A casa de Dona Eudóxia respirava ares de antiguidade e um certo melancólico requinte. Viúva há anos, encontrava consolo na companhia de seus objetos, testemunhas silenciosas de um passado mais vívido. Entre eles, um retrato a óleo de seu falecido esposo, Coronel Agripino, ocupava lugar de destaque na sala de visitas.
A tela capturava o Coronel em seus anos de maior vigor, o olhar firme e o bigode bem aparado, transmitindo a autoridade e a respeitabilidade que lhe eram peculiares. Dona Eudóxia admirava o retrato diariamente, encontrando ali uma espécie de presença constante, uma lembrança tangível de um tempo que não voltava mais.
Certo dia, recebeu a visita de um velho amigo da família, Dr. Fausto, um homem de olhar perspicaz e comentários sempre carregados de uma fina ironia, traços que o diferenciavam da maioria dos frequentadores da casa. Após os cumprimentos de praxe e as conversas amenas sobre a saúde e os acontecimentos da cidade, Dr. Fausto deteve-se diante do retrato.
"Belo trabalho," comentou, a voz carregada de uma entonação difícil de decifrar. "Captura bem a... solidez do Coronel."
Dona Eudóxia sorriu levemente, acostumada ao jeito peculiar do amigo. "Sim, foi pintado pouco antes de sua partida. Considero-o uma representação fiel."
Dr. Fausto aproximou-se mais, franzindo ligeiramente a testa. "Fiel... talvez. Mas há algo... singular. Um pequeno detalhe que sempre me chamou a atenção."
Dona Eudóxia, curiosa, aproximou-se também, observando a tela com mais atenção do que de costume. "Um detalhe? Nunca percebi nada de extraordinário."
Dr. Fausto apontou para a mão direita do Coronel, que repousava sobre o punho de uma bengala. "Veja bem os dedos. O anelar... não lhe parece um pouco... alongado demais? Desproporcional ao restante da mão?"
Dona Eudóxia examinou detidamente. De fato, o dedo anelar parecia ligeiramente mais comprido do que seria esperado, uma pequena anomalia em meio à representação impecável. Nunca havia notado tal detalhe antes.
"Bem," disse ela, um tanto intrigada, "talvez fosse uma peculiaridade do Coronel. Nunca reparei em suas mãos de maneira tão específica."
Dr. Fausto sorriu de um jeito enigmático. "Ah, Dona Eudóxia, duvido muito. Conheci bem o Coronel, e suas mãos eram de um homem prático, sem dedos excessivamente longos. Creio que o pintor, talvez por um descuido ou uma estranha licença artística, cometeu essa pequena... imprecisão."
A conversa seguiu por outros rumos, mas a observação de Dr. Fausto plantou uma semente de dúvida na mente de Dona Eudóxia. Nos dias seguintes, passou a observar o retrato com uma atenção obsessiva, focando naquele dedo anelar alongado. Quanto mais olhava, mais aquele pequeno "defeito" parecia destoar da imagem imponente do Coronel.
Começou a recordar-se de detalhes esquecidos, de comentários passageiros. Lembrou-se de uma ocasião em que uma amiga, observando uma fotografia do Coronel, havia feito uma observação sobre a delicadeza de seus dedos, algo que na época lhe parecera um tanto deslocado para um homem de sua posição.
A dúvida transformou-se em uma leve perturbação, que logo evoluiu para uma crescente angústia. Aquele pequeno detalhe no retrato parecia desvelar algo mais, uma incongruência sutil que a impedia de ver a imagem do marido com a mesma devoção de antes.
Em uma tarde chuvosa, enquanto contemplava o retrato sob a luz sombria, Dona Eudóxia teve um insight perturbador. Lembrou-se de uma história antiga, um boato que circulava na sociedade anos atrás, antes de seu casamento com o Coronel. Falava-se de um pintor talentoso, mas de vida boêmia e pouco afeito aos compromissos, que havia tido um caso amoroso breve e intenso com uma dama da alta sociedade. O nome do pintor havia se perdido na névoa do tempo, mas a descrição física... guardava certas semelhanças com o artista que pintara o retrato do Coronel.
Uma ideia sombria começou a tomar forma em sua mente. E se aquele pequeno defeito no dedo não fosse um erro, mas sim uma assinatura sutil, uma lembrança codificada de um segredo? E se a mão retratada não fosse inteiramente a do Coronel?
Movida por uma angústia crescente, Dona Eudóxia
procurou o ateliê do pintor, um senhor já idoso e de memória falha.
Inicialmente, ele não se lembrava do retrato do Coronel Agripino. Mas, ao ver
uma fotografia da obra, seus olhos se iluminaram com uma vaga nostalgia.
"Ah, sim... o Coronel. Um homem de posses. Lembro-me da encomenda. Mas houve... uma pequena complicação."
Hesitante, o pintor revelou que, durante a execução do retrato, o Coronel havia se ausentado por um período inesperado. Para não atrasar a entrega, e pressionado por suas próprias dificuldades financeiras, o pintor havia recorrido a um modelo substituto para posar para alguns detalhes, especialmente as mãos. O modelo, um jovem músico de dedos longos e elegantes, havia sido contratado às pressas.
A revelação atingiu Dona Eudóxia como um raio. O defeito no retrato não era um erro, mas sim a marca indelével de uma substituição, a prova silenciosa de uma ausência, de um lapso no tempo em que outro homem, com mãos diferentes, havia ocupado o lugar de seu esposo sob o olhar do pintor.
O final surpreendente não residia em um grande escândalo ou em uma traição flagrante. Era algo mais sutil e perturbador: a constatação de que a imagem que ela venerava, a representação de seu marido, continha um fragmento de outro homem, uma pequena intrusão que desfigurava a totalidade da lembrança. Aquele dedo anelar alongado, antes um detalhe insignificante, tornava-se agora um símbolo de uma verdade oculta, um lembrete de que mesmo as representações mais solenes podem carregar em si as marcas inesperadas do acaso e do segredo. E Dona Eudóxia, diante daquele retrato agora irremediavelmente alterado em sua percepção, compreendeu a fragilidade das imagens e a persistente ironia do destino.
© Alberto Araújo