domingo, 18 de outubro de 2026

PRESIDENTE MÁRCIA PESSANHA PRESTIGIA OS 10 ANOS DA SCUOLA DI CULTURA EM NITERÓI

A presidente da Academia Fluminense de Letras, Márcia Pessanha, que também exerce a função de Governadora do Distrito 8 do Elos Internacional, marcou presença na celebração dos 10 anos da Scuola di Cultura, realizada em 17 de outubro de 2026, em São Francisco, Niterói. O evento reuniu personalidades ligadas à arte, à educação e à cultura para homenagear uma instituição que, ao longo de uma década, vem transformando o cenário cultural da cidade. 

Sob a direção do casal Fabrizio e Luiza Sassi, a Scuola di Cultura consolidou-se como um importante centro de formação artística e desenvolvimento humano, promovendo atividades nas áreas de música, artes visuais, literatura, teatro e educação cultural. Sua atuação tem contribuído significativamente para a valorização da cultura e para a democratização do acesso às manifestações artísticas. 

A acadêmica Luiza Sassi, integrante da Academia Fluminense de Letras e membro do Cenáculo Fluminense de História e Letras, recebeu as homenagens ao lado de Fabrizio Sassi, reconhecidos pelo trabalho dedicado e visionário que transformou a Scuola em referência na região.

Durante a comemoração, destacou-se a importância da instituição como espaço de encontro, criatividade e inspiração, além de seu papel na formação de novos talentos. A celebração dos 10 anos da Scuola di Cultura reafirmou o compromisso de seus fundadores com a promoção da arte, da educação e da cultura, deixando a certeza de que esta trajetória de sucesso continuará enriquecendo a vida cultural de Niterói por muitos anos. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural







 

88 ANOS DE NEIDE BARROS RÊGO: O CANTO, A POESIA E O VOO INFINITO DA GRANDE DAMA DA CULTURA BRASILEIRA - EFEMÉRIDE DO FOCUS PORTAL CULTURAL

 

 

O telão da memória se abre hoje para celebrar uma vida inteiramente dedicada à beleza. Neste 18 de outubro, o Focus Portal Cultural rende homenagens aos 88 anos do nascimento de Neide Barros Rêgo (1938–2022), uma das personalidades mais completas e fascinantes da literatura e do canto lírico no Brasil. Longe de ser apenas uma data no calendário, este aniversário é um convite à reverência e ao resgate de uma mulher que transformou palcos, academias e páginas de livros em verdadeiros santuários da arte. Neide não emudeceu; sua voz apenas ganhou dimensões sutis na memória afetiva do nosso país e na vastidão do movimento esperantista internacional.

 

Falar de Neide Barros Rêgo é evocar a síntese perfeita da elegância, da sensibilidade poética, do compromisso com a arte e da fraternidade universal. Cantora lírica, poetisa de traço refinado, declamadora de presença magnética e escritora incansável, Neide foi e continua sendo um dos baluartes mais reluzentes da nossa cultura.

 

Conhecer Neide Barros Rêgo nos palcos da vida foi como passar por um rito de encantamento. Não havia como presenciá-la e permanecer indiferente. Minha memória afetiva guarda com rara nitidez e extrema reverência os momentos em que a vi atuar no lendário Centro Cultural Maria Sabina, espaço, embora hoje desativado, do qual ela foi e sempre será a eterna Diretora e alma condutora.

 

No palco do Maria Sabina, Neide exercia um verdadeiro sacerdócio artístico. Sua postura era a personificação da nobreza: a espinha ereta, o olhar sereno e profundo, o domínio absoluto do espaço e do tempo. Quando ela se postava diante do público para declamar ou cantar, a atmosfera ao redor se transformava instantaneamente. O silêncio na plateia não era apenas atenção; era um respeito fiel e sagrado diante de uma intérprete que não apenas pronunciava palavras ou emitia notas, mas desenhava a alma da poesia no ar.

Sua performance conjugava a imponência técnica da cantora lírica à alma ardente da poetisa que sente cada sílaba. Neide no palco era luz pura, uma presença cenográfica que combinava autoridade estética, doçura no acolhimento e uma paixão vibrante pelas artes. O Centro Cultural Maria Sabina não era apenas uma casa de cultura sob sua direção; era a extensão do seu próprio coração, um abrigo acolhedor para poetas, músicos e sonhadores de todas as origens.

 

Se a dimensão pública e artística de Neide a imortalizou nos palcos e nos livros, é na intimidade do lar e na urdidura dos afetos familiares que encontramos a verdadeira nascente de sua força criativa. A vida de uma mulher que fez do lirismo o seu sacerdócio nunca esteve desvinculada dos abraços que a ampararam, do riso compartilhado e do amor geracional que semeou ao longo das décadas.

Nascida na acolhedora São Tomás de Aquino, em Minas Gerais, filha de Wanda Paschoal Martini de Barros e Francisco das Chagas Barros, a sensibilidade de Neide foi forjada desde cedo na casa paterna. Essa história de sensibilidade começou no aconchego do lar, entre os laços e a cumplicidade de uma harmoniosa constelação de irmãos: a saudosa Nilce (hoje em memória viva no Parnaso), a inseparável irmã gêmea Nilde, a própria Neide, e os amados Nilo, Nara e Naida. Uma irmandade de nomes em sintonia e almas entrelaçadas pela fraternidade mineira, onde declamações, modinhas e afetos sempre foram o verdadeiro alimento da alma.

 

Na tapeçaria misteriosa e bela de sua biografia, destaca-se a presença vital de sua irmã gêmea, Nilde Barros Diuana, que permanece entre nós como a guardiã viva de suas memórias mais ternas e das histórias de infância compartilhadas desde o ventre. A relação com Nilde sempre brought à tona o mistério do espelhamento do afeto: duas almas ligadas pela origem e pelo sangue, perpetuando o carinho que ultrapassa as próprias barreiras do tempo.

Ao lado do seu inseparável e saudoso esposo, Walmir Ventura Rêgo, Neide ergueu uma sólida tapeçaria familiar. A maternidade foi para ela uma de suas expressões mais sublimes: plantou a semente do sensível no coração dos seus amados filhos, Marise e Marcelo Barros Rego. Crescer sob o olhar e o acalanto de uma mãe que cantava a vida em forma de poesia fez do lar um porto seguro, onde o afeto e a modéstia sempre andaram de mãos dadas.

 

Essa bênção familiar floresceu e se expandiu: Neide Barros Rêgo deixa um lindo legado através de sua família. É mãe de Marisa Rêgo, mãe de João Marcelo e de Marcelo Barros Rêgo pai de Gabriela Pereira Rêgo, Felipe Soschino Rêgo e Lucas Rêgo, que carregam no olhar o orgulho de pertencerem a essa nobre linhagem.

 

Se a poesia de Neide encontrou no português a sua casa maternal, foi na língua esperanto que sua voz ganhou asas globais. A partir de 1965, Neide abraçou o esperanto, o idioma neutro e fraterno idealizado por Ludwik Lejzer Zamenhof,  não apenas como uma ferramenta linguística, mas como um ideal de vida e de união entre os povos do mundo.

 

Cravou seu nome na história do movimento esperantista planetário como uma de suas mais expressivas e aclamadas intérpretes. Cantando e declamando em esperanto, Neide levou a doçura e o lirismo da alma brasileira aos mais diversos cantos da Terra. Representou o Brasil com distinção ímpar em congressos nacionais e internacionais em países como França, Áustria e Argentina.

 

Sua atuação ultrapassou as apresentações ao vivo: tornou-se membro vitalício e delegada da Associação Universal de Esperanto (UEA). Em seu canal oficial no YouTube, deixou registrado para a eternidade um acervo inestimável de áudios e vídeos onde sua voz lírica dá vida a canções e poemas no idioma universal, servindo até hoje como referência para aprendizes e admiradores da cultura esperantista ao redor do globo. Neide provou que a arte verdadeira não precisa de passaporte, pois fala a linguagem direta do coração humano.

 

Como escritora e poetisa, Neide Barros Rêgo deixou uma obra marcada pela delicadeza métrica, pela profundidade lírica e pelo domínio formal das trovas e do verso livre. Autora do marcante livro Revelação (2004), destacou-se também por sua generosidade intelectual. Ela não buscava o brilho solitário; gostava de iluminar os caminhos alheios.

 

Prova disso foi a organização da antologia monumental Água Escondida (1994), trabalho no qual reuniu e catalogou poemas de centenas de autores de Niterói, dando visibilidade e voz a múltiplos talentos que, sem sua sensibilidade curatorial, talvez permanecessem no esquecimento. Neide era uma agregadora, uma verdadeira tecelã de redes poéticas.

 

Sua maestria com as palavras foi reconhecida com prêmios de prestígio internacional e nacional, acumulando láureas em concursos literários na Holanda, Bulgária, Rússia, Itália e por todo o território brasileiro. Atuante e respeitada na União Brasileira de Trovadores (UBT), alcançou o ápice do reconhecimento institucional ao ser empossada, em 2003, na Academia Fluminense de Letras (AFL), ocupando com altivez a Cadeira número 11 da Classe de Belas-Artes.

 

A trajetória de Neide na Cadeira 11 da AFL carrega um simbolismo profundo ao resgatarmos a presença da mestra que inspirou sua jornada: a lendária professora e intelectual brasileira Maria Sabina de Albuquerque. Neide foi aluna dileta de Maria Sabina no consagrado Curso Olavo Bilac, onde apurou com maestria a Arte de Dizer, a dicção e a impostação vocal que mais tarde fascinariam multidões. Foi em homenagem a essa mestra que Neide fundou e dirigiu o Centro Cultural Maria Sabina.

 

Com o encantamento de Neide e sua passagem para o Parnaso em dezembro de 2022, abriu-se um hiato de saudade na Academia Fluminense de Letras. Contudo, a providência e o afeto reservavam uma sucessão à altura: quem assumiu a honrosa missão de sucedê-la na Cadeira 11 foi sua querida cunhada, a distinta acadêmica, professora e poetisa Maria das Graças Alves de Azevedo Rego, chamada carinhosamente por Gracinha Rego.

 

Gracinha Rego não representa apenas o cumprimento de uma praxe acadêmica, mas sim um ato de amor, respeito e perpetuação. Ela traz para a Academia a sua própria competência estética e a delicadeza de manter viva a chama espiritual e poética de sua inesquecível cunhada.

 

Desenhou-se, assim, um círculo perfeito no destino das artes: Maria Sabina formou Neide; Neide fundou o centro cultural, encantou o Brasil e brilhou na Academia; e Gracinha Rego assumiu o cetro da memória para que essa linhagem cultural continue a ecoar.

 

"As grandes almas não deixam heranças materiais passageiras; deixam antologias de afeto, pontes de luz e sucessoras de amor."

 

Em 11 de dezembro de 2022, aos 84 anos, a voz física de Neide Barros Rêgo calou-se em Niterói, em decorrência de um câncer de pâncreas. A cidade, a Academia Fluminense de Letras, o movimento esperantista e o cenário cultural brasileiro vestiram-se de saudade. Mas a partida de uma grande artista é apenas uma ilusão dos sentidos; o que é feito de beleza pura não se extingue.

Celebrar os seus 88 anos neste 18 de outubro é reafirmar que Neide continua viva entre nós. Ela vive na memória daqueles que tiveram o privilégio de vê-la brilhar nos palcos; na cumplicidade de sua irmã Nilde; nos registros fonográficos e poéticos gravados no tempo; e na esperança de um mundo mais irmão, do qual foi embaixadora e cantora.

 

Neide Barros Rêgo foi, em essência, uma estrofe perfeita no poema da vida brasileira. Uma mulher que fez da existência um acorde de luz, dignidade e afeto.

 

À nossa eterna diretora, poetisa e Diva do Lirismo: parabéns pelos seus 88 anos de história inesquecível. O Focus Portal Cultural rende hoje sua mais profunda e emocionada homenagem a esta estrela que jamais deixará de brilhar no firmamento da nossa arte.

 

Aplausos eternos, Neide. A sua canção continua.

 

UMA PRECE DE LUZ E UM ABRAÇO FRATERNO A NILDE BARROS DIUANA

Neste 18 de outubro, em que as memórias e as melodias se voltam para o céu em honra aos 88 anos de nascimento de Neide, nossos corações e nossas melhores energias voltam-se também, com infinito carinho, para a sua querida irmã gêmea, Nilde Barros Diuana.

 

Sendo o espelhamento vivo de uma história bonita e compartilhada desde as primeiras batidas do coração, Nilde permanece entre nós como a guardiã dessa essência e desse afeto que o tempo não apaga.

 

A equipe do Focus Portal Cultural, juntamente com todos os amigos, leitores e admiradores dessa linda família, abraça Nilde Barros Diuana neste dia tão especial. Que a vida continue a lhe abençoar com muita saúde, paz, serenidade e o aconchego permanente daqueles que a amam.

 

A você, Nilde, o nosso afeto, o nosso respeito e a nossa mais carinhosa homenagem.

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural

 

Neide Barros e seus irmãos








































GALUPPI 320 ANOS: A GENIALIDADE DE UM MESTRE VENEZIANO REVIVE AO PIANO DE LICIA LUCAS - HOMENAGEM DO FOCUS PORTAL CULTURAL

(CLICAR NA IMAGEM PARA ASSISTIR AO VÍDEO)

Quatro sonatas, um piano e o legado eterno de um mestre veneziano cuja música continua atravessando séculos. 

18 de outubro de 2026. Para celebrar os 320 anos de nascimento de Baldassare Galuppi, um dos mais brilhantes representantes da música italiana do período barroco tardio e precursor do estilo clássico, o Focus Portal Cultural, do jornalista Alberto Araújo, apresenta uma edição especial do programa Partituras, da TV Brasil, gravada em 24 de janeiro de 2016, com a renomada pianista Licia Lucas. Neste registro de grande valor artístico e histórico, a intérprete revela ao público toda a elegância, o lirismo e a riqueza expressiva da obra para teclado de Galuppi, compositor admirado em toda a Europa por sua inventividade melódica e refinamento harmônico. 

O programa traz a execução de quatro sonatas em ré menor, páginas que evidenciam a originalidade e a sofisticação da escrita do mestre veneziano: Andante em ré menor, Allegro em ré menor, Largo em ré menor e Allegro e spiritoso. Com sensibilidade e precisão interpretativa, Licia Lucas conduz o ouvinte por um universo sonoro de rara beleza, resgatando a importância de um compositor cuja influência atravessou gerações e contribuiu decisivamente para a evolução da música para teclado. 

Uma homenagem imperdível a um dos grandes nomes da história da música, celebrando seu legado três séculos após seu nascimento. 

BALDASSARE GALUPPI: O MESTRE VENEZIANO QUE TRANSFORMOU A ÓPERA CÔMICA E ANTECIPOU O CLASSICISMO 

Entre os grandes nomes da música italiana do século XVIII, poucos alcançaram a projeção internacional e a importância histórica de Baldassare Galuppi, compositor, organista, maestro e cravista que ajudou a moldar a transição entre o barroco tardio e o período clássico. Conhecido carinhosamente como “Il Buranello”, em referência à sua terra natal, a pitoresca ilha de Burano, na República de Veneza, Galuppi nasceu em 18 de outubro de 1706 e tornou-se um dos músicos mais admirados de sua época, conquistando reconhecimento em importantes centros culturais da Europa.

Filho de um barbeiro e violinista amador, Galuppi teve desde cedo contato com a música. Demonstrando talento precoce, recebeu formação musical em Veneza, cidade que então figurava entre os mais importantes polos artísticos do continente. Ainda jovem, iniciou sua carreira como compositor, mas seus primeiros trabalhos não obtiveram grande repercussão. Uma de suas primeiras óperas, escrita quando tinha apenas dezesseis anos, foi recebida com críticas pouco favoráveis. Longe de desanimá-lo, essa experiência contribuiu para aprimorar sua técnica e fortalecer sua determinação.

Nas décadas seguintes, Galuppi consolidou-se como um compositor de grande versatilidade. Embora tenha escrito música sacra, oratórios e obras instrumentais, foi na ópera que encontrou seu maior campo de expressão. Inicialmente dedicou-se à ópera séria, gênero dominante na época, mas sua verdadeira consagração ocorreu a partir da década de 1740, quando iniciou uma frutífera colaboração com o célebre dramaturgo e libretista Carlo Goldoni.

A parceria entre Galuppi e Goldoni foi uma das mais importantes da história da ópera italiana. Juntos, criaram obras que revolucionaram a ópera buffa, ou ópera cômica, elevando o gênero a um novo patamar artístico. Em vez de personagens caricatos e situações meramente farsescas, suas criações apresentavam figuras humanas mais complexas, diálogos vivos e notável refinamento musical. Dessa colaboração nasceu o chamado dramma giocoso, gênero que combinava elementos cômicos e dramáticos e que viria a influenciar profundamente compositores posteriores, entre eles Mozart. 

A relevância de Galuppi foi tão grande que muitos de seus contemporâneos e sucessores passaram a considerá-lo o verdadeiro “pai da ópera cômica”. Suas obras circularam por toda a Europa, sendo apresentadas em importantes teatros da Itália, Áustria, Alemanha, Inglaterra e Rússia. Ao longo da carreira, compôs cerca de uma centena de óperas, tornando-se um dos autores mais prolíficos e admirados do século XVIII.

Seu prestígio ultrapassou as fronteiras italianas. Em meados do século, foi convidado para trabalhar em Londres, onde suas composições receberam excelente acolhida do público britânico. Posteriormente, entre 1766 e 1768, aceitou o convite da imperatriz Catarina II da Rússia, atuando como mestre de capela da corte imperial em São Petersburgo. A passagem pela Rússia ampliou ainda mais sua fama internacional e confirmou sua posição como um dos músicos mais respeitados da Europa. 

Apesar do sucesso no exterior, Veneza permaneceu o centro de sua vida artística. Ao longo dos anos, Galuppi ocupou diversos cargos de grande prestígio em instituições religiosas e beneficentes da cidade. O mais importante deles foi o de maestro di cappella da Basílica de São Marcos, função anteriormente exercida por gigantes da música veneziana. Nesse posto, tornou-se responsável pela direção musical de uma das mais célebres capelas da Europa, produzindo um vasto repertório de música sacra que incluía missas, salmos, motetos e outras composições litúrgicas.

Paralelamente à atividade operística e religiosa, Galuppi destacou-se como virtuose dos instrumentos de teclado. Exímio cravista e organista, escreveu numerosas obras para teclado solo. Suas sonatas revelam uma linguagem elegante, equilibrada e inovadora, combinando o contraponto herdado do barroco com uma clareza melódica que anunciava o classicismo. Por essa razão, muitos estudiosos o reconhecem como um dos mais importantes precursores da sonata para piano clássica, contribuindo para o desenvolvimento de formas que mais tarde seriam aperfeiçoadas por Haydn, Mozart e Beethoven.

Sua produção também inclui mais de vinte oratórios, além de uma extensa coleção de peças instrumentais e religiosas. A variedade e a qualidade desse repertório demonstram a amplitude de seu talento e explicam o enorme prestígio que desfrutou durante sua vida. 

Baldassare Galuppi faleceu em 3 de janeiro de 1785, em Veneza, poucos meses antes de completar 79 anos. Entretanto, a rápida mudança dos gostos musicais e a ascensão de novas tendências fizeram com que sua obra fosse gradualmente esquecida fora da Itália. A invasão napoleônica de Veneza, em 1797, agravou ainda mais essa situação, dispersando manuscritos e ocasionando a perda de parte significativa de sua produção. 

Durante grande parte dos séculos XIX e XX, Galuppi permaneceu conhecido apenas por especialistas e estudiosos da música antiga. Seu nome sobreviveu, curiosamente, graças ao célebre poema “A Toccata of Galuppi's”, publicado em 1855 pelo poeta inglês Robert Browning. Ainda assim, suas composições permaneceram raramente executadas. 

Somente nas últimas décadas do século XX e no início do século XXI é que ocorreu uma verdadeira redescoberta de sua obra. Musicólogos, intérpretes e gravadoras passaram a recuperar partituras esquecidas, revelando ao público moderno a riqueza de um compositor que desempenhou papel decisivo na história da música europeia. 

Hoje, Baldassare Galuppi é reconhecido como uma figura fundamental na evolução da música ocidental: um criador brilhante que ajudou a renovar a ópera, valorizou a expressividade instrumental e lançou pontes entre o esplendor do barroco e a elegância do classicismo. Seu legado permanece vivo nas salas de concerto, nos estudos musicológicos e nas gravações que continuam a redescobrir a extraordinária arte de um dos maiores mestres da escola veneziana do século XVIII. 

ÓPERAS 

La fede nell'incostanza, ossia gli amici rivali (1722)

Dorinda (1729)

Odio Placato (1730)

Argenide (1733)

L'ambizione depressa (1735)

Elisa Regina di Tiro (1736)

La ninfa di Apollo (1736)

Tamiri (1736)

Ergilda (1736)

Alvilda (1737)

Gustavo I, re di Svevia (1740)

Aronte, re de' sciiti (1740)

Berenice (1741)

Madama Ciana (1744)

L'ambizione delusa (1744)

La libertà nociva (1744)

Forze d'amore (1745)

Scipione nelle Spagne (1746)

Arminio (1747)

Arcadia in brento (1749)

Il Page della cuccagna (1750)

Arcifanfano, re dei matti (1750)

Alcimena, principessa dell'isole fortunate (1750)

Il mondo della Luna (1750)

La mascherata (1751)

Ermelinda (1752)

Il mondo alla rovescia (1752)

Il conte Caramela (1752)

Le virtuose ridicole (1752)

Calamità de' cuori (1752)

I bagni di Abono (1753)

Il filosofo di campagna (1754)

Antigona (1754)

Il povero superbo (1754)

Alessandro nell'Indie (1755)

La diavolessa (1755)

Nozze di Paride (1756)

Le nozze (1756)

Sesostri (1757)

La partenza e il ritorno de' marinari (1757)

Adriano in Siria (1760)

L'amante di tutte (1761)

Artaserse (1761)

I tre amanti ridicoli (1761)

Ipermestra (1761)

Antigono (1762)

Il marchese villano (1762)

Viriate (1762)

L'uomo femina (1762)

Il puntiglio amoroso (1763)

Il re alla caccia (1763)

Cajo Mario (1764)

La donna di governo (1764)

 


LICIA LUCAS: UMA VIDA DEDICADA À ARTE DO PIANO E À DIFUSÃO DA CULTURA MUSICAL BRASILEIRA NO MUNDO 

A pianista Licia Lucas ocupa um lugar de destaque entre os grandes intérpretes da música de concerto brasileira. Reconhecida internacionalmente por seu refinamento técnico, profundidade interpretativa e intensa atuação cultural, construiu ao longo de décadas uma carreira marcada pela excelência artística, pelo compromisso com a educação musical e pela promoção da música brasileira em importantes centros culturais da Europa, das Américas e da Rússia.

Nascida em Itu, no Estado de São Paulo, Licia Lucas revelou desde muito cedo uma vocação especial para a música. Seus primeiros estudos de piano ocorreram em ambiente familiar, sob a orientação de Nayl Cavalcante Lucas, iniciando uma trajetória que a conduziria aos mais prestigiados palcos internacionais. Posteriormente, formou-se na tradicional Escola Nacional de Música, aperfeiçoando-se com a renomada professora Neida Cavalcante Montarroios, cuja orientação foi fundamental para o desenvolvimento de sua sólida formação pianística.

O aperfeiçoamento artístico de Licia Lucas prosseguiu no Brasil e no exterior. Estudou com Homero de Magalhães, um dos mais importantes pianistas brasileiros do século XX, e especializou-se na Itália sob a orientação de Vincenzo Vitale, no célebre Conservatório de Santa Cecília, em Roma. Sua formação internacional foi enriquecida ainda pelos ensinamentos de dois destacados representantes da tradicional escola pianística vienense: Bruno Seidlhofer e Hans Graf, mestres responsáveis pela formação de diversas gerações de grandes intérpretes europeus. 

A combinação entre talento, disciplina e excelência técnica trouxe reconhecimento ainda na juventude. Em uma das primeiras grandes conquistas de sua carreira, recebeu o Primeiro Lugar no Concurso para Solistas da Orquestra Sinfônica Brasileira, distinção que a projetou nacionalmente. Pouco tempo depois alcançou reconhecimento internacional ao conquistar, na Itália, a Medalha de Ouro do Concurso Internacional Viotti de Vercelli, uma das competições mais respeitadas da Europa. Na ocasião, Licia Lucas foi a mais jovem participante premiada pelo júri presidido pelo lendário pianista Arturo Benedetti Michelangeli, considerado um dos maiores intérpretes do século XX. 

A partir desse momento, sua carreira internacional ganhou projeção crescente. Passou a se apresentar regularmente em importantes capitais culturais do mundo, entre elas Lisboa, Berlim, Londres, Paris, Roma, Washington, Moscou e São Petersburgo, consolidando uma reputação baseada na elegância de suas interpretações e na sensibilidade com que aborda repertórios de diferentes estilos e períodos históricos. 

Ao longo de sua trajetória, Licia Lucas atuou como solista convidada de mais de cinquenta orquestras sinfônicas da Europa, dos Estados Unidos e da América Latina, experiência que lhe permitiu colaborar com importantes maestros e conjuntos orquestrais. Sua atuação como concertista estendeu-se por algumas das mais prestigiadas salas de concerto do mundo, levando o nome do Brasil a públicos diversificados e contribuindo significativamente para a divulgação da produção musical brasileira no exterior. 

Entre as apresentações de destaque de sua carreira encontram-se os concertos realizados nos Estados Unidos como solista da Miami Symphony Orchestra, as apresentações na Itália com a Filarmônica de Turim, na Sala Maior do Conservatório Giuseppe Verdi, e os concertos na Rússia acompanhada pela célebre Orquestra Filarmônica de São Petersburgo, um dos mais tradicionais conjuntos sinfônicos do mundo. 

Sua discografia e suas gravações internacionais também contribuíram para fortalecer sua reputação artística. Destacam-se especialmente os registros realizados na Rússia com a Orquestra Filarmônica de São Petersburgo e com a Orquestra da Rádio e Televisão de Moscou, além de gravações produzidas na Itália e em outros centros musicais europeus. Esses registros documentam a versatilidade de uma intérprete capaz de transitar com naturalidade entre o repertório barroco, clássico, romântico e contemporâneo. 

Licia Lucas sempre dedicou especial atenção à valorização da música brasileira. Em inúmeras ocasiões, atuou como representante cultural do país em eventos internacionais, apresentando compositores nacionais e contribuindo para a ampliação do conhecimento sobre a riqueza da criação musical brasileira. Sua atuação como embaixadora cultural levou-a a importantes espaços históricos e artísticos, como a Sala dos Espelhos do Palácio Foz, em Lisboa, a prestigiosa Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra, em Portugal, a Sala de Concertos da Embaixada do Brasil em Berlim, além de diversos espaços culturais na Itália e em outras nações europeias.

Além da intensa agenda como concertista, Licia Lucas desenvolveu importante atividade intelectual e pedagógica. O interesse pela história dos instrumentos de teclado e pela evolução da interpretação pianística levou-a a realizar pesquisas de grande relevância musicológica. Fruto desse trabalho surgiu o livro “A Genealogia do Piano”, escrito em parceria com Marne Serrano. A obra, publicada em português, espanhol e inglês, recebeu ampla aceitação entre músicos, estudantes, pesquisadores e apreciadores da música, conquistando reconhecimento tanto no Brasil quanto no exterior. O livro tornou-se uma referência para o estudo da evolução do piano e de sua importância na história da música ocidental. 

Outro aspecto marcante de sua trajetória é sua participação ativa em instituições culturais, acadêmicas e sociais dedicadas à promoção das artes e da educação. No Brasil, Licia Lucas é membro titular da Academia Nacional de Música, integrando uma das mais relevantes entidades de preservação e valorização do patrimônio musical brasileiro. Também participa do Comité d'Honneur da Fundação João de Souza Lima, instituição voltada para o incentivo às atividades artísticas e educacionais. 

Sua atuação estende-se ainda a diversas organizações culturais e acadêmicas, incluindo o Rotary Club Niterói Norte, o Elos Clube, o Cenáculo Fluminense de História e Letras, a Academia Brasileira Rotária de Letras e a Academia Fluminense de Letras, refletindo seu compromisso permanente com a cultura, a educação e o desenvolvimento social. 

O reconhecimento internacional de seu trabalho também se manifesta na França, onde integra o Comité d'Honneur da Fundação Franz Liszt, instituição dedicada à preservação da memória e da obra de um dos maiores pianistas e compositores da história. 

Em reconhecimento à relevância de sua contribuição artística e cultural, Licia Lucas recebeu diversas distinções ao longo da carreira. Entre elas destacam-se a Ordem do Mérito Cultural Carlos Gomes e o grau de Comendadora da Sociedade Brasileira de Artes, Cultura e Ensino, honrarias que refletem o respeito conquistado por sua atuação como intérprete, pesquisadora, educadora e promotora da cultura.

Mais do que uma pianista virtuose, Licia Lucas representa uma personalidade multifacetada da vida cultural brasileira. Sua carreira reúne os valores da excelência artística, da pesquisa histórica, da formação educacional e da diplomacia cultural. Em cada apresentação, gravação, palestra ou publicação, reafirma a importância da música como instrumento de conhecimento, sensibilidade e aproximação entre os povos. 

Após décadas de atividade ininterrupta, seu nome permanece associado ao que há de mais nobre na tradição pianística brasileira. Admirada pelo público, respeitada pela crítica especializada e reconhecida por instituições culturais de diversos países, Licia Lucas consolidou um legado que ultrapassa os limites do palco. Sua trajetória constitui um testemunho eloquente de dedicação à arte e à cultura, fazendo dela uma das mais importantes pianistas brasileiras de projeção internacional de sua geração.







Ao celebrar os 320 anos de nascimento de Baldassare Galuppi, esta edição especial do Partituras oferece ao público muito mais do que uma simples audição de quatro belas sonatas. Trata-se de um encontro entre épocas, sensibilidades e tradições musicais que atravessaram mais de três séculos para chegar aos nossos dias com a mesma força expressiva que encantou as plateias europeias do século XVIII.

Galuppi foi um artista que viveu em um momento decisivo da história da música ocidental. Sua obra ajudou a construir a ponte entre a exuberância do barroco e a clareza formal do classicismo, influenciando gerações de compositores e contribuindo para a evolução da escrita para teclado. Suas sonatas revelam um universo de refinamento, equilíbrio e inventividade, no qual cada frase musical reflete a elegância da escola veneziana e a sensibilidade de um criador que compreendia profundamente o poder da expressão musical.

A interpretação de Licia Lucas confere um significado ainda mais especial a esta homenagem. Pianista de reconhecimento internacional, cuja trajetória tem sido marcada pela dedicação à excelência artística e à difusão do patrimônio musical, ela recria com sensibilidade e inteligência musical a essência dessas páginas históricas. Seu domínio técnico, aliado a uma profunda compreensão estilística, permite que cada movimento revele suas nuances, contrastes e sutilezas, aproximando o ouvinte contemporâneo da linguagem sofisticada concebida por Galuppi há mais de trezentos anos.

O registro realizado pela TV Brasil, em 24 de janeiro de 2016, preserva um momento de grande valor cultural. Mais do que uma apresentação televisiva, constitui um documento artístico que contribui para manter viva a memória de um compositor fundamental para a história da música. Em uma época em que muitos tesouros do repertório histórico permanecem pouco conhecidos do grande público, iniciativas como esta tornam-se essenciais para ampliar horizontes e despertar o interesse por autores que ajudaram a construir os alicerces da tradição musical ocidental.

Ao revisitar essas quatro sonatas em ré menor, somos convidados a redescobrir a riqueza de uma obra que transcende seu tempo. O Andante, o Allegro, o Largo e o Allegro e spiritoso revelam diferentes facetas do talento de Galuppi, permitindo ao ouvinte percorrer um caminho marcado pela elegância melódica, pela expressividade poética e pela vitalidade rítmica que caracterizam sua escrita.

Esta homenagem do Focus Portal Cultural, idealizada pelo jornalista Alberto Araújo, reafirma o compromisso com a valorização da música de concerto e com a preservação dos grandes legados artísticos da humanidade. Ao recordar a vida e a obra de Baldassare Galuppi, celebramos não apenas um compositor extraordinário, mas também a permanente capacidade da música de unir gerações, culturas e épocas distintas.

Três séculos após seu nascimento, a arte de Galuppi continua viva. Em cada nota interpretada por Licia Lucas, renasce a voz de um mestre veneziano que transformou a música de seu tempo e deixou um legado que continua a inspirar músicos, pesquisadores e amantes da arte em todo o mundo. É a prova de que a verdadeira criação artística não conhece fronteiras nem limitações temporais: ela permanece, emociona e se renova a cada nova escuta, atravessando séculos para continuar dialogando com o coração humano.


AGRADECIMENTO ESPECIAL 

A MARNE SERRANO CALDERA 

O Focus Portal Cultural registra seu mais profundo agradecimento ao acadêmico, historiador, escritor e pesquisador Marne Serrano Caldera, cuja valiosa colaboração foi fundamental para a realização desta homenagem aos 320 anos de nascimento de Baldassare Galuppi. 

Foi graças à sua dedicação, generosidade e permanente compromisso com a preservação da memória musical que tivemos acesso a informações históricas, materiais de pesquisa e ao registro audiovisual da apresentação da pianista Licia Lucas no programa Partituras, da TV Brasil, permitindo que este importante documento artístico pudesse ser compartilhado com nossos leitores e apreciadores da música de concerto. 

Marne Serrano Caldera possui uma destacada trajetória no campo da pesquisa histórica e musical. Ao lado da pianista Licia Lucas, é coautor do livro "A Genealogia do Piano", publicado em 2010 pela Editora Muiraquitã de Labouré Lima. A obra constitui uma relevante contribuição para os estudos da história da música e da evolução do piano, traçando um amplo panorama desde o surgimento do pianoforte por Bartolomeo Cristofori, no século XVIII, até o desenvolvimento das grandes escolas pianísticas modernas. 

Mais do que um levantamento biográfico de intérpretes, o livro apresenta um estudo criterioso sobre as diferentes correntes de técnica e interpretação pianística, abordando figuras fundamentais como Mozart, Clementi, Beethoven, Czerny, Chopin, Liszt, Thalberg, Leschetizky e Anton Rubinstein, entre outros mestres que moldaram a arte pianística ao longo dos séculos. A publicação, enriquecida por um CD com gravações ilustrativas, tornou-se uma referência para músicos, pesquisadores e estudantes.

Ao colaborar para esta edição especial dedicada a Galuppi, Marne Serrano Caldera reafirma sua vocação de pesquisador incansável e seu compromisso com a difusão do conhecimento e da cultura. Sua contribuição vai muito além do fornecimento de informações: representa um gesto de amor à música, à história e à preservação do patrimônio artístico universal. 

Em nome do Focus Portal Cultural e de seus leitores, expressamos nossa sincera gratidão por sua parceria, confiança e inestimável apoio na concretização deste projeto de valorização da música de concerto e de seus grandes protagonistas. Sua colaboração foi decisiva para que esta celebração pudesse alcançar a profundidade histórica e cultural que um mestre como Baldassare Galuppi certamente merece.

© Alberto Araújo

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