O
dia se despede com um suspiro dourado. Em Icaraí, o tempo parece desacelerar,
como se o próprio universo se curvasse diante da beleza que se desenha entre o
céu e o mar. O sol, em seu ritual diário de partida, mergulha lentamente atrás
das montanhas que guardam o Rio de Janeiro como sentinelas silenciosas. E ali,
no alto, de braços abertos, o Cristo Redentor observa tudo com a serenidade de
quem já viu milênios passarem.
A
praia se transforma em palco. Os espectadores são anônimos: casais de mãos
entrelaçadas, crianças que ainda não compreendem a magnitude do momento,
corredores que diminuem o passo, pescadores que recolhem suas redes. Todos,
mesmo sem saber, participam de um espetáculo que não cobra ingresso, mas exige
entrega. O céu se pinta em tons de laranja, rosa e púrpura, como se um artista
celestial tivesse derramado sua paleta sobre a tela do horizonte.
O
mar, cúmplice do céu, reflete cada nuance com devoção. As ondas, suaves como
sussurros, lambem a areia com ternura. Um pequeno barco desliza, solitário,
como se buscasse alcançar o último raio de luz antes que ele se esconda. E
acima, cortando o cenário com precisão poética, um avião risca o céu, metáfora
perfeita da fugacidade da vida, da pressa humana diante da eternidade da
natureza.
Há
algo de sagrado nesse instante. Não é apenas um pôr do sol. É um rito. Uma
oferenda. Uma lembrança de que, por mais que o mundo gire em frenesi, há
momentos que nos obrigam a parar, respirar e sentir. Icaraí, com sua moldura de
montanhas e mar, oferece esse presente todos os dias, mas só os atentos o
recebem de verdade.
O
Cristo, imóvel e eterno, parece abençoar o crepúsculo. Seus braços abertos não
são apenas símbolo de fé, mas de acolhimento. Como se dissesse: “Venham,
contemplem, deixem que a luz toque suas almas.” E ela toca. Porque é impossível
não ser tocado por essa dança de cores e silêncios. O barulho da cidade se
dissolve. O som das ondas se torna oração. E cada olhar voltado para o
horizonte carrega uma pergunta, uma saudade, uma esperança.
A
areia guarda pegadas que logo serão apagadas, mas naquele instante são
testemunhas. Os pés que caminham sobre ela carregam histórias, amores,
despedidas. E o sol, antes de partir, parece ouvir cada uma delas. Ele se
despede com delicadeza, como quem não quer ir, mas sabe que precisa. E ao
desaparecer, deixa um rastro de luz que ainda brilha nos olhos de quem o viu.
O
avião, agora distante, é lembrança de que há outros mundos, outras rotas,
outras vidas. Mas ali, naquele pedaço de mundo chamado Icaraí, tudo parece
suficiente. A beleza é tanta que não cabe em palavras, mas insiste em ser
escrita. Porque há crônicas que nascem do silêncio, da contemplação, da
entrega. E essa é uma delas.
Quando
a noite enfim chega, trazendo seu manto de estrelas, o coração ainda pulsa no
ritmo do pôr do sol. E quem esteve ali, mesmo que por alguns minutos, leva
consigo um pedaço de eternidade. Porque há pores do sol que não terminam. Eles
continuam dentro da gente, como lembrança, como poesia, como luz.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural

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