quarta-feira, 27 de maio de 2026

GODOFREDO DE OLIVEIRA NETO DÁ INÍCIO AO NOVO CICLO DA ABL, “CAMINHOS DA FICÇÃO”


 “A literatura corrige os erros de fabricação da condição humana”. A frase sintetiza o eixo temático da conferência que será apresentada pelo Acadêmico e escritor Godofredo de Oliveira Neto na próxima terça-feira, dia 2 de junho, às 16h, com coordenação do Acadêmico Edgard Telles Ribeiro.

A palestra, intitulada “A literatura instaura novas relações entre os desígnios", abre o ciclo de junho da ABL, “Caminhos de ficção”, que contará ainda com conferências dos acadêmicos Domício Proença Filho, Ana Maria Machado, Antônio Torres e Marco Lucchesi. 

A entrada é franca e as inscrições podem ser feitas pelo link: 

https://www.even3.com.br/a-literatura-instaura-novas-relacoes-entre-os-designios-746156/  

A conferência também será transmitida pelo canal de Youtube da ABL:

https://www.youtube.com/live/yP3lveZcffQ?si=Gj_ebvjlXbN0nmiw 

Para Godofredo, somente a literatura e a arte permitem conhecer a diversidade das experiências do ser humano: "A literatura é útil para a Política quando ela dá voz a quem não tem. São esses fundamentos que pretendo trazer à cena ilustrando com trechos da minha obra”, afirmou.

SOBRE GODOFREDO DE OLIVEIRA NETO 

Godofredo de Oliveira Neto é formado em Letras pela Universidade de Paris, com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e pós-doutorado na Georgetown University, nos Estados Unidos. Há mais de 40 anos, é professor do Departamento de Letras da UFRJ e pesquisador da literatura brasileira. 

Romancista e Contista (Premiado com uma estatueta no Jabuti, 2006, seus livros foram adotados e estudados em escolas e universidades como por exemplo, UNICAMP, UFRJ, UFSC, UFMA, UFAC, AMAN, UFPA, UFFS, entre outros. Tem romances e contos traduzidos para inglês, francês, espanhol, italiano, vietnamita e búlgaro. Autor de mais de 20 livros, escreve artigos em jornais e periódicos

 

43 - CINEMA PARADISO: A SÉTIMA ARTE COMO MEMÓRIA DO CORAÇÃO - ENSAIO CULTURAL © ALBERTO ARAÚJO

 

Celebrando os 38 anos da estreia. Lançado em 1988, Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso) não é apenas um filme; é uma declaração de amor eterna à sétima arte. Sob a direção magistral de Giuseppe Tornatore, a obra italiana transcendeu fronteiras para se tornar um hino universal à nostalgia, à amizade e à capacidade que as imagens têm de moldar a identidade de um indivíduo. Em uma época em que o mundo começava a ser transformado pelo ruído da modernidade, o longa de Tornatore surgiu como uma pausa necessária, um convite ao introspectivo e ao sensível. 

Giuseppe Tornatore concebeu esta obra como uma verdadeira crônica da memória. Ambientado em uma pequena vila na Sicília, o filme narra a trajetória de Salvatore, ou "Totó", desde sua infância na Itália pós-Segunda Guerra Mundial até sua vida adulta como um cineasta consagrado. O diretor utiliza uma linguagem visual elegante, com movimentos de câmera que transmitem intimidade e o peso do tempo, permitindo que o espectador se sinta um habitante daquele cinema, a sala de projeção que funciona como o coração pulsante da aldeia. 

A força de Cinema Paradiso reside, fundamentalmente, na química entre seu elenco. Philippe Noiret, na pele de Alfredo, o projecionista rude, porém profundamente amoroso, entrega uma atuação antológica. Alfredo é o mentor, o guru, a figura paterna que Totó perdera na guerra. Do outro lado, o jovem Salvatore é interpretado pelo cativante Salvatore Cascio, cuja curiosidade nos conduz ao deslumbramento pela luz projetada no anteparo. Na fase adulta, Jacques Perrin traz a melancolia de um homem que, embora tenha conquistado o mundo, carrega consigo a saudade insuperável de suas raízes. 

Além da direção e atuação, a excelência técnica é inegável. A trilha sonora composta por Ennio Morricone e seu filho, Andrea, é o elemento que mais profundamente toca a alma do público. O "Tema de Amor" é um lamento musical que ressoa com a dor do adeus e a beleza da reconciliação com o passado. 

A relação entre Totó e Alfredo é o alicerce emocional da obra. Mais do que um aprendizado técnico sobre a mecânica das máquinas, Alfredo ensina a Totó como ver o mundo. O momento de maior sacrifício ocorre quando Alfredo aconselha o adolescente a partir, a nunca olhar para trás, querendo que o pupilo alcance seu potencial sem as amarras da estagnação daquela pequena vila. 

A cena final é uma das mais emblemáticas da história do cinema. Trata-se de uma montagem de beijos censurados pelo padre local ao longo dos anos, guardados e editados por Alfredo como um presente póstumo. Quando Totó assiste a essa bobina, a música de Morricone atinge seu ápice emocional. Aquele rolo de filme é o testamento de um pai para um filho: uma mensagem de que, mesmo ausente, Alfredo continuou cuidando do crescimento de Totó. O "Fim" (Fine) que vemos na tela é, na verdade, um novo começo. Salvatore compreende que, para criar sua própria arte, ele precisou se afastar, mas que o olhar do mentor sempre esteve presente, editando os cortes da sua realidade. 

Para nós, que vivemos da palavra e da imagem, Cinema Paradiso nos deixa a lição suprema: o nosso papel como "projecionistas" da cultura é o de resguardador da memória. 

A montagem final, o presente derradeiro de Alfredo, é composta por fragmentos de obras clássicas que Totó via na infância. Estes são os filmes que compõem o legado censurado: 

Arroz Amargo (Riso Amaro, 1949) – Com Vittorio Gassman e Silvana Mangano. 

Jejum de Amor (His Girl Friday, 1940) – Com Cary Grant e Rosalind Russell. 

O Proscrito (The Outlaw, 1943) – Com Jane Russell. 

Obsessão (Ossessione, 1943) – Com Massimo Girotti e Clara Calamai. 

Em Busca do Ouro (The Gold Rush, 1925) – Com Charlie Chaplin e Georgia Hale.

As Aventuras de Robin Hood (The Adventures of Robin Hood, 1938) – Com Olivia de Havilland e Errol Flynn. 

O Filho do Sheik (The Son of the Sheik, 1926) – Com Rudolph Valentino e Vilma Banky. 

A Felicidade Não se Compra (It's A Wonderful Life, 1946) – Com James Stewart e Donna Reed.

Belíssima (Bellissima, 1951) – Com Anna Magnani e Gastone Renzelli.

A Terra Treme (La Terra Trema, 1948).

Adeus às Armas (A Farewell to Arms, 1932) – Com Gary Cooper e Helen Hayes. 

Senso (1954) – Com Farley Granger e Alida Valli.

Ao fecharmos a última cena de Cinema Paradiso, somos invadidos por uma sensação que vai muito além da melancolia narrativa. O filme de Giuseppe Tornatore não se encerra quando os créditos sobem; ele reverbera como uma frequência constante em nossa própria memória. Se a vida, como dizia o próprio Totó em sua jornada adulta, é um processo de constantes partidas, o cinema se revela como a única ferramenta capaz de tornar essas partidas suportáveis. A conclusão desta obra-prima não reside no desfecho trágico ou triunfante de uma carreira, mas no reconhecimento de que, embora o tempo seja um devorador inexorável, o olhar, o olhar de um mentor, o olhar do artista, o olhar do espectador, é a única resistência possível. 

Ao assistir à bobina de beijos que Alfredo guardou com tanto zelo, Salvatore não está apenas vendo fragmentos de filmes censurados por uma moralidade obsoleta; ele está recebendo um espelho. Alfredo, em sua sabedoria rústica, compreendeu algo que Totó levaria décadas para entender: que o cinema não é apenas um entretenimento para aliviar as dores da vida cotidiana na Sicília, mas o repositório da nossa humanidade compartilhada. O ato de editar aqueles beijos, tirando-os da tesoura do padre e colando-os na fita do amor, é um ato de rebelião poética. É como se Alfredo dissesse ao seu pupilo: "A vida pode tentar cortar o desejo, a arte pode ser censurada, a igreja pode ditar o que é pecaminoso, mas o amor, na sua forma mais pura de paixão e movimento, é eterno". 

Essa montagem final atua como uma cápsula do tempo existencial. Para o Salvatore adulto, que retorna à sua vila natal para um funeral, o presente de Alfredo não é um lembrete do passado, mas uma ferramenta de reconciliação. A saudade que ele carrega, aquela que ele tentou suprimir durante anos de sucesso em Roma, finalmente encontra um lugar para repousar. O cinema, aqui, funciona como o "coração da memória". A tela que antes servia para Totó fugir da realidade, agora serve para ele encarar a sua própria essência. É o encontro do homem feito com a criança que ele nunca deixou de ser, mediado pela tecnologia da projeção, essa luz que corta o escuro, essa iluminação que, tal qual a vida, acontece no intervalo entre o antes e o depois. 

Além do afeto entre mentor e aprendiz, a obra nos convida a uma reflexão sobre a própria longevidade da cultura. Vivemos em um tempo de efemeridade digital, onde as imagens são consumidas, descartadas e substituídas em segundos. Cinema Paradiso nos recorda o valor do "espaço sagrado". O cinema era um local de comunhão, onde a comunidade, apesar de suas diferenças e tensões, respirava o mesmo ar e sentia o mesmo impacto emocional. Tornatore não está apenas homenageando o cinema clássico; ele está lamentando o fim da experiência coletiva do sonho. Quando a sala de projeção é demolida para dar lugar a um estacionamento, o filme nos alerta que o progresso, muitas vezes, é cego para o que realmente sustenta a alma de uma civilização: os rituais de partilha. 

Portanto, o legado desta obra é um convite à curadoria da própria vida. Assim como Alfredo guardou os beijos, cada um de nós é um projecionista da sua trajetória. Temos o dever de filtrar o que merece ser mantido no rolo de filme da nossa existência e o que deve ser cortado para que o sentido prevaleça. Salvatore, ao tocar a imagem projetada, toca a pele da vida que ele viveu. Ele entende que a sua partida de casa não foi um abandono, mas a condição necessária para que ele pudesse se tornar o homem que Alfredo, silenciosamente, ajudou a esculpir. 

Terminamos este ensaio, portanto, não com um ponto final, mas com uma reticência. O cinema continua a rodar, mesmo quando as luzes da sala se apagam. Enquanto houver alguém capaz de se emocionar com a luz projetada no anteparo, o Cinema Paradiso continuará aberto, as cadeiras continuarão ocupadas pelos fantasmas de nossa infância e Alfredo, com sua luva de projecionista, continuará ali, cuidando de cada frame, garantindo que o amor que sentíamos, pelo mundo, pelos livros, pelas pessoas e pela arte, nunca se perca na escuridão da modernidade. Afinal, como bem nos ensina o filme, a beleza da vida não está na perfeição do corte, mas na continuidade do sonho que nos mantém vivos. 

NOTA DO EDITOR 

Vivemos, hoje, o paradoxo da abundância. Nunca tivemos tantas telas à disposição e nunca consumimos tanta imagem por minuto; contudo, o "Cinema Paradiso" parece estar, cada vez mais, em ruínas. Em um cenário marcado por algoritmos que fragmentam o olhar e pelo consumo individualizado que isola o espectador, retornar ao clássico de Giuseppe Tornatore não é apenas um exercício de nostalgia, é um ato de resistência.

Em 2026, quando a tecnologia avança para simular a realidade com precisão assustadora, a obra de Tornatore nos devolve o que a modernidade insiste em apagar: o sentido da coletividade e o peso sagrado do afeto. A trajetória de Totó, mediada pelo olhar atento de Alfredo, é um lembrete de que o cinema, mais do que entretenimento, foi o pátio onde aprendemos a sonhar em conjunto. 

Ao revisitar este ensaio, convidamos nossos leitores a não apenas "assistir" ao filme, mas a reencontrá-lo como quem revisita uma velha casa da infância,  aquela onde, apesar das transformações do mundo lá fora, a luz do projetor continua a revelar, no escuro, quem realmente somos. Que este texto sirva como um convite para guardarmos, também nós, os nossos próprios rolos de filme: as memórias, os amores e as lições que, editadas pelo tempo, compõem a verdadeira obra-prima de nossas vidas.

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

ALDER, Roberto. Giuseppe Tornatore: O Cinema da Memória e da Nostalgia. Edições Cinematográficas, 2015. (Obra de referência para entender a poética do diretor). 

TORNATORE, Giuseppe. Nuovo Cinema Paradiso: O Roteiro. Edição Comemorativa. Milão: Bompiani, 2008. 

BAZIN, André. O que é o Cinema?. Tradução de Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Cosac Naify, 2014. (Fundamental para discutir a ontologia da imagem cinematográfica e o realismo).

METZ, Christian. A Significação no Cinema. Lisboa: Edições 70, 2002. (Essencial para compreender como a montagem e a estrutura narrativa constroem sentido). 

MULVEY, Laura. Visual and Other Pleasures. Bloomington: Indiana University Press, 1989. (Importante para contextualizar o "olhar" e a relação entre o espectador e a tela, algo central na cena dos beijos censurados). 

BONDANELLA, Peter. Italian Cinema: From Neorealism to the Present. New York: Continuum, 2001. (O livro definitivo para situar Cinema Paradiso dentro da tradição do cinema da Itália).

SORLIN, Pierre. Italian National Cinema 1896-1996. London: Routledge, 1996. (Ajuda a entender como o cinema italiano moldou a identidade cultural de sua época). 

MICELI, Sergio. Morricone, Music and Cinema. Oxford: Oxford University Press, 2020. (Excelente análise sobre como a música de Morricone atua como elemento narrativo e não apenas ornamental).








(Clicar na imagem para assistir ao vídeo)







42 - JOÃO GUIMARÃES ROSA: TRAVESSIAS DO DESTINO ENSAIO LITERÁRIO-BIOGRÁFICO DE © ALBERTO ARAÚJO

João Guimarães Rosa nasceu em 1908, em Cordisburgo, Minas Gerais. Desde cedo, sua vida se desenhou como uma travessia entre mundos: o da ciência médica, o da diplomacia e, sobretudo, o da literatura. Mas havia um fio subterrâneo que costurava sua trajetória, a constante proximidade da morte, como se o destino o testasse repetidas vezes antes de permitir que sua obra florescesse. 

Na madrugada fria de Hamburgo, Rosa desperta com um desejo banal: fumar. Veste o sobretudo sobre o pijama e sai em busca de cigarros. Enquanto caminha, as sirenes anunciam o ataque aéreo. Ele se abriga, espera, sobrevive. Ao retornar pela manhã, encontra o prédio onde morava reduzido a escombros. A vida, que poderia ter terminado ali, se prolonga por causa de um gesto trivial. Mais tarde, ironizaria: “Dizem que o cigarro mata. Mas aquele salvou minha vida.” Esse episódio tornou-se metáfora de sua obra: o encontro entre o gesto mínimo e o destino maior, entre o acaso e a revelação. 

Pouco tempo depois, outro ataque atinge o consulado brasileiro em Hamburgo. O edifício, comprometido, é interditado. Rosa, porém, decide entrar. Recupera documentos confidenciais guardados no cofre e sai. Minutos depois, o prédio desaba. 

Segundo relato de sua filha Vilma em Relembramentos, Rosa interpretava o episódio como sinal divino: “Deus me salvou duas vezes, porque tinha uma missão para mim.” A sobrevivência, para ele, não era acaso: era propósito. 

De volta ao Brasil, já consagrado como escritor, Rosa enfrenta em 1958 um novo confronto com a morte: um infarto aos 50 anos. O corpo, que tantas vezes escapara de bombas e desabamentos, agora se rendia ao próprio tempo. A recuperação foi lenta, mas o episódio reforçou sua consciência de finitude. A partir daí, sua produção literária ganhou ainda mais intensidade, como se cada página fosse escrita contra o relógio. 

Grande Sertão: Veredas, publicado em 1956, é mais do que um romance: é uma meditação sobre o bem e o mal, sobre o acaso e o destino. Rosa escrevia como quem sabia que viver é frágil, que sobreviver é sempre milagre. O sertão de Riobaldo é também o sertão de Rosa: território onde se decide se há pacto ou não, se há salvação ou perdição. 

Sua experiência pessoal, escapar da morte por minutos de diferença, por um cigarro, por uma resistência física improvável, alimenta a densidade metafísica de sua obra. 

O último capítulo dessa trajetória é talvez o mais simbólico. Rosa havia sido eleito para a Academia Brasileira de Letras, mas adiou por anos sua posse. Como se soubesse que aquele ato seria definitivo. 

Em 16 de novembro de 1967, finalmente toma posse da Cadeira número 2. Dois dias depois, em 19 de novembro, morre de um novo infarto. O gesto de entrar na ABL parece ter sido sua última missão, o último rito antes da partida. A demora em assumir, seguida pela morte imediata, reforçou a aura de pressentimento que sempre o acompanhou. Rosa parecia saber que sua vida estava escrita em páginas que se fechariam logo após aquele discurso. 

João Guimarães Rosa viveu como quem atravessa um sertão invisível, onde cada curva escondia a morte e cada sobrevivência era uma revelação. Seus encontros com o acaso, o cigarro que o salvou, o consulado que desabou minutos depois de sua saída, o coração que falhou e se recompôs, não foram apenas episódios biográficos: foram capítulos de uma travessia existencial que se refletiria em sua obra. 

Riobaldo é o espelho dessa travessia. O jagunço que interroga o destino, que teme ter feito um pacto, que busca compreender se há sentido na sobrevivência, é também Rosa perguntando à própria vida por que escapou tantas vezes. Ambos caminham lado a lado com a morte, ambos sabem que viver é sempre provisório.

Mas é em Diadorim que se revela o mistério maior. Diadorim é o segredo guardado até o fim, a verdade que só se abre no instante da morte. Rosa, como Riobaldo, carregava dentro de si esse enigma: a certeza de que o humano é feito de revelações tardias, de verdades que só se mostram quando já não há retorno. Assim como Riobaldo descobre no último momento quem era Diadorim, Rosa parece ter descoberto no instante de sua morte o sentido de sua própria travessia: sobreviver não era apenas escapar, era escrever. 

Ao tomar posse na Academia Brasileira de Letras e morrer dois dias depois, Rosa cumpriu seu último rito. Foi como se a vida tivesse esperado que ele atravessasse aquela soleira para então revelar o segredo final. A Cadeira número 2 tornou-se o marco de sua despedida, o lugar onde o escritor se confundiu com seu personagem, onde Rosa se tornou Riobaldo, e Riobaldo se tornou Rosa. 

Diadorim, Riobaldo, Rosa, três nomes para uma mesma travessia. O autor, o personagem e o enigma se fundem em uma só narrativa: a de um homem que caminhou com a morte, que sobreviveu o bastante para escrever, e que morreu no instante certo para que sua literatura se tornasse eterna. 

No sertão infinito de suas palavras, cada leitor continua a percorrer veredas em busca de sentido. E talvez seja essa a revelação última: Rosa não sobreviveu para si, mas para nós. Sua missão era transformar a morte em literatura, o acaso em destino, o mistério em palavra. E assim permanece, eterno como o sertão que inventou. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

ROSA, Vilma Guimarães. Relembramentos: João Guimarães Rosa, meu pai. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. — Fonte íntima e essencial. Relata episódios de sobrevivência na Alemanha, o infarto de 1958 e a visão espiritual de Rosa sobre sua missão. É a obra que humaniza o escritor e revela sua relação pessoal com o destino.         

RÓNAI, Paulo. Rosa: um mestre da linguagem. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973. — Estudo crítico sobre a linguagem rosiana. Rónai, tradutor e amigo próximo, analisa como a experiência existencial de Rosa se traduz em sua obra, especialmente em Grande Sertão: Veredas. Fundamental para compreender a densidade estética e filosófica de sua escrita.         

MARTINS, Wilson. História da Inteligência Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1977. — Obra de referência que situa Rosa no contexto da literatura brasileira do século XX. Martins destaca sua importância como renovador da linguagem e figura central da tradição literária nacional.         

BIZZARRI, Eduardo F. João Guimarães Rosa: Correspondência com seu tradutor italiano. São Paulo: T.A. Queiroz, 1981. — Reúne cartas trocadas entre Rosa e seu tradutor italiano. Revela aspectos da vida diplomática e literária, além de reflexões sobre espiritualidade e missão.         

CALLADO, Antonio. Esqueleto na Lagoa Verde. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1959. — Obra contemporânea que ajuda a compreender o ambiente intelectual da época. Callado oferece um contraponto útil para situar Rosa no panorama cultural brasileiro.        

PACHECO, Fernanda Monique Lopes. Por uma poética do havido: um estudo sobre os Cadernos de João Guimarães Rosa. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2025. — Tese que analisa os cadernos de estudos de Rosa, mostrando sua prática escritural como experiência filosófica e estética. Reforça a imagem de Rosa como arquivista de si mesmo.

TEIXEIRA, Gabriel Silva de Araujo. Os estudos geográficos de João Guimarães Rosa: discursos sobre o sertão. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2024. — Dissertação que examina o sertão rosiano sob a ótica da geografia. Analisa como Rosa constrói discursos sobre espaço, território e ideologia geográfica em sua obra.        

HANSEN, Marise. Palíndromo, palavra em movimento: viagem, tempo e história em Guimarães Rosa. Teresa: Revista de Literatura Brasileira, USP, v. 27, 2026. — Artigo que interpreta a tópica da viagem em Rosa, relacionando deslocamentos externos e internos à ideia de tempo circular. Analisa estruturas palindrômicas como metáforas de travessia e história.

©  Alberto Araújo

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PROJETO CINE PETROBRAS CHEGARÁ EM MAGÉ (RJ), COM CINEMA GRATUITO PARA A POPULAÇÃO

Carreta itinerante passa por 30 cidades de 10 Estados brasileiros, chegando em Magé nesta quinta e sexta-feira 

A carreta que se transforma em sala de cinema de alta tecnologia levará cultura e diversão gratuitamente para a população de Macaé. A cidade recebe o Cine Petrobras nesta segunda e terça-feira (01 e 02 de junho). Ao todo, o projeto passará por 30 municípios de 10 Estados do Brasil, cortando as estradas das regiões Nordeste, Sudeste e Sul. A iniciativa, 100% gratuita para a população, é aprovada pelo Ministério da Cultura e viabilizada pela Lei de Incentivo à Cultura, com patrocínio da Petrobras, execução da Cepar Comunicação e apoio das prefeituras dos municípios. 

Os Estados contemplados pelo projeto são Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Bahia, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul (veja a programação abaixo). 

No estilo transformer, a carreta cinema se expande e vira uma sala de cinema climatizada com poltronas confortáveis, sistema de som e imagem digitais, além de cabine para distribuição de pipoca e refrigerante. A acessibilidade inclui recursos audiovisuais, espaço para cadeirantes e elevador de acesso. 

O projeto permanece dois dias em cada município. Durante o dia, quatro sessões gratuitas e previamente agendadas são direcionadas exclusivamente a escolas e instituições públicas da localidade.

Há uma sessão noturna por dia, às 18h30, também gratuita e aberta ao público, com grandes sucessos da telona: “Divertida Mente 2” e “Smurfs”. Devido às vagas limitadas, os interessados em participar devem ir até a carreta antecipadamente, no dia do evento, para garantir a retirada de seus ingressos. Lembrando que todos os participantes terão direito a pipoca e refrigerante gratuitamente. 

O Cine Petrobras é um projeto aprovado pelo Ministério da Cultura e viabilizado pela Lei de Incentivo à Cultura, com patrocínio da Petrobras, execução da Cepar Comunicação e apoio das prefeituras dos municípios. Para acompanhar novidades e as próximas etapas do projeto, basta seguir o Instagram: @ceparcultural. 

Programação – Cine Petrobras

CIDADE       DATAS

Magé, RJ     1 e 2 de junho

Duque de Caxias, RJ        4 e 5 de junho

Tremembé, SP       10 e 11 de junho

São José do Norte, RS     17 e 18 de junho

São Lourenço do Sul, RS  22 e 23 de junho

Camaquã, RS         25 e 26 de junho

Esteio, RS    29 e 30 de junho 

SOBRE A PETROBRAS

A Petrobras é uma das principais empresas do país. Atua de forma integrada e especializada na indústria de óleo, gás natural e energia, tendo como compromisso o desenvolvimento sustentável para uma transição energética justa e inclusiva. A Cultura é também uma energia na qual a companhia investe, patrocinando há mais de 40 anos projetos que contribuem para cultura brasileira e se fazem presentes em todos os Estados brasileiros. 

SOBRE A CEPAR COMUNICAÇÃO 

A Cepar iniciou no ano de 1998 a captação de recursos para projetos culturais com base em suas relações comerciais, dentre elas os filmes "Tiradentes", de Osvaldo Caldeira e o documentário "Mehinaku", sobre um dos povos do alto do Xingu, além dos livros "Cem Anos Luz", comemorativo do centenário da Estação da Luz, "Paulista Avenida - A Síntese da Metrópole" e "Sorocabana - Uma Saga Ferroviária". Após estas experiências, começou a produzir Projetos Culturais junto às empresas, oferecendo assessoria em marketing cultural, desde a elaboração, aprovação até a implantação definitiva de projetos. 

© Alberto Araújo

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27 DE MAIO DE 2026 – CELEBRAMOS O CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE OLIVIER TONI - EFEMÉRIDES DO FOCUS PORTAL CULTURAL


Hoje, o Focus Portal Cultural dedica seu espaço à memória de um dos pilares da música erudita brasileira. Celebramos o centenário de nascimento de George Olivier Toni, uma das presenças mais monumentais que transitou entre a composição, a regência, a execução instrumental e, sobretudo, a pedagogia que formou gerações de talentos no Brasil. 

Olivier Toni não apenas tocou e regeu; ele construiu as bases da educação musical superior em São Paulo. Como um dos fundadores do Departamento de Música, CMU da ECA-USP, ele moldou o currículo e o pensamento acadêmico de centenas de músicos. Seu legado como Professor Emérito da USP reflete uma vida dedicada à excelência e à formação humanística dos artistas. 

No dia 27 de maio de 1926, nascia em São Paulo um homem cujo destino se entrelaçaria, de forma indissociável, à própria história da música erudita brasileira no século XX. George Olivier Toni, compositor, regente, fagotista, pesquisador e, acima de tudo, um mestre, completaria hoje, 27 de maio de 2026, seu centenário. Mais do que celebrar um nome, o Portal Cultural presta tributo ao "arquiteto das instituições musicais", o homem que compreendeu que a música não vive apenas de partituras e palcos, mas de estruturas sólidas de ensino e pesquisa. 

A trajetória de Toni é marcada por uma erudição que transcende a técnica instrumental. Entre 1947 e 1950, ao cursar Filosofia na tradicional Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP (FFCL-USP), o jovem músico já demonstrava a faceta que o acompanharia por toda a vida: a busca pela compreensão profunda do pensamento humano como base para a criação artística. 

Enquanto mergulhava em questões metafísicas e sociais, Toni exercitava a disciplina prática sob a tutela de luminares do cenário musical brasileiro. Estudou fagote com José Carboni e piano com Osvaldo de Vicenzo. O refinamento de sua escrita e regência veio através das lições de harmonia de Martin Braunwieser, da regência de Mario Rossini e, fundamentalmente, da composição com o mestre Camargo Guarnieri. Sua formação não foi linear; foi um mosaico que incluiu, ainda, o rigor teórico de Hans-Joachim Koellreutter, integrando a tradição nacionalista à vanguarda das técnicas contemporâneas. 

Olivier Toni possuía uma qualidade rara em músicos de seu tempo: a habilidade de transformar ideias em instituições permanentes. A crônica da vida musical paulistana deve muito ao seu vigor organizador. 

Em 1947, deu seus primeiros passos como regente ao fundar a Orquestra da Faculdade de Filosofia. A partir daí, sua carreira foi uma sucessão de fundações e direções que definiram o panorama sinfônico brasileiro. Foi um dos membros fundadores da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP), um marco para a profissionalização da música orquestral no Brasil. Contudo, seu espírito de vanguarda o levou a criar a Orquestra de Câmara de São Paulo (OCSP) em 1956, um grupo que não apenas executou repertório, mas rodou o mundo levando a produção brasileira, com turnês pela África, Europa e Estados Unidos, projetando o Brasil num momento em que a diplomacia cultural era essencial.

Em 1968, antecipando a necessidade de preparar novos quadros para a cena sinfônica, criou a Orquestra Sinfônica Jovem Municipal de São Paulo, semente do que hoje conhecemos como a Orquestra Experimental de Repertório. Toni não formava apenas músicos; ele formava cidadãos que entendiam a orquestra como um organismo social. 

Se tivéssemos que resumir a contribuição institucional de Olivier Toni, ela se confundiria com a própria história da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Em 1966, foi o líder do movimento para a criação de um instituto de artes dentro da universidade. Seu trabalho na estruturação curricular do Departamento de Música (CMU) foi um divisor de águas no ensino superior brasileiro. 

Ao assumir a coordenação do CMU em 1972, cargo que ocupou por mais de quinze anos, Toni elevou o padrão pedagógico do país. Sob sua liderança, o departamento tornou-se um celeiro de talentos. O impacto de seu ensino reverberou em gerações de músicos que hoje ocupam postos de mando e criação. Entre seus discípulos estão nomes como Rogério Duprat, Gilberto Mendes, Fábio Zanon, André Mehmari e Cláudio Cruz. A lista é vasta e espelha a diversidade estética que ele sempre incentivou: do rigor acadêmico à experimentação sonora mais audaciosa. 

Para além das salas de aula e das grandes salas de concerto, Toni dedicou décadas à arqueologia musical brasileira. A partir de 1974, sua expedição à região aurífera de Minas Gerais revelou um tesouro que estava, literalmente, escondido sob o pó dos séculos. O trabalho de restauração e catalogação da música colonial brasileira foi uma das maiores contribuições de um musicólogo no Brasil. 

Este esforço não ficou nos arquivos. Em 1977, fundou o Festival de Prados, transformando uma pequena cidade histórica no epicentro da música barroca. Como diretor artístico até 2015, Toni não apenas regeu essas peças, mas as devolveu ao seu contexto e ao seu povo, provando que a música, para ser "clássica", precisa dialogar com a identidade nacional. 

Como compositor, Olivier Toni manteve uma postura de extrema qualidade e parcimônia, evitando o imediatismo. Sua obra, que inclui peças para instrumentos solistas, música de câmara e obras vocais, é marcada por um rigor estrutural notável. As Três Variações para Orquestra (1963) e a Canção de Amigo (1990) são pontos focais de sua escrita.

O reconhecimento internacional veio através de sua atuação como jurado em concursos de renome, como o Gottschalk (Porto Rico), Aldo Parisot (EUA) e Vincenzo Bellini (Itália). Em 2014, o Selo SESC lançou um álbum fundamental com obras de sua autoria, reafirmando que, apesar de sua vocação pedagógica, Toni foi um dos compositores mais íntegros e conscientes de sua geração. 

Olivier Toni faleceu em 25 de março de 2017, em São Paulo, mas sua presença é sentida a cada vez que uma orquestra da USP sobe ao palco ou que um jovem músico pesquisa o barroco mineiro. Em 2001, ao receber o título de Professor Emérito, ele não encerrou um ciclo, mas consolidou um modelo de docência que une a prática orquestral à pesquisa histórica. 

Para o Focus Portal Cultural celebrar seu centenário em 2026 é, sobretudo, um convite à reflexão sobre a importância do educador na cultura nacional. Toni nunca se contentou em ser um solista brilhante; ele preferiu ser o maestro de uma transformação coletiva. Sua vida foi a prova cabal de que a cultura brasileira, para ser grande, precisa ser pensada, estruturada e, acima de tudo, ensinada com a paixão e o rigor que ele devotou a cada compasso de sua existência.

© Alberto Araújo - Focus Portal Cultural

27 de maio de 2026














terça-feira, 26 de maio de 2026

O ALTAR DAS ÁGUAS E DA FÉ: UMA ODE A LUZILÂNDIA - CRÔNICA À MINHA TERRA NATAL © ALBERTO ARAÚJO

Luzilândia nasce de um sorriso e se banha na luz de um sol que nunca deixa de aquecer a alma. Dizer o nome desta terra é, antes de tudo, celebrar a vida em sua forma mais vibrante, generosa e colorida. Não há espaço para a pressa ou para a frieza cinzenta das grandes metrópoles; lá, o tempo é regido pelo compasso manso do Rio Parnaíba e pela certeza de que a felicidade escolheu esse pedaço do Piauí para fazer morada. Reverenciada como a verdadeira "Cidade da Alegria", Luzilândia não é apenas um ponto geográfico no mapa do Nordeste, mas um estado de espírito pulsante, moldado pelo calor de sua gente e abençoado pelo teto sagrado de Santa Luzia. 

Falar deste chão é traduzir o significado mais puro de acolhimento. É o "Unhal" que abraça o visitante com a mesma naturalidade com que as águas envolvem suas margens, criando laços invisíveis de afeto e uma saudade bonita que acompanha, para sempre, quem precisa partir. Para quem tem o privilégio de ter este cenário como berço, a vida se mede em banhos de rio, em tardes de calçadas cheias e no vento fresco que sopra ao cair da noite, trazendo o aroma da terra e o som das conversas que dão vida à cidade. 

O Parnaíba, esse velho monarca de águas generosas, é o primeiro espelho de todo luzilandense. Ele assiste ao amanhecer dos pescadores, que lançam suas redes na esperança e na certeza do sustento, e abençoa o entardecer dos que se reúnem para ver o sol se deitar atrás das margens do Maranhão, logo ali do outro lado, num espetáculo que nenhuma tela de cinema jamais conseguirá reproduzir com fidelidade. Luzilândia nasce desse encontro: entre a terra firme e a fluidez das águas, criando uma identidade única, onde a hospitalidade é a lei primeira da convivência. 

Não se pode caminhar pelas ruas de Luzilândia sem sentir a presença terna e vigilante de sua padroeira. Terra de Santa Luzia, a protetora dos olhos, da visão que vai além da carne e enxerga a alma. A devoção à mártir confunde-se com a própria essência do município. Quando os antigos desbravadores decidiram erguer ali um altar, sabiam que precisavam de uma força que mantivesse a esperança sempre acesa, mesmo nos dias mais desafiadores do sertão.

A Igreja Matriz de Santa Luzia é o coração geográfico e espiritual da cidade. Sua torre ergue-se como braços estendidos ao céu, e seu sino, quando dobra, ecoa como a voz do próprio tempo, chamando os filhos da terra para a oração, para a festa ou para o reencontro. Entrar naquele templo é respirar séculos de promessas pagas, de lágrimas transformadas em sorrisos e de preces sussurradas no silêncio das naves ou no calor das missas lotadas. 

No mês de dezembro, a cidade se transforma por completo. O ar ganha um perfume diferente, o comércio se agita e os filhos ausentes arrumam as malas para pegar a estrada de volta para casa. É o novenário. As noites iluminam-se com a fé de milhares de devotos. A procissão de Santa Luzia é um mar humano em movimento: velas acesas, pés descalços que tocam o chão abençoado e vozes que se unem em um coro que arrepia a pele. Ver a imagem da padroeira passar é compreender o que significa comunidade. Ali, ninguém está sozinho; todos partilham da mesma devoção profunda. 

"Santa Luzia, abençoai esta terra onde o olho humano aprende a ver a beleza nas coisas mais simples da vida."

O termo "Unhal" guarda em si a força das origens. Remete ao tempo em que as terras eram ponto de encontro para a lida do gado, o cultivo e a partilha. Mas, na boca do luzilandense, a palavra ganhou contornos de poesia pura. Tornou-se sinônimo de abrigo, de porto seguro. O "Unhal Acolhedor" é a representação máxima da alma local: uma cidade onde as portas das frentes raramente ficam trancadas durante o dia, onde a cadeira na calçada é o móvel mais importante da casa e onde o café fresco é passado na hora para qualquer vizinho que chegue para uma boa prosa. 

E nessa terra de trabalhadores, brilhou com destaque absoluto a presença da mulher. Luzilândia é, por excelência, a "Terra de minha mãe Maria". Maria que inspira a fé, mas também as tantas Marias reais que dão ritmo ao cotidiano. A Maria que prepara o cuscuz ao amanhecer, a Maria que canta modinhas antigas, a Maria professora que molda o futuro das novas gerações nas escolas e a Maria artesã que transforma a palha do buriti em arte fina e respeitada. 

As Marias de Luzilândia são a espinha dorsal da cultura. Elas carregam a sabedoria das ervas que confortam, dos doces de caju que adoçam a boca e das histórias que povoam o imaginário coletivo. Ser a Terra de Maria é ostentar a insígnia da força feminina e da resiliência, sabendo acolher cada filho como uma mãe acolhe quem volta para o aconchego do lar. 

Se a fé é o alicerce de Luzilândia, a alegria é a sua melhor tradução. Não há lugar onde o riso seja tão farto e a celebração tão genuína. O luzilandense traz no sangue o dom da festa. Desde os tempos antigos, quando os folguedos juninos ditavam o ritmo do calendário, até a energia dos grandes carnavais e festivais de cultura, a cidade pulsa num ritmo contagiante. 

Nas noites de São João, a poeira levanta com o balancê das quadrilhas. As ruas vestem-se de bandeirolas coloridas, o cheiro de milho assado invade o ar e o som do Nordeste faz dançar o velho e o menino. É a explosão da cultura popular, onde cada canto da cidade mostra sua criatividade e o orgulho de manter vivas as nossas raízes.

E o que dizer da culinária luzilandense? Um capítulo à parte para ser saboreado sem pressa. A mesa é uma verdadeira comunhão. O peixe do Parnaíba, seja o surubim ou o piau, preparado ao molho de coco ou frito com aquele baião de dois caprichado que só a gente sabe fazer. O arroz com pequi da Teresinha Rocha. O bolo de macaxeira da minha irmã Sônia. Ah! Lembrei-me também da carne de sol com macaxeira, o bolo de goma que minha mãe fazia, derrete na boca, acompanhado de um café forte e a panelada das manhãs de sábado no mercado público. Comer em Luzilândia é um ato de celebração da própria vida. 

Caminhar por Luzilândia é folhear um livro de imagens inesquecíveis. Comecemos pelo cais, o ponto de encontro de todas as gerações. Ali, o vento que vem do rio limpa os pensamentos. Olhar a imensidão do Parnaíba e ver as canoas deslizando suavemente pelas águas é entender o conceito de paz. O cais é o cenário dos primeiros afetos, dos segredos confessados ao luar e da contemplação daquele entardecer que doura as águas com matizes de fogo. 

Afastando-se um pouco da margem, a paisagem se transforma em um tapete verde de palmeiras. Os cocais majestosos erguem-se contra o céu azul, símbolos da riqueza natural e da resistência da vegetação. A carnaúba oferece tudo, desde o sustento até o teto que abriga as casas. É uma bela metáfora do próprio povo: versátil e forte, que aproveita as oportunidades para florescer e dar bons frutos. 

O Mercado Público é outro ponto vital dessa engrenagem. Um caldeirão cultural onde a linguagem do povo se manifesta livremente. O sotaque cantado, as gírias próprias e o pregão dos feirantes vendendo as frutas da época, a manga rosa, o caju, a seriguela, o buriti. O mercado é o lugar onde a cidade se mostra exatamente como é: trabalhadora, colorida, autêntica e profundamente humana. 

Há um ditado popular na região que diz que quem bebe da água do Parnaíba em Luzilândia sempre encontra um jeito de voltar. E se não volta fisicamente o tempo todo, passa a vida inteira com o pensamento ancorado naquelas margens. O sentimento de pertença do luzilandense desafia qualquer distância geográfica. Os filhos da terra podem espalhar-se por diferentes cantos do país, mas nenhum deles esquece o desenho da Praça da Matriz ou o calor do abraço da nossa gente. 

Esse orgulho manifesta-se nas lembranças compartilhadas, nas conversas nostálgicas e na emoção que aperta o peito quando se ouve falar do nosso chão. Ser luzilandense é ter a certeza de que, não importa o quão longe se vá ou quão alto se voe, existe um ninho acolhedor, um "unhal" esperando de braços abertos, com um prato de comida quente e uma conversa boa na calçada. 

A cidade prepara seus filhos para o mundo, mas imprime neles uma marca que o tempo não apaga. É a herança de Santa Luzia, que ensina a olhar para o próximo com empatia; é a herança de Maria, que ensina a caminhar com dignidade; e é a herança do Parnaíba, que mostra que a vida deve fluir, contornando os obstáculos com a força mansa e constante das águas.

Uma cidade não vive apenas de passado. Luzilândia caminha para o amanhã mantendo os pés firmes em suas tradições. A modernidade chega através dos jovens que estudam, empreendem e levam o nome do município para novos espaços de destaque. O comércio se expande e a infraestrutura se renova, mas a essência acolhedora permanece absolutamente intacta. 

O futuro desenha-se com o fortalecimento da cultura, da valorização ambiental e do desenvolvimento consciente no Baixo Parnaíba. A preservação do nosso rio torna-se uma bandeira de todos, cientes de que ele é a nossa maior riqueza. As escolas investem em contar a história local, garantindo que as novas gerações saibam, desde cedo, a importância do chão que pisam e o valor daqueles que ajudaram a construir nossa identidade. 

As novas tecnologias servem hoje como pontes para que a beleza da cidade da alegria seja vista em qualquer lugar do planeta. Uma imagem do pôr do sol no cais viaja o mundo e desperta o desejo em novos visitantes de conhecerem esse refúgio de paz e calor humano no norte do Piauí.

Escrever sobre Luzilândia é uma tarefa que se renova a cada amanhecer. Cada vez que o sol se levanta sobre as águas do Parnaíba e ilumina as torres da Matriz, uma nova página começa a ser escrita pelos passos de sua gente. 

Para quem tem o privilégio de chamá-la de cidade natal, Luzilândia é o verdadeiro território da memória afetuosa. É o lugar onde as lembranças mais bonitas da infância continuam vivas e preservadas do tempo. É o porto seguro para onde a alma viaja em busca de inspiração e calmaria. 

Luzilândia é a certeza de que a felicidade tem sotaque próprio, cheira a rio e atende com o calor de um abraço sincero. É o meu unhal acolhedor, minha terra, meu orgulho eterno. Uma cidade que se sente com força e verdade no bater compassado do coração de cada um de seus filhos. Luzilândia, Eternamente Minha, sua e de quem a ama. 

© Alberto Araújo

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