Em nossa vida existem sons que permanecem adormecidos até que o aceno de uma sensibilidade rara os desperte. Que a alma guarda em uma gaveta secreta, esperando apenas o sopro de uma brisa mansa para destrancá-la. A sua mensagem, Gilda, foi essa brisa. Quando os seus olhos tocaram as minhas linhas e as suas mãos teceram aquela resposta, não foi um simples comentário digital que cruzou o espaço; foi o perfume da terra molhada após a primeira chuva de dezembro ou janeiro que invadiu o meu quarto.
As palavras que você escolheu carregavam o peso leve da poesia. Elas me trouxeram de volta a infância, o barulho do vento nas folhas de carnaúba, o estalar do chão seco sob os pés descalços. E, de repente, a distância física evaporou-se. Fui tragado de volta ao Piauí com a força de um abraço saudoso, revivendo cada palmo daquele chão que nos habita.
A filosofia nos ensina que o homem é um ser de horizontes, mas a poesia nos lembra de que o horizonte mais vasto é sempre o de dentro. Você, com essa imensa sensibilidade que transborda, revelou-se muito mais do que uma leitora atenta: revelou-se uma Geógrafa de Alma.
Enquanto a ciência dos mapas mede distâncias, demarca rios e calcula altitudes com a frieza dos números, a sua geografia é a arte de cartografar os afetos. Você mapeia o invisível. Encontrou no meu texto não apenas letras dispostas em sequência, mas o relevo da nossa saudade, a hidrografia das nossas lágrimas e a seiva que alimenta a nossa essência mais profunda.
Olhar para as nossas raízes é um exercício sagrado de autoconhecimento. No sertão que nos pariu em espírito, a existência não é um dado abstrato; ela é esculpida a ferro e fogo, ou melhor, a sol e poeira. A seca, que a nomeou com tanta propriedade, veste-se de uma categoria metafísica. Ela é a grande lapidadora da nossa têmpera.
Onde a terra racha e o sol escalda, a vida não desiste; ela apenas se recolhe ao silêncio fértil da raiz, guardando forças para o tempo da graça.
Há uma beleza quase dolorosa nessa paciência do sertanejo. É o estoicismo de quem compreende os ciclos do cosmos sem perder a esperança na promessa da chuva. Quando você leu o meu texto e o devolveu banhado dessa compreensão, percebi que a saudade não é um poço de melancolia, mas um altar. O saudosista é o guardião do sagrado. Ele olha para trás não para estacionar no tempo, mas para recolher a luz que o guiará na travessia. Em um mundo tão líquido e apressado, fincar os olhos nas nossas origens é um ato de profunda resistência lírica.
E como não me render à imagem poética que você evocou ao falar da "paciência perene do Velho Monge"?
Heráclito dizia que nunca nos banhamos no mesmo rio. Mas o Parnaíba, na sua majestade secular, parece desafiar a pressa do filósofo grego. Ele corre, silencioso e soberano, lavando as margens da nossa história, levando consigo os segredos de um povo, mas mantendo intacta a sua alma. O Velho Monge é o próprio tempo transformado em água.
Sentar-se às margens desse rio, embalado pelas suas palavras, foi um exercício de purificação. O sol ensolarado que você descreveu, esse calor que aquece a alma e não apenas o corpo, é a luz da verdade que nos desnuda. No sertão, não há espaço para máscaras. Sob a claridade implacável daquele sol, a vida é nua, crua e intensamente verdadeira. O rio ensina a contornar os obstáculos com a suavidade da persistência, lembrando-nos de que a força verdadeira nunca faz alarde; ela apenas flui, inexorável e mansa.
Você encerra a sua mensagem com uma verdade que pulsa como um segundo coração: "um interior sertanejo que jamais deixa de pulsar nas veias dos seus filhos".
Como explicar que a poeira de uma estrada vicinal se transforme em hemoglobina? Como pode a vastidão de um horizonte seco ajustar o ritmo das batidas do nosso peito, mesmo quando vivemos longe?
É a Topofilia em seu estado mais puro, o amor visceral pelo chão que nos viu nascer ou que adotou os nossos sonhos. O Piauí não é um ponto no mapa que se visita nas férias; é um estado de espírito que viaja dentro de nós. Ele mora no sotaque que teima em escapar, na forma como olhamos o pôr do sol, na ânsia por horizontes livres.
Essa pulsação que você identificou foi o que me arrebatou. Fiquei profundamente saudosista, sim, mas foi uma saudade bonita, daqueles que brotam nos olhos como orvalho e se transformam em gratidão.
Gilda, a sua sensibilidade foi o espelho que capturou a luz da minha escrita e a devolveu amplificada. Quando escrevemos, lançamos uma semente ao vento; quando lemos uma resposta como a sua, sabemos que a terra era fértil.
Você provou que a verdadeira geografia não estuda apenas o solo, mas o que o homem faz com a saudade desse solo. Obrigado por me devolver a minha própria pátria em forma de poesia. As suas palavras agora correm juntas com o Velho Monge, regando as minhas raízes e mantendo o sertão vivo, pulsante e eterno dentro de mim. Com carinho e a alma banhada pelo sol da nossa terra,
© Alberto Araújo





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