segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

LUAR DO SERTÃO CATULO DA PAIXÃO CEARENSE, JOÃO PERNAMBUCO QUANDO MARLENE DIETRICH ESTEVE NO BRASIL EM 1959






LUAR DO SERTÃO CATULO DA PAIXÃO CEARENSE, JOÃO PERNAMBUCO QUANDO MARLENE DIETRICH ESTEVE NO BRASIL EM 1959, ELA CANTOU ESTA FAMOSA CANÇÃO DO CANCIONEIRO BRASILEIRO, LUAR DO SERTÃO.

 

CLICAR NO LINK: https://www.youtube.com/watch?v=rArD8SoSd8k



 

 JOÃO PERNAMBUCO e CATULO DA PAIXÃO CEARENSE

 

 

Luar do Sertão Catulo da Paixão Cearense, João Pernambuco por Editores da Enciclopédia Itaú Cultura

 

Uma das mais conhecidas músicas do cancioneiro brasileiro, Luar do Sertão tem sua primeira gravação por Eduardo das Neves (1874-1919), em disco da Odeon lançado em 1914, catalogado como toada sertaneja. Na esteira da música chamada “caipira” ou “sertaneja” – fusão de ritmos e gêneros do interior do país, tais como modas, toadas, cateretês...

 

Uma das mais conhecidas músicas do cancioneiro brasileiro, Luar do Sertão tem sua primeira gravação por Eduardo das Neves (1874-1919), em disco da Odeon lançado em 1914, catalogado como toada sertaneja. Na esteira da música chamada “caipira” ou “sertaneja” – fusão de ritmos e gêneros do interior do país, tais como modas, toadas, cateretês e emboladas – esta gravação se encerra com um diálogo entre o intérprete e uma das coristas, remetendo aos laços comunitários do homem rural. Com versos singelos, intercalados pelo estribilho:

 

Não há, oh gente

Oh não,

Luar como esse

Do Sertão.

 

A canção traz referências à natureza e à simplicidade da vida no campo. Evoca a lua, a serra, a mata, a viola, o canto da sururina, o galo triste, a onça contemplando o luar sem pressa, em contraponto à “gente fria” e ao “luar escuro” da cidade. A simplicidade é um dos fatores responsáveis por sua perpetuação na memória afetivo-musical de várias gerações.

 

Os versos são inspirados no coco É do Maitá ou Meu Engenho é de Humaitá, adaptado e apresentado a Catulo da Paixão Cearense (1863-1946) pelo violonista João Pernambuco (1883-1947), que leva alguns anos para reivindicar a coautoria. O motivo provável é o fato de se considerar um adaptador, não compositor. O radialista e pesquisador Almirante (1908-1980) que, a partir de 1939 torna Luar do Sertão prefixo musical da Rádio Nacional, reacende a polêmica em seus programas nos anos 1950. Mais tarde, em seu livro No Tempo de Noel Rosa (1963), reitera a versão de que Catulo teria se apropriado da melodia de Pernambuco para compor seus versos, amparando-se em depoimentos de Heitor Villa-Lobos (1887-1959), Mozart de Araújo (1904-1988), Sílvio Salema (1901-1976) e Benjamin de Oliveira (1870-1954). Na mesma direção, Ary Vasconcelos (1926-2003) relata, em seu Panorama da Música Popular Brasileira na Belle Époque (1977), ter ouvido Luperce Miranda (1904-1977) tocar duas versões do É do Maitá: a original e outra de João Pernambuco, esta muito parecida com Luar do Sertão.

 

Quando a toada é lançada, Catulo já é reconhecido como poeta e mediador cultural. Consegue levar o violão, instrumento rechaçado pela elite, ao prestigiado recital no Instituto Nacional de Música (1908). João Pernambuco também conquista espaço, e lança moda no Rio de Janeiro, com a caracterização sertaneja do seu Grupo Caxangá, que encerra o ciclo de conferências Lendas e Tradições Brasileiras. O ciclo foi promovido pelo escritor Afonso Arinos (1868-1916) no Theatro Municipal de São Paulo no ano seguinte à gravação. A tendência regionalista ganha fôlego: toadas, canções sertanejas e outros gêneros regionais passam a conviver com valsas, mazurcas e cançonetas francesas nos salões da capital. Tais gêneros perdem a preferência para o samba no final dos anos 1920.

 

Dedicado a Assis Chateaubriand (1982-1968), o poema, com suas 12 estrofes, é publicado por Catulo em seu livro Mata Iluminada (1924). Antes disso, a canção já é cantada nas rodas de serestas em versão reduzida, fixada pelo padrão dos registros fonográficos, com faixas em torno de três minutos de duração. Ela se estrutura em uma única frase. A segunda parte é uma variação estrita da primeira, permitindo ao refrão soar ao fundo, cantado ou tocado, simultaneamente à estrofe, que traz as novas letras. A dos anos 1930, todas as gravações restringem-se a três estrofes, que variaram conforme o intérprete, assim como o gênero indicado no selo do disco. Isto aponta a fluidez dos gêneros na indústria fonográfica brasileira, e o estabelecimento de padrões de instrumentação na música gravada, nos quais os grupos de choro e seresta têm papel fundamental.

 

Além de toada, Luar do Sertão é chamado de canção, nas gravações de Paraguassu (1890-1976), em 1936; de Francisco Alves (1898-1952), em 1943; na versão de Singing Babies, em 1935; de Vicente Celestino (1894-4968), em 1952 e Paulo Tapajós (1913-1990), em 1955. Nota-se o contraste entre as gravações de Eduardo das Neves e Paraguassu, nas quais o coro e a instrumentação são mais contidos, com o tratamento orquestral grandiloquente; a versão de Vicente Celestino tem seu característico dó de peito, e a de Francisco Alves, orquestração em ritmo jocoso.

 

 

A partir do sucesso de Luar do Sertão, Catulo muda os rumos de seu trabalho, passando de conhecido autor de modinhas a poeta sertanejo. A poesia de Luar do Sertão, ainda fiel às regras gramaticais e aos cânones românticos, é a porta de entrada para trabalhos que ora levam o poeta a ser criticado, ora elogiado. A crítica vem de autores como Monteiro Lobato (1882-1948), avesso às deturpações da norma culta em função do dialeto caipira. O elogio vem, por exemplo, de Mário de Andrade que reconhece na imitação da dicção e do sentir do homem rural o aspecto mais admirável de sua poesia. Em entrevista para Joel Silveira (1918-2007) e Francisco de Assis Barbosa (1914-1991), Catulo declara ter escrito mais de 200 modinhas, criado um novo estilo, “mas, com o império dos sambas e das marchinhas, tudo isso já morreu! De todo esse florilégio lírico só não morrerá o Luar do Sertão.2

 

A percepção do poeta parece acertada: Luar do Sertão é uma das canções mais regravadas na história da música popular brasileira de todas as gerações. Recebe versões de Orlando Silva (1915-1978), Luiz Gonzaga (1912-1989), Inezita Barroso (1925-2015), Maria Bethânia (1946), Elba Ramalho (1951), Elomar (1937), Xangai (1948), Chitãozinho e Xororó, Baden Powell (1937-2000), Caetano Veloso (1942), Jair Rodrigues (1939-2014), Milton Nascimento (1942), Roberto Côrrea (1957), Eliete Negreiros (1951). No funeral de Catulo, ela é entoada por milhares de pessoas.


MARLENE DIETRICH 

MARLENE DIETRICH 


 

Notas

1. ANDRADE, Mário de. Aspectos da música brasileira. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes; Brasília: INL, 1975. p. 126.

2. Segunda edição publicada em 1945, citada por VASCONCELOS, Ary. Panorama da Música Popular Brasileira na Belle Époque. Rio de Janeiro: Livraria Sant’Anna, 1977. p. 121.

 

Fontes de pesquisa 8Abrir módulo

ANDRADE, Mário de. Aspectos da música brasileira. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes; Brasília: INL, 1975. 247 p.

CEARENSE, Catullo da Paixão. Matta Iluminada. Rio de Janeiro: Livraria Castilho, 1924.

GALVÃO, Walnice Nogueira. Metamorfoses do sertão. Estudos Avançados. São Paulo, v. 18, n. 52, set./dez. 2004. Disponível em:< http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142004000300024 >. Acesso em: 21 out. 2015.

MORAES, Kleiton de Sousa. Catullo Cearense ou a trajetória literária de um bardo ordinário. XXVII Simpósio Nacional de História. Natal, 22 a 26 de julho de 2013. Disponível em: < http://snh2013.anpuh.org/resources/anais/27/1371332449_ARQUIVO_Catullosertanejo-artigo_1_.pdf >. Acesso em: 21 out. 2015.

PINTO, João Paulo do Amaral. A Música Caipira e o advento do disco. Sonora – Revista do Instituto de Artes da Unicamp. Campinas, v. 2, n. 3 (2). Disponível em: < http://www.sonora.iar.unicamp.br/index.php/sonora1/article/viewFile/20/19 >. Acesso em: 21 out. 2013.

SEVERIANO, Jairo e MELLO, Zuza Homem de. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras (vol. 1: 1901-1957). São Paulo: Editora 34, 1997. (Coleção Ouvido Musical).

VASCONCELOS, Ary. Panorama da Música Popular Brasileira na Belle Époque. Rio de Janeiro: Livraria Sant'Anna, 1977. 454 p.

ZAN, José Roberto. Tradição e assimilação na música sertaneja. Anais do 9º Congresso Internacional da Brazilian Studies Association (Brasa). Nova Orleans, Louisiana, Tulane University, 2008. Disponível em: < http://www.brasa.org/wordpress/Documents/BRASA_IX/Jose-Roberto-Zan.pdf >. Acesso em: 21 out. 2015.

Como citarAbrir módulo

 

Para citar a Enciclopédia Itaú Cultural como fonte de sua pesquisa

 

LUAR do Sertão. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2021.

Disponível em: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra6120/luar-do-sertao.

 

Acesso em: 06 de dezembro de 2021. Verbete da Enciclopédia.

ISBN: 978-85-7979-060-7

 

Última atualização: 12.09.2019

 

 


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