sábado, 21 de fevereiro de 2026

NAGIB SLAIBI FILHO – PRIMEIRO VICE-PRESIDENTE DO NÚCLEO DA REDE SEM FRONTEIRAS EM NITERÓI


O anúncio da composição da diretoria do Núcleo da Rede Sem Fronteiras em Niterói marca um momento histórico para a cidade e para a própria instituição. Sob a presidência da admirável Dra. Matilde Carone Slaibi Conti, o núcleo contará com uma equipe plural e comprometida, formada por nomes que representam diferentes áreas da cultura, da educação e da vida pública. Entre eles, destaca-se a presença do Desembargador Dr. Nagib Slaibi Filho, que assume o posto de 1º Vice-Presidente, trazendo consigo uma trajetória que transcende o Direito e se inscreve na própria história intelectual e cultural do Brasil. 

A composição da diretoria é um reflexo da diversidade e da força da Rede Sem Fronteiras. Cada nome representa não apenas uma função administrativa, mas um compromisso pessoal com a missão de difundir cultura e promover integração. Ao lado da presidente Matilde Conti e do vice-presidente Nagib Slaibi Filho, estão Karin Rangel, Marli Marinho, Ana Paula Aguiar, Sabrina Campos da Cunha, Jocelin Marry Viana Nery, Ângela Maria Riccomi de Paula, Rubens Carrilho Fernandes e o Conselho Fiscal formado por Maria da Conceição Panait, Luciane Queiroz e Maria Otília Marques Camillo. Juntos, formam um corpo diretivo que une experiência, juventude, tradição e inovação. 

Professor respeitado, mestre em Direito Público, doutor, livre-docente e pós-doutor pela Universidade Federal Fluminense, Nagib Slaibi Filho construiu sua carreira acadêmica com rigor e generosidade. Na Universidade Salgado de Oliveira, onde continua a lecionar, suas aulas são pontes entre teoria e prática, entre a letra fria da lei e a vida pulsante dos cidadãos. Mais do que ensinar normas, ele ensina valores: justiça, ética, responsabilidade e humanidade. 

Na magistratura, sua atuação ultrapassou quatro décadas, culminando no posto de Desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, onde presidiu a 3ª Câmara de Direito Público. Sua aposentadoria não significou afastamento, mas sim expansão: continuou presente em academias literárias, institutos culturais, conferências e livros, sempre como alguém que se recusa a estagnar. Sua vida é testemunho de que o verdadeiro intelectual não se aposenta: ele se reinventa. 

Nagib Slaibi Filho é presidente da Academia Niteroiense de Letras e membro de diversas instituições culturais, como a Academia Fluminense de Letras, a Academia Rio-Branquense de Letras, a Academia Brasileira de Letras da Magistratura e o Instituto Histórico e Geográfico de Niterói. Sua presença nessas entidades não é apenas protocolar: é ativa, vibrante, transformadora. Ele é um semeador de cultura, alguém que planta ideias e colhe diálogos, que constrói pontes entre gerações e entre saberes. 

Em 2024, foi aclamado Intelectual do Ano, reconhecimento que se soma a outras distinções, como a Comenda IFEC de Cultura e a Medalha Pedro Ernesto, maior honraria concedida pela Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Esses títulos não são apenas medalhas: são símbolos de uma vida dedicada ao bem comum, à justiça e à cultura.

Autor de livros jurídicos fundamentais, Nagib também se revela como escritor de ensaios e memórias que expõem sua faceta humanista. Não é apenas o magistrado que escreve: é o homem que pensa, que reflete, que compreende a vida como espaço de diálogo entre justiça e beleza. Sua obra literária é testemunho de que o Direito pode ser mais do que norma: pode ser poesia, pode ser filosofia, pode ser caminho de luz.

O nome de Nagib Slaibi Filho ressoa hoje não apenas no Direito, mas também na Literatura, na História, na Educação e na vida pública. Sua presença é serena e firme, capaz de unir mundos que, em muitos casos, se apartam: o da razão jurídica e o da sensibilidade poética. Ele é, ao mesmo tempo, juiz e poeta, professor e escritor, intelectual e cidadão. Sua vida é exemplo de que a verdadeira grandeza está na capacidade de servir, de ensinar e de inspirar.

Assumir a vice-presidência do Núcleo da Rede Sem Fronteiras em Niterói é mais do que um cargo: é um gesto simbólico. Significa que a instituição reconhece em Nagib Slaibi Filho não apenas um líder, mas um guia, alguém capaz de conduzir projetos culturais e sociais com a mesma seriedade com que conduziu processos jurídicos. Sua presença na diretoria é garantia de que o núcleo terá não apenas administração, mas também visão, inspiração e profundidade.

Assim, Nagib Slaibi Filho se inscreve definitivamente entre os grandes humanistas brasileiros. Um homem que fez do Direito um caminho de luz e das Letras um altar de permanência. Sua vida é testemunho de que a justiça e a cultura não são mundos separados, mas faces de uma mesma moeda: a moeda da dignidade humana. Ao assumir a 1ª vice-presidência da Rede Sem Fronteiras em Niterói, ele reafirma seu compromisso com a cidade, com a cultura e com o futuro. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural



MENSAGEM

Parabéns, companheiro Nagib Slaibi Filho! 

Você é exemplo vivo de moral ilibada e saber notório, um verdadeiro Humanista que honra a tradição da justiça e engrandece a cultura brasileira. Sua trajetória inspira e dignifica, mostrando que conhecimento e integridade podem caminhar lado a lado.

Receba meu abraço fraterno e minha admiração sincera.

© Alberto Araújo





 

6 - HAMNET E OS SONETOS DE SHAKESPEARE: A POÉTICA DO TEMPO, DA PERDA E DA ARTE - ENSAIO ACADÊMICO © ALBERTO ARAÚJO

 


Introdução 

O filme Hamnet (2025), dirigido por Chloé Zhao, constitui uma obra cinematográfica que transcende o relato biográfico ao transformar o luto pela morte do filho de William Shakespeare em experiência estética. Inspirado no romance homônimo de Maggie O’Farrell, o longa explora a dor como paisagem e silêncio, estabelecendo um diálogo intertextual com os sonetos do dramaturgo. A narrativa não se limita a reconstruir fatos históricos, mas propõe uma reflexão sobre o tempo, a mortalidade e a permanência da arte. 

Este ensaio busca analisar como Hamnet se articula com os Sonetos 12, 60 e 73, criando uma reflexão estética sobre a fragilidade da vida e a resistência da memória. Para tanto, serão intercaladas frases do filme com versos dos sonetos, em inglês e em tradução para o português, de modo a evidenciar a construção de uma poética compartilhada entre literatura e cinema. 

Metodologia 

A presente análise adota uma abordagem intertextual comparativa, fundamentada em três eixos metodológicos: 

Leitura close reading dos sonetos - leitura minuciosa e detalhada dos textos: examina-se a estrutura poética, as imagens centrais e os recursos retóricos de Shakespeare, com atenção especial às metáforas do tempo e da mortalidade. 

Análise fílmica: considera-se a mise-en-scène, tudo aquilo que compõe visualmente uma cena, os diálogos e a construção visual de Hamnet, observando como o cinema traduz ou ressignifica os temas presentes nos sonetos. 

Intercalação textual: frases do filme são colocadas em paralelo com versos dos sonetos, em inglês e em tradução para o português, permitindo observar como o discurso cinematográfico encarna ou tensiona a filosofia poética. 

Essa metodologia se insere no campo dos estudos comparados de literatura e cinema, conforme discutido por Hutcheon (2006) em A Theory of Adaptation, e por Stam (2005) em Literature and Film: A Guide to the Theory and Practice of Film Adaptation. A análise privilegia a dimensão estética e simbólica, sem pretensão de reconstrução histórica literal, mas como exercício de crítica cultural. 

O TEMPO COMO DESTRUIÇÃO: SONETO 12 E A MORTE DE HAMNET 

Verso original: “When I do count the clock that tells the time, / And see the brave day sunk in hideous night...”  

Tradução: “Quando eu conto as horas que o relógio marca, / E vejo o dia audaz em noite medonha afundar...” 

No Soneto 12, o tempo é representado como força destrutiva, que transforma o dia em noite e a juventude em velhice. A metáfora da “foice do tempo” sintetiza a inevitabilidade da perda.

No filme, essa metáfora ganha corpo na morte precoce de Hamnet. A frase “Ele leva todos os desejos no coraçãozinho dele. É só desejar.” contrasta com a violeta já passada: o desejo infantil é puro, mas destinado a ser ceifado. O filme encarna o instante anterior à destruição, enquanto o soneto antecipa o destino inevitável. 

O FLUXO INCESSANTE: SONETO 60 E OS PROJETOS FRUSTRADOS 

Verso original: “Like as the waves make towards the pebbled shore, / So do our minutes hasten to their end...” 

Tradução: “Tal como as ondas correm para a praia pedregosa, / Assim nossos minutos apressam-se para o fim...” 

O tempo é comparado ao mar, incessante e indiferente. No filme, o diálogo “Eu vi uma casa para nós em Londres... Morar em Londres não dar...” mostra como os projetos de futuro são engolidos pelo fluxo temporal. 

A ausência de Shakespeare, denunciada por Agnes em “Você não estava aqui... Ele agonizou... e você não estava aqui...”, reforça a ideia de que o tempo não concede trégua, arrastando o pai para longe enquanto a morte acontece em casa. Aqui, o filme dramatiza a falha humana diante da inevitabilidade do tempo, ampliando a dor da perda. 

O OUTONO DA VIDA: SONETO 73 E O SACRIFÍCIO DE HAMNET 

Verso original: “That time of year thou mayst in me behold, / When yellow leaves, or none, or few, do hang...” 

Tradução: “Aquela estação do ano podes ver em mim, / Quando folhas amarelas, poucas ou nenhumas, ainda pendem...” 

Neste soneto, Shakespeare compara a velhice ao outono, às brasas que se apagam mas ainda aquecem. No filme, Hamnet diz à irmã: “Eu te dou a minha vida Judith... Eu sou valente...”. O sacrifício infantil é como uma chama que continua em Judith, ecoando a metáfora das brasas que, mesmo em declínio, irradiam calor. 

O amor, diante da morte, intensifica-se. O filme encarna a ideia de que a perda não extingue o vínculo, mas o transforma em memória ardente, tal como o fogo que persiste nas brasas. 

A FRAGILIDADE DOS FILHOS E A ARTE COMO LEGADO 

Verso original (Soneto 12): “And nothing ’gainst Time’s scythe can make defence / Save breed, to brave him when he takes thee hence.” 

Tradução: “Nada detém a foice do tempo que tudo parte, / A não ser os filhos, que te perpetuam após tua morte.”

Shakespeare via nos filhos a única defesa contra o tempo. No filme, Agnes afirma: “O que é dado, é tirado. Não deixe de valorizar os corações de um filho...”. A morte de Hamnet nega essa defesa, tornando a arte o único legado possível.

A peça Hamlet, escrita anos depois, surge como resposta estética ao trauma, perpetuando a memória que a descendência não pôde garantir. Assim, o cinema e a literatura convergem: ambos transformam a dor em criação, resistindo ao esquecimento. 

INTERTEXTUALIDADE E RESSIGNIFICAÇÃO

Ao inserir o Soneto 12 na narrativa, o filme não apenas cita Shakespeare, mas ressignifica sua obra. O texto poético, originalmente universal, ganha dimensão íntima e biográfica. O espectador entende que a reflexão sobre o tempo não é apenas filosófica, mas nasce da experiência concreta do luto. 

O filme, portanto, não adapta Shakespeare de forma literal, mas cria um eco emocional: a perda do filho inspira a arte, e a arte perpetua a memória. Essa intertextualidade reforça a ideia de que o cinema pode dialogar com a literatura não apenas como tradução de formas, mas como continuidade de sentidos. 

CONCLUSÃO 

O diálogo entre Hamnet e os sonetos de Shakespeare revela uma poética da mortalidade em que cinema e literatura se complementam.

O Soneto 12 fornece a metáfora da foice do tempo.

O Soneto 60 mostra o fluxo incessante que não permite pausa.

O Soneto 73 revela a intensidade do amor diante da finitude. 

As frases do filme encarnam essas ideias em diálogos íntimos, transformando filosofia poética em drama humano. Assim, Hamnet não é apenas uma obra sobre perda, mas um ensaio visual sobre como o tempo destrói, como o amor resiste e como a arte se torna a única forma de eternidade.


A ATUAÇÃO DOS PROTAGONISTAS EM HAMNET

JESSIE BUCKLEY COMO AGNES (ANNE HATHAWAY) 

Jessie Buckley recebeu grande destaque da crítica por sua interpretação de Agnes, esposa de Shakespeare. Sua atuação foi premiada com o Globo de Ouro de Melhor Atriz em 2026. 

Buckley constrói Agnes como o coração pulsante do filme: uma mulher que carrega a dor da perda e a ausência do marido.

Sua performance é marcada por gestos contidos, olhares silenciosos e uma dor que nunca se torna excessiva, criando uma atmosfera de luto permanente. 

A frase “Você não estava aqui. Eu daria o meu coração. Ele agonizou... e você não estava aqui...” ganha força justamente pela entrega emocional da atriz, que transforma acusação em desabafo visceral.


PAUL MESCAL COMO WILLIAM SHAKESPEARE 

Paul Mescal interpreta Shakespeare em um registro intimista, evitando o tom grandioso que poderia reduzir o personagem a ícone. 

Sua atuação enfatiza a ausência e o conflito interno: o dramaturgo dividido entre a vida pública e a dor privada. 

Mescal transmite a culpa e o peso da perda através de silêncios e hesitações, reforçando a ideia de que o tempo arrasta o pai para longe, como no Soneto 60. 

A relação com Agnes é construída em tensão: ele é ao mesmo tempo companheiro e ausente, o que intensifica o drama conjugal. 

OS JOVENS ATORES COMO HAMNET E JUDITH 

O núcleo infantil é essencial para o impacto emocional do filme. 

O ator que interpreta Hamnet entrega uma performance de coragem e sacrifício, especialmente nos diálogos: “Eu te dou a minha vida Judith... Eu sou valente...”. 

Judith, por sua vez, é representada com ternura e cumplicidade, reforçando o vínculo fraterno. 

Essas atuações dão corpo ao Soneto 73, em que as brasas que se apagam ainda irradiam calor: o amor entre irmãos permanece mesmo diante da morte. 

DIREÇÃO DE ATORES POR CHLOÉ ZHAO

Chloé Zhao, conhecida por sua estética contemplativa, conduz o elenco com ênfase na naturalidade e na contenção. 

A câmera privilegia os silêncios e os gestos mínimos, permitindo que os atores transmitam emoção sem recorrer ao excesso. 

Essa escolha reforça a ideia de que o luto é uma presença constante, mais sugerida do que explicitada. 

A direção transforma cada atuação em parte da paisagem emocional do filme, criando uma unidade entre performance e estética visual. 

SÍNTESE CRÍTICA 

As atuações de Jessie Buckley e Paul Mescal, somadas ao núcleo infantil, são fundamentais para que Hamnet alcance sua densidade poética. 

Buckley encarna a dor materna como permanência.

Mescal traduz a ausência paterna como falha humana diante do tempo.

Os jovens atores dão corpo ao sacrifício e à intensidade do amor.

Assim, o elenco não apenas interpreta personagens, mas encarna os temas centrais dos sonetos de Shakespeare: a foice do tempo (Soneto 12), o fluxo incessante (Soneto 60) e o outono da vida (Soneto 73).

William Shakespeare e a sua esposa, Agnes, celebram o nascimento do seu filho, Hamnet. No entanto, quando a tragédia atinge e Hamnet morre ainda jovem, isso inspira Shakespeare a escrever a sua obra-prima intemporal, Hamlet. 

Hamnet Shakespeare O único filho homem de William Shakespeare e Anne Hathaway. Além do garoto, que era gêmeo com Judith, eles também tiveram a filha mais velha, Susanna. O menino morreu em 1596, aos 11 anos, e acredita-se que, muito provavelmente, vítima da peste bubônica que assolava a Inglaterra no período. Outro fato histórico importante é que Shakespeare escreveu Hamlet poucos anos depois da morte do filho. Na época, “Hamnet” e “Hamlet” eram grafias chamadas de intercambiáveis do mesmo nome, o que estabelece uma conexão documental entre os dois, ainda que o dramaturgo jamais tenha comentado publicamente sobre a perda do filho. 

O casamento entre Shakespeare e Anne Hathaway também é confirmado pelos registros históricos, assim como a distância física entre os dois durante longos períodos, já que o autor dividia sua vida entre Stratford-upon-Avon e Londres, onde trabalhava no teatro. 

Além, o longa Hamnet, dirigido por Chloé Zhao, não se limita a narrar a perda do filho de William Shakespeare.

Ele se constrói como uma experiência estética em que o cinema se aproxima da poesia, transformando silêncio em linguagem e dor em paisagem. Inspirado no romance de Maggie O’Farrell, o filme articula memória e ausência, criando uma narrativa que dialoga com os sonetos do dramaturgo e com a própria ideia de arte como resistência ao tempo. 

Conhecida por sua sensibilidade contemplativa, Zhao reafirma em Hamnet sua assinatura autoral. Cada plano é concebido como respiração, cada silêncio como gesto narrativo. A natureza, filmada em sua delicadeza, torna-se metáfora do estado emocional dos personagens: ciclos que continuam apesar da morte, paisagens que guardam a memória daquilo que se perdeu. 

No centro da trama está Jessie Buckley, cuja interpretação de Agnes, figura inspirada em Anne Hathaway, esposa de Shakespeare, se impõe como uma das mais intensas de sua carreira. Buckley constrói uma personagem marcada pela permanência da dor, não pela explosão. Seus olhares e gestos contidos sustentam uma atuação que permanece com o espectador muito além dos créditos finais. A frase “Você não estava aqui. Eu daria o meu coração. Ele agonizou... e você não estava aqui...” ganha força pela entrega visceral da atriz, que transforma acusação em desabafo íntimo. 

Paul Mescal interpreta Shakespeare em registro intimista, evitando a grandiosidade. Sua performance enfatiza a ausência e o conflito interno: o dramaturgo dividido entre a vida pública e a dor privada. Mescal transmite culpa e fragilidade através de silêncios e hesitações, reforçando a ideia de que o tempo arrasta o pai para longe, como no Soneto 60. A relação com Agnes é construída em tensão, intensificando o drama conjugal. 

Os jovens atores que interpretam Hamnet e Judith são fundamentais para o impacto emocional do filme. Hamnet, em especial, é representado como portador de coragem e sacrifício: “Eu te dou a minha vida Judith... Eu sou valente...”. Judith, por sua vez, encarna a ternura e a cumplicidade fraterna. Essas atuações dão corpo ao Soneto 73, em que as brasas que se apagam ainda irradiam calor: o amor entre irmãos permanece mesmo diante da morte.

O filme sugere, sem afirmar de forma literal, que da perda nasceu a arte. Hamnet, o menino, carrega um nome quase idêntico ao de Hamlet, e o longa constrói um eco emocional entre biografia e criação literária. A dor que não pôde ser perpetuada pela descendência encontra na arte sua forma de eternidade. 

Hamnet é mais que um filme sobre perda: é um ensaio visual sobre como o tempo destrói, como o amor resiste e como a arte se torna memória. A direção autoral de Zhao, a atuação impactante de Jessie Buckley e a entrega intimista de Paul Mescal convergem para uma obra de delicadeza arrebatadora. Não surpreende que o filme seja apontado como candidato ao Oscar, não apenas por sua sofisticação estética, mas por sua capacidade de transformar dor em criação e silêncio em poesia.

SONETO 12

When I do count the clock that tells the time,

And see the brave day sunk in hideous night;

When I behold the violet past prime,

And sable curls all silvered o’er with white;

 

When lofty trees I see barren of leaves,

Which erst from heat did canopy the herd,

And summer’s green all girded up in sheaves,

Borne on the bier with white and bristly beard:

 

Then of thy beauty do I question make,

That thou among the wastes of time must go,

Since sweets and beauties do themselves forsake

 

And die as fast as they see others grow;

And nothing ’gainst Time’s scythe can make defence

Save breed, to brave him when he takes thee hence.

 

SONETO 12

TRADUÇÃO PORTUGUÊS

 

Quando eu conto as horas que o relógio marca,

E vejo o dia audaz em noite medonha afundar;

Quando vejo a violeta em sua cor tão fraca,

E o viço negro em branco pelo tempo se tornar;

 

Quando vejo a copa alta sem folhas, despojada,

Que antes dava sombra ao rebanho fatigado;

E a relva cortada e em feixes carregada,

Em fardos, para longe, no campo transportado;

 

Então questiono a tua beleza, que há de fenecer

Com o vagar dos anos, como tudo o que floresce;

E a doçura e a graça, que não podem permanecer,

Morrem tão rápido, enquanto outra vida cresce.

 

Nada detém a foice do tempo que tudo parte,

A não ser os filhos, que te perpetuam após tua morte.


Soneto 60

Inglês (original): 

Like as the waves make towards the pebbled shore,

So do our minutes hasten to their end;

Each changing place with that which goes before,

In sequent toil all forwards do contend.

 

Nativity, once in the main of light,

Crawls to maturity, wherewith being crown’d,

Crooked eclipses ’gainst his glory fight,

And Time that gave doth now his gift confound.

 

Time doth transfix the flourish set on youth

And delves the parallels in beauty’s brow,

Feeds on the rarities of nature’s truth,

And nothing stands but for his scythe to mow:

 

And yet to times in hope my verse shall stand,

Praising thy worth, despite his cruel hand.

 

PORTUGUÊS (TRADUÇÃO): 

 

Tal como as ondas correm para a praia pedregosa,

Assim nossos minutos apressam-se para o fim;

Cada um sucede ao que veio antes,

Num labor contínuo todos avançam sem cessar.

 

O nascimento, uma vez na plenitude da luz,

Rasteja até a maturidade, coroado enfim,

Mas eclipses tortuosos contra sua glória lutam,

E o Tempo que deu, agora confunde o dom.

 

O Tempo transfixa o viço posto na juventude

E cava sulcos na fronte da beleza,

Alimenta-se das raridades da verdade da natureza,

E nada resiste senão para sua foice ceifar:

 

E ainda assim, em esperança, meu verso há de ficar,

Louvando teu valor, apesar de sua mão cruel.

 

*********************

 

SONETO 73

 

Inglês (original): 

That time of year thou mayst in me behold

When yellow leaves, or none, or few, do hang

Upon those boughs which shake against the cold,

Bare ruin’d choirs, where late the sweet birds sang.

 

In me thou see’st the twilight of such day

As after sunset fadeth in the west,

Which by and by black night doth take away,

Death’s second self, that seals up all in rest.

 

In me thou see’st the glowing of such fire

That on the ashes of his youth doth lie,

As the death-bed whereon it must expire,

Consum’d with that which it was nourish’d by.

 

This thou perceiv’st, which makes thy love more strong,

To love that well which thou must leave ere long.

 

PORTUGUÊS (TRADUÇÃO): 


Aquela estação do ano podes ver em mim,

Quando folhas amarelas, poucas ou nenhumas, ainda pendem

Nos ramos que tremem contra o frio,

Coros arruinados, onde antes cantavam doces aves.

 

Em mim vês o crepúsculo de tal dia

Que após o pôr-do-sol se apaga no oeste,

E logo a noite negra o arrebata,

Segunda face da morte, que sela tudo em repouso.

 

Em mim vês o brilho de tal fogo

Que jaz sobre as cinzas de sua juventude,

Como o leito de morte onde deve expirar,

Consumido pelo que antes o alimentava.

 

Isto percebes, e faz teu amor mais forte,

Amar bem aquilo que logo deverás deixar.

 

HAMNET: ENTRE A BIOGRAFIA E A POESIA 

O drama histórico Hamnet (2025), dirigido por Chloé Zhao e coescrito com Maggie O’Farrell, parte do romance homônimo de 2020 para dramatizar a vida familiar de William Shakespeare e sua esposa Agnes Hathaway diante da morte do filho de 11 anos, Hamnet. Estrelado por Jessie Buckley e Paul Mescal, com participações de Emily Watson, Joe Alwyn e Noah Jupe, o filme constrói uma narrativa que combina rigor histórico com atmosfera poética.

A obra teve estreia mundial no 52º Festival de Telluride em agosto de 2025, seguida de lançamento limitado nos Estados Unidos e Canadá pela Focus Features em novembro, e distribuição ampla em dezembro. No Reino Unido, chegou aos cinemas em janeiro de 2026 pela Universal Pictures. A recepção crítica foi amplamente positiva, com destaque para a atuação de Jessie Buckley. O filme conquistou o Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama e Melhor Atriz – Drama, além de oito indicações ao Oscar de 2026, incluindo Melhor Filme, Direção e Atriz. Foi ainda listado entre os dez melhores filmes do ano pelo American Film Institute. 

O prólogo lembra que em Stratford “Hamnet” e “Hamlet” eram considerados o mesmo nome, sugerindo desde o início a ligação entre biografia e criação artística. A narrativa acompanha Agnes, apresentada como mulher ligada à natureza e ao conhecimento das ervas, e William, que inicia sua trajetória como tutor antes de se lançar ao teatro em Londres.

O filme articula momentos íntimos, como o nascimento dos filhos Susanna, Hamnet e Judith, com episódios de tensão social e familiar. A peste bubônica funciona como catalisador da tragédia: Judith adoece, mas é Hamnet quem morre, após tentar enganar a morte oferecendo-se em seu lugar. A cena de sua partida, marcada pela visão de um palco e pela aparição do falcão de Agnes, sintetiza a fusão entre mito, memória e arte.

Jessie Buckley constrói Agnes como o coração pulsante da narrativa. Sua performance é marcada por contenção e intensidade, transformando o luto em permanência. Paul Mescal, por sua vez, interpreta Shakespeare em registro intimista, enfatizando a ausência e a culpa. O núcleo infantil, com Noah Jupe como Hamnet, dá corpo ao sacrifício e à coragem, reforçando o vínculo fraterno com Judith.

O filme sugere que a dor da perda inspirou a criação de Hamlet. Agnes, ao assistir à estreia da peça no Globe Theatre, inicialmente se ofende com o uso do nome do filho, mas ao ver William no papel do fantasma percebe a homenagem. A cena final, em que Agnes imagina Hamnet sorrindo antes de desaparecer, marca a reconciliação entre memória e arte. 

Chloé Zhao utiliza a mise-en-scène para transformar o luto em paisagem: a floresta, o falcão, a luz natural e os gestos contidos dos atores compõem uma atmosfera contemplativa. A fotografia valoriza os ciclos da natureza, criando metáforas visuais para o tempo e a mortalidade. 

Hamnet é mais que uma cinebiografia: é um ensaio visual sobre como a dor pode se transformar em criação. Ao intercalar memória, mito e poesia, o filme reafirma a arte como forma de eternidade. A direção autoral de Zhao, a entrega de Buckley e Mescal e a delicadeza da mise-en-scène convergem para uma obra que dialoga com Shakespeare não como adaptação literal, mas como eco emocional. 

ELENCO 

Jessie Buckley como Agnes Shakespeare, esposa de William.

Faith Delaney como a jovem Agnes

Paul Mescal como William Shakespeare, marido de Agnes.

Emily Watson como Mary Shakespeare , mãe de William.

Joe Alwyn interpreta Bartholomew Hathaway, irmão de Agnes.

Smylie Bradwell como o jovem Bartolomeu

Jacobi Jupe como Hamnet Shakespeare , filho de William e Agnes e gêmeo de Judith.

Olivia Lynes como Judith Shakespeare , a filha mais nova de William e Agnes e irmã gêmea de Hamnet.

Justine Mitchell como Joan Hathaway, madrasta de Agnes.

David Wilmot como John Shakespeare , pai de William.

Bodhi Rae Breathnach como Susanna Shakespeare , a filha mais velha de William e Agnes.

Freya Hannan-Mills como Eliza Shakespeare, irmã de William (baseada em Joana d'Arc ) 

James Skinner como Gilbert Shakespeare , irmão mais novo de William.

Elliot Baxter interpreta Richard Shakespeare, o irmão mais novo de William.

Dainton Anderson interpreta Edmond Shakespeare , o irmão mais novo de William.

Louisa Harland interpreta Rowan Hathaway, a mãe de Agnes.

Noah Jupe como o ator que interpreta Hamlet em Hamlet.

Raphael Goold como o ator que interpreta Horácio em Hamlet

Shaun Mason como o ator que interpreta Cláudio em Hamlet

Matthew Tennyson como o ator que interpreta Gertrude em Hamlet

El Simons como o ator que interpreta Ofélia em Hamlet

Clay Milner Russell como o ator que interpreta Laertes em Hamlet

Sam Woolf como o ator que interpreta Bernardo em Hamlet

Hera Gibson como o ator que interpreta Francisco em Hamlet

Jack Shalloo como o ator que interpreta Marcelo em Hamlet

Javier Marzan como o ator que interpreta o Bobo em Hamlet

Zac Wishart como o filho mais velho de Joan, meio-irmão de Agnes.

James Lintern como filho mais novo de Joan, meio-irmão de Agnes.

Eva Wishart interpreta a filha mais velha de Joan e meia-irmã de Agnes.

Effie Linnen como a filha mais nova de Joana, meia-irmã de Agnes.

Laura Guest como parteira

John Mackay como Edward Woolmer, o padre local.

Albert McCormick como Menino na janela

Eliah Arnstjerna como baterista

Edward Anderson como flautista


REFERÊNCIAS 

Campos, Fernando. Crítica | Hamnet: A Vida Antes de Hamlet. Plano Crítico, 17 dez. 2025.

Culturadoria. Hamnet: por que o filme de Chloé Zhao vai além de Shakespeare. 2025. 

Carlos, Henrique. Crítica: Em Hamnet, Chloé Zhao entrega seu filme mais triste e poderoso. Portal Leo Dias, 18 dez. 2025. 

Hutcheon, Linda. A Theory of Adaptation. Londres: Routledge, 2006. 

Stam, Robert. Literature and Film: A Guide to the Theory and Practice of Film Adaptation. Oxford: Blackwell, 2005. 

Walker, Shanta Navvab. Para uma Tradução Comentada de Sonetos de Shakespeare. Dissertação de Mestrado, Universidade de Brasília, 2018.

Coelho, Daniel Jonas da Silva. Uma Interpretação dos Sonetos de Shakespeare: Tradução e Comentário. Tese de Doutoramento, Universidade de Lisboa, 2024. 

Landsberg, Débora. Os Sonetos de Shakespeare: Estudo Comparativo das Estratégias Tradutórias. PUC-Rio, 2017. 

O’Farrell, Maggie. Hamnet. Londres: Tinder Press, 2020.


(Esta imagem é o slide com as fotos - aguardar as fotos rolarem)


Texto, pesquisa e prints

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural




DOCUMENTÁRIO "OS ÚLTIMOS DIAS DE EDITH PIAF"

(CLICAR NA IMAGEM PARA ASSISTIR AO VÍDEO)

TRANSCRIÇÃO DO VÍDEO DO YOUTUBE


0:02 Boa noite. Se você quiser eu falo com você como eu converso com meus amigos

0:08 porque vocês são meus amigos. Eu tenho muita imaginação, então eu posso te ver.

0:15 Talvez haja um cavalheiro, uma senhora, uma jovem, uma jovem e um jovem.

0:21 Todos eles são meus amigos, então vou falar com eles. Vou confiar neles um pouco, e abra-se um pouco para eles.

0:28 Isso te faz bem de vez em quando para dizer o que você realmente pensa.

0:56 Não, não me arrependo de nada. Nada do que aconteceu,

1:02porque me deu experiência, experiência de tudo, para poder me expressar,

1:08sentir cada emoção, e eu estive por aí um pouco então eu sei do que estou falando.

1:16Quando você esteve tão perto da morte, e vamos usar essa palavra, como não há outro,

1:23quando você esteve tão perto, você aprecia tudo o que teve, tudo que você não gostou no momento,

1:29e a única coisa que você deseja é ter tudo de novo para aproveitar ao máximo.

1:34Ouça e ouça bem, aconteça o que acontecer, nunca me arrependo de nada.

1:41As coisas boas que aconteceram, ou o mal, para mim é tudo a mesma coisa.

1:52É aí que a lenda é tão maravilhosa, e por que ela é uma personagem tão única no mundo do canto.

1:59Você não escolhe apenas gritar para o mundo: "Não me arrependo de nada", e depois desaparecer.

2:04É Deus ou o destino, dependendo de suas convicções, mas isso é dado a você, não é uma escolha.

2:15Ela não teve essa escolha, ela não disse: "Eu vou morrer", ela não disse ela teria outra música de testemunho,

2:22foi assim que aconteceu. Não foi premeditado.

2:35Desta vez não foi um boato, não foi um relatório equivocado como havia acontecido antes.

2:40Em 14 de outubro de 1963, a polícia contou quase 400.000 pessoas lotado nas calçadas

2:47entre o Boulevard Lannes, onde Piaf morava, e o Cemitério Père Lachaise, onde ela seria enterrada.

2:55As pessoas esperaram na fila por horas e horas só para passar um segundo ou dois na frente de seu caixão.

3:00Toda Paris estava na rua, foi um funeral nacional.

3:06O Boulevard Lannes foi invadido, havia barricadas, seguranças e policiais em todos os lugares.

3:12Havia uma entrada pelo jardim e as pessoas conseguiram entrar. O caixão foi colocado no que era a biblioteca, mas era bom.

3:22As pessoas passaram pelo caixão, e havia algumas pessoas para quem eu abri a tampa para que pudessem ver Édith uma última vez,

3:30mas não havia muitos deles. Antes de todos os policiais mobilizados em uma multidão já densa,

3:38 o cortejo fúnebre apareceu em meio a uma longa fila de carros pertencente a seus amigos e entes queridos.

3:45A procissão do Boulevard Lannes para Père Lachaise foi incrível. Louis Ahmad, o prefeito, foi maravilhoso.

3:51Ele havia parado todo o trânsito. Saímos do Boulevard Lannes

3:58todo o caminho até Père Lachaise sem parar uma vez. Tudo estava organizado para que a polícia parasse o trânsito.

4:04Foi inacreditável. Havia pessoas ao longo de todo o caminho.

4:10Foi alguma coisa. Quando você passou, foi...

4:19A multidão ficou em silêncio novamente enquanto o cortejo caminhava em direção ao túmulo.

4:30Eram quatro carros cobertos de flores, todos os tipos de guirlandas.

4:37Você teve que lutar pelo seu lugar só porque não foi suficiente dizer: "Sim, eu conheci Édith",

4:42todo mundo estava dizendo isso. As fotos a seguir podem chocar você

4:49como ficamos chocados esta manhã durante a cerimônia. Eu deveria repetir, havia 40.000 pessoas à sua porta,

4:55e todos queriam acompanhar Piaf em sua jornada final. A multidão estava impaciente, desajeitado, quase desordenado,

5:01beirando a indecência, e muito rapidamente quebrou através dos cordões policiais.

5:07Foi terrível. Havia pessoas subindo nos túmulos, e outros que subiram nas árvores para tentar ver

5:14Eu não sei quais estrelas ou algo assim, mas acima de tudo, foi o comportamento da multidão. Eles vieram enterrar um dos seus.

5:21Piaf era parisiense e Paris prestou-lhe homenagem.

5:28Por que a morte veio prematuramente aos 47 anos? Se Piaf tivesse escolhido restringir sua própria vida, queimando a breve vela nas duas pontas?

5:37Por que não? Se ela não tivesse escrito: "Se eu não cantar, eu morro." "Cantar então ou enfrentar a destruição."

5:44Foi uma corrida incontrolável contra a morte, que começou em setembro de 1960. Piaf estava doente, seus dias estavam contados, o médico dela proibiu qualquer aparição no palco

5:54e fez o anúncio franco: "Se você não parar, você morrerá."

6:05Em Paris, Charles Dumont compôs. Ele não gostava de Piaf.

6:10Ela o humilhou em público, chamando-o de cantor menor.

6:19Contudo, mesmo em declínio, Piaf representado um certo sucesso comercial. Se ela aceitasse uma música, seria um sucesso.

6:27No momento, Dumont ainda não fazia parte da corte de Piaf. Embora ele sonhasse apenas com uma coisa,

6:32que sua obra pudesse ser cantada pela lendária diva.

6:42Liguei para meu amigo Michel Vaucaire. Ele já havia escrito muitas músicas de sucesso,

6:48e eu disse: "Michel, ouça." "Eu gostaria que você viesse, Tenho uma música que quero que você ouça."

6:54Naquela época não havia todas as instalações técnicas que temos agora, e você teve que ir a algum lugar para ouvir uma música.

7:00Ele veio, toquei a música para ele e disse: "Aí está, você gostaria escrever a letra para isso?"

7:06 Ele disse: “Sim, gosto muito”. Ele voltou para casa e, alguns dias depois, ele me ligou e disse:

7:13"Encontrei uma ideia para sua música." Como colocaríamos uma nota longa no início,

7:19ele diz: "Eu coloquei, não, não me arrependo de nada", e eu juro por tudo que eu prezo

7:24que respondi a Michel Vaucaire: "Bem, eu não gosto muito da sua ideia." "Eu não acho é uma ideia muito boa."

7:32Michel vai ainda mais longe, ele supera tudo e diz: "Não se preocupe." "Não se preocupe, é um título muito bom e é uma música para Édith Piaf."

7:40Então eu digo: "Olha, Michel, eu imploro,"

7:46"quem você quiser, quando e onde quiser" "Eu irei até o fim do mundo se você quiser, mas não Piaf."

7:51"Simplesmente não é possível." No entanto, uma reunião aconteceria, apesar do fato de que a Rainha da Canção adiou várias vezes.

8:01Em 5 de outubro de 1960, Piaf estava se sentindo um pouco melhor e concordou em ouvir a música ela estava ouvindo sobre

8:07por algumas semanas. A porta se abre. Era uma porta de vidro abrindo para a sala de estar

8:17e ela chega neste roupão azul,

8:23e chinelos rosa, dando pequenos passos.

8:29Desde que ela recebeu tratamento, que a causou perder muito cabelo,

8:34seu cabelo era muito curto. Ela cambaleia até o piano e diz: "Você não quer tocar uma música para mim?"

8:43

Ela diz isso para Michel Vaucaire, ela não fala comigo. Vamos para o piano e eu começo a tocar.

8:50Ela me diz: "Toque o que você quiser" e eu toco minha coisa.

9:11Aí ela não diz nada, apenas escuta. Então ela diz: "Por que você não toca mais uma vez?"

9:20Eu toco de novo com mais raiva dessa vez porque agora estava ficando demais,

9:25demais. Então foi extraordinário.

9:31Em primeiro lugar, ela disse algo que me tocou. Ela diz: "Foi você quem escreveu isso?"

9:40"Obrigado, senhora," Eu digo: "Sim, fui eu." Bem, jovem, você escreveu uma música que viajará pelo mundo.

10:00Eu não acreditei nisso. Quando algo bom de repente acontece com você assim.

10:06De certa forma, Eu estava certo em ficar um pouco triste, porque no dia seguinte Fui a uma editora e conheci um dos meus muito talentosos e colegas famosos.

10:14Ele diz: "Você parece satisfeito." Eu disse: "Eu sou." "Estou muito feliz, Piaf acabou de pegar uma de minhas músicas."

10:21“Azar para você”, ele diz. "Pela primeira vez, Piaf tira uma música de você e agora ela não vai mais cantar"

10:27"porque eles dizem ela perdeu a memória, a voz", "então ela não vai cantar de novo."

10:39

Eu me pergunto se não é no momento você é o mais infeliz que você é o mais feliz.

10:46

É através do sofrimento que você realmente aprecia as coisas.

10:51

Eu acho que você tem que pagar pela verdadeira felicidade com sua alma.

10:58

Ela foi incrivelmente corajosa. Ela mal conseguia andar, mas ela queria ir rodeia o jardim sozinha.

11:05

Foi triste no começo, mas depois gradualmente. Isso também foi em Richebourg…

11:11

Ela estava convalescendo de sua pancreatite. Ela era toda marrom e verde.

11:17

Foi antes de ela encontrar a música Não, eu não me arrependo de nada, foi justamente naquela época, você pode ver o estado em que ela estava.

11:25

Três meses depois ela estava no Olympia. Nem mesmo três meses. Sim, deve ter sido já em outubro, então,

11:32

e no final de dezembro, ela estreou no Olympia.

11:41

Piaf quer cantar a música de Charles Dumont. É tão típico dela. Uma mulher nascida em uma favela e criado em um bordel.

11:48

Uma mulher que por sua vez experimentou glória e degradação. No outono de 1960, sua força a abandonou.

11:55

Ela não recebeu uma oferta de contrato em mais de um ano, mas então acontece um acontecimento inesperado. Há um boato que o Olympia está falido,

12:02

e o gerente está prestes a despedir o pessoal.

12:07

No final de outubro, no início de novembro, Bruno Coquatrix foi vê-la, implorando: "Você tem que me ajudar."

12:14

"O Olympia está em apuros, se você não fizer isso, estou arruinado." Esse tipo de coisa.

12:20

Ela diz: "Escute, você está com sorte já que tenho essa música que quero cantar." "Voltarei ao Olympia com a música."

12:33

Édith Piaf, toda vez que te vemos na tela para cantar, temos a impressão de que estamos testemunhando um milagre que não esperávamos mais.

12:40

De onde vem essa força e a coragem vem, que permite que você superar as piores situações? Bem, acho que é fé em tudo.

12:48

Você acredita em sorte? Eu acredito, isso é tudo. -No destino? -Não, eu não acredito em destino.

12:55

Eu acho que coisas boas acontecem se você quiser. Eu acho que você pode conseguir sozinho de qualquer situação ruim.

13:02

Em sua vida, você nunca disse, como quando você estava doente, por exemplo, que existem limites e que você teve ultrapassou esses limites?

13:09

Bem, quando você está doente, obviamente, é difícil manter o ânimo,

13:14

mas se eu me deixar levar... Às vezes me sinto um pouco desanimado, mas eu imediatamente revidei,

13:20

e disse: "Não, não é possível, Eu vou sair dessa, eu vou conseguir." Pela primeira vez em um ano, ela voltou ao palco.

13:29

A nova música que ela cantará esta noite marca seu retorno, e você será o primeiro público dela.

13:51

Ela cantou Non, je ne arrependimento rien, e no dia seguinte, as lojas de discos esgotaram de cada disco de Piaf que eles tiveram em um dia.

13:59

Eles tinham as fábricas funcionando à noite para manter as lojas abastecidas. Naquela hora, eles não venderam tantos discos como hoje,

14:06

mas ela deve ter vendido dois, ou 300.000 registros em um mês.

14:12

Foi uma quantia considerável para aquela época. Se você vendesse 25.000, você era uma estrela.

14:21

A noite de estreia no Olympia foi fixada para 29 de dezembro de 1960. Houve apenas nove semanas para se preparar,

14:27

um verdadeiro desafio. Piaf voltou ao trabalho com sua fome insaciável.

14:33

Os ensaios eram intermináveis, contra o conselho de seus médicos e amigos, às vezes continuando até 5h ou 6h.

14:42

Ela chega ao Olympia mas ela certamente não está em ótima forma. Ela está animada e tem cuidado de si mesma.

14:51

Ela tinha esta força extraordinária dentro dela mas não foi físico. Era um tipo diferente de força.

15:09

Na plateia estava Duke Ellington Marlene Dietrich e Pierre Cardin,

15:15

toda a sociedade parisiense. Todos que encontraram um ingresso ou foi convidado.

15:21

Paul Newman estava lá, e o público foi composto do mais famoso americano e personalidades francesas.

15:28

Ela está olhando de quem são as flores e então Michèle Morgan chega

15:35

e ela beija Michèle Morgan. Foi um triunfo naquela noite

15:41

e eu não sei, o público deve ter aplaudido durante meia hora.

15:46

Foi assustador e ninguém saiu. As maiores estrelas, todas lá, de pé e ninguém se mexeu.

15:58

Ela estava exausta, nós a recuperamos após a 20ª ou 30ª chamada ao palco.

16:07

Ela era. Então, de volta ao camarim, houve toda uma procissão.

16:12

Que coragem.

16:20

Nada é tão sério, tudo recomeça. Se as coisas estão muito ruins, eles só podem melhorar.

16:26

Quando as coisas estão ruins, eles não podem piorar, fica melhor. Inevitavelmente, sempre há esperança quando tudo parece ruim.

16:43

O contrato era para 30 shows, mas tendo em conta o seu sucesso, foi prolongado por mais dois meses.

16:49

Haveria 100 apresentações e às vezes dois shows na mesma noite.

16:54

As portagens do Olympia voltaram a encher-se., as pessoas estavam lutando pelos recordes de Piaf. Édith, levada pelo seu sucesso, não ouviria nenhum conselho.

17:03

Ela logo ficou exausta mais uma vez.

17:21

As últimas semanas dos shows do Olympia desgastou-a muito a sério.

17:27

Nós iríamos buscá-la, nós a tiraríamos do camarim, Bruno Coquatrix e eu,

17:34

nós colocaríamos nossos braços em volta dela e levá-la para o palco. Quando ela saiu, ela estava pingando de suor.

17:40

Ela não era nada boa. Estaríamos conversando no carro. Eu diria: "Você tem que parar, tens de."

17:47

Ela não queria ouvir. Eu diria a ela novamente, mas ela simplesmente não quis ouvir. Não havia nada a ser feito, não conseguimos impedi-la.

17:54

Ela queria ir até o fim. o que era para ser feito? Ela basicamente só estava feliz no palco.

18:01

Ela fez amor com o público. Ela estava fazendo amor no palco. Ela estava feliz no palco, só isso.

18:07

Nós a vimos em um estado terrível, terrível, desgastado nos bastidores, mas assim que ela subiu ao palco, algo aconteceu e estava tudo bem.

18:18

Ela foi até o fim. Ela continuou, e os últimos shows, a semana passada, diga que foi assim: "Ela vai cantar esta noite?"

18:26

"Ela será forte o suficiente?" Quando ela subiu ao palco, ela encontrou a força.

18:34

Ela foi colocada na frente do microfone. A cortina foi levantada e ela cantou por 50 minutos.

18:43

A cortina caiu, nós a pegamos e voltamos para o camarim.

18:48

A última semana foi muito difícil.

18:53

Piaf salvou o Olímpia. Alguns diriam que foi suicídio. O próprio Bruno Coquatrix escreveu-lhe uma carta:

19:01

"Minha querida Edith," "você já realizou um milagre vencendo mais uma vez os espíritos malignos",

19:07

"mas isso você fez por si mesmo." "Você realizou um segundo milagre aguentando por dois meses."

19:13

"Estou envergonhado," "você não apenas me deu seu talento, seu gênio", "mas acima de tudo uma parte da sua vontade e determinação",

19:20

"uma parte de sua força física, na verdade, uma parte de você mesmo."

19:30

Os contratos agora chegam de todos os lados, e Piaf se recusa a descansar e parar de cantar.

19:36

Mais uma vez, ela faz o que deseja. Inebriada pelo seu sucesso, ela sai em turnê após turnê,

19:42

um frenesi de desempenho isso a mataria lenta mas seguramente. Quando vemos você todas as noites em uma cidade diferente,

19:49

temos a impressão de que não importa em que cidade você canta, O que importa para você está apenas cantando todas as noites…

19:54

-Ah, sim, ah, sim! -Você não poderia deixar de cantar? Não, não posso. Por que?

19:59

Ah, é a minha vida. -É uma liberação, se você quiser. -Sim.

20:05

Eu preciso disso. Eu me sinto bem. Algumas pessoas começaram a chorar,

20:11

para mim é cantando que eu possa me recuperar. Se você tivesse que parar de cantar, o que aconteceria?

20:18

Oh, vou dizer algo horrível, mas acho que me mataria.

20:24

Havia um elemento de autodestruição nele. Ela sabia bem que ela não iria muito longe. Ela sabia muito bem.

20:31

Ela sempre soube disso. Eu não acho que ela queria envelhecer.

20:37

Jacques Brel, que era um homem extraordinário, escreveu uma música, "Envelhecer é horrível".

20:43

Você vê? Tenho certeza de que Burrell também é o mesmo. Se ele tivesse vivido um pouco mais, teria sido melhor para todas as pessoas como eu que o admiravam

20:51

e todas as pessoas que o amavam. O mesmo aconteceu com Piaf.

20:57

Gostaríamos que eles vivessem mais. Pessoas assim não deveriam morrer.

21:03

Eles sabem que são mortais, e eles não querem envelhecer, e não poder cantar, fazer o quê?

21:08

O fogo nessas pessoas queima muito forte para que se torne apenas uma brasa brilhante.

21:17

Ela não tinha medo da morte. Não, eu não acho ela estava apreensiva com isso.

21:26

Ela não teria gostado viver como uma velha. Não, ela disse era preciso merecer a morte,

21:34

e ela merecia o dela. Ela já tinha vivido o suficiente. Ela viveu dez vidas, não apenas um, então tudo bem.

21:43

Espero que ela tenha encontrado um pouco de paz. Ela certamente mereceu. Ela havia trabalhado tanto.

21:49

Agora, Edith Piaf! Basta ouvir os aplausos que saúda sua aparição no palco.

21:56

A imprensa tem observado Piaf por muito tempo, acompanhando de perto cada movimento dela. Agora, cada passeio é um tormento fascinante.

22:04

Piaf passa meses viajando por toda a França. Multidões de fãs lutam por ingressos em todas as salas de concerto provinciais,

22:10

muitas vezes tão pequeno ela tinha que dar dois shows por noite. Todo mundo assiste e espera a queda,

22:15

talvez secretamente esperando para ver seu desempenho final. Se não esta noite, talvez amanhã.

22:27

É extraordinário como Édith Piaf diante de seu adorado público agora está totalmente transfigurado. Este é o grande, o muito grande Édith Piaf, temos diante de nós,

22:35

o duradouro grande trágico da canção francesa.

22:51

Como eu ia dizendo, Édith Piaf está muito cansada como você pode ver durante sua primeira música, ela simplesmente parou.

22:57

Alguém tem que trazer um pouco de água para ela. Ela parece ter ficado doente, uma tontura como em Maubeuge.

23:07

Édith Piaf recomeça imediatamente.

23:22

Temos a impressão Édith Piaf está dançando muito. De qualquer forma, o público está paralisado

23:27

e certamente irá dê-lhe uma ovação triunfante. [Áudio falado em francês]

23:32

Este é Claude Talbot falando com você do Cameo Cinema em Bethune.

23:41

Isso está no palco em Dreux. A famosa turnê que terminou mal, a turnê suicida,

23:47

e ela estava bebendo um copo de água. Ficamos todos horrorizados, você pode ver a expressão em meu rosto.

23:52

Estávamos todos muito preocupados. Ela estava exausta. Ela não tinha mais nada, não havia mais forças e ela estava muito doente.

23:59

Ela foi para o hospital imediatamente depois. Foi em Dreux e Édith estava muito cansada.

24:05

Ela foi aconselhada não ir em sua turnê de canto e descansar durante o verão.

24:10

Ela estava segurando o piano, mal se levantando. Ela estava muito, muito cansada,

24:15

mas ela continuou com a turnê, embora tenha sido muito difícil para ela.

24:22

Eles estavam esperando vê-la morrer no palco. Os jornalistas a seguiam. Havia muitos jornalistas.

24:28

Os rumores estavam circulando que ela terminou, que ela iria desmaiar no palco. Na verdade, tivemos para baixar a cortina naquele dia

24:36

e nós a tiramos do palco, quase inconsciente. Ah, sim, coitado, você pode ver isso no rosto dela.

24:43

A pobrezinha não pode continuar mas ela insistiu. Ela era inflexível em cantar.

24:50

Ela tinha tanta força de vontade, tanta força de caráter. Tentamos argumentar com ela, para convencê-la a parar,

24:57

mas ela queria continuar enquanto durasse sua força.

25:02

Ela era inacreditável.

25:14

Existe outro tipo de amor. O amor que te separa,

25:20

que você nunca mais encontrará quando seu ente querido desaparece.

25:27

Após a morte, aqueles que se amaram nos encontraremos novamente. Isso é uma certeza.

25:34

Mesmo que seja apenas um pequeno ponto na eternidade, Se você conhece esse pequeno ponto é a pessoa que você amou,

25:42

então isso é tudo que conta, eu acho.

25:47

Houve o antes, antes de Marcel e depois de Marcel. Édith mudou muito depois do luto ela passou depois daquela perda terrível.

25:58

Foi um choque terrível para o sistema dela, para todo o seu metabolismo.

26:03

Foi então que a dor dela começou. Ela começou a sofrer terrivelmente, e ela não conseguia lidar com isso.

26:11

Além da angústia mental, havia a dor física, então isso era simplesmente insuportável.

26:16

Ela recebeu sais, coisas para acalmá-la, cortisona e todos os tipos de coisas, mas ela sofreu terrivelmente.

26:26

Alguns meses após a morte de Marcel Cerdan, Piaf estava aflito por uma doença terrível, a poliartrite.

26:32

Torceu e destruiu seu corpo, deformando seus pés, mãos e rosto.

26:37

Para lutar contra a dor e continuar cantando, Édith se encheu de remédios. Às vezes dobrando ou triplicando as doses prescritas.

26:45

O boato viajou rápido, e foi dito que Piaf estava usando drogas.

26:51

Ela só conseguia dormir com os vários produtos, os sedativos e soporíferos.

26:56

Quando isso não foi suficiente, o médico veio e dei a ela uma dose do mesmo, quando as pílulas não eram suficientes.

27:03

Ela conseguiu dormir, mas na manhã seguinte, ou melhor, na tarde seguinte, dependendo, se ela tivesse um disco para fazer, ela teve que acordar.

27:13

Então foi Maxatan. Ela pegou isso também, então ela precisava ter um coração muito forte.

27:18

As pessoas dizem que você não dorme, ou muito pouco. Oh aquilo? Não, algo estúpido aconteceu,

27:26

nisso eu estava embriagado com barbitúricos.

27:31

No momento, Estou no processo de eliminá-los, mas não estou fazendo isso de uma só vez.

27:39

Eu acho que essa é a causa de certos problemas, eu poderia dizer,

27:45

mas não no palco. Para viagem, para a vida diária, quando acordo,

27:52

Estou cansado, minha memória vai, mas nunca no palco, toque na madeira.

27:59

Quanto café você tomou hoje?

28:04

Não muito, duas xícaras. Isso é muito pouco para você. Sim, para acordar.

28:21

Aqui, eu estou levando ela à clínica em Meudon para terapia do sono.

28:27

Foi o momento mais emocionante eu já conheci em todos os anos que passei com Édith.

28:32

Ela está em semicoma, inconsciente, e estou tremendo porque estou com medo.

28:37

Ela é leve como uma pena, mas eu estava com medo de deixá-la cair.

28:45

Foi tirada numa manhã de verão em julho. Os jornalistas passaram a noite no Bois de Bolonha.

28:52

Eles sabiam que algo iria acontecer. Aquilo foi a coisa mais emocionante da minha vida.

28:58

Carregando-a assim, como um cadáver. Havia uma farmácia, eu me lembro,

29:04

Acho que se chamava La Zuani, na esquina da rua dela. De qualquer forma, não muito longe da casa dela na avenida Henri-Martin.

29:13

Eu prefiro dizer que ela era sua melhor cliente. Ela tomou enormes quantidades de medicamentos,

29:19

mas ao contrário do que as pessoas dizem, Nunca vi nenhuma droga.

29:25

Nunca vi Édith com agulhas hipodérmicas. Ela não tinha agulhas, nada, ela não tinha nenhum equipamento assim.

29:30

De qualquer forma, ela nunca teria feito isso. Certos livros diziam que ela costumava injetar através do vestido, mas não, nunca, a mãe dela, sim, mas ela, não.

29:38

Durante o último grande show, a última grande turnê, um médico veio dar-lhe injeções, sim, com certeza, mas era medicinal,

29:47

e não era todo dia, foi apenas durante seus ataques.

29:53

Os tempos em que era isso, ou ela não poderia trabalhar e ela sofreria enormemente.

29:58

Ela não queria parar? Ah, não, ela dizia, muitas, muitas vezes:

30:04

"Prefiro morrer a parar de cantar." "Isso é definitivo", e eu a entendo.

30:13

Nós perguntamos, imploramos ao cirurgião não dar morfina a ela logo depois de ela ter sido operada, mas eles foram obrigados a fazer isso.

30:23

Então, tudo o que ela conseguia pensar estava superando isso. Ela queria que tudo acabasse e ela se saiu muito bem.

30:29

Ela tinha muita força de vontade.

30:36

Não é fácil lutar contra tal dependência. A partir de 1960, Édith mantinha cadernos cheio de boas resoluções.

30:44

Algumas palavras rabiscadas todas as noites. Não há mais injeções. Aguentar.

30:49

Deixe-se levar quando estiver cansado. Não há mais paixão que possa te machucar, não há mais desejo,

30:55

mas as resoluções de uma noite são esquecidos na manhã seguinte. Piaf não pode viver sem sua dose de comprimidos,

31:02

que, em vez de prolongar a sua vida, apenas a enfraquece dia após dia.

31:07

Seu médico escreveu-lhe um aviso: “Édith, pare de tomar o remédio, está destruindo seu fígado."

31:18

Foi assim que ela ficou com um buraco no estômago. Nesse ponto, o menor excesso em termos alimentares era muito prejudicial.

31:23

É por isso que ela teve coma hepático porque bastou uma omelete enorme, como ela costumava comer,

31:29

e ela tinha um bom apetite, mas como ela não estava mais permitido fazer isso,

31:34

isso a fez querer, ainda mais. Quando ela fez algo idiota, ela foi até o fim.

31:42

Se o seu médico ordenou que você parasse e você sentiu e acreditou que você teve força para continuar, você desobedeceria ao seu médico?

31:49

-Sim. -Você já fez isso? Sim, não fiz nada além de desobedecer.

31:56

-Especialmente o seu médico? -Ah, todo mundo.

32:02

Em 1962, Piaf conheceu Theo Sarapo.

32:11

Ela o contratou como secretário mas então decidi para transformá-lo em um cantor,

32:21

e então ela se apaixonou por ele. Para seus amigos íntimos, Piaf nunca deveria ter visto este dia.

32:30

Em outubro de 1962, seu controle sobre a vida era frágil, aleijado pela artrite, se recuperando de uma operação hepática,

32:37

e envenenado por pílulas, ela era apenas uma sombra de seu antigo eu. Este casamento inesperado foi, portanto, uma espécie de ressurreição,

32:45

um acontecimento, um acontecimento muito curioso. Ele tinha 26 anos, ela tinha 46 anos, e parecia 20 anos mais velho que isso.

33:17

Durante toda a sua vida ela teve essa ideia que lembrava Theo Sarapo.

33:23

Ela o encontrou antes de morrer. Ele não tinha nada que ela tinha, e ela não tinha nada que ele tinha.

33:30

Ela tinha tudo que ele poderia dar a ela e ele tinha tudo que ela poderia lhe dar. Foi uma história fantástica.

33:37

Foi um encontro clássico, e o público estava bastante ciente disso. O público nunca ficou chocado

33:43

ver Madame Édith Piaf cansado e exausto, casar com um jovem Adônis.

34:06

Nas manhãs, você não poderia acordá-la abruptamente, então eu a acordaria suavemente. Quando senti que ela estava voltando,

34:13

Eu iria e abriria as cortinas, mas eu não conseguia falar.

34:20

Se ela não estivesse falando, você não conseguia dizer uma palavra.

34:26

Quando ela disse: "Bom Dia como você está?" Eu fico tipo: "Certo, então você vai se casar esta manhã."

34:36

Ela diz: "Não, eu não vou, teremos que cancelar tudo." "Eu serei ridículo, e a diferença de idade?"

34:42

"O que as pessoas vão pensar?" "Não, eu não quero." Ela não queria mais se casar, então, depois de todo o trabalho que fiz,

34:49

Eu disse: "Não podemos fazer isso, e todos os jornalistas foram informados" "e a Igreja Ortodoxa está pronta."

34:54

Tudo estava pronto, tudo estava preparado, tudo. O prefeito do 16º arrondissement.

35:00

Eu tinha ido ver todo mundo, tudo estava pronto.

35:05

Depois de um momento ela voltou e decidiu, sim. Ela percebeu que, na verdade, simplesmente não foi possível cancelá-lo.

35:20

Ela teve dificuldade em escrever e foi muito longo para ela. Foi terrível. Demorou uma eternidade para escrever esse nome.

35:27

Pobre coisa.

35:33

Meu amor é muito forte. Eu acho que é o único sentimento o dinheiro não pode comprar,

35:38

e que não é discutível, e não pode ser analisado. Está aí, existe, e temos que admitir isso.

35:50

Se não houvesse Theo, Eu não acho que ela teria parado mas ela teria se deixado morrer ainda mais rapidamente.

35:59

Acho que ele deu um empurrãozinho nela. Isso deu um impulso a Édith. Não foram as músicas que fizeram isso, foi aquela história fabulosa,

36:10

o casamento. Ela se casou. Foi fantástico.

36:18

Um ano e um dia depois, ela morreu.

36:24

Talvez seja melhor assim. Por que?

36:32

Bem, se ela tivesse vivido afetada como ela era, com toda a dor que ela tinha,

36:37

e não ser forte o suficiente cantar sem o que era preciso.

36:44

Então, naquela época, os novos cantores pop estavam se tornando moda. Para que ela continue sendo Édith Piaf,

36:51

ela teria precisado toda a sua força e trabalho duro. Se ela fosse diminuída de alguma forma, não teria funcionado.

36:57

Ela teria estragado tudo isso foi tão maravilhoso.

37:03

Talvez tenha sido melhor ela nos deixar no auge de seus poderes. No final, infelizmente, houve alguns shows demais.

37:10

Teria sido melhor parar antes. Até seu último show no Bobino não foi muito bom. Isso partiu nossos corações.

37:16

Sentimos que algo estava errado.

37:30

Este era o sótão de Édith, ou melhor, o quarto que seria dela,

37:36

o que fizemos em 59 ou 60 quando começamos o trabalho de construção aqui. [Áudio falado em francês]

37:46

Esperávamos que ela fosse capaz para tirar vantagem disso. Infelizmente, ela acabou de ver os planos e ela viu as primeiras fotos,

37:53

mas ela nunca teve tempo de usá-lo.

37:58

Sabíamos que ela precisaria em algum lugar um dia porque ela não tinha mais nada para si mesma. Ela não tinha casa de campo, ela não tinha outra casa.

38:05

O Boulevard Lannes foi alugado. Pelo amor de Deus, tendo em conta o seu estado de saúde,

38:10

tínhamos medo que ela tivesse que parar de cantar Por um tempo, pelo menos. Entre Loulou Barrett, que tinha uma casa perto de Bergerac, e nós,

38:20

ela sempre teria encontrado uma casa acolhedora para ir, e teríamos continuado a viver juntos já que morávamos no exterior, como uma família.

38:29

Ela estaria bem aqui. Julho de 1963, Piaf está doente novamente,

38:36

Pneumonia, contratado durante seu último show. Ela está se recuperando em Saint-Jean-Cap-Ferrat.

38:43

Uma turnê está planejada para o outono nos Estados Unidos. Ela está satisfeita com o pensamento de cantar novamente,

38:49

e seu apetite pela vida está voltando.

38:56

Ela estava bem, bem, quando eu digo bem, Quero dizer, como alguém convalescente.

39:02

Ela estava ansiosa para ir novamente. Ela tinha uma voz extraordinária de volta

39:09

porque ela foi tratada por médicos que lhe deu massagens como você faz com crianças para bronquite ou algo assim.

39:17

Ela o recuperou. Quando ela cantou Hymne à l'amour, você podia ouvir.

39:22

Havia um grande parque que era imenso e você podia ouvi-la da estrada principal. Foi maravilhoso, nós realmente acreditávamos que era possível.

39:29

Então de repente piorou. Édith voltou ao excesso.

39:34

Muitas pílulas, muitos convidados, muitas festas. Muito de tudo como uma overdose.

39:41

Em certas noites em Saint-Jean-Cap-Ferrat, havia 145 convidados para jantar.

39:46

Muitos conselhos ruins: "Vamos, Édith, venha sentar-se à nossa mesa."

39:54

Ela teve uma recaída por excesso de comida. Coisas que ela não deveria ter comido, mas o que ela comeu de qualquer maneira.

40:03

Havia tantos convidados, que era impossível observá-la e não podíamos dizer nada.

40:09

Ela era a chefe. Sua enfermeira ficou furiosa e fiquei muito bravo com ela.

40:16

Eu não estava nada feliz, mas no final das contas, O que você pode fazer? Não podíamos proibi-la, ela era a chefe.

40:21

Infelizmente, ela teve outra insuficiência hepática e entrou em coma e ela voltou para a clínica no La Boca em Cannes.

40:30

Piaf estava em coma, a turnê americana foi cancelada. Os visitantes diminuíram, assim como o dinheiro, escoando rapidamente.

40:37

No início de agosto de 1963, Daniele, o empresário Louis Barrier, e Theo Sarapo deixaram Saint-Jean-Cap-Ferrat para uma casa mais isolada

40:45

nas colinas acima de Grasse, levando Édith com eles.

40:52

Ela nem estava mais lendo. Ela não conseguia enfrentar a leitura. Ela estava vegetando um pouco durante aqueles últimos dias.

41:02

Ela estava pensando. Ela estava perdida em seus pensamentos. Nós não a incomodamos, deixamos ela pensar e refletir.

41:10

Não havia como pensarmos as coisas iriam deteriorar-se até esse ponto.

41:16

Então lembro que trouxemos um curandeiro.

41:23

Um curandeiro de quem alguém nos falou. A enfermeira decidiu que o curador deveria vir.

41:30

Ele colocou as mãos nela e tudo mais mas é claro que não teve efeito.

41:52

Ela ouviu discos de Brel

41:59

e outras músicas antigas que não conheço, o relógio correndo na sala. Não me lembro, mas foi triste.

42:05

Então o último disco que coloquei para ela foi seu próprio recorde. O concerto no Carnegie Hall.

42:13

Ela ouviu tudo o caminho sem qualquer comentário, sem dizer nada.

42:19

Nós ouvimos com calma, e então ela disse: foi a última frase ela falou comigo enquanto isso acontecia. Ela disse: "Ainda temos algumas boas viagens para fazer, minha querida."

42:29

Sem dúvida ela esperava isso. Ela ainda esperava ela poderia partir novamente em turnê.

42:47

Escrevi uma música com Jacques Brel para ela, mas ao tentar ir vê-la, ela não queria me ver.

42:55

Ela estava muito doente. Eu estava um pouco desapontado, Eu cantei a música para ela pelo telefone,

43:02

ou melhor, eu cantarolei a música no telefone.

43:08

Então eu fui embora e quando voltei ela estava morta. Ela me disse: "Estarei de volta a Paris em outubro."

43:16

e ela voltou morta.

43:22

O último dia, na verdade, desde o dia anterior ela estava na cama, e não está nada bem,

43:30

mas nada fora do comum. Então pela manhã, realmente sentimos que era sério.

43:38

A enfermeira estava em pânico e me pediu para fazer o que pudesse para encontrar um remédio

43:45

para que pudéssemos dar-lhe um soro caso ela ficasse desidratada.

43:53

Ela deu a ela essa perfusão, mas não fez nada. Não impediu nada. Eu imediatamente fiz uma ligação para Loulou, obviamente, em Paris,

44:01

para que ele pudesse informar Theo, que estava em turnê. Eu disse a ele: “É ruim, é muito ruim”.

44:09

Ela estava claramente a ponto de nos deixar. Loulou me disse: "Vou contar ao Theo, não se preocupe."

44:14

"Estamos a caminho, estamos indo." "Estaremos lá esta tarde." Ele esperava encontrar ela ainda está viva, suponho.

44:22

Devia ser cerca de 12h45, Eu não sei a hora exata, mas por volta dessa época, e vimos que estava acabado.

44:30

Foi isso, ela foi embora. Entrei para vê-la, Eu poderia dizer que era o fim.

44:38

Foi apenas seu último suspiro, ela não fez nenhum movimento da dor, nada disso.

44:45

Ela simplesmente foi como se ela estivesse dormindo, se você quiser.

44:50

Theo Sarapo, Louise Barreira, e Daniel então tomou uma decisão estranha, não fazer nenhum anúncio.

44:57

Para ficar calado sobre a morte de Édith, apenas por algumas horas até que pudessem secretamente levar seu corpo de volta para Paris.

45:05

Em 10 de outubro de 1963, discretamente, quase clandestinamente, Édith deixou o sul da França.

45:16

Eu estava em La Boca vendo as freiras que tratou Édith antes

45:23

e eu contei a eles o que havia acontecido: "Ela está morta, mas não queremos que as pessoas saibam ainda.

45:29

"Temos que levá-la de volta para Paris." Consegui chamar uma ambulância.

45:34

As freiras foram muito, muito prestativas. Eles disseram: "Não tenha medo, enviaremos algumas pessoas de confiança" "que não vai dizer nada."

45:42

Preparamos Édith e a ambulância chegou por volta das 8h. e partimos para Paris.

45:50

Uma viagem ilegal pela França. Eles até foram tão longe como dar a Édith um soro falso.

45:59

Lá estava a enfermeira e Theo na ambulância. Se a ambulância foi parado no caminho,

46:04

nós teríamos dito que ela acabara de morrer no trânsito. Ela teve que morrer em Paris.

46:10

Para ela, não era possível de outra forma. Era isso que ela queria e muito fortemente.

46:16

O médico de Edith foi acordado durante a noite. Ele concordou em assinar uma certidão de óbito falsa.

46:22

Oficialmente, Piaf foi declarado morto às 8h do dia 11 de outubro de 1963.

46:30

Em Paris, tínhamos que receber todos. Tino Rossi falou comigo por muito tempo na sala.

46:35

Todos os seus amigos estavam vindo e eles queriam vê-la novamente. Poderíamos deixar alguns entrarem no quarto e outros que não deixamos entrar.

46:47

Depois havia os embalsamadores, e ela foi embalsamada. Os embalsamadores que vieram eram dois americanos.

46:55

Theo colocou maquiagem nela e penteou o cabelo dela como sempre fazia.

47:01

Ela estava adorável. Ela estava com um vestido de palco. 11 de outubro de 1963 permaneceria gravado na memória das pessoas,

47:09

assim como a morte de Édith Piaf foi anunciado do que o de Jean Cocteau foi dado a conhecer também,

47:14

uma estranha coincidência. Dois amigos, Piaf e Cocteau, que tanto se admiravam.

47:21

O poeta até escreveu para Piaf, uma peça, Le Bel Indifférent, e diz a lenda que foi ouvido da morte de Piaf que Cocteau entrou em colapso.

47:33

Ele estava muito doente, não há dúvida, e ele poderia ter morrido, mas talvez não naquele dia.

47:39

Ouvi dizer que um jornalista telefonou para ele, dizendo: "Você sabia que Édith Piaf está morta?"

47:45

Isso foi um golpe terrível para ele, obviamente, como quando você ama alguém. Quando você ama tanto alguém e eles dizem a você assim mesmo,

47:51

que eles estão mortos. Edith e Jean, o que poderia o cantor de rua e o literato têm em comum?

47:59

Além do amor pela beleza e perfeição. Se não talvez sofrimento e doença,

48:05

durante seus últimos anos eles trocavam cartas com frequência. Cocteau amava Édith profundamente.

48:11

Em uma carta ele escreveu: "Quando você canta," "é como se você estivesse rasgando sua alma separada pela última vez."

48:25

Foi assim que Piaf viveu. Como se cada dia de sua vida fosse o último,

48:30

e foi assim que ela cantou, a reclamação de uma vida inteira, um epitáfio.

48:43

São pessoas que, no tempo que lhes é dado, vivem dez vezes mais do que outras pessoas.

48:50

Dez vezes, 100 vezes, mil vezes. Eles são mil vezes mais generosos, mil vezes mais irritado,

48:56

mil vezes mais feliz, mil vezes mais triunfante, e mil vezes mais infeliz, Tudo ao mesmo tempo.

49:03

Quando morrem aos 45 ou 50 anos, eles tiveram uma vida plena.

49:23

Não me arrependo de nada, por milhares de razões, porque agora eu acho que tudo tem valor,

49:30

que há uma razão, e que você tem que passar o que você passa

49:36

para fazer algo importante, pelo menos o que eu vejo tão importante na minha vida.