Em um tempo em que a luz das telas ainda não havia se infiltrado nos lares como um sol artificial, a imaginação era soberana. Os brinquedos, simples em sua matéria, eram portais para universos infinitos. Bastava um quintal de terra batida, o cheiro de chuva recém-caída e o riso das crianças para que o mundo se transformasse em palco de epopeias invisíveis.
As bolinhas de gude, translúcidas como pequenos planetas, rolavam em batalhas épicas. Cada choque era um trovão, cada vitória um triunfo digno de Homero. Havia nelas o reflexo do céu e da terra, como se fossem fragmentos de cosmos aprisionados em vidro. Jogar gude era, de certo modo, brincar de astronomia: cada criança era um demiurgo, rearranjando constelações no chão.
Os piões, esculpidos em madeira, giravam como bailarinos ancestrais. Ao rodopiarem, evocavam danças tribais, lembrando os rituais indígenas que celebravam a vida e a colheita. O som metálico da ponta riscando o chão era como o compasso de um tambor distante. O pião não era apenas brinquedo: era metáfora da existência, que gira, gira, até perder o fôlego, mas deixa no ar a beleza de seu movimento.
As bonecas de pano, com seus sorrisos costurados, eram confidentes silenciosas. Guardavam segredos como sacerdotisas de um templo íntimo. Seus vestidos remendados eram testemunhos da economia doméstica, mas também da ternura das mãos maternas que costuravam sonhos. Elas ensinavam às crianças que a beleza não está na perfeição, mas na história que cada cicatriz carrega.
Os carrinhos de madeira, com rodas tortas e pintura improvisada, eram cavalos de fogo em pistas imaginárias. Não precisavam de gasolina, apenas da energia inesgotável da fantasia. Cada corrida era uma viagem ao futuro, onde o menino se tornava engenheiro, piloto, inventor. Havia neles o germe da criatividade que, mais tarde, ergueria cidades e máquinas.
A amarelinha, desenhada com giz no asfalto, era uma cartografia mágica. Cada quadrado era um território conquistado, cada salto uma travessia entre mundos. Era como se as crianças fossem argonautas, navegando por mares invisíveis, guiadas apenas pela coragem de seus pés descalços. O giz, frágil e efêmero, lembrava que toda aventura é passageira, mas deixa marcas na memória.
As cordas, giradas em ritmo frenético, eram instrumentos de música corporal. O som do impacto no chão, o riso sincronizado, o desafio da coordenação: tudo se transformava em sinfonia. Saltar corda era dançar com o tempo, era desafiar a gravidade com leveza. E quando o céu parecia o limite, as crianças descobriam que o limite era apenas uma invenção dos adultos.
E havia os heróis. Ah, os heróis! Super-Homem, com sua capa vermelha esvoaçante, era o mito moderno que ensinava coragem e justiça. Mulher-Maravilha, amazona indomável, mostrava que a força não era privilégio masculino. Esses personagens, vindos das páginas coloridas das revistas em quadrinhos, eram arquétipos que dialogavam com mitologias antigas: Hércules, Atena, Aquiles. A infância analógica era também uma escola de mitologia, onde cada criança aprendia que ser herói não é voar, mas enfrentar o medo com dignidade.
Os brinquedos de outrora eram tesouros escondidos, guardados em caixas de papelão, em baús de madeira, em cantos de quintal. Não tinham bateria, não piscavam luzes, não falavam em vozes programadas. Mas tinham alma. Eram feitos de matéria simples, mas carregavam o poder de transformar o ordinário em extraordinário.
Brincar era um ato de resistência contra o vazio. Era aprender a compartilhar, a negociar, a perder e a ganhar. Era ensaio para a vida adulta, mas sem pressa, sem peso. A infância analógica nos ensinava que o mundo pode ser reinventado com um pedaço de giz, uma corda, um carrinho de madeira.
Hoje, quando olhamos para trás, percebemos que aqueles brinquedos eram mais do que passatempo: eram pedagogia da imaginação. Eles nos ensinaram a criar sem manual, a inventar sem aplicativo, a sonhar sem algoritmo. E talvez seja por isso que ainda nos emocionamos ao lembrarmos do cheiro da terra molhada, do som das bolinhas de gude, do rodopio dos piões.
A maior aventura da infância não
estava em possuir, mas em transformar. Transformar o quintal em arena, a rua em
palco, o brinquedo em universo. Transformar o silêncio em sinfonia. E, acima de
tudo, transformar a si mesmo em herói, não o herói invencível das páginas, mas
o herói cotidiano, capaz de acreditar, de persistir, de amar.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural

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