terça-feira, 13 de janeiro de 2026

6º PRÉMIO INTERNACIONAL PENA DE OURO: DATA DE DIVULGAÇÃO DOS FINALISTAS!



A 6ª edição do Prêmio Internacional Pena de Ouro chega a um de seus momentos mais aguardados: os FINALISTAS serão anunciados... AMANHÃ! 

Na semana passada, foram anunciados e divulgados TODOS os textos selecionados (semifinalistas), garantindo transparência e permitindo que todos os interessados acompanhassem de perto cada etapa do certame. Agora, é chegada a hora de revelar quais, entre eles, alcançaram a condição de FINALISTAS! 

DESTAQUES DESTA EDIÇÃO: 

Todos os finalistas serão premiados em dinheiro, reafirmando o compromisso da Casa Brasileira de Livros com o reconhecimento efetivo do mérito literário, traduzido não apenas em distinção simbólica, mas em valorização concreta daqueles autores que, por talento e rigor, alcançaram este patamar de excelência. 

A premiação em dinheiro bateu recorde entre concursos do gênero, consolidando o Prêmio Internacional Pena de Ouro como o maior evento do mundo lusófono dedicado a textos avulsos, um certame que inspira inúmeros outros eventos, frequentemente replicado em formato, mas cuja magia, alcance, credibilidade e tradição permanecem inconfundivelmente exclusivos do original. 

Todos os participantes receberam um livro digital de autor da Casa: "Neon Timor", de Sebastião Burnay, uma obra rara de poesia de temática timorense escrita por um autor português, praticamente inacessível ao público brasileiro e que só chegou aos leitores graças ao trabalho editorial da Casa Brasileira de Livros,  algo que, sem a Casa, simplesmente não seria possível. 

A Casa Brasileira de Livros agradece profundamente a todos os autores, leitores e apoiadores que prestigiaram mais esta edição de um evento que já se consolidou como referência no cenário literário lusófono. 

Viva a literatura. Viva a lusofonia! 

Nota final

Com o encerramento de mais uma edição do Prêmio Internacional Pena de Ouro, que retorna no segundo semestre, a Casa Brasileira de Livros segue em pleno movimento, fiel ao seu compromisso contínuo com a literatura.

Janeiro é, tradicionalmente, tempo de Prata da Casa: um evento de alcance nacional, nascido de um pedido antigo da comunidade literária, formulado desde a primeira edição do Pena de Ouro, e que ocupa, com brilho próprio, o primeiro semestre do calendário da Casa. As inscrições foram abertas ontem.

Em 2026, o Prata da Casa retorna repleto de novidades, reafirmando a vocação da Casa para ouvir os autores, inovar constantemente e ampliar, a cada ano, os horizontes da literatura brasileira. 

A Casa não para!







 

A CATEDRAL DOS LIVROS: 120 ANOS DA LIVRARIA LELLO

O Porto e o seu templo literário. Na Rua das Carmelitas, número 144, ergue-se desde 1906 um monumento que transcende o comércio de livros: a Livraria Lello. Mais do que uma livraria, é uma verdadeira catedral da cultura, onde cada detalhe arquitetônico celebra a palavra escrita. Francisco Xavier Esteves, engenheiro e visionário, concebeu um espaço que une a funcionalidade ao esplendor estético, inspirado nas artes decorativas francesas e na ambição de transformar o ato de ler em experiência sensorial. 

No dia 13 de janeiro de 1906, figuras como Guerra Junqueiro, Júlio Brandão e Aurélio Paz dos Reis testemunharam a abertura de um espaço que se tornaria ícone. Junqueiro, poeta combativo, poderia ter visto na Lello a materialização de sua crença de que “o livro é uma arma carregada de futuro”. A livraria nascia já como palco de encontros e debates, irradiando cultura para além das suas paredes. 

A escadaria vermelha, sinuosa e quase etérea, tornou-se símbolo universal. Os vitrais filtram a luz como se fossem páginas iluminadas, e as colunas ornamentadas parecem sustentar não apenas o teto, mas também séculos de imaginação. Cada visitante é convidado a percorrer um caminho que é, ao mesmo tempo, físico e espiritual: subir degraus é como ascender ao universo da literatura. 

Reconhecida como uma das mais belas livrarias do mundo, a Lello transcende fronteiras. É destino de peregrinação para leitores, turistas e artistas. Fernando Pessoa, ainda que nunca tenha escrito diretamente sobre a Lello, ecoa em sua essência: “A literatura, como toda arte, é a confissão de que a vida não basta.” A livraria é essa confissão materializada em pedra, vidro e madeira. 

Ao longo de 120 anos, a Lello enfrentou crises e transformações. Sobreviveu às mudanças do mercado editorial e às revoluções tecnológicas, sem perder sua alma. Hoje, além de vender livros, edita obras próprias, promove autores e organiza eventos que mantêm viva a chama da cultura. É um espaço que se reinventa sem trair sua origem. 

Em tempos digitais, a Livraria Lello lembra que o livro físico é insubstituível. O toque das páginas, o cheiro do papel, o peso de uma obra nas mãos: tudo isso compõe uma experiência que nenhuma tela pode replicar. Como disse José Saramago, “somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos”. A Lello é um baluarte dessa memória coletiva, preservando o valor do livro como objeto cultural.

Ao celebrar 120 anos, a Livraria Lello reafirma sua vocação de ser mais do que um espaço comercial: é um templo cultural, um lugar onde passado e futuro se encontram. Que continue bela e ativa, inspirando gerações de leitores e escritores. Que permaneça, como escreveu Sophia de Mello Breyner, “um lugar onde o mundo se torna mais claro e mais belo”.

Conheci essa maravilhosa Livraria, comprei vários livros. Hoje celebro com o coração cheio de lembranças a Livraria Lello, essa joia cultural que tive a felicidade de conhecer. Caminhar por sua escadaria vermelha, sentir a luz filtrada pelos vitrais e estar cercada por livros que parecem respirar é uma experiência que nunca se esquece. Que bela história de 120 anos! Vida longa à Livraria Lello, que continue a inspirar gerações e a guardar em suas paredes o segredo da beleza e da cultura. Eu, que já a vi de perto, guardo para sempre a sensação de ter estado dentro de um sonho, disse: Shirley Araújo.


© Alberto Araújo

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O MUNDO HUMANO - POEMA DE © ALBERTO ARAÚJO - PARAFRASEANDO A FORMA JUSTA DE SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


Sei que seria possível erguer o mundo justo

Não apenas nas praças lavadas de luz,

Mas nos olhos que se encontram sem medo,

Nos abraços que desfazem silêncios,

Na mesa onde o pão se reparte sem cálculo.

 

O céu, o mar e a terra esperam,

Mas é no coração que a promessa se cumpre:

- Cada gesto pode ser reino,

- Cada palavra pode ser liberdade,

Se não houver traição ao humano que nos habita.

 

A forma justa não é só perfeita,

É imperfeita e viva,

É lágrima que se transforma em canto,

É ferida que se abre em flor,

É o riso que insiste mesmo na noite.

 

Por isso recomeço,

Não apenas na página em branco,

Mas no olhar que ofereço ao outro,

Na esperança que se levanta do chão,

E este é meu ofício de humano:

Reconstruir o mundo com ternura.

 

© Alberto Araújo

 

 

A FORMA JUSTA

Sophia de Mello Breyner Andresen

 

Sei que seria possível construir o mundo justo

As cidades poderiam ser claras e lavadas

Pelo canto dos espaços e das fontes

O céu o mar e a terra estão prontos

A saciar a nossa fome do terrestre

A terra onde estamos – se ninguém atraiçoasse – proporia

Cada dia a cada um a liberdade e o reino

— Na concha na flor no homem e no fruto

Se nada adoecer a própria forma é justa

E no todo se integra como palavra em verso

Sei que seria possível construir a forma justa

De uma cidade humana que fosse

Fiel à perfeição do universo

Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco

E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo.


 

EFEMÉRIDES - 113 ANOS DO NASCIMENTO DE RUBEM BRAGA - 12 DE JANEIRO DE 2026

No dia 12 de janeiro de 2026, celebramos os 113 anos de nascimento de Rubem Braga, um dos maiores cronistas da literatura brasileira. Nascido em Cachoeiro de Itapemirim, Espírito Santo, em 1913, e falecido no Rio de Janeiro em 1990, Braga permanece como referência incontornável da crônica nacional. Sua escrita, marcada pelo lirismo cotidiano, pela observação aguda e pela delicadeza poética, transformou o gênero em arte maior. 

Rubem Braga foi cronista, poeta, jornalista, editor e diplomata. Sua obra é fundamental para compreender a formação da crônica brasileira como gênero literário autônomo. Mais do que narrar fatos, Braga captava atmosferas, sentimentos e pequenos gestos que revelavam a essência da vida. 

Rubem Braga iniciou-se no jornalismo ainda adolescente, aos 15 anos, no Correio do Sul, de sua cidade natal. Logo passou a assinar crônicas diárias no Diário da Tarde, demonstrando precocidade e talento. 

Formou-se em Direito pela Faculdade de Belo Horizonte em 1932, mas nunca exerceu a profissão.  No Recife, dirigiu a página de crônicas policiais do Diário de Pernambuco e fundou o periódico Folha do Povo. Em 1936, lançou seu primeiro livro de crônicas, O Conde e o Passarinho, obra que já revelava sua sensibilidade ímpar e sua capacidade de transformar o cotidiano em literatura. 

Durante a Segunda Guerra Mundial, Braga atuou como correspondente junto à Força Expedicionária Brasileira na Itália. Dessa experiência nasceu o livro Com a FEB na Itália (1945), que registra em crônicas o cotidiano dos soldados brasileiros em terras estrangeiras. 

Sua escrita, mesmo diante da guerra, manteve o tom humano e lírico, revelando o olhar do cronista sobre a dor e a esperança. Braga não se limitava a narrar batalhas; ele descrevia o frio, a saudade, o medo e a coragem dos homens comuns. 

Rubem Braga exerceu funções diplomáticas em Rabat, Marrocos, e colaborou como correspondente para jornais brasileiros. De volta ao Brasil, fixou-se no Rio de Janeiro, onde escreveu para diversos periódicos e se tornou figura central da vida cultural. Atuou também como editor e participou de antologias literárias. 

Em 1987, recebeu o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, de Portugal, reconhecimento internacional à sua contribuição cultural.

Braga é considerado o maior cronista brasileiro. Sua obra explora o cotidiano com lirismo, transformando pequenas cenas em literatura universal. O cronista falava de pássaros, flores, ruas, amores e saudades, sempre com simplicidade e profundidade. 

Sua escrita é marcada pela concisão, pela musicalidade e pela capacidade de emocionar. Ele sabia que a grandeza da vida está nos detalhes: no voo de um pássaro, na lembrança da infância, na melancolia de uma tarde. 

Entre suas obras destacam-se: 

O Conde e o Passarinho (1936)

Um Pé de Milho (1948)

Ai de ti, Copacabana (1960)

As Boas Coisas da Vida (1988)

O Verão e as Mulheres (1990)

Além das crônicas, Braga traduziu autores estrangeiros e organizou antologias, como Os Lusíadas, de Camões, e Terra dos Homens, de Saint-Exupéry. 

Rubem Braga sofria de câncer de laringe e optou por não se submeter a tratamentos invasivos. Faleceu em 19 de dezembro de 1990, no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro. 

Deixou instruções para que suas cinzas fossem lançadas discretamente no rio Itapemirim, em sua cidade natal, sem cerimônias fúnebres. O bilhete ao filho Roberto Braga revela sua postura diante da morte: discreta, serena e voltada para a vida. 

Em 2010, o metrô do Rio de Janeiro inaugurou o Complexo Rubem Braga, em Ipanema, homenagem ao escritor que morou por anos na cobertura vizinha à estação. 

Sua memória também é preservada em antologias, edições juvenis e estudos acadêmicos. Braga é constantemente lembrado em eventos literários e em iniciativas culturais que buscam manter viva sua obra. 

Rubem Braga permanece vivo na literatura brasileira. Sua crônica, aparentemente simples, é na verdade uma obra de arte que revela o Brasil e o ser humano em sua essência. Celebrar seus 113 anos é reafirmar a importância da palavra como instrumento de beleza e reflexão. 

Braga ensinou que a vida está nos detalhes: no voo de um pássaro, na lembrança da infância, na melancolia de uma tarde. Sua obra é convite permanente à contemplação e à poesia do cotidiano. 

Este texto celebra a efeméride dos 113 anos de Rubem Braga, destacando sua trajetória, estilo e legado. É uma homenagem ao cronista que transformou o cotidiano em literatura e que permanece como mestre da crônica brasileira. 

OBRAS 

CRÔNICAS

O Conde e o Passarinho, 1936

O Morro do Isolamento, 1944

Com a FEB na Itália, 1945

Um Pé de Milho, 1948

O Homem Rouco, 1949

50 Crônicas Escolhidas, 1951

Três Primitivos, 1954

A Borboleta Amarela, 1955

A Cidade e a Roça, 1957

100 Crônicas Escolhidas, 1958

Ai de ti, Copacabana, 1960

O Conde e o Passarinho e O Morro do Isolamento, 1961

Crônicas de Guerra - Com a FEB na Itália, 1964

A Cidade e a Roça e os Três Primitivos, 1964

A Traição das Elegantes, 1967 (Editora Sabiá)

Crônicas do Espírito Santo, 1984 (Coleção Letras Capixabas)

As Boas Coisas da Vida, 1988

O Verão e as Mulheres, 1990

200 Crônicas Escolhidas

Casa dos Braga: Memória de Infância (destinado ao público juvenil)

1939 - Um episódio em Porto Alegre (Uma fada no front), 2002

Histórias do Homem Rouco

Os melhores contos de Rubem Braga (seleção David Arrigucci)

Rubem Braga: Crônicas para Jovens (Seleção, Prefácio e Notas Bibliográficas Antonieta da Cunha) Global Editora, São Paulo, 2014

O Menino e o Tuim

Recado de Primavera

Um Cartão de Paris

Pequena Antologia do Braga

O Padeiro

 

ADAPTAÇÕES E ANTOLOGIA

 

O Livro de Ouro dos Contos Russos

Os Melhores Poemas de Casimiro de Abreu (Seleção e Prefácio)

Coleção Reencontro: Cyrano de Bergerac - Edmond Rostand (também disponível em audiolivro)

Coleção Reencontro: As Aventuras Prodigiosas de Tartarin de Tarascon - Alphonse Daudet

Coleção Reencontro: Os Lusíadas - Luís de Camões (com Edson Braga)

Traduções

Antoine de Saint-Exupéry - Terra dos Homens


© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural

 

 

 




















 

MENTAL ABSTRATO - 20 ANOS DE MÚSICA QUE ATRAVESSA FRONTEIRAS



 

Em 2026, o trio paulistano Mental Abstrato celebra duas décadas de uma trajetória marcada pela ousadia sonora e pela capacidade de transformar influências diversas em uma linguagem própria. O grupo, nascido na periferia de São Paulo, consolidou-se como referência ao unir o improviso do jazz, a pulsação do hip-hop e a riqueza da música afro-brasileira em composições que ecoam tanto nos becos da cidade quanto em palcos internacionais.

 

Desde 2005, Omig One, Calmão Tranquis e Guimas Santos vêm construindo um repertório que dialoga com a tradição e a modernidade. Mais do que músicos, são produtores e pesquisadores que enxergam a música como ferramenta de memória e transformação social. Seus álbuns, lançados em países como Japão e Estados Unidos, revelam a força de uma estética periférica que conquistou o mundo sem perder a raiz.

 

No dia 18 de janeiro, às 15h, o SESC Itaquera recebe o show gratuito que inaugura as comemorações dos 20 anos da banda. O público poderá acompanhar uma viagem sonora que revisita clássicos da discografia do grupo e apresenta novas experimentações. O repertório é pensado como uma narrativa: cada faixa é um capítulo que conecta passado, presente e futuro da música urbana brasileira.

 

Ao longo dos anos, o Mental Abstrato dividiu palco com nomes consagrados como Elza Soares, João Donato, Azymuth e Robert Glasper, além de artistas da nova geração como Tássia Reis, Rincon Sapiência e Karol Conka. Essas parcerias reforçam a vocação do grupo para o diálogo entre estilos e gerações, reafirmando sua posição como ponte cultural entre o Brasil e o mundo.

 

SERVIÇO

 

Local: SESC Itaquera – Av. Fernando do Espírito Santo Alves de Mattos, 1000, São Paulo - SP

Data: 18 de janeiro de 2026 (domingo)

Horário: 15h

Entrada gratuita

Instagram: @mental_abstrato








 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

DOMINGO EM ICARAÍ - A LEITURA COMO RITO, MACUNAÍMA COMO ENCANTAMENTO E DALMA NASCIMENTO COMO TECELÃ DAS MEMÓRIAS CULTURAIS.

O domingo em Icaraí não começa: ele se revela. Há um tempo suspenso entre o primeiro sopro de luz e o barulho contido das ondas que chegam à areia como se pedissem licença. 

Não é um dia comum, é um estado de espírito. Caminhar por Icaraí num domingo é caminhar por uma fronteira invisível entre o cotidiano e a contemplação. O mar não está ali apenas como paisagem; ele atua como testemunha antiga, quase um narrador silencioso daquilo que se passa dentro de nós quando o mundo desacelera. 

Foi nesse ritmo, mais próximo do respirar do que do correr, que me sentei para ler. Não qualquer leitura, mas uma daquelas que exigem presença total, como um rito de passagem intelectual. Sobre a mesa, pesado não apenas pelo número de páginas, mas pelo peso simbólico de sua proposta, repousava Macunaíma – Mundo Mágico-Mítico em Tranças de Memórias Culturais, de Dalma Nascimento. Um livro que não se oferece ao leitor como objeto neutro, mas como território a ser atravessado. 

Desde as primeiras páginas, torna-se evidente que Dalma Nascimento não escreveu um estudo comum. O que ela propõe é uma imersão profunda na matriz mítica da cultura brasileira, tendo Macunaíma, de Mário de Andrade, como epicentro simbólico. Mas o gesto da autora vai além da análise literária: ela articula um grande ensaio de civilizações, onde mitos gregos dialogam com cosmovisões ameríndias, e onde o Brasil surge não como periferia cultural, mas como espaço legítimo de produção de pensamento universal. 

A leitura avança em ritmo de encantamento. Há um frenesi, sim, mas não um frenesi ansioso. É o entusiasmo de quem percebe que está diante de uma obra que sabe o que faz e por que faz. Dalma Nascimento escreve com clareza, mas também com ousadia. Seu texto se move entre o rigor acadêmico e a liberdade interpretativa, entre a erudição e a intuição, entre o método e o mito. Essa combinação rara transforma o livro numa experiência intelectual viva. 

Ao revisitar Macunaíma, Dalma nos devolve a complexidade do herói sem nenhum caráter. Não o herói domesticado pelos resumos escolares, nem o personagem reduzido a símbolo folclórico, mas o Macunaíma original, contraditório, escorregadio, ancestral e moderno ao mesmo tempo. Ela o aproxima de figuras míticas gregas não para comparações superficiais, mas para revelar estruturas simbólicas compartilhadas pela humanidade. O herói que erra, que engana, que se transforma, que transita entre mundos, seja ele grego, ameríndio ou brasileiro. 

Nesse ponto, o ensaio atinge uma de suas maiores forças: ao revestir o pensamento mítico grego com o mundo ameríndio, Dalma Nascimento desmonta hierarquias culturais herdadas do colonialismo intelectual. O Olimpo deixa de ser centro absoluto; a floresta ganha estatuto de cosmo. Hermes encontra Exu não como curiosidade exótica, mas como equivalência simbólica. Dionísio reconhece no transe indígena uma irmandade espiritual. Não se trata de sincretismo simplório, mas de cartografia profunda do imaginário humano.

Mário de Andrade emerge, então, não apenas como escritor, mas como mediador cultural, alguém que soube ouvir o Brasil profundo, suas vozes subterrâneas, suas narrativas orais, seus mitos fundadores. Dalma Nascimento compreende isso com precisão rara. Seu ensaio demonstra que Macunaíma não é apenas literatura: é gesto antropológico, ato político, ritual estético. É o Brasil pensando a si mesmo fora dos moldes importados.

As “tranças de memórias culturais”, expressão que nomeia e sustenta o livro, não são metáfora decorativa. Elas estruturam todo o pensamento da autora. Cada capítulo entrelaça tempos, territórios, narrativas e símbolos, formando uma tessitura complexa, resistente e bela. A memória, aqui, não é arquivo morto, mas matéria viva, em constante transformação.

As ilustrações de Luiz Zatar surgem como respirações visuais nesse percurso intenso. Não ilustram o texto, dialogam com ele. São imagens que parecem brotar do mesmo solo simbólico que alimenta a escrita. Há nelas algo de onírico, de ritualístico, de ancestral. Funcionam como portais silenciosos entre um capítulo e outro, convidando o leitor a olhar com o mesmo cuidado com que lê.

O projeto gráfico, concebido sob os designes de Mauro Carreiro Nolasco, confere à obra uma dignidade estética coerente com seu conteúdo. O livro se apresenta como objeto cultural pleno, pensado em cada detalhe. Nada ali é casual. O cuidado editorial se manifesta como respeito ao leitor e à cultura que se deseja preservar e expandir. 

É impossível falar dessa obra sem destacar o papel fundamental da Parthenon Centro de Arte e Cultura. Em um mercado editorial frequentemente pautado pela urgência comercial, a Parthenon se afirma como espaço de resistência intelectual. Seu catálogo revela compromisso com obras que aprofundam o pensamento, valorizam a memória cultural e desafiam leituras fáceis. Publicar um livro como este é um ato político no melhor sentido: um gesto de confiança na inteligência do leitor brasileiro. 

Enquanto o domingo avançava, percebi que a leitura havia dissolvido as fronteiras do tempo. Icaraí permanecia ali, o mar, o vento, a luz que se transformava lentamente, mas eu já caminhava por outros territórios: florestas míticas, aldeias simbólicas, textos fundadores, constelações de sentido. O livro fazia aquilo que só os grandes livros conseguem: expandia o mundo interior. 

Dalma Nascimento escreve com a autoridade de quem pesquisou profundamente, mas também com a escuta sensível de quem respeita os mistérios que estuda. Seu ensaio não fecha interpretações; abre caminhos. Não impõe conclusões; convida à continuidade do pensamento. É uma obra que forma leitores, não apenas informa.

Ao final do dia, quando o céu de Icaraí já se encontrava tingido de azul profundo e as luzes da cidade começavam a acender, senti que aquele domingo havia sido diferente. Não por ter feito algo extraordinário, mas por ter vivido uma experiência cultural plena. Ler, ali, tornou-se um gesto de pertencimento, quase um ato de fé na potência da cultura brasileira.

Macunaíma, atravessado pelo olhar rigoroso e poético de Dalma Nascimento, revelou-se mais atual, mais necessário, mais vivo. E a Parthenon, ao sustentar essa obra, reafirma seu lugar como guardiã de um pensamento cultural que não se rende à superficialidade. 

O domingo terminou. Mas a leitura, como todo verdadeiro encantamento, permaneceu. 

© Alberto Araújo









COMENTÁRIOS

Lúcia Regina de Lucena e Dalma Nascimento

LUCIA REGINA DE LUCENA – PRESIDENTE DA ANLA disse: Fiquei encantada com seu texto, que examinou, interpretou e exaltou o livro da escritora Dalma Nascimento – Macunaíma – como ninguém poderia fazê-lo melhor. Tudo foi descrito com o esmero que apenas os possuidores de grande sensibilidade alcançam, com uma ótica precisa e bem cuidada. 

Ressalto, sobretudo, a análise dos aspectos intrínsecos da obra, costurados com a apreciação do cuidado editorial. 

Sua leitura das ilustrações de Luiz Zatar foi perfeita ao realçar o diálogo com o conteúdo do livro, ambos entrosados e se completando. Belo! 

Além disso, a inserção do cenário nos transporta à beleza daquela tarde em Icaraí, onde imaginamos a leitura envolta em paz e alumbramento, como uma moldura mágica da escrita. 

Quanto ao contexto do livro, você expôs a maestria da escritora, que consegue manejar o personagem de Mário de Andrade com a habilidade de um artista que revisita sua obra e a aperfeiçoa, conduzindo o leitor a caminhos surpreendentes. 

Parabéns, caro amigo. Nada mais se pode dizer sobre sua apreciação senão: excelente! Lucia Regina.

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Prezada Lucia Regina, recebo suas palavras com profunda gratidão e emoção. É uma honra saber que minha leitura sobre Macunaíma, de Dalma Nascimento, encontrou eco em sua sensibilidade e apreciação. O reconhecimento vindo de você, que tão bem representa a ANLA e a força da crítica literária, reforça a beleza do diálogo que a literatura nos proporciona. As ilustrações de Luiz Zatar, o cenário de Icaraí e a maestria de Dalma Nascimento são elementos que, juntos, compõem essa experiência estética que me inspirou a escrever.

Agradeço imensamente por sua generosa avaliação e pela delicadeza com que destacou cada aspecto do texto. Suas palavras são estímulo e incentivo para continuar trilhando esse caminho de reflexão e celebração da arte literária.

Abraços fraternos do Alberto Araújo. 

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Ângela Guerra disse: Não vou repetir aqui o riquíssimo conteúdo que Alberto Araújo postou sobre a obra Macunaíma, de Dalma Nascimento, e sobre a qual minha presidente da ANLA, LÚCIA REGINA DE LUCENA, teceu pertinentes comentários, que louvam a maravilhosa obra de nossa aniversariante! Aliás, toda a pesquisa sobre a qual Dalma se debruça se reverte em joia preciosa. Parabéns por mais essa gema, que guardarei para sempre junto ao coração…