A Língua que Somos: Um organismo vivo e plural. Falar sobre o português no Brasil é, antes de tudo, aceitar o convite para navegar por um rio caudaloso, feito de mil afluentes. A nossa língua não é um monumento estático, esculpido em mármore frio e intocável; ela pulsa, respira, transforma-se no ritmo da nossa gente, nos recantos do país, nas conversas de calçada, na poesia dos livros e na oralidade cotidiana.
Na terceira edição da Festa Literária Internacional de Niterói (FLIN), inspirada pelo pensamento insurgente, profundo e essencial da antropóloga, filósofa e ativista mineira Lélia Gonzalez, esse tema ganhou o centro do debate. Sob a lona vibrante da FLIN Arena, que recebeu uma plateia emocionante e diversa, reunindo crianças, jovens e adultos como um verdadeiro espelho da nossa sociedade, o Acadêmico, filólogo e escritor Ricardo Cavaliere dividiu o espaço com o cordelista e fundador da Academia Gonçalense de Cordel, Zé Salvador, na mesa inaugural intitulada "Brasil, Brasis".
Mais do que discutir gramática normativa, o encontro propôs uma reflexão profunda sobre identidade, pertencimento e diversidade cultural, mostrando que cada sotaque, cada gíria e cada expressão regional carrega a história viva de um povo.
Para compreender como a nossa língua se manifesta em toda a sua riqueza, Cavaliere propõe mapeá-la em três grandes dimensões fundamentais:
O português que se fala no Rio de Janeiro traz cadências, musicalidades e escolhas vocabulares distintas daquele que ecoa no sertão nordestino, nos pampas sulistas ou na imensidão da Amazônia. Cada região imprime na língua a sua paisagem e a sua alma. A forma como nos expressamos transita entre a formalidade e a informalidade, adaptando-se às construções sintáticas e ao vocabulário exigido por diferentes esferas da convivência humana, revelando dinâmicas sociais e geracionais.
É o idioma do afeto, o vocabulário restrito ao núcleo familiar, aos amigos mais próximos, aos códigos íntimos que criamos com quem amamos e que constroem a nossa memória afetiva particular.
Um dos pontos mais instigantes levantados pelo filólogo diz respeito à nossa configuração sociolinguística em comparação a outras nações. Enquanto em países como os Estados Unidos, marcados por processos históricos e segregacionistas específicos, há uma clara divisão étnica no uso da língua (com o desenvolvimento de variedades linguísticas associadas a determinados grupos raciais), no Brasil a história tomou outro rumo.
Em terras brasileiras, a língua portuguesa não se fragmenta por linhas étnicas. Brancos, negros, pardos e indígenas compartilham, moldam e hibridizam o mesmo tronco linguístico comum. Nossas diferenças de fala cruzam fronteiras raciais e sociais de maneira única, fruto de um caldeirão cultural profundo, onde a miscigenação também se deu na ponta da língua.
O português brasileiro é, portanto, uno enquanto instrumento supremo de comunicação, união e expressão nacional, mas é plural em sua alma. Cada variação não representa um "erro" a ser combatido, mas sim um tesouro de identidade, um capítulo escrito da nossa memória coletiva.
Eventos como a FLIN, que ao longo de sua programação celebrou também grandes nomes da nossa cultura, como Heloisa Teixeira e Zuenir Ventura, e abriu espaço para a literatura em todas as suas vertentes, nos lembram que alfabetizar e incentivar a leitura é também abraçar a nossa diversidade sem preconceitos linguísticos.
Quando enxergamos a nossa língua como um reflexo autêntico de quem somos, aprendemos a respeitar a história do outro. Valorizar o modo como o brasileiro fala é validar a sua existência, a sua cultura e a sua cidadania. Que possamos continuar celebrando os nossos Brasis, escrevendo o futuro com as cores, os afetos e as vozes de todas as nossas gentes.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural


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