustenta.
O apelido “Cidade Morena” carrega consigo uma crônica própria. Não é um título comercial ou forjado em gabinetes; é um batismo da terra. Nascido da cor avermelhada, rica em ferro, que tinge o chão de Campo Grande e parece incendiar o horizonte quando o sol se põe, esse epíteto diz muito sobre nós. É uma terra que não se deixa esconder. Ela mancha, ela marca, ela colore as botas dos tropeiros que fundaram nossas raízes em 1877 e permanece firme sob o asfalto cosmopolita de hoje.
Quando Matilde associou a Academia a essa “Cidade Morena”, ela nos lembra de que a literatura, em Mato Grosso do Sul, não é um exercício estéril, feito em torres de marfim. Ela é telúrica. Ela tem a cor do chão. É uma escrita que, como o nosso solo, carrega a força dos minerais, a resiliência das raízes e o calor que, ao entardecer, abraça o Pantanal ali perto. A Academia, sob essa perspectiva, torna-se o jardim onde essa terra floresce em forma de verso, crônica e memória.
A comparação de Matilde, esse “golaço” literário, ressoa com uma verdade profunda. Vivemos tempos de velocidade, de informações descartáveis que deslizam pela tela como água em vidro embaçado. Parar para ler Raquel Naveira, para mergulhar em sua profundidade, é um ato de resistência. Quando a presidente de inúmeras Academias convoca o público a “ler, reler e, quem sabe, até decorar” esse diálogo, ela está defendendo a permanência da palavra.
O “bate-bola” entre mim e Raquel, que ela gentilmente rotulou como uma preciosidade, ganha agora uma nova camada de significado. Ele deixa de ser apenas um registro jornalístico para se tornar parte do patrimônio imaterial daquela "Cidade Morena" das letras. Há algo de muito terno em saber que, em uma época onde o futebol mobiliza multidões, uma conversa sobre literatura pode ser celebrada com o mesmo fervor de um gol no último minuto. É o reconhecimento de que a cultura também é um esporte de alto rendimento: exige preparo, fôlego e, acima de tudo, o amor pelo jogo.
Campo Grande é um organismo vivo. Caminhar pelas suas avenidas largas, sob a sombra generosa de suas árvores, que fazem da capital uma das mais arborizadas do Brasil, é sentir a pulsação de um lugar que se reinventou. Do Parque das Nações Indígenas, onde a natureza observa a metrópole com olhos de capivara e o canto das aves, ao movimento incessante do Centro, a cidade é um mosaico de origens.
Somos, como bem define nossa história, o encontro do mundo. O árabe que trouxe o aroma das especiarias, o japonês que nos presenteou com o conforto do sobá, o migrante que trouxe a coragem de outros estados e o paraguaio que nos ensinou a partilhar a sopa e o tereré. O tereré, aliás, é o nosso grande mediador. Em torno da cuia, as hierarquias desaparecem. O silêncio é permitido, a conversa é lenta e a amizade é constante.
A Academia de Letras, portanto, não é um prédio; é uma roda de tereré eterna. É o lugar onde a nossa diversidade cultural se transforma em um idioma comum. Ao chamar de “Cidade Morena”, Matilde capturou a alma de um lugar que não se isola. Ele respira o ar da rua, ele tem o pó do chão, a capital de Mato Grosso do Sul, está sempre aberto a quem chega para compartilhar uma história.
O que fica de tudo isso? O que resta quando a notícia perde o brilho de sua estreia? Resta a marca. Assim como a terra vermelha de Campo Grande marca a roupa de quem nela pisa, as grandes conversas marcam a alma de quem as realiza. A entrevista com Raquel Naveira, que foi intercedida pela bênção da Presidente Matilde, provou que o jornalismo, quando feito com reverência, vira história.
Estar na “Cidade Morena”, seja a geográfica, seja a literária, é entender que não somos apenas habitantes de um território. Somos os guardiões de um solo que, se bem cultivado, produz os frutos mais perenes do espírito humano: o saber, a arte e a memória.
Que venham outros “golaços”. Que continuemos, com o calor do sol do entardecer e a paciência de quem toma um tereré, a escrever a história dessa terra que, de tão viva e fecunda, não aceita ser apenas o cenário, mas exige ser a própria protagonista das nossas crônicas.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
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