domingo, 5 de julho de 2026

A TECELAGEM DE UM ELO: MEMÓRIAS E TRADIÇÕES EM SERRA NEGRA


04 de julho de 2026. Sob o céu límpido de uma Serra Negra que acolhia o frio das montanhas com o calor humano de quem sabe cultivar a amizade, um encontro suplantou o tempo. Não foi apenas uma excursão; foi o entrelace de almas movidas pelo mesmo propósito, uma tapeçaria tecida com os fios dourados da lusofonia e o pulsar vibrante da cultura que nos define. Quando o Elos Clube do Grande ABC, em um abraço fraterno, reuniu-se aos companheiros do Elos Clube de Praia Grande e do Elos Clube São Paulo-Sul, o que vimos não foi um simples ajuntamento de pessoas, mas a materialização de uma corrente poderosa, uma corrente onde cada elo importa, cada história se soma e cada tradição se renova. 

Neste cenário de natureza exuberante, as memórias foram despertadas. Caminhar pelas ruas de Serra Negra, entre risos e cliques que eternizavam momentos, foi como folhear o livro vivo de uma herança que não permite o esquecimento. Ali, em meio ao aconchego da cidade, a tradição lusíada, aquela que tempera nossa identidade com o sal da saudade e o açúcar da hospitalidade, ganhava vida. Entre os presentes, lideranças cuja dedicação é o alicerce de nossa causa: Vice-presidente do Elos Internacional Sidney Cardoso da França; a Diretora Internacional e presidente do Elos Clube Grande ABC, CE Márcia Maria Rodrigues; o governador DE-2, Geraldo Rodrigues; a tesoureira internacional, Selma França; e o ex-presidente do Elos Clube São Paulo-Sul, Antônio Rodrigues, acompanhado de sua esposa Patrocina. Eles, ao lado de tantos Elistas, familiares e entusiastas, provaram que a união não é apenas um conceito, é um movimento que se sente na pele.

Mas o ponto alto, o clímax dessa comunhão, aconteceu no palco do Serra Negra Palace Hotel. O "Arraiá Elista" não foi apenas uma festa; foi um ritual de resgate. Quando a música nordestina começou a preencher o salão, ele não trazia apenas a melodia da música popular, mas o eco das quadrilhas de outrora, o estalar das palmas e a alegria genuína de quem celebra a vida.

Ali, naquele palco, a história do movimento Elista foi recontada através de passos coreografados e sorrisos compartilhados. E, em um gesto de absoluta entrega à nossa cultura, a presença do marcador oficial da quadrilha surgiu com a energia de quem conduz não apenas uma dança, mas uma legião de amigos: o nosso Vice-presidente Internacional, Sidney Cardoso da França, acompanhado por sua esposa Selma. 

Cada comando dado por Sidney era uma ponte entre o passado e o presente. Ao guiar os elistas, ele não conduzia apenas movimentos; ele guiava a energia do grupo, transformando o salão de convenções em um espaço sagrado de confraternização. Foi um momento ímpar, onde o líder se mistura ao povo, onde a autoridade se dissolve na alegria do companheirismo e onde a cultura popular é celebrada na sua forma mais pura e contagiante. Ali, sob as luzes do salão, reafirmamos que o movimento Elista é, antes de tudo, um movimento de celebração humana. 

Ao olharmos para esse final de semana em Serra Negra, percebemos que o sucesso absoluto do evento não se mediu apenas pelos pontos turísticos visitados ou pelas fotos registradas, mas pela força invisível que uniu cada participante. O companheirismo, a união e a alegria foram os verdadeiros protagonistas. 

É, portanto, com imenso orgulho e reconhecimento que destacamos o papel fundamental do nosso Vice-presidente do Elos Internacional, Sidney Cardoso da França. Sua atuação neste evento, especialmente ao conduzir a quadrilha do Arraiá Elista com tanto maestria e entusiasmo, é o reflexo de um trabalho contínuo e abnegado. 

Sidney não apenas preserva as tradições, mas as faz vibrar. Sua dedicação incansável em prol da educação e da cultura é um líder para todos nós. Ele compreende, como poucos, que um movimento só se mantém forte quando suas raízes são nutridas pelo conhecimento, pela valorização cultural e pelo afeto. 

Parabéns, caro Vice-presidente Sidney Cardoso da França, pelo excelente trabalho, pela energia contagiante e por nos lembrar, através de gestos simples e profundos, que a educação e a cultura são, indubitavelmente, as colunas mestras sobre as quais construímos o futuro do nosso Elos Internacional e certamente a presidente Matilde Carone Slaibi Conti ficará orgulhosa de seu companheirismo. Que o seu comprometimento continue a inspirar, e que a nossa corrente de amizade se torne, a cada dia, mais sólida e inquebrável. 

Que a memória deste Arraiá em Serra Negra permaneça como um lembrete do que somos capazes de realizar quando nos reunimos sob a bandeira da amizade e da valorização das nossas raízes. 

Créditos das fotos: Compartilhadas pelo confrade Sidney C. França

Editorial © Alberto Araújo

Diretor de Cultura do Elos Internacional 


































RAQUEL NAVEIRA: A FIANDEIRA DE VERSOS E MEMÓRIAS - A POESIA COMO DESTINO: RAQUEL NAVEIRA ABRE AS PORTAS DO SEU UNIVERSO AO FOCUS PORTAL CULTURAL

A literatura não é apenas o registro do que fomos, mas a arquitetura do que somos e do que ainda poderemos habitar. No universo das letras brasileiras, poucas vozes possuem a capacidade de tecer, com a mesma maestria, a memória regional de Mato Grosso do Sul e o cosmopolitismo das grandes capitais culturais. É sob essa luz que o Focus Portal Cultural, em seu novo quadro “Encontros com a Palavra”, tem a honra de receber uma das personalidades mais emblemáticas da nossa cena intelectual: a escritora, poeta e imortal da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, Raquel Naveira. 

Convidar Raquel Naveira para uma conversa é, por si só, um ato de mergulho. Sua trajetória, que atravessa as salas de aula universitárias, a crônica jornalística, a vivência na França e a intensa produção poética é um convite constante à redescoberta da sensibilidade. Em uma época marcada pelo ruído digital e pela pressa das telas, Naveira nos traz a pausa necessária, a palavra bordada, a memória como fio condutor de um destino que, como ela mesma costuma citar, já estava escrito: Maktub.

Nesta entrevista exclusiva conduzida pelo jornalista e escritor Alberto Araújo, o leitor não encontrará apenas respostas, mas um verdadeiro inventário da alma. Discutiremos o peso da herança portuguesa que permeia sua obra, o rigor do Direito versus a liberdade da poesia, o papel da mulher tecelã de textos e a honra de ocupar cadeiras que ajudaram a construir o pensamento brasileiro. 

Raquel abre, com rara generosidade, os bastidores de seu processo criativo, revelando como a criança que lia Monteiro Lobato e os clássicos franceses se tornou essa voz indispensável que hoje nos ensina que a literatura é, antes de tudo, um desejo de ser e de fazer. 

Por que ler este encontro? Porque ele é um mapa para quem busca entender a força transformadora da escrita. Raquel Naveira nos conduz por um passeio que vai das margens do Pantanal às luzes da Avenida Paulista, provando que o regional é, em sua essência, o mais profundo universal. 

Prepare-se para um momento memorável. O Focus Portal Cultural orgulhosamente apresenta um diálogo que suplanta o tempo, onde a saudade, o místico e o cotidiano se encontram. A mesa está posta, o livro está aberto e a palavra, em sua forma mais pura, aguarda a sua leitura. 

Aguarde. A Entrevista vai começar. 

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ENTREVISTA DE RAQUEL NAVEIRA AO FOCUS PORTAL CULTURAL

Entrevistador: Jornalista Alberto Araújo 

1. Como foi a sua infância em Campo Grande e quais foram os primeiros contatos que teve com a literatura que despertaram em você o desejo de escrever? 

Resposta: A minha infância foi dividida entre São Paulo, Campo Grande (Mato Grosso do Sul) e Bela Vista (fronteira com o Paraguai). Morava em São Paulo, estudava no Liceu Pasteur, um colégio onde o francês era a segunda língua, e passava longas férias no sul de Mato Grosso. Vivi entre mundos e realidades diferentes, tensões linguísticas e culturais. A grande metrópole, as escadas rolantes, as luzes da Avenida Paulista. E, depois, as charretes, as fazendas, as casas rurais distantes umas das outras. Tornei-me, assim, uma cidadã do mundo, agindo sempre com naturalidade e simplicidade. Desde criança amei a palavra, o objeto livro, as bibliotecas. Fui uma grande leitora na infância: Monteiro Lobato, Malba Tahan, os Irmãos Grimm, Hans Christian Andersen, As Mil e Uma Noites, a Mitologia Grega, a coleção Tesouro da Juventude. Sempre tive uma certeza interior: queria ser uma escritora. Essa seria a minha forma de ser e estar no mundo. Estava escrito. Maktub. 

2. Por que a escolha pelas graduações em Direito e Letras, áreas que parecem tão distintas? Como o Direito influenciou a sua disciplina de escrita? 

Resposta: Poesia e magistério são duas vocações unidas, interligadas, nascidas na área mágica do silêncio e da solidão, onde os livros se abrem e deixam sair suas realidades e seus sonhos. O interesse pelos livros se transformou numa vocação de magistério. Já o Direito me deu um senso de justiça e rigor de pensamento. Dois cursos da área humanista.

3. Como foi a transição da estudante de Letras na antiga FUCMAT para a professora da mesma instituição? 

Resposta: Durante todo o curso, distingui-me como aluna interessada, dedicada aos assuntos literários. Concomitantemente, dava aulas no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora e escrevia poemas e artigos num jornal local, o Correio do Estado. Logo depois de minha formatura, um professor me indicou para as disciplinas de Literatura Portuguesa e Literatura Latina e comecei a dar aulas na FUCMAT, que passou a se chamar Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), onde fiquei por vinte anos. 

4. O que a levou a buscar o mestrado no Mackenzie? 

Resposta: Fiz o mestrado em Comunicação e Letras na Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo. Um curso maravilhoso, com professores inesquecíveis e ênfase na literatura e no teatro. Período que marcou a minha formação acadêmica. 

5. Como a vivência na França e o estudo aprofundado da língua e literatura francesas moldaram o seu olhar poético? 

Resposta: Minha educação fundamental foi no Colégio Liceu Pasteur, em São Paulo. A lembrança das duas bandeiras, brasileira e francesa, no pátio, ao som dos dois hinos, marcou minha alma. Muito cedo recebi o título de “Doutor em Língua e Literatura Francesas” pela Universidade de Nancy, outorgado pela Aliança Francesa. Passei a dar aulas na Aliança Francesa de Campo Grande. Percorri a França de forma espiritual: a terra, os homens, os costumes de cada província, as artes e as letras. Nas duas vezes que estive na França, senti-me em casa, alguém em seu próprio ambiente, apenas reconhecendo coisas e lugares familiares. O que vi de mais lírico na França não está em nenhum monumento em especial, mas em sensações indefiníveis, como a de respirar cultura em museus, castelos, praças, pontes, jardins e igrejas. Compartilhei dos sofrimentos e lutas que formaram a história do povo francês. Tive sonhos com cenas de quadros, pedaços de espelho, rostos de estátuas. Por toda parte onde ia, agradecia intimamente tudo que estava vendo com os olhos e absorvendo em minha mente. Foi um deslumbramento. Uma grande experiência.

6. Você iniciou sua atuação na imprensa em 1977. Como era o cenário cultural de Mato Grosso do Sul na época e como foi ver seus primeiros poemas publicados? 

Resposta: Aos vinte anos, comecei a publicar meus poemas no jornal de maior circulação do Estado, o Correio do Estado. Foi o começo de um compromisso com o ofício de escritora: escrever e viver, viver e escrever. Um poema nosso chamou a atenção do poeta Manoel de Barros, que pediu para me conhecer pessoalmente. O encontro com ele foi emocionante, um marco em minha vida literária. Ele me escreveu, depois, uma carta que publiquei na íntegra em meu livro Quarto de Artista. Generoso, falou-me de linguagem, de metáforas, de como a poesia nos projeta em suprarrealidades. 

7. Seu primeiro livro, Via Sacra (1989), foi publicado de forma independente. Qual é a importância desse "primeiro filho" para a sua trajetória?

Resposta: Publiquei Via Sacra numa gráfica da cidade, depois de dez anos de jornalismo. Eu já possuía um público leitor. O livro chegou a um jornal literário chamado Verve e logo eu estava num evento no Rio de Janeiro. O segundo livro, Fonte Luminosa, foi publicado por um editor de arte de São Paulo, Massao Ohno, e nunca mais parei. Mais de trinta anos de publicações.

8. Você é conhecida pela intensa produtividade literária. De onde vem essa "força reveladora" que a faz produzir livros quase anualmente? 

Resposta: É um movimento quase de respiração. Uma necessidade de comunicação, de manter uma identidade, de alimentar um sonho. Uma paixão que dá significado ao meu viver. 

9. Na obra Fiandeira (1992), você mistura prosa e poesia. O que a atrai nessa hibridez de gêneros? 

Resposta: Misturo prosa e poesia. Nunca abandono a poesia, mesmo em prosa. É como se trouxesse a gênese do meu fazer poético. É um trabalho híbrido, estranho às vezes e, creio, generoso e original. 

10. Você se autodefine como uma "fiandeira de textos". Como funciona o seu processo criativo de transformar memórias em tramas literárias? 

Resposta: A mulher tecelã, a fiandeira, é um símbolo do meu fazer poético. As mulheres sempre teceram, fiaram, tramaram, urdiram. “Texto” significa “tecido”. Um tecido bordado com palavras. Escrevi: “Sou uma fiandeira / Aranha tirando de dentro / A liga que emaranha.”

11. Sua obra perpassa o regional, o histórico, o místico e o sensual. Como você equilibra temas tão diversos dentro do seu fazer poético? 

Resposta: São linhas temáticas universais que perpassam o meu trabalho: a minha região de fronteira, as raízes pantaneiras; a história, não só os feitos notáveis da humanidade, mas a observação dos sentimentos das pessoas, as personalidades, os rastros e vestígios deixados; a busca de mim mesma, o autoconhecimento e a busca do Outro, do divino, do sobrenatural; o erotismo que é chama, desejo de amar e ser amada. São temas universais. Curiosidades e extensões da minha própria alma. 

12. Qual a importância das personagens bíblicas e místicas, presentes em obras como Abadia, Maria Madalena e Maria Egipcíaca, no seu imaginário literário? 

Resposta: Vários de meus poemas surgem a partir de um nome de mulher. Nomes bíblicos, nomes históricos, nomes de escritoras. O nome já traz em seu bojo um significante, um significado, uma narrativa, uma personalidade. E pesquiso bastante antes de escrever. 

13. O que a inspira a escrever para o público infantil, como em Guto e os Bichinhos? Como muda sua voz ao dialogar com crianças? 

Resposta: Escrevi também Dora, a menina escritora, No mundo encantado de Luciana e Nino e a Orca. Há duas formas de escrever literatura infantojuvenil com verdade: escrever sobre a criança que fomos ou escrever para uma criança que amamos. 

14. A memória é um fio condutor recorrente. Qual o papel da saudade e do resgate histórico em obras como Sangue Português e Álbuns da Lusitânia? 

Resposta: O fio condutor desses livros é a minha origem portuguesa. Sou neta de imigrantes portugueses. Nossa mesa era portuguesa, com certeza, de pão e vinho. De afeto e fado. Sangue Português são poemas portugueses e lusófonos. Álbuns da Lusitânia é um romance sobre a imigração portuguesa no sul de Mato Grosso, no começo do século XX. 

15. Como você vê a relação entre a sua escrita poética e a sua escrita de crônicas em jornais como o Correio do Estado? 

Resposta: São quase quarenta anos de publicações de minhas crônicas e poemas, de meus textos híbridos, que não obedecem às fronteiras dos gêneros. Hoje publico no jornal O Mato Grosso do Sul, no Jornal de Letras, no jornal Linguagem Viva, em vários sites e blogs. Semanalmente. Pontualmente. Com fôlego e presença constantes. 

16. Abadia e Casa de Tecla foram finalistas do Prêmio Jabuti. O que essa chancela representou para a sua carreira em âmbito nacional?

Resposta: Os prêmios e indicações são bons. Alegram. Incentivam. Dão visibilidade. Fico feliz e não me sinto mais tão sozinha, pois o ato de escrever em si é solitário. 

17. O que significou para você receber o Prêmio "Henriqueta Lisboa" da Academia Mineira de Letras? 

Resposta: Henriqueta Lisboa é uma dama clássica da literatura. E a Academia Mineira de Letras congrega escritores fundamentais da literatura brasileira. Minas Gerais: berço de poetas. Um orgulho. 

18. Como foi o processo de integrar o prestigioso PEN Clube do Brasil em 2000? 

Resposta: O PEN Clube do Brasil é uma casa de letras e de convivência de escritores: lá acontecem lançamentos, palestras, encontros. Tem vitrais lindos e a vista da Baía da Guanabara. Todos os processos surgem da persistência, das correspondências, do talento e da coragem. 

19. Você ocupa a Cadeira nº 8 da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, que pertenceu a Germano Barros de Sousa. Como é lidar com o peso e a honra dessa sucessão? 

Resposta: Conheci pessoalmente o Dr. Germano, médico, coronel reformado do Exército, poeta por vocação e estudioso da literatura brasileira. Um homem gentil, culto, dono de uma biblioteca imensa, que ele me apresentou quando eu era ainda uma adolescente. Ele deixou um grande legado e me sinto muito honrada em ocupar a Cadeira que lhe pertenceu em nossa Academia. 

20. Como é a sua experiência na Academia Cristã de Letras de São Paulo e o que esse intercâmbio com o meio intelectual paulista lhe proporciona? 

Resposta: É uma Academia especial, pois é cristã, profundamente humanista e norteada por princípios como o amor ao próximo e a fraternidade entre seus membros. É uma das mais tradicionais do país, formada por um grupo de intelectuais, professores, médicos e advogados que têm o objetivo de promover a literatura, a cultura e a ética. 

21. Por muitos anos, você foi a voz e o rosto do programa "Prosa e Verso" na TV UCDB. Como essa experiência na televisão mudou a forma como você compartilha literatura com o grande público? 

Resposta: Durante seis anos apresentei o programa “Prosa e Verso”, na TV UCDB. Entrevistei professores, acadêmicos, escritores como Adélia Prado e Ignácio de Loyola Brandão. Foi um período riquíssimo de trocas culturais e literárias.

22. Como foi a transição da sala de aula universitária no MS para a docência em outras regiões, como o Rio de Janeiro e São Paulo?

Resposta: Quando me aposentei, depois de 31 anos em sala de aula em Mato Grosso do Sul, senti necessidade de viajar, de conhecer pessoas e lugares, de participar de outras cenas literárias. Ministrei aulas na Universidade Santa Úrsula, do Rio de Janeiro; na Faculdade Anchieta, em São Bernardo do Campo, e em outros cursos de pós-graduação e aparelhos culturais. Foram muitos desafios vencidos, sempre com amor à poesia e ao magistério. 

23. Qual a importância das oficinas literárias que você ministra para a formação de novos escritores? 

Resposta: Conhecimento e necessidade de aprender nos acompanham por toda a vida, por todo o tempo. As oficinas são importantes e ricas para as trocas literárias. Foco nas temáticas universais da poesia e na formação de professores na área da literatura infantojuvenil. 

24. O que a motivou a assumir a curadoria de um evento tão importante quanto a Feira do Livro de Brasília em 2016? 

Resposta: Foi um convite do jornalista Marcos Linhares, à época. Levamos nomes de peso à feira, como Frederico Barbosa, Felipe Fortuna e Antonio Carlos Secchin. 

25. Após mais de três décadas de carreira, como você enxerga a evolução da literatura produzida em Mato Grosso do Sul? 

Resposta: Mato Grosso do Sul tem uma cena literária intensa. A nossa Academia, formada por intelectuais de peso e atuantes, oferece palestras e conversas, inclusive com integrantes da Academia Brasileira de Letras. Outras academias e clubes de leitura fervilham na cidade e no Estado. Blogs como o MS Poetar e o Blog do Alex publicam textos de jovens e veteranos. Os cursos de Letras, Pedagogia e Turismo das universidades demonstram interesse pelo diálogo com a literatura. Orgulho-me da AEL Raquel Naveira (Academia Estudantil de Letras da Escola Estadual Professor Emydgio Campo Vidal, que leva meu nome), que acolhe alunos do ensino médio que desejam ser escritores ou homenageá-los. Um projeto interessante da professora Thais Barbosa. 

26. Em um mundo cada vez mais digital e acelerado, qual é o lugar da poesia? 

Resposta: Através da poesia transmitimos nossas emoções, ideias, sentimentos, imagens e reflexões. É a forma de olharmos o mundo de maneira sensível, descobrindo a beleza do cotidiano, as revelações, as epifanias. Emoção, imaginação, linguagem. Além do tempo, além das telas. 

27. Como você enxerga a participação feminina na literatura brasileira atual e as barreiras que ainda precisam ser rompidas? 

Resposta: Poetas mulheres que poderíamos elencar são muitas: Cecília Meireles, Adélia Prado, Hilda Hilst, Cora Coralina, Conceição Evaristo, Ana Martins Marques... E tantas outras se expressando lindamente, participando de grupos representativos como o Mulherio das Letras. Romper barreiras é buscar forças para cultivar a poesia como meio de expressão e libertação. 

28. Você transita entre a academia (estudos) e a criação (poesia). Como um alimenta o outro no seu cotidiano? 

Resposta: Os estudos e as pesquisas preparam base e terreno para a criação, para a tessitura dos poemas e das crônicas. Tudo banhado pelas fontes da imaginação e da emoção.

29. Se pudesse definir o momento atual da sua carreira com um dos títulos das suas obras, qual seria e por quê? 

Resposta: Citaria o meu livro mais recente, O Ombro e outros Textos Poéticos, uma síntese de tudo que escrevemos até aqui sobre prosa e poesia, sobre emoção genuína conduzindo cada palavra, cada pensamento. E citaria também Mundo Guarani, por ser uma reunião de textos sobre a fronteira com o Paraguai e a influência do Pantanal em minha obra. 

30. Qual é o legado que você deseja deixar para as futuras gerações de leitores e escritores de Mato Grosso do Sul? 

Resposta: Um legado de pertencimento e memória. Nada há de mais fraterno que a memória. O exemplo de alguém que transformou em palavras, às vezes em lágrimas, tudo o que viu e viveu. A literatura é um desejo de ser e de fazer.

Caro leitor! Qual obra da Raquel marcou sua vida? Deixe uma mensagem de carinho e prepare-se para a leitura completa deste diálogo inesquecível.

 

RAQUEL NAVEIRA: A FIANDEIRA DE VERSOS E MEMÓRIAS 

No vasto e luminoso território de Mato Grosso do Sul, onde o horizonte se curva para abraçar o céu e a terra conta segredos em dialetos de luz e poeira, ergue-se a figura singular de Raquel Maria Carvalho Naveira. 

Nascida sob o signo da poesia em Campo Grande, no dia 23 de setembro de 1957, Raquel não apenas habita o mundo das letras; ela o tece. Com a delicadeza de quem manipula fios de seda e a firmeza de quem compreende a estrutura das rochas, ela se consolidou como um emblema sagrado da lírica moderna, uma voz que transcende fronteiras geográficas para tocar a universalidade do ser humano.

A trajetória de Raquel Naveira é um exercício contínuo de conciliação entre o rigor e a liberdade. Sua formação acadêmica, dividida entre as faculdades de Direito e Letras da antiga FUCMAT, hoje Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), desenha o perfil de uma intelectual que compreende a linguagem tanto como um instrumento de precisão quanto como um manancial de mistério. O Direito ofereceu-lhe a lente analítica, a estrutura do raciocínio e a consciência do peso de cada termo. Já as Letras, seu verdadeiro solo sagrado, permitiram que essa estrutura fosse invadida pela fluidez da metáfora. 

Essa dualidade formativa encontrou seu apogeu no refinamento intelectual conquistado no mestrado em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e, com brilho singular, no doutorado em Língua e Literatura Francesas pela Universidade de Nancy, na França. Foi ali, entre os ecos da tradição europeia e a vivência de um mundo estranho, que Raquel poliu sua sensibilidade. Ela retornou não apenas com diplomas, mas com uma "força reveladora" que passou a pautar sua docência no magistério superior e sua própria escrita. 

Se o ato de escrever é, por essência, uma tentativa de apreender o tempo, Raquel Naveira o faz com a maestria de quem não teme a página em branco. Desde a publicação independente de Via Sacra, em 1989, a escritora deu início a uma produção literária que desafia o ritmo frenético da vida contemporânea pela sua constância e qualidade. Ano após ano, como as estações que se sucedem, Raquel presenteia o Brasil com obras que navegam pelo regionalismo, pelo épico, pelo histórico e, sobretudo, pelo lírico. 

Sua obra Fiandeira (1992) é, talvez, o ponto de inflexão mais sensível para compreendermos sua alma literária. Ao acolher a lição de Emil Staiger sobre a fluidez dos gêneros, Raquel rompe as barreiras entre a prosa e a poesia. Como ela mesma definiu com a precisão de um aforismo: "Sou fiandeira tecendo textos e tramas com os fios frágeis e preciosos das memórias." Nesse tear, ela entrelaça o cotidiano, o caminhar de bicicleta, o voo de um avião invisível,  com as questões profundas do espírito humano, como a fé, a dor e a redenção. 

Seus livros, de Abadia a Casa de Tecla, ambos finalistas do prestigioso Prêmio Jabuti, são espelhos de uma inquietação constante. Raquel mergulha na alma feminina com uma densidade quase palpável em obras como Maria Madalena, Mulher Samaritana e Maria Egipcíaca, redescobrindo figuras bíblicas através de um olhar moderno, sensual e profundamente humano. Ela não apenas escreve sobre estas mulheres; ela as revisita, dando-lhes voz e corpo na contemporaneidade. 

Raquel Naveira não é uma escritora que se isola em uma torre de marfim. Pelo contrário, sua presença é uma constante nos tecidos sociais e culturais de Mato Grosso do Sul e do Brasil. Seja como produtora e apresentadora do programa cultural "Prosa e Verso" na TV UCDB, onde democratizou o acesso à literatura, seja nos corredores das Academias de Letras, ela é uma ponte.

Como vice-presidente da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, ocupando a Cadeira nº 8, e membro do PEN Clube do Brasil, onde ingressou em 2000 em meio a uma plêiade de notáveis escritores, Raquel exerce uma diplomacia da palavra. Ela compreende que o papel da intelectual é também o da curadoria e da mediação, como provou ao assumir a curadoria da 32ª Feira do Livro de Brasília em 2016. Sua atuação como cronista no Correio do Estado revela ainda uma faceta essencial: a observadora atenta, capaz de extrair poesia do trivial e de documentar o espírito de um tempo em constante mutação.

A fecundidade de sua carreira, celebrada em Jardim Fechado (2015), não é o fim de um ciclo, mas um painel que permite vislumbrar a extensão de sua missão. Ao abordar temas como a lusofonia em Sangue Português, livro agraciado com o Prêmio Guavira, Raquel reafirma seu compromisso com a identidade e com as raízes que nos formam. Ela transita da crônica infantil,  em Guto e os Bichinhos ou Dora, a Menina Escritora, para a profundidade do ensaio sobre a interdisciplinaridade, sempre com a mesma elegância, a mesma erudição despretensiosa e o mesmo amor pelo ofício. 

Raquel Naveira é, acima de tudo, uma mulher que respira a palavra. Sua biografia não se resume aos prêmios, o "Jacaré de Prata", o "Henriqueta Lisboa", o "Zumbi", embora estes sejam balizas de um reconhecimento merecido. Ela se resume na sua capacidade de transformar o fio da memória em uma trama que acolhe o leitor, convidando-o a um passeio pelos caminhos da alma. 

Como fiandeira, ela continua a trabalhar no seu tear, atenta aos acordes intuitivos que lhe ditam a próxima página. A poetisa que nasceu em Campo Grande e que carrega o mundo em seu coração é a prova viva de que a literatura, quando feita com entrega e verdade, não conhece fronteiras. Ela é a própria encarnação do verso que se faz vida, da vida que se faz história e da história que, tecida com paciência, torna-se eterna. Raquel Naveira não apenas escreve sobre o humano; ela, com seus fios frágeis e preciosos, ajuda-nos a tecer o sentido de nossa própria existência. 

ENTRE O FIO E O HORIZONTE: O LEGADO DE RAQUEL NAVEIRA 

Ao chegarmos ao fim deste encontro, resta-nos a sensação de termos sido convidados a uma viagem cujas fronteiras não se limitam ao mapa, mas se expandem pela geografia da alma. Conversar com Raquel Naveira é compreender que a literatura não é um exercício estático; é, antes de tudo, um movimento de "fiandeira", como ela mesma se define, alguém que, entre o silêncio e o ruído do mundo, escolhe tecer a eternidade com o fio das palavras.

Agradecemos profundamente a Raquel Naveira pela generosidade de abrir as portas de sua biblioteca particular, de seu imaginário e de sua própria trajetória. Sua voz, que ressoa desde os campos pantaneiros até os salões imortais das academias, é um baluarte para todos nós que acreditamos que a cultura é o alicerce mais resistente da nossa humanidade. Raquel nos ensinou, nesta entrevista, que o "ser e estar no mundo" exige coragem, persistência e, sobretudo, uma inesgotável capacidade de se encantar, seja com um verso de Cecília Meireles, com a luz do entardecer ou com o mistério de um nome antigo.

Aos nossos leitores do Focus Portal Cultural, que nos acompanharam nesta travessia, nosso muito obrigado. Em tempos de pressa e fragmentação, dedicar minutos preciosos à leitura de uma entrevista densa e poética é um ato de resistência cultural. Esperamos que, ao fechar esta página, você leve consigo não apenas as respostas de Raquel, mas a inspiração para encontrar a sua própria "fiandeira" interior, para valorizar a memória de suas raízes e para entender que a escrita, como a própria vida, é um tecido que nunca termina de ser bordado.

Que este diálogo permaneça vivo em seu pensamento como uma epifania. Que a saudade e a beleza, temas tão caros à nossa entrevistada, sirvam de companhia em seus próprios caminhos. E, como diria nossa convidada, que possamos seguir celebrando a palavra, pois é nela que nos reconhecemos, nos transformamos e, finalmente, nos eternizamos.

A literatura continua, o portal permanece aberto e nós, aqui no Focus, seguiremos sempre à procura das grandes vozes e dos encontros que fazem a vida valer a pena. 

Até o nosso próximo Encontro com a Palavra.

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural 



MENSAGENS

 

A presidente Matilde Carone Slaibi Conti disse: Sempre amei a Literatura de Raquel Naveira. Quando penso naquela “Cidade Morena”, ela personifica para mim, a Academia de Letras de Mato Grosso do Sul.  Essa sua entrevista com a autora tão proeminente no meio cultural brasileiro, ficará para sempre marcado, devido à profundidade de sua importância. Essa preciosidade, verdadeiro “bate bola”, deve ser lida, relida e quem sabe mesmo, até decorada.  Em época de futebol, poderíamos até dizer: “show de bola”. Que felicidade! Verdadeiro golaço. Parabéns querido jornalista,

Alberto Araújo. Muitos parabéns. Matilde.

 

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Presidente Matilde, muito obrigado por suas palavras tão gentis e generosas! Fico imensamente feliz que tenha gostado da entrevista. Você também marcou um golaço ao trazer à cena a 'Cidade Morena'; que maravilha é essa! Certamente, esse momento inspirador será o tema da minha próxima crônica. ​Aproveito para dizer que, para mim, Raquel Naveira é realmente uma das escritoras mais incríveis da nossa atualidade. Conversar com ela é sempre uma aula de sensibilidade e cultura. Um grande abraço! Alberto Araújo.

 

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A acadêmica Membro do Real Gabinete Português de Leitura Idalina Andrade Gonçalves disse: Prezado Alberto, Adorei a entrevista, com a Ilustre Raquel Naveira. É um orgulho para o Brasil. É maravilhosa. Grande abraço Idalina

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Confreira Idalina! Muito obrigado pelo seu gentil retorno. Fico imensamente feliz em saber que você apreciou a entrevista com a ilustre Raquel Naveira. Compartilho inteiramente do seu sentimento; ela é, de fato, uma presença admirável e um verdadeiro orgulho para a nossa cultura. É uma honra poder dar visibilidade a vozes tão significativas quanto a dela em nosso Portal. Abraços do  Alberto Araújo.

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A escritora Gilda Uzeda disse: Parabéns, Alberto!👏 Há Beleza e Ensinamento nesta Entrevista. É para ser lida e relida! Abraço, Gilda🌸

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Prezada Gilda, Muito obrigado pelo seu carinho e pelo incentivo constante. Fico feliz que tenha apreciado a entrevista com a Raquel Naveira. Ela também tal qual você é uma "Geógrafa de Almas", alguém capaz de mapear as profundezas do ser humano com uma sensibilidade ímpar. É uma alegria saber que você encontrou tanta beleza e ensinamento no texto, ao ponto de guardá-lo para ser lido e relido. Alberto Araújo.