A literatura não é apenas
o registro do que fomos, mas a arquitetura do que somos e do que ainda
poderemos habitar. No universo das letras brasileiras, poucas vozes possuem a
capacidade de tecer, com a mesma maestria, a memória regional de Mato Grosso do
Sul e o cosmopolitismo das grandes capitais culturais. É sob essa luz que o
Focus Portal Cultural, em seu novo quadro “Encontros com a Palavra”, tem a honra
de receber uma das personalidades mais emblemáticas da nossa cena intelectual:
a escritora, poeta e imortal da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, Raquel
Naveira.
Convidar Raquel Naveira
para uma conversa é, por si só, um ato de mergulho. Sua trajetória, que
atravessa as salas de aula universitárias, a crônica jornalística, a vivência
na França e a intensa produção poética é um convite constante à redescoberta da
sensibilidade. Em uma época marcada pelo ruído digital e pela pressa das telas,
Naveira nos traz a pausa necessária, a palavra bordada, a memória como fio
condutor de um destino que, como ela mesma costuma citar, já estava escrito:
Maktub.
Nesta entrevista
exclusiva conduzida pelo jornalista e escritor Alberto Araújo, o leitor não
encontrará apenas respostas, mas um verdadeiro inventário da alma. Discutiremos
o peso da herança portuguesa que permeia sua obra, o rigor do Direito versus a
liberdade da poesia, o papel da mulher tecelã de textos e a honra de ocupar
cadeiras que ajudaram a construir o pensamento brasileiro.
Raquel abre, com rara
generosidade, os bastidores de seu processo criativo, revelando como a criança
que lia Monteiro Lobato e os clássicos franceses se tornou essa voz
indispensável que hoje nos ensina que a literatura é, antes de tudo, um desejo
de ser e de fazer.
Por que ler este
encontro? Porque ele é um mapa para quem busca entender a força transformadora
da escrita. Raquel Naveira nos conduz por um passeio que vai das margens do
Pantanal às luzes da Avenida Paulista, provando que o regional é, em sua
essência, o mais profundo universal.
Prepare-se para um
momento memorável. O Focus Portal Cultural orgulhosamente apresenta um diálogo
que suplanta o tempo, onde a saudade, o místico e o cotidiano se encontram. A
mesa está posta, o livro está aberto e a palavra, em sua forma mais pura,
aguarda a sua leitura.
Aguarde. A Entrevista vai
começar.
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ENTREVISTA DE RAQUEL NAVEIRA AO FOCUS PORTAL
CULTURAL
Entrevistador: Jornalista Alberto Araújo
1. Como
foi a sua infância em Campo Grande e quais foram os primeiros contatos que teve
com a literatura que despertaram em você o desejo de escrever?
Resposta: A minha infância foi dividida
entre São Paulo, Campo Grande (Mato Grosso do Sul) e Bela Vista (fronteira com
o Paraguai). Morava em São Paulo, estudava no Liceu Pasteur, um colégio onde o
francês era a segunda língua, e passava longas férias no sul de Mato Grosso.
Vivi entre mundos e realidades diferentes, tensões linguísticas e culturais. A
grande metrópole, as escadas rolantes, as luzes da Avenida Paulista. E, depois,
as charretes, as fazendas, as casas rurais distantes umas das outras.
Tornei-me, assim, uma cidadã do mundo, agindo sempre com naturalidade e
simplicidade. Desde criança amei a palavra, o objeto livro, as bibliotecas. Fui
uma grande leitora na infância: Monteiro Lobato, Malba Tahan, os Irmãos Grimm,
Hans Christian Andersen, As Mil e Uma Noites, a Mitologia Grega, a
coleção Tesouro da Juventude. Sempre tive uma certeza interior: queria ser
uma escritora. Essa seria a minha forma de ser e estar no mundo. Estava
escrito. Maktub.
2. Por
que a escolha pelas graduações em Direito e Letras, áreas que parecem tão
distintas? Como o Direito influenciou a sua disciplina de escrita?
Resposta: Poesia e magistério são duas
vocações unidas, interligadas, nascidas na área mágica do silêncio e da
solidão, onde os livros se abrem e deixam sair suas realidades e seus sonhos. O
interesse pelos livros se transformou numa vocação de magistério. Já o Direito
me deu um senso de justiça e rigor de pensamento. Dois cursos da área
humanista.
3. Como
foi a transição da estudante de Letras na antiga FUCMAT para a professora da
mesma instituição?
Resposta: Durante todo o curso,
distingui-me como aluna interessada, dedicada aos assuntos literários.
Concomitantemente, dava aulas no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora e escrevia
poemas e artigos num jornal local, o Correio do Estado. Logo depois de
minha formatura, um professor me indicou para as disciplinas de Literatura Portuguesa
e Literatura Latina e comecei a dar aulas na FUCMAT, que passou a se chamar
Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), onde fiquei por vinte anos.
4. O que
a levou a buscar o mestrado no Mackenzie?
Resposta: Fiz o mestrado em Comunicação e
Letras na Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo. Um curso
maravilhoso, com professores inesquecíveis e ênfase na literatura e no teatro.
Período que marcou a minha formação acadêmica.
5. Como a
vivência na França e o estudo aprofundado da língua e literatura francesas
moldaram o seu olhar poético?
Resposta: Minha educação fundamental foi
no Colégio Liceu Pasteur, em São Paulo. A lembrança das duas bandeiras,
brasileira e francesa, no pátio, ao som dos dois hinos, marcou minha alma.
Muito cedo recebi o título de “Doutor em Língua e Literatura Francesas” pela
Universidade de Nancy, outorgado pela Aliança Francesa. Passei a dar aulas na
Aliança Francesa de Campo Grande. Percorri a França de forma espiritual: a
terra, os homens, os costumes de cada província, as artes e as letras. Nas duas
vezes que estive na França, senti-me em casa, alguém em seu próprio ambiente,
apenas reconhecendo coisas e lugares familiares. O que vi de mais lírico na
França não está em nenhum monumento em especial, mas em sensações indefiníveis,
como a de respirar cultura em museus, castelos, praças, pontes, jardins e
igrejas. Compartilhei dos sofrimentos e lutas que formaram a história do povo
francês. Tive sonhos com cenas de quadros, pedaços de espelho, rostos de
estátuas. Por toda parte onde ia, agradecia intimamente tudo que estava vendo
com os olhos e absorvendo em minha mente. Foi um deslumbramento. Uma grande
experiência.
6. Você
iniciou sua atuação na imprensa em 1977. Como era o cenário cultural de Mato
Grosso do Sul na época e como foi ver seus primeiros poemas publicados?
Resposta: Aos vinte anos, comecei a
publicar meus poemas no jornal de maior circulação do Estado, o Correio do
Estado. Foi o começo de um compromisso com o ofício de escritora: escrever
e viver, viver e escrever. Um poema nosso chamou a atenção do poeta Manoel de
Barros, que pediu para me conhecer pessoalmente. O encontro com ele foi
emocionante, um marco em minha vida literária. Ele me escreveu, depois, uma
carta que publiquei na íntegra em meu livro Quarto de Artista. Generoso,
falou-me de linguagem, de metáforas, de como a poesia nos projeta em
suprarrealidades.
7. Seu
primeiro livro, Via Sacra (1989), foi publicado de forma independente.
Qual é a importância desse "primeiro filho" para a sua trajetória?
Resposta: Publiquei Via Sacra numa
gráfica da cidade, depois de dez anos de jornalismo. Eu já possuía um público
leitor. O livro chegou a um jornal literário chamado Verve e logo eu
estava num evento no Rio de Janeiro. O segundo livro, Fonte Luminosa,
foi publicado por um editor de arte de São Paulo, Massao Ohno, e nunca mais
parei. Mais de trinta anos de publicações.
8. Você é
conhecida pela intensa produtividade literária. De onde vem essa "força
reveladora" que a faz produzir livros quase anualmente?
Resposta: É um movimento quase de
respiração. Uma necessidade de comunicação, de manter uma identidade, de
alimentar um sonho. Uma paixão que dá significado ao meu viver.
9. Na
obra Fiandeira (1992), você mistura prosa e poesia. O que a atrai nessa
hibridez de gêneros?
Resposta: Misturo prosa e poesia. Nunca
abandono a poesia, mesmo em prosa. É como se trouxesse a gênese do meu fazer
poético. É um trabalho híbrido, estranho às vezes e, creio, generoso e
original.
10. Você
se autodefine como uma "fiandeira de textos". Como funciona o seu
processo criativo de transformar memórias em tramas literárias?
Resposta: A mulher tecelã, a fiandeira, é
um símbolo do meu fazer poético. As mulheres sempre teceram, fiaram, tramaram,
urdiram. “Texto” significa “tecido”. Um tecido bordado com palavras. Escrevi:
“Sou uma fiandeira / Aranha tirando de dentro / A liga que emaranha.”
11. Sua
obra perpassa o regional, o histórico, o místico e o sensual. Como você
equilibra temas tão diversos dentro do seu fazer poético?
Resposta: São linhas temáticas universais
que perpassam o meu trabalho: a minha região de fronteira, as raízes
pantaneiras; a história, não só os feitos notáveis da humanidade, mas a
observação dos sentimentos das pessoas, as personalidades, os rastros e
vestígios deixados; a busca de mim mesma, o autoconhecimento e a busca do
Outro, do divino, do sobrenatural; o erotismo que é chama, desejo de amar e ser
amada. São temas universais. Curiosidades e extensões da minha própria alma.
12. Qual
a importância das personagens bíblicas e místicas, presentes em obras como Abadia,
Maria Madalena e Maria Egipcíaca, no seu imaginário literário?
Resposta: Vários de meus poemas surgem a
partir de um nome de mulher. Nomes bíblicos, nomes históricos, nomes de
escritoras. O nome já traz em seu bojo um significante, um significado, uma
narrativa, uma personalidade. E pesquiso bastante antes de escrever.
13. O que
a inspira a escrever para o público infantil, como em Guto e os Bichinhos?
Como muda sua voz ao dialogar com crianças?
Resposta: Escrevi também Dora, a menina
escritora, No mundo encantado de Luciana e Nino e a Orca. Há
duas formas de escrever literatura infantojuvenil com verdade: escrever sobre a
criança que fomos ou escrever para uma criança que amamos.
14. A
memória é um fio condutor recorrente. Qual o papel da saudade e do resgate
histórico em obras como Sangue Português e Álbuns da Lusitânia?
Resposta: O fio condutor desses livros é a
minha origem portuguesa. Sou neta de imigrantes portugueses. Nossa mesa era
portuguesa, com certeza, de pão e vinho. De afeto e fado. Sangue Português
são poemas portugueses e lusófonos. Álbuns da Lusitânia é um romance
sobre a imigração portuguesa no sul de Mato Grosso, no começo do século XX.
15. Como
você vê a relação entre a sua escrita poética e a sua escrita de crônicas em
jornais como o Correio do Estado?
Resposta: São quase quarenta anos de
publicações de minhas crônicas e poemas, de meus textos híbridos, que não
obedecem às fronteiras dos gêneros. Hoje publico no jornal O Mato Grosso do
Sul, no Jornal de Letras, no jornal Linguagem Viva, em vários
sites e blogs. Semanalmente. Pontualmente. Com fôlego e presença constantes.
16. Abadia
e Casa de Tecla foram finalistas do Prêmio Jabuti. O que essa chancela
representou para a sua carreira em âmbito nacional?
Resposta: Os prêmios e indicações são
bons. Alegram. Incentivam. Dão visibilidade. Fico feliz e não me sinto mais tão
sozinha, pois o ato de escrever em si é solitário.
17. O que
significou para você receber o Prêmio "Henriqueta Lisboa" da Academia
Mineira de Letras?
Resposta: Henriqueta Lisboa é uma dama
clássica da literatura. E a Academia Mineira de Letras congrega escritores
fundamentais da literatura brasileira. Minas Gerais: berço de poetas. Um
orgulho.
18. Como
foi o processo de integrar o prestigioso PEN Clube do Brasil em 2000?
Resposta: O PEN Clube do Brasil é uma casa
de letras e de convivência de escritores: lá acontecem lançamentos, palestras,
encontros. Tem vitrais lindos e a vista da Baía da Guanabara. Todos os
processos surgem da persistência, das correspondências, do talento e da
coragem.
19. Você
ocupa a Cadeira nº 8 da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, que pertenceu a
Germano Barros de Sousa. Como é lidar com o peso e a honra dessa sucessão?
Resposta: Conheci pessoalmente o Dr.
Germano, médico, coronel reformado do Exército, poeta por vocação e estudioso
da literatura brasileira. Um homem gentil, culto, dono de uma biblioteca
imensa, que ele me apresentou quando eu era ainda uma adolescente. Ele deixou
um grande legado e me sinto muito honrada em ocupar a Cadeira que lhe pertenceu
em nossa Academia.
20. Como
é a sua experiência na Academia Cristã de Letras de São Paulo e o que esse
intercâmbio com o meio intelectual paulista lhe proporciona?
Resposta: É uma Academia especial, pois é
cristã, profundamente humanista e norteada por princípios como o amor ao
próximo e a fraternidade entre seus membros. É uma das mais tradicionais do
país, formada por um grupo de intelectuais, professores, médicos e advogados
que têm o objetivo de promover a literatura, a cultura e a ética.
21. Por
muitos anos, você foi a voz e o rosto do programa "Prosa e Verso" na
TV UCDB. Como essa experiência na televisão mudou a forma como você compartilha
literatura com o grande público?
Resposta: Durante seis anos apresentei o
programa “Prosa e Verso”, na TV UCDB. Entrevistei professores, acadêmicos,
escritores como Adélia Prado e Ignácio de Loyola Brandão. Foi um período
riquíssimo de trocas culturais e literárias.
22. Como
foi a transição da sala de aula universitária no MS para a docência em outras
regiões, como o Rio de Janeiro e São Paulo?
Resposta: Quando me aposentei, depois de
31 anos em sala de aula em Mato Grosso do Sul, senti necessidade de viajar, de
conhecer pessoas e lugares, de participar de outras cenas literárias. Ministrei
aulas na Universidade Santa Úrsula, do Rio de Janeiro; na Faculdade Anchieta,
em São Bernardo do Campo, e em outros cursos de pós-graduação e aparelhos
culturais. Foram muitos desafios vencidos, sempre com amor à poesia e ao
magistério.
23. Qual
a importância das oficinas literárias que você ministra para a formação de
novos escritores?
Resposta: Conhecimento e necessidade de
aprender nos acompanham por toda a vida, por todo o tempo. As oficinas são
importantes e ricas para as trocas literárias. Foco nas temáticas universais da
poesia e na formação de professores na área da literatura infantojuvenil.
24. O que
a motivou a assumir a curadoria de um evento tão importante quanto a Feira do
Livro de Brasília em 2016?
Resposta: Foi um convite do jornalista
Marcos Linhares, à época. Levamos nomes de peso à feira, como Frederico
Barbosa, Felipe Fortuna e Antonio Carlos Secchin.
25. Após
mais de três décadas de carreira, como você enxerga a evolução da literatura
produzida em Mato Grosso do Sul?
Resposta: Mato Grosso do Sul tem uma cena
literária intensa. A nossa Academia, formada por intelectuais de peso e
atuantes, oferece palestras e conversas, inclusive com integrantes da Academia
Brasileira de Letras. Outras academias e clubes de leitura fervilham na cidade
e no Estado. Blogs como o MS Poetar e o Blog do Alex publicam
textos de jovens e veteranos. Os cursos de Letras, Pedagogia e Turismo das
universidades demonstram interesse pelo diálogo com a literatura. Orgulho-me da
AEL Raquel Naveira (Academia Estudantil de Letras da Escola Estadual Professor
Emydgio Campo Vidal, que leva meu nome), que acolhe alunos do ensino médio que
desejam ser escritores ou homenageá-los. Um projeto interessante da professora
Thais Barbosa.
26. Em um
mundo cada vez mais digital e acelerado, qual é o lugar da poesia?
Resposta: Através da poesia transmitimos
nossas emoções, ideias, sentimentos, imagens e reflexões. É a forma de olharmos
o mundo de maneira sensível, descobrindo a beleza do cotidiano, as revelações,
as epifanias. Emoção, imaginação, linguagem. Além do tempo, além das telas.
27. Como
você enxerga a participação feminina na literatura brasileira atual e as
barreiras que ainda precisam ser rompidas?
Resposta: Poetas mulheres que poderíamos
elencar são muitas: Cecília Meireles, Adélia Prado, Hilda Hilst, Cora Coralina,
Conceição Evaristo, Ana Martins Marques... E tantas outras se expressando
lindamente, participando de grupos representativos como o Mulherio das Letras.
Romper barreiras é buscar forças para cultivar a poesia como meio de expressão
e libertação.
28. Você
transita entre a academia (estudos) e a criação (poesia). Como um alimenta o
outro no seu cotidiano?
Resposta: Os estudos e as pesquisas
preparam base e terreno para a criação, para a tessitura dos poemas e das
crônicas. Tudo banhado pelas fontes da imaginação e da emoção.
29. Se
pudesse definir o momento atual da sua carreira com um dos títulos das suas
obras, qual seria e por quê?
Resposta: Citaria o meu livro mais
recente, O Ombro e outros Textos Poéticos, uma síntese de tudo que
escrevemos até aqui sobre prosa e poesia, sobre emoção genuína conduzindo cada
palavra, cada pensamento. E citaria também Mundo Guarani, por ser uma
reunião de textos sobre a fronteira com o Paraguai e a influência do Pantanal
em minha obra.
30. Qual
é o legado que você deseja deixar para as futuras gerações de leitores e
escritores de Mato Grosso do Sul?
Resposta: Um legado de pertencimento e
memória. Nada há de mais fraterno que a memória. O exemplo de alguém que
transformou em palavras, às vezes em lágrimas, tudo o que viu e viveu. A
literatura é um desejo de ser e de fazer.
Caro
leitor! Qual obra da Raquel marcou sua vida? Deixe uma mensagem de carinho e
prepare-se para a leitura completa deste diálogo inesquecível.

RAQUEL NAVEIRA: A FIANDEIRA DE VERSOS E MEMÓRIAS
No vasto
e luminoso território de Mato Grosso do Sul, onde o horizonte se curva para
abraçar o céu e a terra conta segredos em dialetos de luz e poeira, ergue-se a
figura singular de Raquel Maria Carvalho Naveira.
Nascida
sob o signo da poesia em Campo Grande, no dia 23 de setembro de 1957, Raquel
não apenas habita o mundo das letras; ela o tece. Com a delicadeza de quem
manipula fios de seda e a firmeza de quem compreende a estrutura das rochas,
ela se consolidou como um emblema sagrado da lírica moderna, uma voz que
transcende fronteiras geográficas para tocar a universalidade do ser humano.
A
trajetória de Raquel Naveira é um exercício contínuo de conciliação entre o
rigor e a liberdade. Sua formação acadêmica, dividida entre as faculdades de
Direito e Letras da antiga FUCMAT, hoje Universidade Católica Dom Bosco (UCDB),
desenha o perfil de uma intelectual que compreende a linguagem tanto como um
instrumento de precisão quanto como um manancial de mistério. O Direito
ofereceu-lhe a lente analítica, a estrutura do raciocínio e a consciência do
peso de cada termo. Já as Letras, seu verdadeiro solo sagrado, permitiram que
essa estrutura fosse invadida pela fluidez da metáfora.
Essa
dualidade formativa encontrou seu apogeu no refinamento intelectual conquistado
no mestrado em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie
e, com brilho singular, no doutorado em Língua e Literatura Francesas pela
Universidade de Nancy, na França. Foi ali, entre os ecos da tradição europeia e
a vivência de um mundo estranho, que Raquel poliu sua sensibilidade. Ela
retornou não apenas com diplomas, mas com uma "força reveladora" que
passou a pautar sua docência no magistério superior e sua própria escrita.
Se o ato
de escrever é, por essência, uma tentativa de apreender o tempo, Raquel Naveira
o faz com a maestria de quem não teme a página em branco. Desde a publicação
independente de Via Sacra, em 1989, a escritora deu início a uma
produção literária que desafia o ritmo frenético da vida contemporânea pela sua
constância e qualidade. Ano após ano, como as estações que se sucedem, Raquel
presenteia o Brasil com obras que navegam pelo regionalismo, pelo épico, pelo
histórico e, sobretudo, pelo lírico.
Sua obra Fiandeira
(1992) é, talvez, o ponto de inflexão mais sensível para compreendermos sua
alma literária. Ao acolher a lição de Emil Staiger sobre a fluidez dos gêneros,
Raquel rompe as barreiras entre a prosa e a poesia. Como ela mesma definiu com
a precisão de um aforismo: "Sou fiandeira tecendo textos e tramas com
os fios frágeis e preciosos das memórias." Nesse tear, ela entrelaça o
cotidiano, o caminhar de bicicleta, o voo de um avião invisível, com as questões profundas do espírito humano,
como a fé, a dor e a redenção.
Seus
livros, de Abadia a Casa de Tecla, ambos finalistas do
prestigioso Prêmio Jabuti, são espelhos de uma inquietação constante. Raquel
mergulha na alma feminina com uma densidade quase palpável em obras como Maria
Madalena, Mulher Samaritana e Maria Egipcíaca, redescobrindo
figuras bíblicas através de um olhar moderno, sensual e profundamente humano.
Ela não apenas escreve sobre estas mulheres; ela as revisita, dando-lhes voz e
corpo na contemporaneidade.
Raquel
Naveira não é uma escritora que se isola em uma torre de marfim. Pelo
contrário, sua presença é uma constante nos tecidos sociais e culturais de Mato
Grosso do Sul e do Brasil. Seja como produtora e apresentadora do programa cultural
"Prosa e Verso" na TV UCDB, onde democratizou o acesso à literatura,
seja nos corredores das Academias de Letras, ela é uma ponte.
Como
vice-presidente da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, ocupando a Cadeira nº
8, e membro do PEN Clube do Brasil, onde ingressou em 2000 em meio a uma plêiade
de notáveis escritores, Raquel exerce uma diplomacia da palavra. Ela compreende
que o papel da intelectual é também o da curadoria e da mediação, como provou
ao assumir a curadoria da 32ª Feira do Livro de Brasília em 2016. Sua atuação
como cronista no Correio do Estado revela ainda uma faceta essencial: a
observadora atenta, capaz de extrair poesia do trivial e de documentar o
espírito de um tempo em constante mutação.
A
fecundidade de sua carreira, celebrada em Jardim Fechado (2015), não é o
fim de um ciclo, mas um painel que permite vislumbrar a extensão de sua missão.
Ao abordar temas como a lusofonia em Sangue Português, livro agraciado
com o Prêmio Guavira, Raquel reafirma seu compromisso com a identidade e com as
raízes que nos formam. Ela transita da crônica infantil, em Guto e os Bichinhos ou Dora, a
Menina Escritora, para a profundidade do ensaio sobre a
interdisciplinaridade, sempre com a mesma elegância, a mesma erudição
despretensiosa e o mesmo amor pelo ofício.
Raquel
Naveira é, acima de tudo, uma mulher que respira a palavra. Sua biografia não
se resume aos prêmios, o "Jacaré de Prata", o "Henriqueta
Lisboa", o "Zumbi", embora estes sejam balizas de um
reconhecimento merecido. Ela se resume na sua capacidade de transformar o fio
da memória em uma trama que acolhe o leitor, convidando-o a um passeio pelos
caminhos da alma.
Como
fiandeira, ela continua a trabalhar no seu tear, atenta aos acordes intuitivos
que lhe ditam a próxima página. A poetisa que nasceu em Campo Grande e que
carrega o mundo em seu coração é a prova viva de que a literatura, quando feita
com entrega e verdade, não conhece fronteiras. Ela é a própria encarnação do
verso que se faz vida, da vida que se faz história e da história que, tecida
com paciência, torna-se eterna. Raquel Naveira não apenas escreve sobre o
humano; ela, com seus fios frágeis e preciosos, ajuda-nos a tecer o sentido de
nossa própria existência.
ENTRE
O FIO E O HORIZONTE: O LEGADO DE RAQUEL NAVEIRA
Ao
chegarmos ao fim deste encontro, resta-nos a sensação de termos sido convidados
a uma viagem cujas fronteiras não se limitam ao mapa, mas se expandem pela
geografia da alma. Conversar com Raquel Naveira é compreender que a literatura
não é um exercício estático; é, antes de tudo, um movimento de "fiandeira",
como ela mesma se define, alguém que, entre o silêncio e o ruído do mundo,
escolhe tecer a eternidade com o fio das palavras.
Agradecemos
profundamente a Raquel Naveira pela generosidade de abrir as portas de sua
biblioteca particular, de seu imaginário e de sua própria trajetória. Sua voz,
que ressoa desde os campos pantaneiros até os salões imortais das academias, é
um baluarte para todos nós que acreditamos que a cultura é o alicerce mais
resistente da nossa humanidade. Raquel nos ensinou, nesta entrevista, que o
"ser e estar no mundo" exige coragem, persistência e, sobretudo, uma
inesgotável capacidade de se encantar, seja com um verso de Cecília Meireles,
com a luz do entardecer ou com o mistério de um nome antigo.
Aos
nossos leitores do Focus Portal Cultural, que nos acompanharam nesta travessia,
nosso muito obrigado. Em tempos de pressa e fragmentação, dedicar minutos
preciosos à leitura de uma entrevista densa e poética é um ato de resistência
cultural. Esperamos que, ao fechar esta página, você leve consigo não apenas as
respostas de Raquel, mas a inspiração para encontrar a sua própria
"fiandeira" interior, para valorizar a memória de suas raízes e para
entender que a escrita, como a própria vida, é um tecido que nunca termina de
ser bordado.
Que
este diálogo permaneça vivo em seu pensamento como uma epifania. Que a saudade
e a beleza, temas tão caros à nossa entrevistada, sirvam de companhia em seus
próprios caminhos. E, como diria nossa convidada, que possamos seguir
celebrando a palavra, pois é nela que nos reconhecemos, nos transformamos e,
finalmente, nos eternizamos.
A
literatura continua, o portal permanece aberto e nós, aqui no Focus, seguiremos
sempre à procura das grandes vozes e dos encontros que fazem a vida valer a
pena.
Até
o nosso próximo Encontro com a Palavra.
©
Alberto Araújo
Focus
Portal Cultural
MENSAGENS
A presidente
Matilde Carone Slaibi Conti disse: Sempre amei a Literatura de Raquel Naveira.
Quando penso naquela “Cidade Morena”, ela personifica para mim, a Academia de
Letras de Mato Grosso do Sul. Essa sua
entrevista com a autora tão proeminente no meio cultural brasileiro, ficará
para sempre marcado, devido à profundidade de sua importância. Essa preciosidade,
verdadeiro “bate bola”, deve ser lida, relida e quem sabe mesmo, até decorada. Em época de futebol, poderíamos até dizer: “show
de bola”. Que felicidade! Verdadeiro golaço. Parabéns querido jornalista,
Alberto Araújo. Muitos
parabéns. Matilde.
********
Presidente Matilde, muito obrigado por suas palavras
tão gentis e generosas! Fico imensamente feliz que tenha gostado da entrevista.
Você também marcou um golaço ao trazer à cena a 'Cidade Morena'; que maravilha
é essa! Certamente, esse momento inspirador será o tema da minha próxima
crônica. Aproveito para dizer que, para mim, Raquel Naveira é realmente uma
das escritoras mais incríveis da nossa atualidade. Conversar com ela é sempre
uma aula de sensibilidade e cultura. Um grande abraço! Alberto Araújo.
*****
A acadêmica Membro do Real Gabinete Português de
Leitura Idalina Andrade Gonçalves disse: Prezado Alberto, Adorei a entrevista,
com a Ilustre Raquel Naveira. É um orgulho para o Brasil. É maravilhosa. Grande
abraço Idalina
*****
Confreira Idalina! Muito obrigado pelo seu gentil
retorno. Fico imensamente feliz em saber que você apreciou a entrevista com a
ilustre Raquel Naveira. Compartilho inteiramente do seu sentimento; ela é, de
fato, uma presença admirável e um verdadeiro orgulho para a nossa cultura. É
uma honra poder dar visibilidade a vozes tão significativas quanto a dela em
nosso Portal. Abraços do Alberto Araújo.
*****
A escritora Gilda Uzeda disse: Parabéns, Alberto!👏
Há Beleza e Ensinamento nesta Entrevista. É para ser lida e relida! Abraço,
Gilda🌸
*********
Prezada Gilda, Muito obrigado pelo seu carinho e pelo incentivo constante. Fico
feliz que tenha apreciado a entrevista com a Raquel Naveira. Ela também tal
qual você é uma "Geógrafa de Almas", alguém capaz de mapear as
profundezas do ser humano com uma sensibilidade ímpar. É uma alegria saber que
você encontrou tanta beleza e ensinamento no texto, ao ponto de guardá-lo para
ser lido e relido. Alberto Araújo.
