segunda-feira, 31 de agosto de 2026

A TARDE DE LITERATURA LATINO-AMERICANA DA UBE-RJ: ENTRE VOZES CONTINENTAIS E A EMOÇÃO DA POESIA



Aconteceu em 31 de agosto de 2026, segunda-feira mais uma edição do tradicional projeto mensal da União Brasileira de Escritores – RJ (UBE-RJ), liderado pela escritora e crítica literária Luiza Lobo. O evento, realizado às 15h no auditório da Secretaria Nacional de Agricultura, no Centro do Rio de Janeiro, promoveu uma profunda reflexão sobre a força criativa e política da literatura latino-americana.

 

A palestrante convidada foi a renomada autora e pesquisadora Vera Lucia Follain. Com um olhar sensível sobre a produção cultural da região, Follain conduziu uma tarde de diálogo sobre os caminhos que conectam o Brasil, a América Hispânica e o Caribe. Durante o encontro, foram destacados os principais autores, movimentos e influências que moldaram a identidade regional e a expressão literária de todo o continente.

 

À mesa, sob a batuta da presidente e crítica Luiza Lobo, ao lado da vice-presidente Ana Maria Tourinho e da brilhante palestrante da tarde, a professora Vera Lucia Follain, o tempo parecia suspender-se para acolher a poesia do pensamento. Sob um olhar atento de inúmeros acadêmicos e amigos da instituição, celebrou-se a arte do encontro.

 

Nesse cenário de letras e afetos, a UBE-RJ viu enriquecer seu quadro com a chegada do acadêmico Renato Moura, que ingressou oficialmente como Titular Sócio Efetivo, um novo fôlego que se integra à alma da nossa literatura.

 

Ao cair da tarde, quando a palavra escrita silenciou para dar lugar ao brinde, a celebração desaguou em um delicioso coquetel. Entre taças e sorrisos, a comunhão entre autores e amigos transformou a tarde em um eterno preâmbulo de futuras inspirações.

 

O encontro reforçou o compromisso da UBE-RJ com a valorização da escrita e do pensamento crítico, celebrando a palavra como um importante pilar que une os povos latino-americanos através de suas histórias e vozes.

 

© Alberto Araújo

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AS RAÍZES AÇORIANAS E O RESGATE HISTÓRICO DA CERTIDÃO DE NASCIMENTO DA MÃE DE MACHADO DE ASSIS - ENSAIO BIOGRÁFICO E HISTÓRICO DE © ALBERTO ARAÚJO

Falar de Joaquim Maria Machado de Assis é adentrar o coração pulsante da literatura Brasileira - Universal. Autodidata, Culto e Intelectual, filho de um pintor de paredes liberto e de uma lavadeira açoriana. Fundador e primeiro Presidente da Academia Brasileira de Letras, superou todas as barreiras sociais, econômicas e estruturais do século XIX, para erguer uma das Obras mais sofisticadas e profundas da História e das Letras.   

Autor de Obras-Primas Imortais: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro, Quincas Borba e O Alienista, Machado de Assis transpassou os limites de seu tempo. Sua escrita fascinante e investigadora da alma humana, e  suas contradições mais íntimas, desmontou as vaidades e futilidades da Elite Imperial Carioca. Refinou a arte da narrativa da época, com uma elegância e um humor crítico ímpar. 

Contudo, sua presença madura e consagrada - Intelectual, traziam raízes profundas, alicerçadas no afeto, na resistência familiar e na união da presença  feminina  extraordinária,  que moldaram a sua trajetória pessoal e artística. Entre essas personalidades, duas grandes mulheres ocupam papéis sagrados na existência de Machado: sua mãe, a açoriana Maria Leopoldina da Silva e sua esposa, a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais.   

A trajetória literária e pessoal de Machado de Assis é inseparável de sua esposa, Carolina Augusta Xavier de Novais. Nascida na cidade do Porto, Portugal, Carolina era uma mulher culta, leitora voraz, de refinada sensibilidade e conhecimento artístico e inteligência vivaz. Quando se conheceram no Rio de Janeiro na década de 1860, apresentados pelo irmão dela, o poeta Faustino Xavier de Novais, a afinidade intelectual e afetiva entre Machado e Carolina foi imediata e avassaladora. 

Casaram-se em 1869, enfrentando velados preconceitos da época devido às diferenças sociais. A união durou 35 anos e constituiu o grande esteio emocional sobre o qual o escritor construiu sua maturidade literária. Carolina não foi apenas a esposa dedicada que cuidava da sua saúde delicada do marido, mas também sua primeira leitora, revisora atenta de seus manuscritos, intelectual e interlocutora  constante.

A atmosfera de paz e a cumplicidade construída ao lado de Carolina,  fortaleceu  Machado de Assis, a escrever suas maiores criações da fase Realista. A morte de Carolina, em 1904, mergulhou o escritor em uma dor profunda da qual jamais se recuperou inteiramente, imortalizado no comovente e doloroso poema "A Carolina", cujos versos guardam a saudade e o reconhecimento eterno à mulher que foi a luz e o  Porto Seguro de sua caminhada. 

Se Carolina representou a plenitude da maturidade e da criação literária, as raízes mais remotas e fundamentais da vida de Machado remontam ao Arquipélago dos Açores, em Portugal. A deslumbrante Ilha de São Miguel que vem a matriz maternal e o sangue lusitano do maior romancista brasileiro. 

Sua mãe, Maria Leopoldina da Silva, também referida em registros como Maria Leopoldina Machado da Câmara, era uma portuguesa açoriana, mulher humilde, de coragem extraordinária, que atravessou o oceano Atlântico em busca de novas oportunidades de vida no Brasil imperial.

No Rio de Janeiro, estabeleceu-se e trabalhou com imensa dignidade como lavadeira na Chácara do Livramento, propriedade pertencente a D. Maria José de Mendonça Carvalho, que viria a ser madrinha de batismo do futuro escritor. 

Maria Leopoldina casou-se com Francisco José de Assis, um pintor de paredes e descendente de escravizados libertos. Dessa união humilde no Morro do Livramento nasceu, em 21 de junho de 1839, o pequeno Joaquim Maria. Lamentavelmente, Maria Leopoldina faleceu precocemente quando Machado era ainda um menino de aproximadamente dez anos, vítima de tuberculose. 

Apesar dessa partida prematura, a presença materna e a herança açoriana sempre constituíram um elo genético, afetivo e histórico fundamental na genealogia de Machado. Durante décadas, contudo, os detalhes cartoriais exatos sobre os registros de nascimento e batismo de Maria Leopoldina na Ilha de São Miguel permaneceram distantes e inacessíveis para os pesquisadores brasileiros, constituindo uma importante lacuna documental na biografia do escritor. 

É exatamente neste ponto que a história ganha um capítulo de resgate cultural memorável e emocionante para a historiografia e para a literatura do Brasil.

No ano de 2018, a dedicada acadêmica, historiadora e pesquisadora Idalina Andrade Gonçalves, movida por seu vínculo afetivo e cultural, impulsionada por um rigoroso compromisso historiográfico, realizou uma viagem determinante à Ilha de São Miguel, nos Açores. 

Durante sua estada na Ilha, Idalina visitou a Presidência, do Governo Regional dos Açores, Palácio de Santana, nos Açores, na época o Presidente era o Dr. Vasco Cordeiro, e manteve diálogo direto com representantes do Governo dos Açores e autoridades de registros locais. Com notável persistência investigativa, rigor e profunda sensibilidade histórica, Idalina Andrade Gonçalves conseguiu localizar, autenticar e obter o documento oficial registrado em Cartório: a Certidão de Nascimento de Maria Leopoldina, mãe de Machado de Assis.

Tratava-se da Certidão histórica oficial lavrada na Ilha de São Miguel, a prova documental irrefutável e definitiva da origem açoriana da progenitora de Machado de Assis. Aquele documento histórico, preservado ao longo de séculos no meio do Atlântico, continha a precisão cartorial sobre os antepassados maternos do fundador da Academia Brasileira de Letras. 

Consciente da dimensão inestimável de sua descoberta para a memória Cultural do Brasil, Idalina ofereceu a certidão em mãos para a ABL,  instituição encarregada de guardar a memória do  Ilustre Escritor Machado de Assis.

No dia 5 de dezembro de 2018, concretizou-se a emocionante cerimônia de entrega formal desta relíquia histórica, realizada no Gabinete da Presidência da Academia Brasileira de Letras,  no Rio de Janeiro. 

Na ocasião, a ABL, era presidida pelo renomado poeta, ensaísta, tradutor e acadêmico Marco Lucchesi. A solenidade contou com a entrega oficial feita por Idalina Andrade Gonçalves, acompanhada pelo Embaixador Jaime Leitão, simbolizando o laço fraterno, diplomático e cultural que une o Brasil e Portugal, de modo especial a Região Autônoma dos Açores. 

A fotografia histórica registrada naquele dia 5 de dezembro de 2018 eternizou esse ato nobre de preservação patrimonial. Na imagem, a historiadora Idalina Andrade Gonçalves aparece entregando a valiosa Certidão de Nascimento de Maria Leopoldina, ladeada pelo Presidente da ABL, Marco Lucchesi, pelo Embaixador Jaime Leitão e por testemunhas ilustres desse capítulo marcante para as letras nacionais, como a secretária do Gabinete da ABL, Gisela Araújo.

Atualmente, essa certidão de nascimento original, registrada em cartório na Ilha de São Miguel, encontra-se perfeitamente preservada no acervo da Academia Brasileira de Letras, onde integra o tesouro documental relativo ao Patrono e primeiro Presidente da  ABL. 

A incorporação da Certidão de Nascimento de Maria Leopoldina ao patrimônio da Academia Brasileira de Letras desdobra-se em múltiplos significados de valor incalculável: O documento elimina dúvidas historiográficas e estabelece com exatidão cartorial a filiação, os nomes dos avós e a freguesia de origem da mãe de Machado de Assis na Ilha de São Miguel. Isso permite aos biógrafos um estudo muito mais denso da raiz materna do escritor. O resgate reafirma os profundos laços históricos e de povoamento entre os Açores e o Brasil. A própria existência de Machado de Assis, fruto da união entre uma açoriana e um brasileiro afrodescendente, simboliza a miscigenação e o encontro das culturas que definem a identidade do Povo Brasileiro. 

Sob a custódia da ABL, o documento junta-se aos manuscritos, edições raras  de Machado, ficando protegido contra a ação do tempo e acessível para a pesquisa acadêmica de futuras gerações. 

A ação abnegada e entusiasmada da historiadora Idalina Andrade Gonçalves evidencia o papel fundamental dos pesquisadores que se dedicam a resgatar e proteger as páginas esquecidas da nossa história. 

Ao contemplarmos a foto de 2018 e a certidão ali apresentada, não vemos apenas um pedaço de papel: contemplamos o registro que conecta o oceano Atlântico ao Morro do Livramento e ao Cosme Velho. É a prova documental de onde brotou a vida da mãe daquele que viria a ser o maior nome da literatura brasileira, eternizando a memória de Maria Leopoldina e o valioso presente de Idalina Andrade Gonçalves à cultura do nosso Brasil. Também, na postagem encontramos a foto do Presidente dos Açores, Dr. Vasco Cordeiro, na entrada do Palácio da Presidência recebendo a acadêmica Idalina. 

SOBRE IDALINA ANDRADE GONÇALVES 

Idalina Andrade Gonçalves é uma historiadora e pesquisadora dedicada cujos trabalhos acadêmicos e investigativos se concentram na preservação da memória e nos vínculos culturais e genealógicos entre o Brasil e Portugal, com especial destaque para a Região Autônoma dos Açores. 

O grande marco de sua trajetória e de sua contribuição para a historiografia literária brasileira ocorreu em 2018. Movida por um profundo rigor investigativo e por seu afeto cultural pelas raízes açorianas, Idalina empreendeu uma viagem determinante à Ilha de São Miguel, nos Açores. Após reuniões com autoridades locais, incluindo o então presidente do Governo Regional dos Açores, Vasco Cordeiro, ela conseguiu localizar, autenticar e obter o documento oficial e inédito: a Certidão de Nascimento de Maria Leopoldina da Silva, mãe de Machado de Assis. 

Essa descoberta sanou uma lacuna secular na biografia do fundador da Academia Brasileira de Letras (ABL). Retornando ao Brasil, Idalina fez a doação oficial dessa relíquia cartorial à ABL em uma cerimônia solene realizada em 05 de dezembro de 2018, eternizando seu papel fundamental no resgate da ancestralidade e da memória do maior nome da literatura brasileira.

© Alberto Araújo

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Idalina Andrade Gonçalves ladeada do
Dr.  Vasco Cordeiro - Governo Regional dos Açores - 2018

A historiadora Idalina Andrade Gonçalves entregando a valiosa Certidão de Nascimento de Maria Leopoldina, ladeada pelo Presidente da ABL, Marco Lucchesi, pelo Embaixador Jaime Leitão e a secretária do Gabinete da ABL, Gisela Araújo. 



POEMA PARA A TARDE - © ALBERTO ARAÚJO


A tarde repousa suave,

como um véu dourado sobre o horizonte.

O tempo se estende lento,

e cada instante é convite ao silêncio.

 

"A simplicidade é a maior sofisticação" — Leonardo da Vinci.

E nesta hora calma,

a vida pede apenas contemplação.

 

"O essencial é invisível aos olhos" — Antoine de Saint-Exupéry.

Assim, o vento que acaricia,

a luz que se despede,

são tesouros que não cabem em palavras.

 

"A poesia é a música da alma" — Voltaire.

E a alma canta baixinho,

quando a tarde se transforma em promessa de noite.

 

© Alberto Araújo

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OSMAR PRADO - COMO ENFRENTAR OS PROBLEMAS DA VIDA


DEVIDO AO GRANDE SUCESSO E AOS INÚMEROS PEDIDOS, ESTAMOS TRAZENDO NOVAMENTE O CONTEÚDO ESPECIAL:

Osmar Prado – Como enfrentar os problemas da vida. 

Essa mensagem inspiradora tocou muitas pessoas e, por isso, decidimos disponibilizá-la mais uma vez para quem não conseguiu acompanhar na primeira postagem e também para quem deseja reviver esse momento transformador. 

Não perca a oportunidade de refletir e se fortalecer com as palavras de Osmar Prado.

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ROTARY CLUB NOVOS TEMPOS E O CLUBE CENTRAL PROMOVERAM UM LINDO ALMOÇO BENEFICENTE EM PROL DA APAE NITERÓI E A PRESIDENTE MATILDE SLAIBI CONTI MARCA PRESENÇA


A Diretoria de Cultura do Elos Internacional informa aos membros e parceiros que a nossa presidente, Matilde Carone Slaibi Conti, ladeada de inúmeras personalidades da cultura e da ação social, marcou presença em uma tarde inesquecível de solidariedade e união. 

No último dia 30 de agosto, o Rotary Club Novos Tempos – presidente Angela Riccomi e o Clube Central – presidente Fernando Tinoco promoveram um lindo almoço beneficente em prol da APAE Niterói, no Salão da Whisqueria do Clube Central. O delicioso almoço ficou a cargo da Chef Beth Schuler.  O evento reuniu pessoas que acreditam que, juntos, podemos transformar vidas.

Com um almoço completo e agradável, a ocasião foi marcada por muita alegria, amizade e propósito. A trilha sonora da tarde ficou por conta do talentoso Paulo Cantori, com sua música ao vivo, e contou com a especial participação do cantor Otávio Almeida, dois grandes nomes que emocionaram o público presente. 

© Alberto Araújo

Diretor de Cultura do Elos Internacional

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domingo, 30 de agosto de 2026

O NAVIO DA AURORA - POEMA DE ALBERTO ARAÚJO INSPIRADO EM "O NAVIO NEGREIRO" DE CASTRO ALVES


O NAVIO DA AURORA

Poema de © Alberto Araújo

 

I

Estamos em pleno mar... No véu da aurora

Brinca o sol,  flamejante centelha;

E as ondas após ele correm... cantam,

Como coros de aves que se espelham.

 

Estamos em pleno mar... Do firmamento

Caem estrelas como pétalas vivas...

O mar em troca acende suas chamas,

— Constelações de águas fugitivas.

 

Estamos em pleno mar... Dois infinitos

Ali se abraçam num enlace puro,

Azuis, dourados, livres, luminosos...

Qual dos dois é o céu? qual é futuro?

 

II

Cantai, marujos! Cantai sem medo,

Que o vento é harpa, que o mar é verso!

O brigue avança como sonho aceso,

E cada vela é página do universo.

 

Do Português a saudade ecoa,

Do Índio a prece se levanta,

Do Africano a força ressoa,

E o mundo inteiro canta e canta!

 

III

Mas que vejo eu aí... Que quadro sublime!

Não há correntes, não há ferros, não há crime.

É canto de esperança! É dança de alegria!

Meu Deus! meu Deus! que doce poesia!

 

IV

Era um sonho radiante... o tombadilho

Que das lanternas reflete o brilho,

Em festa a se banhar.

Tinir de risos... estalar de palmas...

Legiões de homens livres como almas,

Felizes a dançar.

 

Homens e mulheres, erguendo seus filhos,

Mostram ao mundo futuros tranquilos,

E a vida que se refaz.

Outras moças, de olhos iluminados,

No turbilhão de abraços libertados,

Cantando a paz que jaz.

 

V

Senhor Deus dos libertados!

Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura... se é verdade

Tanta esperança perante os céus?!

Ó mar, por que não guardas

Com a esponja de tuas vagas

Este canto em teu clarão?

Astros! noites! tempestades!

Rolai das imensidades!

Protegei o sonho, tufão!

 

VI

Existe um povo que a bandeira ergue

Para cobrir justiça e valentia!

E deixa-a transformar-se nesta festa,

Em manto puro de alegria!

Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,

Que radiante na gávea se anuncia?

Silêncio, Musa... canta, canta tanto,

Que o pavilhão se lave no teu canto!

 

Auriverde pendão de minha terra,

Que a brisa do Brasil beija e levanta,

Estandarte que a luz do sol encerra

E as promessas divinas da esperança...

Tu que, da liberdade após a guerra,

Foste hasteado dos heróis na lança,

Antes te houvessem roto na batalha,

Que servires ao mundo como mortalha!

 

Publicado em 1869, O Navio Negreiro de Castro Alves consolidou-se como um dos textos mais emblemáticos da literatura abolicionista brasileira. Sua força retórica e imagética transformou o poema em símbolo da denúncia contra a escravidão, inscrevendo o autor como “poeta dos escravos”.

A versão aqui apresentada não pretende substituir o clássico, mas sim propor uma releitura poética que dialoga com sua estrutura e grandiosidade formal. Se no texto original o mar é palco de horror e opressão, nesta recriação o oceano surge como metáfora de liberdade, esperança e união dos povos.

Trata-se, portanto, de um exercício de transposição temática: a mesma cadência épica, o mesmo ritmo de imagens grandiosas, mas em direção a um conteúdo que celebra a dignidade humana. Essa operação literária inscreve o poema como homenagem crítica, que reconhece a força histórica de Castro Alves e, ao mesmo tempo, abre espaço para novas interpretações do mar como símbolo universal.

Assim, a obra se configura como uma releitura poética e um diálogo literário, reafirmando que os clássicos não se esgotam em si mesmos, mas inspiram novas vozes, novos cantos e novas viagens.

 

 

Poema O Navio Negreiro – Castro Alves

I

'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço

Brinca o luar — dourada borboleta;

E as vagas após ele correm... cansam

Como turba de infantes inquieta.

'Stamos em pleno mar... Do firmamento

Os astros saltam como espumas de ouro...

O mar em troca acende as ardentias,

— Constelações do líquido tesouro...

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos

Ali se estreitam num abraço insano,

Azuis, dourados, plácidos, sublimes...

Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...

'Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas

Ao quente arfar das virações marinhas,

Veleiro brigue corre à flor dos mares,

Como roçam na vaga as andorinhas...

Donde vem? onde vai? Das naus errantes

Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?

Neste saara os corcéis o pó levantam,

Galopam, voam, mas não deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest'hora

Sentir deste painel a majestade!

Embaixo — o mar em cima — o firmamento...

E no mar e no céu — a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!

Que música suave ao longe soa!

Meu Deus! como é sublime um canto ardente

Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,

Tostados pelo sol dos quatro mundos!

Crianças que a procela acalentara

No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba

Esta selvagem, livre poesia

Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,

E o vento, que nas cordas assobia...

..........................................................

Por que foges assim, barco ligeiro?

Por que foges do pávido poeta?

Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira

Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! águia do oceano,

Tu que dormes das nuvens entre as gazas,

Sacode as penas, Leviathan do espaço,

Albatroz! Albatroz! dá-me estas asas.

II

 

Que importa do nauta o berço,

Donde é filho, qual seu lar?

Ama a cadência do verso

Que lhe ensina o velho mar!

Cantai! que a morte é divina!

Resvala o brigue à bolina

Como golfinho veloz.

Presa ao mastro da mezena

Saudosa bandeira acena

As vagas que deixa após.

Do Espanhol as cantilenas

Requebradas de langor,

Lembram as moças morenas,

As andaluzas em flor!

Da Itália o filho indolente

Canta Veneza dormente,

— Terra de amor e traição,

Ou do golfo no regaço

Relembra os versos de Tasso,

Junto às lavas do vulcão!

O Inglês — marinheiro frio,

Que ao nascer no mar se achou,

(Porque a Inglaterra é um navio,

Que Deus na Mancha ancorou),

Rijo entoa pátrias glórias,

Lembrando, orgulhoso, histórias

De Nelson e de Aboukir.. .

O Francês — predestinado —

Canta os louros do passado

E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,

Que a vaga jônia criou,

Belos piratas morenos

Do mar que Ulisses cortou,

Homens que Fídias talhara,

Vão cantando em noite clara

Versos que Homero gemeu ...

Nautas de todas as plagas,

Vós sabeis achar nas vagas

As melodias do céu! ...

III

 

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!

Desce mais ... inda mais... não pode olhar humano

Como o teu mergulhar no brigue voador!

Mas que vejo eu aí... Que quadro d'amarguras!

É canto funeral! ... Que tétricas figuras! ...

Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

IV

 

Era um sonho dantesco... o tombadilho

Que das luzernas avermelha o brilho.

Em sangue a se banhar.

Tinir de ferros... estalar de açoite...

Legiões de homens negros como a noite,

Horrendos a dançar...

Negras mulheres, suspendendo às tetas

Magras crianças, cujas bocas pretas

Rega o sangue das mães:

Outras moças, mas nuas e espantadas,

No turbilhão de espectros arrastadas,

Em ânsia e mágoa vãs!

E ri-se a orquestra irônica, estridente...

E da ronda fantástica a serpente

Faz doudas espirais ...

Se o velho arqueja, se no chão resvala,

Ouvem-se gritos... o chicote estala.

E voam mais e mais...

Presa nos elos de uma só cadeia,

A multidão faminta cambaleia,

E chora e dança ali!

Um de raiva delira, outro enlouquece,

Outro, que martírios embrutece,

Cantando, geme e ri!

No entanto o capitão manda a manobra,

E após fitando o céu que se desdobra,

Tão puro sobre o mar,

Diz do fumo entre os densos nevoeiros:

"Vibrai rijo o chicote, marinheiros!

Fazei-os mais dançar!..."

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .

E da ronda fantástica a serpente

Faz doudas espirais...

Qual um sonho dantesco as sombras voam!...

Gritos, ais, maldições, preces ressoam!

E ri-se Satanás!...

V

 

Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura... se é verdade

Tanto horror perante os céus?!

Ó mar, por que não apagas

Co'a esponja de tuas vagas

De teu manto este borrão?...

Astros! noites! tempestades!

Rolai das imensidades!

Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados

Que não encontram em vós

Mais que o rir calmo da turba

Que excita a fúria do algoz?

Quem são? Se a estrela se cala,

Se a vaga à pressa resvala

Como um cúmplice fugaz,

Perante a noite confusa...

Dize-o tu, severa Musa,

Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,

Onde a terra esposa a luz.

Onde vive em campo aberto

A tribo dos homens nus...

São os guerreiros ousados

Que com os tigres mosqueados

Combatem na solidão.

Ontem simples, fortes, bravos.

Hoje míseros escravos,

Sem luz, sem ar, sem razão. . .

São mulheres desgraçadas,

Como Agar o foi também.

Que sedentas, alquebradas,

De longe... bem longe vêm...

Trazendo com tíbios passos,

Filhos e algemas nos braços,

N'alma — lágrimas e fel...

Como Agar sofrendo tanto,

Que nem o leite de pranto

Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,

Das palmeiras no país,

Nasceram crianças lindas,

Viveram moças gentis...

Passa um dia a caravana,

Quando a virgem na cabana

Cisma da noite nos véus ...

... Adeus, ó choça do monte,

... Adeus, palmeiras da fonte!...

... Adeus, amores... adeus!...

Depois, o areal extenso...

Depois, o oceano de pó.

Depois no horizonte imenso

Desertos... desertos só...

E a fome, o cansaço, a sede...

Ai! quanto infeliz que cede,

E cai p'ra não mais s'erguer!...

Vaga um lugar na cadeia,

Mas o chacal sobre a areia

Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,

A guerra, a caça ao leão,

O sono dormido à toa

Sob as tendas d'amplidão!

Hoje... o porão negro, fundo,

Infecto, apertado, imundo,

Tendo a peste por jaguar...

E o sono sempre cortado

Pelo arranco de um finado,

E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,

A vontade por poder...

Hoje... cúm'lo de maldade,

Nem são livres p'ra morrer. .

Prende-os a mesma corrente

— Férrea, lúgubre serpente —

Nas roscas da escravidão.

E assim zombando da morte,

Dança a lúgubre coorte

Ao som do açoute... Irrisão!...

Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus,

Se eu deliro... ou se é verdade

Tanto horror perante os céus?!...

Ó mar, por que não apagas

Co'a esponja de tuas vagas

Do teu manto este borrão?

Astros! noites! tempestades!

Rolai das imensidades!

Varrei os mares, tufão! ...

VI

 

Existe um povo que a bandeira empresta

P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...

E deixa-a transformar-se nessa festa

Em manto impuro de bacante fria!...

Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,

Que impudente na gávea tripudia?

Silêncio. Musa... chora, e chora tanto

Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...

Auriverde pendão de minha terra,

Que a brisa do Brasil beija e balança,

Estandarte que a luz do sol encerra

E as promessas divinas da esperança...

Tu que, da liberdade após a guerra,

Foste hasteado dos heróis na lança

Antes te houvessem roto na batalha,

Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!

Extingue nesta hora o brigue imundo

O trilho que Colombo abriu nas vagas,

Como um íris no pélago profundo!

Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga

Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!

Andrada! arranca esse pendão dos ares!

Colombo! fecha a porta dos teus mares!

 

 

Créditos do vídeo: 

https://www.youtube.com/watch?v=3j8XoDSoA-E