Niterói respira literatura. Niterói é, em sua tessitura mais íntima e irredutível, um vasto e sagrado santuário de palavras. E no coração pulsante desse santuário, ergue-se com altivez secular a Academia Fluminense de Letras (AFL). Celebrar 109 anos de existência, marco solene festejado em sua sede oficial no dia 18 de julho de 2026, suplanta largamente a fleuma de uma contagem cronológica. Trata-se de um ato supremo de resistência espiritual e civilizatória. É a afirmação categórica e intransigente de que, em eras onde o utilitarismo cego, a pressa tecnológica e a superficialidade tentam atrofiar o pensamento crítico, existem baluartes seculares capazes de manter acesa, com furor e beleza, a tocha milenar do humanismo. Sob a liderança inspiradora, arguta e profundamente dinâmica da presidente Márcia Pessanha, a AFL reafirma a cada aurora que o passado histórico não é um museu estático de cinzas, mas um braseiro vivo, crepitante, destinado a aquecer as urgências do presente e a iluminar, com lucidez, os horizontes do porvir.
Voltemos os olhos para os recantos do tempo, despindo-nos da nostalgia estéril para vestir a armadura da reverência devida aos demiurgos que ousaram sonhar em 22 de julho de 1917. Em meio às convulsões de um mundo em transição dolorosa, aqueles pioneiros visionários já compreendiam uma verdade fundante: nenhuma nação, nenhum estado e nenhuma cidade se sustentam unicamente sobre o pragmatismo da economia ou a rigidez das leis materiais. Os povos fenecem sem o lirismo que os salve da desinformação; eles necessitam desesperadamente de um eixo ético e estético. Precisam da poesia como quem necessita do pão e do oxigênio para conter o caos inerente à condição humana.
Ao longo de sua imponente trajetória centenária, a Academia Fluminense de Letras testemunhou o suceder de 18 presidências. Cada gestor, cada espírito iluminado que ocupou suas cadeiras imortais, depositou um tijolo invisível e precioso nessa catedral do pensamento livre. É profundamente simbólico, e carrega consigo uma justiça poética de rara beleza, que esta instituição secular seja conduzida hoje pelas mãos firmes, acolhedoras e visionárias de uma mulher: Márcia Pessanha, apenas a segunda a ocupar a presidência em toda a cronologia da casa, sucedendo com honra a memória indelével de Albertina Fortuna Barros. Sob a batuta de Márcia, o cargo presidencial transborda o rigor burocrático para se converter em um exercício sublime de curadoria de destinos. Ela entende, com admirável clareza intelectual, que a tradição e a inovação não são forças em colisão, mas sim os dois remos harmônicos que permitem ao barco da cultura sulcar os mares revoltos da modernidade com estabilidade, coragem e audácia.
A consagração oficial recente veio coroar de forma definitiva essa caminhada de luz: a AFL foi erigida ao honroso título de Patrimônio Imaterial Cultural de Niterói. Esta conquista, lapidada pela sensibilidade política e cultural de personalidades como Leonardo Giordano e amparada pelo respaldo indispensável da Câmara Municipal, traduz em linguagem jurídica o que os intelectuais, jornalistas e poetas já sabiam de cor e salteado. A Academia é essencialmente imaterial porque a sua matéria-prima é o pensamento puro, a sonoridade da oratória, o ritmo milenar do verso e o peso transformador do ensaio. Ela é, sem favor algum, a coluna vertebral e o batimento cardíaco da nossa identidade niteroiense e fluminense.
Naquela manhã memorável de 18 de julho de 2026, a sede oficial da AFL converteu-se no epicentro magnético desse cruzamento plural de saberes. Desde a abertura impecável conduzida pela cerimonialista Patrícia Telles, que reuniu na Mesa Presidencial nomes de proeminência incontestável como Márcia Pessanha, Matilde Carone Slaibi Conti (Cenáculo Fluminense de História e Letras), Luiz Henrique Pinheiro (Academia de Medicina do Estado do Rio de Janeiro), o brilhante palestrante Marcelo Rollemberg, Erthal Rocha (representando com galhardia a Diretoria da AFL) e Idalina Andrade Gonçalves (Real Gabinete Português de Leitura), tornou-se evidente que a cultura verdadeira jamais germina no isolamento estéril, mas sim na comunhão fraterna e altiva de inteligências associadas.
Como não se deixar arrebatar pelo desdobrar dessa tapeçaria de fina estilha literária? A programação desdobrou-se em patamares de sublime elevação estética. A poesia, essa força telúrica e indomável que nos resgata salvificamente da banalidade cotidiana, encontrou na voz da acadêmica Lucia Romeu a sua tradução mais cristalina. Conhecida por uma elocução que parece esculpir fisicamente o ar, Lucia declamou sua ode aos 109 anos da AFL com uma maestria que suspendeu literalmente o relógio do mundo. Cada verso ecoou nos silêncios da plateia como um lembrete categórico de que a palavra poética é a forma mais alta de verdade de que dispomos.
Na
sequência, a erudição mais refinada encontrou guarida na sensibilidade
analítica de Marcelo Rollemberg, que mergulhou com profundidade cirúrgica e o
peito aberto de um poeta no vasto universo de Antônio Cândido, dissecando com maestria
a sua “trajetória ao redor da palavra”. Rollemberg nos devolveu a certeza de
que a grande literatura não constitui mero passatempo burguês, mas sim um
direito humano inalienável à nossa plena humanização.
E o que dizer daquele momento de rigor e altíssima justiça histórica protagonizado pelo jornalista Erthal Rocha? Munido daquela oratória magnética e magnânima que arrebata e comove os auditórios, Erthal prestou uma homenagem de indizível beleza ao Presidente de Honra da AFL, Dr. Waldenir de Bragança, personalidade insubstituível na preservação irrevogável da dignidade e da integridade daquela casa.
A celebração expandiu suas fronteiras estaduais através do vibrante momento FALERJ, coroado pela apresentação da Coletânea “Poetas Fluminenses” conduzida pelo acadêmico José Huguenin, presidente da Comissão Editorial. Ali, as vozes consagradas das academias de Petrópolis, Volta Redonda, Piraí, Macaé, Maricá, Mangaratiba e Niterói fundiram-se em um coro federativo e imponente da lírica fluminense. A música delicada do grupo Tom Brasileiro e a sofisticação acolhedora do coquetel assinado pela chef Valéria Gervásio pontuado por um bolo artisticamente personalizado, selaram com perfeição a aliança inquebrantável entre o banquete refinado do espírito e a alegria calorosa do convívio humano.
Para bem tocar os corações, com brilho a presidente Márcia Pessanha evocou a sabedoria cristalina de Sophia de Mello Breyner em seu pronunciamento, abraçando em espírito os amigos presentes e ausentes: “porque não há nada que possa separar aqueles que estão unidos por uma fé e por uma esperança.”
Esta, decerto, é a argamassa invisível e indestrutível que sustenta a Academia Fluminense de Letras altiva após 109 primaveras: a fé inabalável no poder redentor da literatura escrita e falada; e a esperança irredutível na perenidade de nossa herança civilizatória.
Do alto de nosso observatório no Focus Portal Cultural, acompanhando os desígnios da cultura com lentes atentas, rigor crítico e o coração devoto, eternizado com vídeo publicado no Youtube e o primor pelas lentes sensíveis de Alberto Araújo; Christiane Victer; Nina Fernandes e Aldo Pessanha, cujos registros visuais convertem instantes em relíquias, nós reverenciamos este marco histórico de alma lavada.
Que a Academia Fluminense de Letras prossiga sendo o baluarte inextinguível que orienta Niterói através das tormentas dos tempos. Longa vida à centenária AFL! Que suas portas se mantenham sempre escancaradas para o futuro, abraçando firmemente as nossas mais profundas raízes e infundindo asas definitivas aos nossos mais altos horizontes.
© Alberto
Araújo
Focus
Portal Cultural
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