quinta-feira, 28 de maio de 2026

46 - LOU PACHECO: ENTRE A MEMÓRIA, A HISTÓRIA E O AFETO UM TRIBUTO “IN MEMORIAM” À TRAJETÓRIA DA SAUDOSA JORNALISTA LOU PACHECO - TEXTO DEDICADO À PROFESSORA DALMA NASCIMENTO E AO JORNALISTA GUADÁ.

A escrita, quando genuína, tem o poder de despertar tempos que julgávamos adormecidos. Recentemente, ao publicar em meu Focus Portal Cultural, no dia 11 de maio de 2026, o ensaio intitulado “LE PETIT PARIS – UM MARCO NA NOITE NITEROIENSE”, fui surpreendido por uma mensagem do colega jornalista Guadá. Ao fazer referência à icônica Lou Pacheco em seu comentário, ele não apenas reagiu ao meu texto, mas abriu uma porta para um passado vibrante da nossa cidade. 

A saudosa jornalista Lou Pacheco conheci também nos anos 90, quando ela era colunista do Jornal LIG e eu fui colunista no Jornal OPINIÃO do saudoso jornalista Carlos Silva, o 'caneta de ouro' de Niterói!” — Guadá.

Ao ler essas palavras, fui transportado para os meus primeiros dias em Niterói. Foi um encontro que guardo com carinho; tenho, inclusive, uma fotografia daquele Natal nos Escritores Ao Ar Livro, um registro que hoje ganha contornos de relíquia. Relembrar Lou Pacheco é, inevitavelmente, reverenciar a própria história da crônica social e política da nossa região. 

A relevância de Lou Pacheco para a memória fluminense foi magistralmente registrada pela professora Dalma Nascimento, minha mestra e guia nesta jornada intelectual. Em seu livro Memórias em Jornais (Editora Tempo Brasileiro, 2014, pp. 231-232), Dalma dedica um ensaio sensível à figura de Lou. É nesse espaço que compreendemos a essência de uma amizade que transcendia o papel e a tinta. Maria de Lourdes de Freitas Pacheco, a nossa Lou, era natural de Campos dos Goytacazes. Filha de Julieta Gallo de Freitas Pacheco e Gastão Meirelles de Freitas Pacheco, cresceu em uma família numerosa e vibrante, ao lado de seus irmãos: Aidée, Célia, Jacy, Lígia, Nellie, Mario, Eli e Luiz Carlos. Essa base familiar forjou o caráter resiliente que a acompanharia por toda a vida. 

A carreira de Lou Pacheco foi tecida entre o compromisso com a verdade e o amor incondicional por Niterói. Ela deu seus primeiros passos no extinto jornal O Estado, trilhando um caminho que passaria pelo Diário de Notícias e pela fundação do Última Hora, onde permaneceu por doze anos. 

Ler hoje o registro da professora Dalma, publicado originalmente em agosto de 2000, é observar como Lou Pacheco, mesmo após sua partida, continuou a ser a "hospedeira de utopias" que Niterói tanto precisou. Segue abaixo a transcrição integral da homenagem feita por Dalma: 

“DOUTORES NA RIBALTA” MAIS UMA VEZ EM NITERÓI 

In memoriam da grande amiga Lou Pacheco.

Niterói viverá, em 18 de agosto próximo, a sétima edição de “Doutores na Ribalta”, um dos mais tradicionais e concorridos espetáculos beneficentes da cidade, idealizados e promovidos pela jornalista Lou (Maria de Lourdes) Pacheco, a carismática guerrilheira das causas humanitárias fluminenses. O evento, que ultrapassa até as fronteiras do Estado, mobiliza, em vários anos, grande público. Os “doutores” são médicos, advogados, economistas, engenheiros, dentistas, educadores, que sobem ao palco, para um show de dança, música e poesia, demonstrando suas “escondidas” aptidões artísticas. O sucesso do projeto tem feito com que o “Doutores na Ribalta” se mantenha como um marco na cultura da cidade desde 1959, quando à porta do Teatro Municipal de Niterói, o então governador do Estado, Roberto Silveira e sua esposa, Ismélia Saad Silveira, inauguraram o espetáculo, em noite de gala, com expressiva assistência e casa lotada. 

Incansável incentivadora dos autênticos valores, a jornalista Lou Pacheco, certa feita, ao frequentar a Associação Médica Fluminense, notou o elevado número de intelectuais e artistas entre os seus filiados. Eram escritores, instrumentistas, cantores, artistas plásticos e até bailarinos que ali “artistavam” despretensiosamente em busca de companheirismo. 

Percebendo-os afinados artisticamente e colegas de profissão, ela, com generosidade e espírito congregador, elaborou um fichário dos talentos, desde o oftalmologista Paulo Pimentel, poeta e tradutor de Baudelaire, a Hélio Rosa, psiquiatra e psicanalista, que mereceu de Vinícius de Moraes a referência a seu “violão de cauda”. 

Diante de tais descobertas, Lou Pacheco, para divulgar e interpretar o papel da nascente Associação Fluminense de Reabilitação, organizou o primeiro “Doutores na Ribalta”, em 24/4/59, no Teatro Municipal de Niterói, para uma plateia em traje a rigor. Outras reapresentações, sempre com enorme sucesso, ocorreram em 74, 84, 86, 96 e 99, com pausas necessárias, para depois ressurgirem com sempre maior vigor. (...)

O Correio cumprimenta mais esta iniciativa da ilustre jornalista Lou Pacheco, hospedeira de utopias, que, com exemplar personalidade, engrandecesse Niterói. Publicado em O Correio, edição “Aquarela de assuntos”, em 5 de agosto de 2000.

LOU PACHECO: O RECONHECIMENTO DE UMA VIDA PLENA E RESISTENTE 

A trajetória de Lou Pacheco não se encerrou com sua partida; ela se perpetua nos anais da nossa história cultural e política. Em 1992, essa relevância foi consagrada quando Lou recebeu o título de Intelectual do Ano, outorgado pelo Grupo Mônaco de Cultura. A distinção, concedida por Carlos Silvestre Mônaco, proprietário da icônica Livraria Ideal, que por décadas serviu como o grande ponto de encontro da intelectualidade fluminense, foi um reconhecimento justo à sua contribuição inestimável para a vida pública.

O reconhecimento oficial de sua dimensão para Niterói veio de forma contundente em 23 de agosto de 2012. Naquele momento, o Prefeito Municipal de Niterói, Jorge Roberto Silveira, ao decretar luto oficial de três dias pelo seu falecimento, pontuou com precisão os motivos que tornaram Maria de Lourdes de Freitas Pacheco uma presença imortal. O decreto ressaltou que a perda de Lou Pacheco representava um vazio lamentável para o Estado e para a Cidade, considerando os seus "inestimáveis serviços prestados à causa pública, à liberdade de expressão, à democracia e à cultura". 

Mais do que uma profissional exemplar, o poder público reconheceu sua luta e resistência em defesa da liberdade. A sua memória segue sendo cultivada por meio de homenagens que eternizam seu nome, como o projeto de lei para batizar logradouros da cidade, reforçando que sua história de vida e luta pela humanidade não será esquecida.

Ao redigir meu ensaio sobre o Le Petit Paris, percebo que figuras como Lou Pacheco são os verdadeiros pilares da nossa crônica urbana. Homenageá-la é manter viva a chama da imprensa que lutou pela liberdade e pela cultura. Que estas linhas sirvam para que as novas gerações saibam quem foi a mulher que tanto amou, escreveu e lutou por Niterói.

O Focus Portal Cultural, sob a direção de seu editor Alberto Araújo, reverencia e subscreve integralmente a importância dessa trajetória. Cultuar a memória de Lou Pacheco é um ato de resistência contra o esquecimento e um compromisso com os valores democráticos que ela, com tanta coragem, defendeu. Niterói, ao honrar o nome de Lou, honra a sua própria vocação de cidade aberta, culta e, acima de tudo, livre. Sua lembrança, para nós, é uma bússola que continua a guiar a nossa missão editorial. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural





 

44 - O LEGADO DE ACADEMUS: A GÊNESE DO PENSAMENTO NO SISTEMA ACADEMUS - 45 - A ARQUITETURA DO PENSAMENTO: RAFAEL E A ESCOLA DE ATENAS COMO ESPELHO DA ETERNIDADE - ENSAIOS FILOSÓFICO-INSTITUCIONAIS © ALBERTO ARAÚJO

 

A história da humanidade não é feita apenas de sucessões temporais, mas de uma teia invisível de influências, mentoria e a busca incessante pela verdade. Quando batizamos um sistema de gestão acadêmica como Academus, não estamos apenas escolhendo um rótulo; estamos invocando uma linhagem milenar que conecta a tecnologia educacional moderna ao solo sagrado da Atenas clássica. Para compreender a essência do Academus, é preciso caminhar por entre as oliveiras do jardim que deu nome a toda uma tradição de ensino superior no Ocidente. 

O Fio de Ariadne: Sócrates, Platão e Aristóteles 

A estrutura pedagógica que o sistema Academus pretende organizar reflete a própria dinâmica da trindade fundadora da filosofia ocidental: Sócrates, Platão e Aristóteles. Esta tríade representa a transição do pensamento mítico para o racional e a sistematização do conhecimento humano.

Sócrates, o mestre que nada escreveu, foi a centelha. Sua forma de ensinar,  a maiêutica, era o processo de dar à luz o conhecimento através do questionamento constante. Originalmente, o método filosófico e pedagógico criado por Sócrates consiste na arte de fazer o interlocutor "parir" as suas próprias ideias. Em vez de transmitir respostas prontas, o mestre utiliza perguntas sucessivas para guiar o aluno a descobrir a verdade por si mesmo; ele não transmitia informações, ele provocava o pensamento. 

Platão, seu discípulo, foi o arquiteto. Ele transformou a oralidade de Sócrates em um sistema robusto de diálogos escritos, preservando o pensamento do mentor e estabelecendo as bases para o que viria a ser a Academia. Aristóteles, por fim, foi o sistematizador. Ao estudar na Academia por cerca de 20 anos, ele absorveu as ideias platônicas para, em um gesto de maturidade intelectual, questioná-las e criar sua própria filosofia, fincada na observação do mundo sensível. 

Este sistema de sucessão, o mestre que planta a dúvida, o discípulo que estrutura a reflexão e o sucessor que inova a partir da base, é a metáfora perfeita para um sistema de gestão acadêmica. O Academus não visa apenas registrar dados, mas organizar o fluxo contínuo entre o ensinar, o aprender e o pesquisar. 

Platão: O Fundador da Institucionalização 

Platão, nascido Arístocles em Atenas por volta de 427 a.C., é a presença central desta narrativa. Sua vida e obra são o testemunho de uma mente que buscou harmonizar o racionalismo com a espiritualidade. Ao fundar a Academia, ele não estava apenas criando um local de estudos; ele estava formalizando o conceito de "educação superior".

A Academia de Platão foi, de fato, a primeira universidade do mundo ocidental. Diferente das escolas de sofistas, que cobravam por retórica e persuasão, a Academia era um espaço de investigação. O currículo incluía astronomia, biologia, ciências políticas e, claro, filosofia. Platão nos legou a ideia de que o conhecimento é um caminho de ascensão, o despertar da "flor metafísica" que ele chamava de alma, através da Paideia, o processo de formação humana integral e virtuosa. 

O Jardim de Academus: Onde a Sabedoria Encontra o Espaço 

O nome Academus remete a uma origem ainda mais profunda: o herói ático Academos. Conta a lenda que ele foi o homem que revelou aos Dióscuros,  os "filhos de Zeus", Castor e Pólux, também conhecido como Polideuces, famosos irmãos gêmeos da mitologia greco-romana. Eles representam o amor fraternal incondicional e estão ligados à constelação de Gêmeos. Academos indicou o local onde Teseu havia escondido Helena. Mais do que um herói de guerra ou um personagem mitológico, Academos dá nome ao local físico. O bosque sagrado, situado nos arredores de Atenas, perto do cemitério de Cerâmico, não era apenas um terreno; era um espaço de refúgio, ginástica e reflexão. 

Ao escolher esse local para sua escola, Platão fez uma escolha simbólica poderosa. A educação não deveria ocorrer em torres de marfim isoladas, mas em um jardim onde a mente e o corpo estivessem em harmonia. Onde o filósofo caminhava com seus discípulos entre doze oliveiras, sob a égide de Atena, a deusa da sabedoria. 

A Filosofia do Sistema Academus 

Por que, então, nomear um sistema de gestão acadêmica como Academus? 

A Organização da Sabedoria: Assim como a Academia de Platão contava com uma biblioteca e uma estrutura de residência, um sistema de gestão moderno precisa ser o pilar que sustenta a estrutura da universidade atual. O Academus é o "jardim" digital onde os dados, as grades curriculares, os históricos dos alunos e as trajetórias dos professores se encontram. 

Longevidade e Preservação: A Academia platônica permaneceu em funcionamento por mais de novecentos anos. O Academus, como ferramenta de gestão, busca essa longevidade: garantir que o conhecimento produzido hoje seja preservado, acessível e organizado para as gerações que virão. 

O Foco na Paideia: O objetivo final de qualquer sistema de gestão não é a burocracia, mas sim viabilizar o ambiente para que o aluno possa florescer. Quando removemos a fricção administrativa através de um sistema eficiente, abrimos espaço para a verdadeira Paideia: a relação humana, a troca intelectual e o desenvolvimento virtuoso. 

O Academus não é apenas um software. É uma reverência. Ao navegar pelas interfaces de um sistema que carrega esse nome, o usuário está, sem saber, conectado à história de uma linhagem que começou com um homem que nada escreveu e chegou até a sofisticação da tecnologia que utilizamos hoje para organizar a vida universitária. 

A Figura Mítica de Academo 

O nome que batiza o nosso sistema não é um conceito abstrato, mas o epônimo de uma das figuras mais enigmáticas da mitologia ática: Academo, em grego: Akádēmos. A sua história, embora mergulhada no tempo dos heróis, carrega um simbolismo profundo que ressoa diretamente com o propósito de um sistema de gestão acadêmica moderno. 

Segundo a tradição grega, Academo foi o herói que, agindo com clareza e verdade, revelou aos Dióscuros, Castor e Polideuces o paradeiro de Helena, que fora levada por Teseu.

Teseu raptou Helena quando ela ainda era muito jovem. Os irmãos dela, os Dióscuros, invadiram a região da Ática para resgatá-la. Para evitar que Atenas fosse devastada pelo conflito, Academo revelou o cativeiro da jovem em troca de imunidade para suas terras. Como sinal de gratidão, as terras de Academo, um bosque próximo a Atenas foram poupadas em guerras futuras e tornaram-se um local de culto sagrado dedicado a Atena e outros deuses. 

De Herói à Origem da Palavra "Academia" 

Séculos mais tarde, o filósofo Platão escolheu exatamente esse bosque tranquilo e sombreado para fundar sua famosa escola filosófica, por volta de 387 a.C. A instituição ficou conhecida como Academia de Platão. Com o tempo, o termo passou para o latim, academicus e, posteriormente, para o português, passando a designar centros de ensino, universidades e agremiações científicas ou literárias. 

Ao oferecer essa informação, Academo agiu como o mediador entre o conflito e a resolução, entre o oculto e o revelado. Em um ecossistema educacional, essa é a função essencial da informação: iluminar o caminho, desvelar oportunidades e permitir que o conhecimento chegue àqueles que o buscam.

O legado de Academo transcendeu o mito e tornou-se geográfico. O seu túmulo, situado estrategicamente próximo ao Cerâmico, o cemitério de Atenas, onde o passado da cidade era honrado, era circundado por um bosque que se tornaria o solo sagrado do intelecto. Foi neste jardim, ornamentado por doze oliveiras ancestrais e abençoado por um altar à deusa Atena, que Platão escolheu estabelecer a sua Academia, por volta de 386 a.C. 

O jardim de Academo deixou de ser um memorial de guerra ou um simples recanto sagrado para se tornar o berço da educação superior ocidental. O termo "academia", que hoje utilizamos globalmente para definir centros de saber, é a herança direta desse espaço de conferências, diálogos e descobertas. 

Portanto, ao utilizarmos o nome Academus, estabelecemos um elo inquebrável com essa origem. O nosso sistema é, em essência, uma extensão digital desse antigo jardim: um espaço organizado, dedicado e sagrado, onde as instituições de ensino podem cultivar as suas oliveiras, o conhecimento, a pesquisa e a formação de seus estudantes,  sob o olhar atento da sabedoria que, desde a Grécia Antiga, nos convida a pensar, aprender e evoluir. 

45 - A ARQUITETURA DO PENSAMENTO: RAFAEL E A ESCOLA DE ATENAS COMO ESPELHO DA ETERNIDADE 

A arte, em seu estado de graça, não é apenas o registro estético de um tempo, mas a ancoragem do espírito humano no fluxo da história. Ao contemplar A Escola de Atenas, de Rafael Sanzio, nas entranhas dos Museus Vaticanos, não nos deparamos apenas com um afresco monumental; confrontamo-nos com uma "biblioteca visual" que mapeia, em gesto e perspectiva, os fundamentos de nossa civilização. O impacto dessa obra, que ocupa a parede da antiga Stanza della Segnatura, a biblioteca e escritório do Papa Júlio II, é um fenômeno que transcende a escala física. É uma experiência que exige silêncio, não apenas pelo respeito ao espaço sagrado, mas pela densidade do que ali se comunica.

 

Rafael pintou este afresco quando tinha apenas vinte e um anos, uma idade onde a genialidade muitas vezes se confunde com a audácia. Na Roma de 1509, ele dividia o ar carregado de gênio com gigantes: Leonardo da Vinci, cinquenta e dois anos, e Michelangelo, vinte e nove, este último operando a escassos metros dali, na Capela Sistina. Enquanto Michelangelo buscava, em suas figuras, a tensão do corpo e a angústia da criação divina, Rafael buscava a harmonia. 

A perspectiva de A Escola de Atenas não é apenas uma técnica geométrica de fuga; é uma construção arquitetônica de valores. O cenário, embora imaginário, ecoa a arquitetura de Bramante para a nova Basílica de São Pedro. Ao desenhar arcos que parecem se estender para além da parede real, Rafael nos convida a entrar em um espaço atemporal. O afresco não está em um lugar geográfico, mas no território da mente. As estátuas laterais, Apolo, com sua lira, representando o esclarecimento filosófico, e Minerva, com o elmo, a sabedoria estratégica, funcionam como sentinelas, demarcando a entrada em um santuário onde a razão é a lei soberana. 

Se pudéssemos reduzir o pensamento ocidental a uma imagem, seria a do encontro central da obra. De um lado, Platão; do outro, Aristóteles. Rafael, em uma escolha de mestre, atribui a Platão a fisionomia de Leonardo da Vinci. O filósofo aponta para o zênite, para o mundo das formas ideais, para o Timeu, tratando da natureza do cosmos e da eternidade. É o filósofo do "acima". 

Aristóteles, em contraponto, estende a mão espalmada para a terra, segurando sua Ética a Nicômaco. Ele é o mestre do "aqui", da empiria, da observação minuciosa que define a ciência ocidental. Não há conflito entre os dois; há, sim, o equilíbrio. A composição em "V" invertido, guiada pelo olhar e pelos gestos dos dois protagonistas, organiza a dispersão dos outros personagens. Eles são o eixo sobre o qual a história da filosofia gira: o diálogo constante entre o que imaginamos ser e o que a realidade nos impõe. 

O que torna A Escola de Atenas uma obra viva é a sua recusa em ser um documento arqueológico fechado. Rafael não pinta a Grécia de modo realista; ele povoa a Grécia com os rostos da sua própria contemporaneidade. Quando vemos Pitágoras, aquele que uniu matemática e música, ou Euclides o pai da geometria, por vezes confundido com o arquiteto Bramante, não estamos vendo apenas vultos históricos. Estamos vendo o reconhecimento de que a herança clássica não é um acessório de museu, mas a base sobre a qual o homem renascentista se construía. 

O fato de incluirmos personagens como Hipátia de Alexandria, a primeira grande matemática do ocidente, ou o cínico Diógenes, despojado e autossuficiente na escadaria, revela uma vontade de totalidade. A obra é um mapa da alma humana. Rafael insere a si mesmo e a outros pintores como o enigmático autorretrato perto da coluna à direita para declarar que o artista é, por direito, um filósofo da imagem. É a celebração do indivíduo que, pelo conhecimento, torna-se arquiteto do seu próprio destino. 

Como alguém que transita entre a escrita literária, o jornalismo cultural e a fotografia, a observação detalhada deste afresco revela uma verdade sobre a produção criativa. Rafael não compôs a cena por acaso. Cada grupo, cada gesto capturado, exige do espectador o exercício da escuta silenciosa. Observar o homem que se inclina para ler, o outro que debate, o matemático que traça o compasso, é observar o próprio fazer humano. 

A filosofia, aqui, não é apenas um sistema de ideias complexas; é a atitude de quem para para observar o pôr do sol na baía, ou de quem, em seu escritório, dedica horas à pesquisa das efemérides do dia. A "escola" que Rafael desenha é, na verdade, a própria vida cotidiana elevada à categoria de obra de arte. É o reconhecimento de que, ao escrever ou fotografar, estamos também buscando o "ápieron" de Anaximandro, o princípio de todas as coisas, ou a harmonia das esferas de Pitágoras. 

Ao final da análise, percebemos que A Escola de Atenas não está em Roma; ela habita em nós. Ela é a biblioteca onde guardamos nossas leituras de Cecília Meireles, nossos estudos sobre a genealogia do piano e nossos registros fotográficos do cotidiano niteroiense. A busca que Rafael encenou há meio milênio é a mesma que nos move hoje: a necessidade de conciliar as raízes, a nossa história, ao nosso Piauí, a nossa formação, com as asas da imaginação e do intelecto. 

O afresco termina, mas a conversa continua. Ele permanece lá, no alto daquela parede vaticana, observando o fluxo dos visitantes que, por breves instantes, se sentem também filósofos, também artistas, também parte dessa linhagem que nunca aceitou que a vida fosse apenas o que está diante dos olhos. O grande legado de Rafael não foi ter pintado a filosofia, mas ter nos ensinado que, enquanto houver alguém disposto a olhar e a perguntar, a escola nunca fechará suas portas.

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Este ensaio foi construído com base em pesquisas historiográficas e filosóficas, honrando a tradição clássica da Paideia. As obras listadas nas referências são recomendadas para aqueles que desejam aprofundar-se nas raízes do pensamento que guia o espírito do sistema Academus.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DO ENSAIO SOBRE ACADEMUS: 

Referências Bibliográficas

BURNET, John. Greek philosophy: Thales to Plato. London: Macmillan, 1914. 

DIÓGENES LAÊRCIO. Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres. Tradução de Mário da Gama Kury. 2. ed. Brasília: Editora UnB, 2008.

GRAVES, Robert. Os mitos gregos. Tradução de Fernando Klabin. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018. 

GRIMAL, Pierre. Dicionário da mitologia grega e romana. 6. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2016. 

GUTHRIE, William Keith Chambers. A history of Greek philosophy. Volume IV: Plato: The Man and His Dialogues. Cambridge: Cambridge University Press, 1975.

JAEGER, Werner. Paideia: a formação do homem grego. Tradução de Artur M. Parreira. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003. 

PLATÃO. A República. Tradução de Maria Helena da Rocha Pereira. 9. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. 

REALE, Giovanni. Para uma nova interpretação de Platão. Releitura da metafísica dos grandes diálogos à luz das "doutrinas não escritas". 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004. 

WHITEHEAD, Alfred North. Process and reality: an essay in cosmology. New York: Macmillan, 1929. 

XENOFONTE. Ditos e feitos memoráveis de Sócrates. Tradução de José Maria da Costa. Lisboa: Edições 70, 2011. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS DO ENSAIO SOBRE ESCOLA DE ATENAS 

ARENDT, Hannah. A condição humana. 10. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007. 

BURCKHARDT, Jacob. A civilização do Renascimento na Itália. Lisboa: Editorial Presença, 2009. 

GOMBRICH, E. H. A história da arte. 16. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2013. 

MEIRELES, Cecília. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2012. 

PANOFSKY, Erwin. Renascimento e renascimentos na arte ocidental. Lisboa: Editorial Presença, 1989. 

PLATÃO. Timeu. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA, 2001. 

REALE, Giovanni. História da filosofia antiga. v. 2. São Paulo: Loyola, 1994. 

TALBOT, John. Raphael and the Pope's Library. New Haven: Yale University Press, 2014. 

VASARI, Giorgio. Vidas dos artistas. Tradução de Ivone Castilho Benedetti. São Paulo: Martins Fontes, 2011. 

Ensaios Filosófico-Institucionais

Explorações sobre a gênese das instituições e o pensamento que molda a educação.


Texto e pesquisa

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural











quarta-feira, 27 de maio de 2026

GODOFREDO DE OLIVEIRA NETO DÁ INÍCIO AO NOVO CICLO DA ABL, “CAMINHOS DA FICÇÃO”


 “A literatura corrige os erros de fabricação da condição humana”. A frase sintetiza o eixo temático da conferência que será apresentada pelo Acadêmico e escritor Godofredo de Oliveira Neto na próxima terça-feira, dia 2 de junho, às 16h, com coordenação do Acadêmico Edgard Telles Ribeiro.

A palestra, intitulada “A literatura instaura novas relações entre os desígnios", abre o ciclo de junho da ABL, “Caminhos de ficção”, que contará ainda com conferências dos acadêmicos Domício Proença Filho, Ana Maria Machado, Antônio Torres e Marco Lucchesi. 

A entrada é franca e as inscrições podem ser feitas pelo link: 

https://www.even3.com.br/a-literatura-instaura-novas-relacoes-entre-os-designios-746156/  

A conferência também será transmitida pelo canal de Youtube da ABL:

https://www.youtube.com/live/yP3lveZcffQ?si=Gj_ebvjlXbN0nmiw 

Para Godofredo, somente a literatura e a arte permitem conhecer a diversidade das experiências do ser humano: "A literatura é útil para a Política quando ela dá voz a quem não tem. São esses fundamentos que pretendo trazer à cena ilustrando com trechos da minha obra”, afirmou.

SOBRE GODOFREDO DE OLIVEIRA NETO 

Godofredo de Oliveira Neto é formado em Letras pela Universidade de Paris, com doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e pós-doutorado na Georgetown University, nos Estados Unidos. Há mais de 40 anos, é professor do Departamento de Letras da UFRJ e pesquisador da literatura brasileira. 

Romancista e Contista (Premiado com uma estatueta no Jabuti, 2006, seus livros foram adotados e estudados em escolas e universidades como por exemplo, UNICAMP, UFRJ, UFSC, UFMA, UFAC, AMAN, UFPA, UFFS, entre outros. Tem romances e contos traduzidos para inglês, francês, espanhol, italiano, vietnamita e búlgaro. Autor de mais de 20 livros, escreve artigos em jornais e periódicos

 

43 - CINEMA PARADISO: A SÉTIMA ARTE COMO MEMÓRIA DO CORAÇÃO - ENSAIO CULTURAL © ALBERTO ARAÚJO

 

Celebrando os 38 anos da estreia. Lançado em 1988, Cinema Paradiso (Nuovo Cinema Paradiso) não é apenas um filme; é uma declaração de amor eterna à sétima arte. Sob a direção magistral de Giuseppe Tornatore, a obra italiana transcendeu fronteiras para se tornar um hino universal à nostalgia, à amizade e à capacidade que as imagens têm de moldar a identidade de um indivíduo. Em uma época em que o mundo começava a ser transformado pelo ruído da modernidade, o longa de Tornatore surgiu como uma pausa necessária, um convite ao introspectivo e ao sensível. 

Giuseppe Tornatore concebeu esta obra como uma verdadeira crônica da memória. Ambientado em uma pequena vila na Sicília, o filme narra a trajetória de Salvatore, ou "Totó", desde sua infância na Itália pós-Segunda Guerra Mundial até sua vida adulta como um cineasta consagrado. O diretor utiliza uma linguagem visual elegante, com movimentos de câmera que transmitem intimidade e o peso do tempo, permitindo que o espectador se sinta um habitante daquele cinema, a sala de projeção que funciona como o coração pulsante da aldeia. 

A força de Cinema Paradiso reside, fundamentalmente, na química entre seu elenco. Philippe Noiret, na pele de Alfredo, o projecionista rude, porém profundamente amoroso, entrega uma atuação antológica. Alfredo é o mentor, o guru, a figura paterna que Totó perdera na guerra. Do outro lado, o jovem Salvatore é interpretado pelo cativante Salvatore Cascio, cuja curiosidade nos conduz ao deslumbramento pela luz projetada no anteparo. Na fase adulta, Jacques Perrin traz a melancolia de um homem que, embora tenha conquistado o mundo, carrega consigo a saudade insuperável de suas raízes. 

Além da direção e atuação, a excelência técnica é inegável. A trilha sonora composta por Ennio Morricone e seu filho, Andrea, é o elemento que mais profundamente toca a alma do público. O "Tema de Amor" é um lamento musical que ressoa com a dor do adeus e a beleza da reconciliação com o passado. 

A relação entre Totó e Alfredo é o alicerce emocional da obra. Mais do que um aprendizado técnico sobre a mecânica das máquinas, Alfredo ensina a Totó como ver o mundo. O momento de maior sacrifício ocorre quando Alfredo aconselha o adolescente a partir, a nunca olhar para trás, querendo que o pupilo alcance seu potencial sem as amarras da estagnação daquela pequena vila. 

A cena final é uma das mais emblemáticas da história do cinema. Trata-se de uma montagem de beijos censurados pelo padre local ao longo dos anos, guardados e editados por Alfredo como um presente póstumo. Quando Totó assiste a essa bobina, a música de Morricone atinge seu ápice emocional. Aquele rolo de filme é o testamento de um pai para um filho: uma mensagem de que, mesmo ausente, Alfredo continuou cuidando do crescimento de Totó. O "Fim" (Fine) que vemos na tela é, na verdade, um novo começo. Salvatore compreende que, para criar sua própria arte, ele precisou se afastar, mas que o olhar do mentor sempre esteve presente, editando os cortes da sua realidade. 

Para nós, que vivemos da palavra e da imagem, Cinema Paradiso nos deixa a lição suprema: o nosso papel como "projecionistas" da cultura é o de resguardador da memória. 

A montagem final, o presente derradeiro de Alfredo, é composta por fragmentos de obras clássicas que Totó via na infância. Estes são os filmes que compõem o legado censurado: 

Arroz Amargo (Riso Amaro, 1949) – Com Vittorio Gassman e Silvana Mangano. 

Jejum de Amor (His Girl Friday, 1940) – Com Cary Grant e Rosalind Russell. 

O Proscrito (The Outlaw, 1943) – Com Jane Russell. 

Obsessão (Ossessione, 1943) – Com Massimo Girotti e Clara Calamai. 

Em Busca do Ouro (The Gold Rush, 1925) – Com Charlie Chaplin e Georgia Hale.

As Aventuras de Robin Hood (The Adventures of Robin Hood, 1938) – Com Olivia de Havilland e Errol Flynn. 

O Filho do Sheik (The Son of the Sheik, 1926) – Com Rudolph Valentino e Vilma Banky. 

A Felicidade Não se Compra (It's A Wonderful Life, 1946) – Com James Stewart e Donna Reed.

Belíssima (Bellissima, 1951) – Com Anna Magnani e Gastone Renzelli.

A Terra Treme (La Terra Trema, 1948).

Adeus às Armas (A Farewell to Arms, 1932) – Com Gary Cooper e Helen Hayes. 

Senso (1954) – Com Farley Granger e Alida Valli.

Ao fecharmos a última cena de Cinema Paradiso, somos invadidos por uma sensação que vai muito além da melancolia narrativa. O filme de Giuseppe Tornatore não se encerra quando os créditos sobem; ele reverbera como uma frequência constante em nossa própria memória. Se a vida, como dizia o próprio Totó em sua jornada adulta, é um processo de constantes partidas, o cinema se revela como a única ferramenta capaz de tornar essas partidas suportáveis. A conclusão desta obra-prima não reside no desfecho trágico ou triunfante de uma carreira, mas no reconhecimento de que, embora o tempo seja um devorador inexorável, o olhar, o olhar de um mentor, o olhar do artista, o olhar do espectador, é a única resistência possível. 

Ao assistir à bobina de beijos que Alfredo guardou com tanto zelo, Salvatore não está apenas vendo fragmentos de filmes censurados por uma moralidade obsoleta; ele está recebendo um espelho. Alfredo, em sua sabedoria rústica, compreendeu algo que Totó levaria décadas para entender: que o cinema não é apenas um entretenimento para aliviar as dores da vida cotidiana na Sicília, mas o repositório da nossa humanidade compartilhada. O ato de editar aqueles beijos, tirando-os da tesoura do padre e colando-os na fita do amor, é um ato de rebelião poética. É como se Alfredo dissesse ao seu pupilo: "A vida pode tentar cortar o desejo, a arte pode ser censurada, a igreja pode ditar o que é pecaminoso, mas o amor, na sua forma mais pura de paixão e movimento, é eterno". 

Essa montagem final atua como uma cápsula do tempo existencial. Para o Salvatore adulto, que retorna à sua vila natal para um funeral, o presente de Alfredo não é um lembrete do passado, mas uma ferramenta de reconciliação. A saudade que ele carrega, aquela que ele tentou suprimir durante anos de sucesso em Roma, finalmente encontra um lugar para repousar. O cinema, aqui, funciona como o "coração da memória". A tela que antes servia para Totó fugir da realidade, agora serve para ele encarar a sua própria essência. É o encontro do homem feito com a criança que ele nunca deixou de ser, mediado pela tecnologia da projeção, essa luz que corta o escuro, essa iluminação que, tal qual a vida, acontece no intervalo entre o antes e o depois. 

Além do afeto entre mentor e aprendiz, a obra nos convida a uma reflexão sobre a própria longevidade da cultura. Vivemos em um tempo de efemeridade digital, onde as imagens são consumidas, descartadas e substituídas em segundos. Cinema Paradiso nos recorda o valor do "espaço sagrado". O cinema era um local de comunhão, onde a comunidade, apesar de suas diferenças e tensões, respirava o mesmo ar e sentia o mesmo impacto emocional. Tornatore não está apenas homenageando o cinema clássico; ele está lamentando o fim da experiência coletiva do sonho. Quando a sala de projeção é demolida para dar lugar a um estacionamento, o filme nos alerta que o progresso, muitas vezes, é cego para o que realmente sustenta a alma de uma civilização: os rituais de partilha. 

Portanto, o legado desta obra é um convite à curadoria da própria vida. Assim como Alfredo guardou os beijos, cada um de nós é um projecionista da sua trajetória. Temos o dever de filtrar o que merece ser mantido no rolo de filme da nossa existência e o que deve ser cortado para que o sentido prevaleça. Salvatore, ao tocar a imagem projetada, toca a pele da vida que ele viveu. Ele entende que a sua partida de casa não foi um abandono, mas a condição necessária para que ele pudesse se tornar o homem que Alfredo, silenciosamente, ajudou a esculpir. 

Terminamos este ensaio, portanto, não com um ponto final, mas com uma reticência. O cinema continua a rodar, mesmo quando as luzes da sala se apagam. Enquanto houver alguém capaz de se emocionar com a luz projetada no anteparo, o Cinema Paradiso continuará aberto, as cadeiras continuarão ocupadas pelos fantasmas de nossa infância e Alfredo, com sua luva de projecionista, continuará ali, cuidando de cada frame, garantindo que o amor que sentíamos, pelo mundo, pelos livros, pelas pessoas e pela arte, nunca se perca na escuridão da modernidade. Afinal, como bem nos ensina o filme, a beleza da vida não está na perfeição do corte, mas na continuidade do sonho que nos mantém vivos. 

NOTA DO EDITOR 

Vivemos, hoje, o paradoxo da abundância. Nunca tivemos tantas telas à disposição e nunca consumimos tanta imagem por minuto; contudo, o "Cinema Paradiso" parece estar, cada vez mais, em ruínas. Em um cenário marcado por algoritmos que fragmentam o olhar e pelo consumo individualizado que isola o espectador, retornar ao clássico de Giuseppe Tornatore não é apenas um exercício de nostalgia, é um ato de resistência.

Em 2026, quando a tecnologia avança para simular a realidade com precisão assustadora, a obra de Tornatore nos devolve o que a modernidade insiste em apagar: o sentido da coletividade e o peso sagrado do afeto. A trajetória de Totó, mediada pelo olhar atento de Alfredo, é um lembrete de que o cinema, mais do que entretenimento, foi o pátio onde aprendemos a sonhar em conjunto. 

Ao revisitar este ensaio, convidamos nossos leitores a não apenas "assistir" ao filme, mas a reencontrá-lo como quem revisita uma velha casa da infância,  aquela onde, apesar das transformações do mundo lá fora, a luz do projetor continua a revelar, no escuro, quem realmente somos. Que este texto sirva como um convite para guardarmos, também nós, os nossos próprios rolos de filme: as memórias, os amores e as lições que, editadas pelo tempo, compõem a verdadeira obra-prima de nossas vidas.

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural 


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

ALDER, Roberto. Giuseppe Tornatore: O Cinema da Memória e da Nostalgia. Edições Cinematográficas, 2015. (Obra de referência para entender a poética do diretor). 

TORNATORE, Giuseppe. Nuovo Cinema Paradiso: O Roteiro. Edição Comemorativa. Milão: Bompiani, 2008. 

BAZIN, André. O que é o Cinema?. Tradução de Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Cosac Naify, 2014. (Fundamental para discutir a ontologia da imagem cinematográfica e o realismo).

METZ, Christian. A Significação no Cinema. Lisboa: Edições 70, 2002. (Essencial para compreender como a montagem e a estrutura narrativa constroem sentido). 

MULVEY, Laura. Visual and Other Pleasures. Bloomington: Indiana University Press, 1989. (Importante para contextualizar o "olhar" e a relação entre o espectador e a tela, algo central na cena dos beijos censurados). 

BONDANELLA, Peter. Italian Cinema: From Neorealism to the Present. New York: Continuum, 2001. (O livro definitivo para situar Cinema Paradiso dentro da tradição do cinema da Itália).

SORLIN, Pierre. Italian National Cinema 1896-1996. London: Routledge, 1996. (Ajuda a entender como o cinema italiano moldou a identidade cultural de sua época). 

MICELI, Sergio. Morricone, Music and Cinema. Oxford: Oxford University Press, 2020. (Excelente análise sobre como a música de Morricone atua como elemento narrativo e não apenas ornamental).








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42 - JOÃO GUIMARÃES ROSA: TRAVESSIAS DO DESTINO ENSAIO LITERÁRIO-BIOGRÁFICO DE © ALBERTO ARAÚJO

João Guimarães Rosa nasceu em 1908, em Cordisburgo, Minas Gerais. Desde cedo, sua vida se desenhou como uma travessia entre mundos: o da ciência médica, o da diplomacia e, sobretudo, o da literatura. Mas havia um fio subterrâneo que costurava sua trajetória, a constante proximidade da morte, como se o destino o testasse repetidas vezes antes de permitir que sua obra florescesse. 

Na madrugada fria de Hamburgo, Rosa desperta com um desejo banal: fumar. Veste o sobretudo sobre o pijama e sai em busca de cigarros. Enquanto caminha, as sirenes anunciam o ataque aéreo. Ele se abriga, espera, sobrevive. Ao retornar pela manhã, encontra o prédio onde morava reduzido a escombros. A vida, que poderia ter terminado ali, se prolonga por causa de um gesto trivial. Mais tarde, ironizaria: “Dizem que o cigarro mata. Mas aquele salvou minha vida.” Esse episódio tornou-se metáfora de sua obra: o encontro entre o gesto mínimo e o destino maior, entre o acaso e a revelação. 

Pouco tempo depois, outro ataque atinge o consulado brasileiro em Hamburgo. O edifício, comprometido, é interditado. Rosa, porém, decide entrar. Recupera documentos confidenciais guardados no cofre e sai. Minutos depois, o prédio desaba. 

Segundo relato de sua filha Vilma em Relembramentos, Rosa interpretava o episódio como sinal divino: “Deus me salvou duas vezes, porque tinha uma missão para mim.” A sobrevivência, para ele, não era acaso: era propósito. 

De volta ao Brasil, já consagrado como escritor, Rosa enfrenta em 1958 um novo confronto com a morte: um infarto aos 50 anos. O corpo, que tantas vezes escapara de bombas e desabamentos, agora se rendia ao próprio tempo. A recuperação foi lenta, mas o episódio reforçou sua consciência de finitude. A partir daí, sua produção literária ganhou ainda mais intensidade, como se cada página fosse escrita contra o relógio. 

Grande Sertão: Veredas, publicado em 1956, é mais do que um romance: é uma meditação sobre o bem e o mal, sobre o acaso e o destino. Rosa escrevia como quem sabia que viver é frágil, que sobreviver é sempre milagre. O sertão de Riobaldo é também o sertão de Rosa: território onde se decide se há pacto ou não, se há salvação ou perdição. 

Sua experiência pessoal, escapar da morte por minutos de diferença, por um cigarro, por uma resistência física improvável, alimenta a densidade metafísica de sua obra. 

O último capítulo dessa trajetória é talvez o mais simbólico. Rosa havia sido eleito para a Academia Brasileira de Letras, mas adiou por anos sua posse. Como se soubesse que aquele ato seria definitivo. 

Em 16 de novembro de 1967, finalmente toma posse da Cadeira número 2. Dois dias depois, em 19 de novembro, morre de um novo infarto. O gesto de entrar na ABL parece ter sido sua última missão, o último rito antes da partida. A demora em assumir, seguida pela morte imediata, reforçou a aura de pressentimento que sempre o acompanhou. Rosa parecia saber que sua vida estava escrita em páginas que se fechariam logo após aquele discurso. 

João Guimarães Rosa viveu como quem atravessa um sertão invisível, onde cada curva escondia a morte e cada sobrevivência era uma revelação. Seus encontros com o acaso, o cigarro que o salvou, o consulado que desabou minutos depois de sua saída, o coração que falhou e se recompôs, não foram apenas episódios biográficos: foram capítulos de uma travessia existencial que se refletiria em sua obra. 

Riobaldo é o espelho dessa travessia. O jagunço que interroga o destino, que teme ter feito um pacto, que busca compreender se há sentido na sobrevivência, é também Rosa perguntando à própria vida por que escapou tantas vezes. Ambos caminham lado a lado com a morte, ambos sabem que viver é sempre provisório.

Mas é em Diadorim que se revela o mistério maior. Diadorim é o segredo guardado até o fim, a verdade que só se abre no instante da morte. Rosa, como Riobaldo, carregava dentro de si esse enigma: a certeza de que o humano é feito de revelações tardias, de verdades que só se mostram quando já não há retorno. Assim como Riobaldo descobre no último momento quem era Diadorim, Rosa parece ter descoberto no instante de sua morte o sentido de sua própria travessia: sobreviver não era apenas escapar, era escrever. 

Ao tomar posse na Academia Brasileira de Letras e morrer dois dias depois, Rosa cumpriu seu último rito. Foi como se a vida tivesse esperado que ele atravessasse aquela soleira para então revelar o segredo final. A Cadeira número 2 tornou-se o marco de sua despedida, o lugar onde o escritor se confundiu com seu personagem, onde Rosa se tornou Riobaldo, e Riobaldo se tornou Rosa. 

Diadorim, Riobaldo, Rosa, três nomes para uma mesma travessia. O autor, o personagem e o enigma se fundem em uma só narrativa: a de um homem que caminhou com a morte, que sobreviveu o bastante para escrever, e que morreu no instante certo para que sua literatura se tornasse eterna. 

No sertão infinito de suas palavras, cada leitor continua a percorrer veredas em busca de sentido. E talvez seja essa a revelação última: Rosa não sobreviveu para si, mas para nós. Sua missão era transformar a morte em literatura, o acaso em destino, o mistério em palavra. E assim permanece, eterno como o sertão que inventou. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

ROSA, Vilma Guimarães. Relembramentos: João Guimarães Rosa, meu pai. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. — Fonte íntima e essencial. Relata episódios de sobrevivência na Alemanha, o infarto de 1958 e a visão espiritual de Rosa sobre sua missão. É a obra que humaniza o escritor e revela sua relação pessoal com o destino.         

RÓNAI, Paulo. Rosa: um mestre da linguagem. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973. — Estudo crítico sobre a linguagem rosiana. Rónai, tradutor e amigo próximo, analisa como a experiência existencial de Rosa se traduz em sua obra, especialmente em Grande Sertão: Veredas. Fundamental para compreender a densidade estética e filosófica de sua escrita.         

MARTINS, Wilson. História da Inteligência Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1977. — Obra de referência que situa Rosa no contexto da literatura brasileira do século XX. Martins destaca sua importância como renovador da linguagem e figura central da tradição literária nacional.         

BIZZARRI, Eduardo F. João Guimarães Rosa: Correspondência com seu tradutor italiano. São Paulo: T.A. Queiroz, 1981. — Reúne cartas trocadas entre Rosa e seu tradutor italiano. Revela aspectos da vida diplomática e literária, além de reflexões sobre espiritualidade e missão.         

CALLADO, Antonio. Esqueleto na Lagoa Verde. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1959. — Obra contemporânea que ajuda a compreender o ambiente intelectual da época. Callado oferece um contraponto útil para situar Rosa no panorama cultural brasileiro.        

PACHECO, Fernanda Monique Lopes. Por uma poética do havido: um estudo sobre os Cadernos de João Guimarães Rosa. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2025. — Tese que analisa os cadernos de estudos de Rosa, mostrando sua prática escritural como experiência filosófica e estética. Reforça a imagem de Rosa como arquivista de si mesmo.

TEIXEIRA, Gabriel Silva de Araujo. Os estudos geográficos de João Guimarães Rosa: discursos sobre o sertão. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2024. — Dissertação que examina o sertão rosiano sob a ótica da geografia. Analisa como Rosa constrói discursos sobre espaço, território e ideologia geográfica em sua obra.        

HANSEN, Marise. Palíndromo, palavra em movimento: viagem, tempo e história em Guimarães Rosa. Teresa: Revista de Literatura Brasileira, USP, v. 27, 2026. — Artigo que interpreta a tópica da viagem em Rosa, relacionando deslocamentos externos e internos à ideia de tempo circular. Analisa estruturas palindrômicas como metáforas de travessia e história.

©  Alberto Araújo

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