“BioOCAnomia Amazônica” será inaugurada
no feriadão de Corpus Christi. Mostra aborda biodiversidade e saberes
ancestrais por meio de experiências interativas e jogos educativos.
Rio de Janeiro, maio de 2026. O Museu do
Jardim Botânico recebe a partir de 4 de junho a exposição “BioOCAnomia
Amazônica”, concebida pelo SESI Lab e inédita no Rio de Janeiro. A mostra, que
será inaugurada durante o feriadão estadual de Corpus Christi, convida o
público a mergulhar em uma experiência imersiva sobre bioeconomia, biodiversidade,
inovação e conservação ambiental. A entrada é gratuita.
A exposição evidencia a potência da
bioeconomia como estratégia para o desenvolvimento sustentável das diferentes
Amazônias, articulando conservação da biodiversidade, mitigação das mudanças
climáticas, a partir de cinco áreas temáticas: “A floresta e o mundo”; “Saberes
amazônicos”; “Bioeconomia”; “Indústria e inovação”; “Direitos da floresta”.
Toda a cenografia da exposição foi
desenvolvida com materiais sustentáveis, como chapas plásticas recicladas e
subprodutos da agroindústria, ciência, tecnologia e valorização de saberes
intergeracionais. A iniciativa integra um esforço do Sistema Indústria e
parceiros para apresentar ao público soluções baseadas na conservação da
natureza, apoiadas pela inovação e por práticas produtivas sustentáveis.
Logo na entrada, o visitante é convidado
a refletir sobre a Amazônia como um bioma em disputa, fundamental para o
equilíbrio climático global e profundamente impactado por desafios como
desmatamento, queimadas, mineração, expansão das desigualdades e mudanças
climáticas. A partir daí, o percurso expositivo se desdobra em diferentes
ambientes imersivos que articulam ciência, biodiversidade, cultura e inovação.
“O Museu do Jardim Botânico tem como uma
de suas vocações promover reflexões sobre biodiversidade, conservação e futuro.
Receber a ‘BioOCAnomia Amazônica’ reforça esse compromisso ao aproximar o
público de debates urgentes sobre desenvolvimento sustentável e valorização dos
saberes tradicionais, por meio de uma experiência sensorial, educativa e
acessível”, afirma Grazielle Giacomo, gerente técnica do Museu do Jardim
Botânico.
Para a superintendente de cultura do
SESI, Cláudia Ramalho, a chegada da exposição ao Rio de Janeiro representa um marco
importante na expansão das iniciativas do SESI Lab. “Levar uma exposição que
fala sobre bioeconomia para outras regiões amplia o alcance de discussões
fundamentais sobre o desenvolvimento sustentável, ciência, inovação e
preservação ambiental”, explica.
O desenvolvimento da exposição contou
com um comitê curatorial formado por consultores especializados, cientistas de
universidades do Amazonas e do Pará, além da participação do Instituto
Amazônia+21, dos Institutos SENAI de Inovação e da Gerência Executiva de Meio
Ambiente e Sustentabilidade da Confederação Nacional da Indústria (CNI). A
itinerância da mostra também contou com recursos da Lei Federal de Incentivo à
Cultura.
A realização da mostra no Rio de Janeiro
integra o projeto SESI Lab Itinerante, criado para ampliar o acesso às
exposições e ações educativas do museu para diferentes regiões do país. A
proposta parte da ideia de aproximar o museu de novos públicos e promover
trocas de conhecimento por meio de experiências culturais e educativas.
CERRADO TAMBÉM É CELEBRADO NO MUSEU DO
JARDIM BOTÂNICO
Além de “BioOCAnomia Amazônica”, o
público poderá visitar, no mesmo circuito do Museu do Jardim Botânico, a
recém-inaugurada “Ser(Tão): Imersão no Cerrado”, idealizada pela artista visual
Flavia Daudt e pela fotógrafa documental e curadora de arte ecológica Ana Paula
Freitas Valle. A mostra propõe uma imersão poética no Cerrado brasileiro por
meio de fotocolagens, instalações e experiências sensoriais que refletem sobre
a biodiversidade e os desafios enfrentados pelo bioma.
Entre os destaques da exposição está um
grande ninho imersivo inspirado no joão-de-pau (Phacellodomus rufifrons), ave
do Cerrado, criado pelo artista Ricardo Siri com galhos provenientes de poda
sustentável do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. A instalação convida o
visitante a entrar e contemplar a obra, ampliando a experiência sensorial da
mostra.
SERVIÇO
BioOCAnomia Amazônica
Museu do Jardim Botânico
Rua Jardim Botânico, 1008 – Jardim
Botânico – Rio de Janeiro
Visitação: 4 de junho a 3 de novembro de
2026
Funcionamento: de quinta a terça-feira
(fechado às quartas-feiras), das 10h às 18h, com última entrada às 17h.
* Há bicicletários e estacionamento
exclusivo para pessoas com severas deficiências de locomoção (veículos
adesivados); é permitida a entrada de carros para embarque e desembarque de
pessoas com dificuldades de locomoção.
SOBRE O MUSEU DO JARDIM BOTÂNICO
O Museu do Jardim Botânico conta com
patrocínio master da Shell Brasil, por meio da Lei Federal de Incentivo à
Cultura. A gestão é do idg. Inaugurado em março de 2024, o Museu apresenta ao
público, por meio de exposições, conteúdos interativos e programação cultural,
o trabalho pioneiro do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro
na pesquisa e conservação da flora brasileira.
SOBRE O SESI LAB
O SESI Lab é um museu interativo que
conecta arte, ciência e tecnologia, aberto a todos os públicos em Brasília. O
espaço reúne exposições permanentes e temporárias, festivais, oficinas,
workshops, cinema, residências artísticas e atividades ligadas à cultura maker,
sempre com foco em experiências educativas, criativas e inovadoras.
Instalado em um edifício projetado por
Oscar Niemeyer, no coração da capital federal, o SESI Lab atua como um hub de
difusão democrática do conhecimento, aproximando ciência, cultura e tecnologia
de públicos de diferentes regiões do país.
SOBRE O IDG
Há 25 anos, o idg atua na gestão e
desenvolvimento de projetos culturais, ambientais e educacionais. Une
conhecimento, inovação, criatividade e ousadia para dar vida a ideias e contar
histórias que provocam reflexões e criam experiências. Guiado pelo propósito de
esperançar futuros possíveis, implementou e gere o Museu do Amanhã e o Museu do
Jardim Botânico, no Rio de Janeiro; o Museu das Favelas e o programa CultSP
PRO, em São Paulo; o Paço do Frevo, no Recife; e o Museu das Amazônias, em
Belém. Também é gestor operacional do Fundo da Mata Atlântica, no Rio de
Janeiro.
A ciência não conhece fronteiras, mas
há lugares onde ela parece pulsar com uma intensidade única. Nestes primeiros
dias de junho de 2026, a histórica e vibrante cidade de Kyoto, no Japão,
tornou-se o epicentro mundial do saber médico. É neste cenário de convergência
tecnológica e milenar tradição que encontramos a Dra. Odilza Vital, em um
momento de profunda relevância profissional e científica, participando do
International Congress of Endocrinology (ICE 2026), realizado em conjunto com o
Annual Congress of The Japan Endocrine Society (JES 2026).
O lema "Enlightened Endocrinology
in Unprecedented Times" (Endocrinologia Iluminada em Tempos Sem
Precedentes) não é apenas uma frase de efeito; ele reflete a urgência e o
otimismo de uma especialidade que enfrenta desafios complexos, desde o aumento
global de doenças metabólicas e obesidade até as descobertas revolucionárias
sobre a sinalização hormonal e o papel da endocrinologia no envelhecimento
populacional.
A realização conjunta do ICE e do
congresso da Japan Endocrine Society (JES) é um marco estratégico. A JES, uma
das sociedades mais respeitadas e antigas do mundo, celebra em 2026 o seu
centenário, carregando um legado de descobertas fundamentais sobre a função
fisiológica de inúmeros hormônios. A união com o ICE, o fórum máximo da
International Society of Endocrinology (ISE), cria um ambiente de intercâmbio
sem precedentes, onde mentes brilhantes de todos os continentes se reúnem para
traduzir pesquisas de ponta em melhores práticas clínicas para o dia a dia nos
consultórios.
A presença da Dra. Odilza Vital neste
congresso é a materialização do compromisso com a excelência. Em um mundo onde
a informação científica se renova com uma velocidade vertiginosa, o médico
endocrinologista não pode se limitar ao que já é conhecido. É necessário
"estar onde as coisas acontecem".
Participar de um evento como este, em
Kyoto, a alma cultural do Japão, oferece mais do que apenas acesso a novas
diretrizes. Proporciona o contato direto com pesquisadores que estão definindo
o futuro da endocrinologia, o debate sobre a ética na medicina, a aplicação de
novas tecnologias diagnósticas e a compreensão de como diferentes estilos de
vida e contextos genéticos influenciam a saúde metabólica. É uma imersão
profunda que transforma a visão sobre o cuidado com o paciente, trazendo uma
abordagem mais humanizada, precisa e "iluminada" pelos novos tempos.
Por que a Endocrinologia Importa
Agora? A Endocrinologia deixou de ser apenas a especialidade das glândulas para
tornar-se o pilar central da medicina de precisão. O que se discute nestes dias
em Kyoto tem impacto direto na qualidade de vida de milhões de pessoas. O
controle do diabetes, a gestão complexa das desordens tireoidianas, as
novidades no manejo da obesidade e o tratamento de doenças raras são temas que
dependem da colaboração global aqui estabelecida.
Para a Dra. Odilza Vital, este
intercâmbio em Kyoto não é apenas uma jornada geográfica. É uma missão de
atualização e fortalecimento. Representar a prática clínica de excelência em um
fórum internacional desta magnitude reforça o papel fundamental da classe
médica brasileira na rede global de saúde. O retorno dessa experiência se traduz,
na prática, em segurança, inovação e esperança para cada paciente que ela
atende.
Ao observar o card deste congresso e a
determinação da Dra. Odilza, somos lembrados de que a medicina é uma ciência em
constante movimento. A endocrinologia do futuro será construída sobre a base do
que está sendo discutido agora, entre os corredores do Centro Internacional de
Congressos de Kyoto.
Este momento é um convite à reflexão:
a "Endocrinologia Iluminada" mencionada pelo congresso é aquela que
alia o rigor da evidência científica à empatia do atendimento médico. A Dra.
Odilza Vital, ao se colocar no centro deste debate global, reafirma sua
dedicação em levar para os seus pacientes o que existe de mais moderno, ético e
eficiente no mundo.
Kyoto pode estar longe em quilômetros,
mas a ciência que de lá emana chega perto, transforma vidas e ilumina o futuro
da medicina.
Crédito da foto: Compartilhada por Dra.
Odilza Vital
Cantora apresenta o projeto Goldmine
ao lado de um dos nomes originais do movimento em dois shows na unidade.
O SESC 24 DE MAIO recebe a cantora
Vanessa Falabella em shows nos dias 6 e 7 de junho. No palco, ela apresenta
Goldmine, projeto que revisita o movimento Clube da Esquina e conta com a
participação de Toninho Horta, músico que integrou as gravações do álbum Clube
da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges.
Vanessa Falabella é atriz, dubladora,
locutora e cantora, nascida em Belo Horizonte. Radicada nos Estados Unidos,
propõe uma nova abordagem ao repertório do Clube da Esquina, movimento surgido
na década de 1960, no bairro de Santa Tereza (BH), que revolucionou a MPB ao
mesclar ritmos folclóricos regionais com influências do rock e do jazz.
Em seus shows, interpreta canções de
compositores mineiros como Fernando Brant, Márcio Borges e o próprio Toninho
Horta, que a acompanha no palco. O guitarrista e compositor, vencedor do Grammy
Latino e com cerca de 30 discos solo gravados, celebra a herança musical do
Clube da Esquina e reafirma sua relevância para novas gerações de ouvintes.
Serviço
Vanessa Falabella part. Toninho Horta
IG Vanessa | IG Toninho
Datas: 06/06 (sábado) às 20h e 07/06
(domingo) às 18h
Local: Sesc 24 de Maio, Rua 24 de
Maio, 109, São Paulo – 350 metros da estação República do metrô
Classificação: 12 anos
Ingressos: disponíveis no site
sescsp.org.br/24demaioou através do
aplicativo Credencial Sesc SP e nas bilheterias das unidades Sesc SP - R$50
(inteira), R$25 (meia) e R$15 (Credencial Sesc).
Duração do show: 90 minutos
Serviço de Van: Transporte gratuito
até as estações de metrô República e Anhangabaú. Saídas da portaria a cada 30
minutos, de terça a sábado, das 20h às 23h, e aos domingos e feriados, das 18h
às 21h.
Por
intermédio da postagem do professor Marco Antônio Martins Pereira em sua página
no Facebook, somos convidados a uma reflexão necessária sobre um pilar da nossa
cultura: Joaquim Maria Machado de Assis. Em suas palavras, o professor
estabelece uma distinção cirúrgica e fundamental: "Machado de Assis não é
um escritor contemporâneo, mas é um escritor atual".
Essa
provocação inicial serve como um portal para compreendermos que a obra do
"Bruxo do Cosme Velho" não se submete às veleidades das modas
literárias ou às efemeridades dos calendários. Enquanto o contemporâneo, por
vezes, busca o frescor da novidade imediata, o atual, na acepção machadiana, é
aquilo que, mesmo vindo do século XIX, permanece pulsante, inquietante e
revelador sobre a condição humana em qualquer tempo.
O
professor Marco Antônio aponta, com precisão, que o lugar de Machado na
literatura brasileira norteia o que ele chama de "a convergência na
divergência". Machado é o ponto onde todas as tensões da literatura
brasileira se encontram e, simultaneamente, se dispersam.
Verdade,
O professor Marco Antônio quer dizer que Machado não tentou resolver as
contradições do Brasil. Ele não finge que o país é coeso ou simples. Ele coloca
essas contradições na mesa, de forma brilhante, fazendo com que a obra dele seja
um espelho fiel de um país, e de um ser humano, que nunca é uma coisa só. Ele
é, ao mesmo tempo, o ápice do realismo e o prenúncio de uma modernidade que só
viria a ser plenamente compreendida décadas após sua morte.
Em
sua escrita, o clássico e o inovador convergem. Sua prosa, lapidada com a
precisão de um ourives, permite a divergência de interpretações: o leitor que
busca o entretenimento encontrará o sarcasmo fino; o crítico que busca a
análise sociológica encontrará a denúncia das entranhas do Segundo Reinado; o
filósofo que busca o sentido da existência encontrará o vazio niilista de um
Brás Cubas.
Ao
citar o "anacronismo do crítico", o professor nos lembra de um perigo
constante: tentar reduzir Machado às pautas urgentes do presente sem observar a
arquitetura complexa de seu tempo. Contudo, ele é assertivo ao destacar a
significação do primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras.
A
"significação" de Machado não vem de uma leitura superficial que
tenta torná-lo um contemporâneo nosso, como se ele fosse um autor do século XXI
escrevendo sobre as nossas redes sociais. A grandeza dele está justamente em
ter sido tão profundamente fiel ao seu próprio tempo que, ao dissecar aquele
mundo, ele acabou descobrindo as leis universais que regem a alma humana em
qualquer era.
O
professor, portanto, nos dá uma aula de humildade intelectual: certamente nos
convida a ler Machado com o respeito que se deve a um gigante, sem tentar
adaptá-lo ao seu tamanho, mas permitindo que ele aumente o tamanho da sua visão
sobre a vida.
Machado
não foi apenas um observador; ele foi o arquiteto de uma identidade literária
nacional que não se curvava ao servilismo colonial, mas que dialogava, de igual
para igual, com os gigantes do cânone europeu. A relevância da sua obra reside
justamente em sua recusa em ser apenas um espelho do seu tempo.
Ao
ser o "Bruxo do Cosme Velho", Machado operou um feitiço literário
onde o particular, o Rio de Janeiro da escravidão, das casas burguesas, das
repartições públicas se tornava o universa, a vaidade, a luxúria, o cinismo, a
dúvida.
A
permanência de Machado no Brasil e no exterior, como bem pontuou o professor,
não é obra do acaso. Ela repousa sobre dois pilares, conforme destaca a
postagem: a universalidade e a multi-significação.
Machado
entendeu, antes de muitos, que o Brasil não era um exótico apêndice do mundo,
mas um laboratório da alma humana. Suas feridas eram as mesmas de Shakespeare,
de Cervantes, de Dante. Ao escrever sobre as relações de poder, ele descreveu a
natureza humana em toda a sua crueza.
A
obra machadiana é uma cebola de significados. Você retira uma camada e encontra
uma crítica social; retira outra, e encontra um estudo psicológico profundo
sobre a negação do eu; retira mais uma, e encontra uma estrutura narrativa
lúdica que desafia o leitor a ser, ele mesmo, um coautor do texto.
Dizer
que Machado de Assis é atual é reconhecer que, sempre que abrirmos Dom
Casmurro, seremos confrontados com a dúvida, a nossa própria dúvida. Sempre que
lermos Memórias Póstumas de Brás Cubas, seremos espelhados pela ironia do
"defunto autor". Sempre que percorrermos as páginas de Quincas Borba,
veremos a luta inglória entre o "vencido e o vencedor" que rege as
relações humanas até hoje.
O
professor Marco Antônio Pereira, em sua análise, não nos entrega apenas um
elogio a um autor clássico; ele nos entrega um roteiro de leitura. Machado é o
escritor que sobrevive ao tempo justamente porque nunca tentou ser "do
tempo". Ele foi do tempo da alma, e é por isso que, enquanto houver
humanos capazes de olhar para si mesmos e, em um momento de honestidade,
reconhecer o seu próprio ridículo e a sua própria glória, haverá sempre um
livro de Machado de Assis à espera.
Como
bem encerra a reflexão, Machado é, ao mesmo tempo, respeitado e contraditório.
É essa contradição que nos mantém vivos enquanto leitores, que nos impede de
fechar o livro com a certeza de quem compreendeu tudo, forçando-nos a retornar
à leitura, repetidas vezes, em busca daquele detalhe que escapou e que, talvez,
seja a chave para nos entendermos um pouco melhor.
Esta
análise baseia-se na provocação intelectual do professor Marco Antônio Pereira,
cujo olhar sobre a obra de Machado de Assis reafirma que a literatura, quando é
arte, não envelhece: ela simplesmente aguarda o leitor certo, na hora certa, para
revelar o que sempre esteve lá.
MACHADO
DE ASSIS
Escritor,
jornalista, tipógrafo, abolicionista, funcionário público, fundador da Academia
Brasileira de Letras.
Filho
do pintor e decorador Francisco José de Assis e da açoriana Maria Leopoldina
Machado da Câmara, ambos negros livres, Joaquim Maria Machado de Assis nasceu
na cidade do Rio de Janeiro (RJ), no dia 21 de junho de 1839, em uma chácara no
Morro do Livramento. Seus padrinhos foram Joaquim Alberto de Sousa da Silveira e
dona Maria José de Mendonça Barroso, os proprietários do imóvel. Seus pais eram
agregados na chácara e moravam nos limites do terreno. Machado de Assis passou
toda sua infância na região do Livramento e teria sido alfabetizado nesse
período por sua própria mãe.
Maria
Leopoldina, no entanto, faleceu em 1849, quando Machado tinha apenas 10 anos,
provavelmente vítima da tuberculose. Seu pai, então, casou-se novamente com
Maria Inês da Silva e mudou-se com Machado para um sobrado localizado na rua
São Luiz Gonzaga, no bairro de São Cristóvão (RJ). Entre 1854 e 1855, quando
tinha 15 anos, Machado se mudou para o Centro da cidade e já assegurava seu
próprio sustento. Nesses anos o jovem publicou seus primeiros textos: o soneto
“À Ilma. Sra. D.P.J.A.” no Periódico dos Pobres, os poemas “A palmeira” e
“Ela”, no periódico Marmota Fluminense e o conto “Três tesouros perdidos”.
Em
1856, se tornou tipógrafo na Imprensa Nacional e lá conheceu Manuel Antônio de
Almeida, escritor que se tornaria seu protetor e amigo. Por intermédio de
Almeida, Machado passou a atuar como revisor e colaborador do periódico Correio
Mercantil. Nesse período, ele também teria aprofundado uma relação de amizade
com o padre-mestre Silveira Sarmento. Para alguns biógrafos, Silveira Sarmento
teria sido uma espécie de tutor de Machado, dando ao jovem lições de português
e francês. Em 1859, o jovem escritor publica os textos “O jornal e o livro”,
“Aquarelas” e “A reforma pelo jornal”.
Através
da relação com Manuel Antônio de Almeida, Machado construiu forte amizade com
Quintino Bocaiúva e Francisco Octaviano. Em março de 1860, Machado passou a
fazer parte da redação do Diário do Rio de Janeiro, que tinha Bocaiúva como
redator. Na época, o escritor também colaborava com periódicos como Correio Mercantil,
Semana Illustrada, Jornal das Famílias, O Futuro e a revista O Espelho – onde
escrevia como crítico teatral. O primeiro livro de Machado foi publicado em
1861 e consistiu na tradução de “Queda que as mulheres têm para os tolos”, do
belga Victor Hénaux. Entre este ano e 1862, Machado participou de disputas
eleitorais. E, em 1864, publicou “Crisálidas”. Em 1867 – durante a Guerra do
Paraguai, foi ajudante do diretor de publicação do Diário Oficial. E dois anos
depois, em 1869, Machado casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais –
portuguesa e irmã de seu amigo Faustino Xavier Novais.
Em
1870, Machado publicou “Falenas” e Contos fluminenses. Dois anos depois, em
1872, Machado publicou o romance Ressurreição. Em 1873, foi nomeado primeiro
oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras
Públicas. Neste mesmo ano publicou Histórias da meia-noite. Em 1874, tem o seu
romance A mão e a luva publicado em folhetins no periódico O Globo e também
atua como colaborador nos periódicos O Cruzeiro, A Estação e Revista
Brasileira. Em 1875, publicou a poesia indianista “Americanas”. E nos anos de
1876 e 1878, publicou os romances Helena e Iaiá Garcia. É neste período,
igualmente, que apresentou os primeiros sintomas da epilepsia e passou uma
temporada em Nova Friburgo por recomendação médica. Em 1880, recebeu o convite de
Pedro Luís Pereira de Sousa, ministro interino da Agricultura, Comércio e Obras
Públicas para assumir o cargo de oficial de gabinete. Já no ano seguinte,
publicou o afamado Memórias póstumas de Brás Cubas, que esteve nas páginas da
Revista Brasileira entre março e dezembro de 1880. Em 1882, produziu Papéis
avulsos e outras coletâneas de contos.
Das
trocas estabelecidas entre os membros da Revista Brasileira, nasceu a ideia da
criação da Academia Brasileira de Letras. Expressivo nome na concepção de
criação da Academia, quando de sua criação, em 1881, Machado foi eleito
presidente da instituição. Nesse período, as crônicas de Machado eram
recorrentes na Gazeta de Notícias. Em 1884, se mudou juntamente com sua família,
para a Rua Cosme Velho, no bairro das Laranjeiras. No ano seguinte, foi
promovido à Diretoria do Comércio no Ministério da Agricultura. Em 1892,
recebeu mais uma promoção, se tornando diretor-geral da Viação da Secretaria da
Indústria e Obras Públicas. Em 1899, publicou Dom Casmurro e, em 1904, Esaú e
Jacó. Nesse mesmo ano, falece sua esposa, o que agravou a situação de saúde do
escritor.
Machado
faleceu em 29 de setembro de 1908 em sua residência, na Rua Cosme Velho,
amparado pelos amigos Graça Aranha, Mario de Alencar, José Veríssimo, Raimundo
Corrêa, Coelho Neto, Rodrigo Otavio e Euclides da Cunha. É considerado um dos
maiores escritores de toda literatura portuguesa.
Festival idealizado por Gusttavo Lima
retorna dia 12 de setembro de 2026, no Estacionamento do Estádio Serra Dourada
Após um ano de pausa, o Buteco,
festival criado pelo cantor Gusttavo Lima, está de volta em 2026! Considerado
um dos mais importantes eventos de música pelo público e pela crítica, o
projeto anuncia duas edições para este ano: Goiânia (GO), no dia 12 de setembro,
no Estacionamento do Estádio Serra Dourada; e São Paulo, dia 12 de dezembro.
Aguardadas com muita expectativa pelo
público, as edições que abrem a nova temporada prometem surpresas, além de uma
estrutura diferenciada e line-ups de peso. Para o evento em Goiânia, por
exemplo, o primeiro nome já anunciado é o do cantor Leonardo.
"Para essa volta do Buteco, quero
ao meu lado grandes amigos e atrações que tenham a essência do festival. Em
Goiânia, é claro, o Leonardo não poderia ficar de fora! Vai ser uma volta
memorável, no meu Goiás! Espero todos vocês dia 12 de setembro!", convida
o Embaixador e anfitrião da festa, Gusttavo Lima, que em breve vai anunciar as
demais atrações.
Vale ressaltar que o conceito do
"Buteco" surgiu a partir do DVD "Buteco do Gusttavo Lima"
(2014), onde a intenção era produzir um álbum que reunisse grandes clássicos do
sertanejo romântico e de raiz, além de muita moda de viola. O álbum ganhou uma
segunda edição em 2017 que deu origem a uma turnê e, posteriormente, ao formato
festival, que já reuniu mais de dois milhões de pessoas por todo o país e pelos
EUA.
Os últimos ingressos para as edições
de Goiânia (GO) e São Paulo (SP) estão disponíveis no @baladapp (site e
aplicativo).
Um
ensaio sobre o Mistério: a interseção entre o Barroco colonial, a liturgia
clássica e a alma do Brasil.
A
história da música ocidental é, em grande medida, uma crônica da tentativa
humana de traduzir o inefável em vibração. Entre todos os mistérios que a
teologia cristã propôs à arte, nenhum foi tão fértil, tão persistente e tão
profundamente inspirador quanto a Eucaristia.
O
Corpus Christi, o Corpo de Cristo, não é apenas um dogma central; é uma ponte
entre o infinito e o finito, entre o altar e o cotidiano. A solenidade que
celebra este sacramento, transbordando o interior das catedrais para as ruas em
procissões solenes, encontrou na música o seu veículo de expressão mais
autêntico. A música para o Corpus Christi não serve meramente como
acompanhamento litúrgico; ela é a própria materialização sonora do Mistério,
uma oferenda onde o som torna-se o próprio Pão.
Não
se pode compreender a música eucarística sem retornar ao século XIII, à
presença intelectual e espiritual de São Tomás de Aquino. Por ordem do Papa
Urbano IV, Aquino compôs o ofício para a recém-instituída festa de Corpus
Christi. Dele brotaram pérolas como o Pange
Lingua, cujas estrofes finais, o Tantum
Ergo, tornaram-se o alicerce harmônico e melódico de séculos de devoção.
O
Tantum Ergo não é apenas uma letra; é uma fórmula de adoração que atravessou
eras, moldando o pensamento musical de compositores tão diversos quanto
Palestrina, Bruckner e Fauré. A estrutura do texto, com sua solenidade austera,
impõe uma disciplina ao compositor: é um convite à reverência. Quando a voz
humana entoa "veneremur cernui"
(adoremos prostrados), a música deixa de ser um objeto estético e transforma-se
em um ato de prosternação intelectual e espiritual.
Chegando
ao crepúsculo do século XVIII, encontramos o *1 - Ave Verum Corpus de Wolfgang Amadeus Mozart. Composto em 1791,
meses antes da morte do autor, este pequeno moteto é um paradoxo da
simplicidade. Enquanto a maioria das obras desse período buscava a
grandiloquência sinfônica, Mozart aqui retira os ornamentos desnecessários.
A
obra respira um equilíbrio clássico que mascara uma profundidade abissal. A
letra, meditativa, contempla o corpo de Cristo "nascido de Maria,
verdadeiramente ferido na cruz". Mozart não tenta descrever o sacrifício
com artifícios dramáticos; ele o envolve em uma transparência harmônica que
parece vir de outro mundo. É a obra de um homem que, diante da finitude,
reconhece a eternidade. Ouvir o Ave Verum é sentir uma luz que, embora suave, é
capaz de revelar as dores e esperanças mais profundas da alma humana.
O
século XIX trouxe a expansão da paleta emocional, o * 2 - Panis Angelicus de César Franck, encontrou seu lugar na
intimidade devocional. Extraído de outro hino de Aquino, o Sacris Solemniis, a
peça de Franck é um exercício de submissão. O diálogo entre o tenor e o órgão
não é uma exibição de técnica, mas uma oração prolongada. A melodia ascende com
uma doçura quase tangível, sugerindo que o "Pão dos Anjos" não é
apenas um símbolo, mas um sustento vital.
Já
no século XX, Olivier Messiaen, talvez o maior teólogo-compositor da era
moderna, elevou o O Sacrum Convivium
a um patamar de misticismo sem precedentes. Para Messiaen, o som tinha cor. Sua
escrita coral, densa e luminosa, tenta capturar a "garantia da glória
futura" mencionada na antífona. Diferente da sobriedade de Mozart, a
música de Messiaen é um convite ao êxtase. É a celebração do banquete não como
um memorial estático, mas como um evento presente, onde o tempo é suspenso para
que a graça possa inundar o espaço.
Talvez
a mais fascinante incursão neste tema seja a Corpus Christi Carol. Ao contrário
dos hinos latinos de teólogos, esta canção é um enigma medieval, uma
"falcon carol" que sobreviveu à passagem dos séculos. Benjamin
Britten, ao integrá-la em A Boy was Born, resgatou a atmosfera sombria, arcaica
e profundamente humana da lenda do cavaleiro ferido.
A
letra, com sua imagem do cavaleiro, da donzela chorando e da pedra que sangra,
escapa à exegese fácil. Ela é uma alegoria da Paixão, sim, mas também um grito
de angústia sobre a condição humana. É a prova de que a Eucaristia não é um
rito distante de nossa humanidade sofrida; pelo contrário, ela se encontra
exatamente onde a ferida está exposta. Britten, com sua sensibilidade ímpar
para o isolamento e o desamparo, transforma essa carola em um momento de beleza
assombrosa, onde a dor não é negada, mas transfigurada pela devoção.
A
música escrita para o Corpus Christi revela algo essencial sobre a nossa
natureza. Somos seres feitos de carne e tempo, ansiosos por tocar o eterno. Ao
celebrarmos o Corpo de Cristo, estamos, na verdade, celebrando a dignidade da
matéria: a ideia de que um pedaço de pão, um momento de silêncio, uma nota
musical, podem ser habitados pelo Sagrado.
Estes
compositores, cada um a seu modo, não criaram apenas entretenimento religioso.
Eles construíram catedrais sonoras. Quer seja na clareza absoluta de Mozart, no
ardor romântico de Franck, na luz mística de Messiaen ou na melancolia
ancestral de Britten, a música cumpre sua função mais nobre: ela nos lembra
que, embora o nosso corpo seja frágil e a nossa vida curta, temos a capacidade
de participar de algo que nos transcende. A música para o Corpus Christi é, em
última análise, a voz da humanidade que, reconhecendo seu próprio vazio,
convida o Absoluto para sentar-se à mesa. É o som do convite que nunca cessa,
ecoando através dos séculos, ressoando em cada nota, transformando o silêncio
em adoração.
O
que esses compositores nos ensinam é que a celebração do mistério eucarístico
não é um exercício de repetição histórica, mas um ato criativo contínuo.
Enquanto houver compositores capazes de olhar para a dor e para a esperança e
transformá-las em beleza, o Corpus Christi continuará sendo, mais do que uma
data no calendário, uma experiência vibrante e necessária na alma humana.
Embora
o Tantum Ergo seja a parte mais conhecida, o coração musical e teológico da
festa é a Sequência, o Lauda Sion
Salvatorem (Louva, Sião, o Salvador). Escrito também por Tomás de Aquino, ele é
uma "aula de teologia cantada". A melodia gregoriana original é uma
das mais longas e complexas do repertório, exigindo dos coros não apenas
precisão, mas uma resistência e fôlego que simulam a "proclamação" de
uma verdade doutrinária. É fascinante notar como compositores barrocos e
clássicos frequentemente usavam a melodia desta sequência como base (o cantus
firmus) para suas peças polifônicas, como se estivessem construindo uma
arquitetura moderna sobre a fundação de pedra de Aquino.
A
instituição da festa em 1264 não foi apenas um ato burocrático de Urbano IV,
mas uma resposta direta ao Milagre de Bolsena (1263), onde uma hóstia teria
sangrado sobre o corporal durante a missa de um padre que duvidava da
transubstanciação. Essa atmosfera de "susto e revelação" influenciou
a música sacra, conferindo-lhe uma dramaticidade que, antes, era mais contida.
A música de Corpus Christi passou a ter uma função de testemunho: ela deveria
"provar" com sua beleza o que o milagre "provou" com o
sangue.
Há
uma analogia teológica interessante: a polifonia. No período renascentista,
quando compositores como Palestrina elevavam a polifonia ao seu ápice, o
próprio estilo musical tornou-se uma metáfora da Eucaristia. Assim como muitos
fiéis se tornam um só corpo ao receber a comunhão, muitas vozes independentes
(soprano, contralto, tenor, baixo) se fundem em uma única harmonia perfeita. É
o som da unidade na diversidade, o espelho sonoro do Corpus Christi.
É
impossível falar de Corpus Christi sem lembrar de como a celebração foi vivida
no Brasil colonial. Aqui, a festa ganhou cores, sabores e sons que misturavam o
gregoriano europeu com a inventividade das nossas irmandades. Em cidades como
Ouro Preto ou Mariana, as procissões eram o momento de maior exibição da música
local. Compositores como Lobo de Mesquita e José Maurício Nunes Garcia
escreveram obras que são a nossa própria interpretação do sacramento: uma
música que, mantendo o rigor litúrgico, traz a luz e o calor tropical.
Na
liturgia tradicional, o momento mais solene do Corpus Christi não é o canto,
mas o silêncio que ocorre durante a elevação da hóstia. Muitos compositores,
como o próprio Messiaen ou os polifonistas flamengos, compunham suas obras como
um "cercamento" desse silêncio. A música é, paradoxalmente, um
mecanismo para que o ouvinte chegue à fronteira do inaudível, onde o rito se
torna um encontro pessoal.
Sugestão
de "audição ativa" para um escritor: Se você for escrever sobre o
tema, sugiro que tente ouvir o Lauda Sion em uma versão de monodia gregoriana
(sem acompanhamento) e, logo depois, uma versão polifônica renascentista. O
contraste entre a unidade de uma só voz (a Igreja universal) e a complexidade
de muitas vozes (a comunidade humana) oferece uma metáfora perfeita para o
mistério que você está explorando.
A
integração entre a tradição universal da música sacra e o brilho singular do
nosso Barroco Colonial brasileiro é, talvez, o capítulo mais comovente da
história da música no Brasil. Ao unirmos o rigor litúrgico que atravessou
séculos, desde as antífonas de Tomás de Aquino até as harmonias de Messiaen, à inventividade de nomes como José Maurício
Nunes Garcia e Lobo de Mesquita, percebemos que o Corpus Christi no Brasil não
foi apenas uma liturgia importada, mas uma celebração que assimilou o calor, a
luz e o espírito de nossa terra.
Quando
José Maurício Nunes Garcia, o mestre da Capela Real no Rio de Janeiro, compunha
suas obras para o culto, ele não estava apenas seguindo modelos europeus de
Haydn ou Mozart. Ele estava conferindo à liturgia uma dignidade que emanava de
uma nova realidade. Em suas composições, há uma melodia que parece respirar a
mesma liberdade que se observa nas paisagens brasileiras. Ele, que foi um dos
maiores compositores do seu tempo, compreendeu que o Corpus Christi exigia uma
música que fosse, simultaneamente, imperial em sua estrutura e profundamente
humana em sua voz.
Da
mesma forma, Lobo de Mesquita, em Minas Gerais, elevou o Barroco Colonial a
patamares de rara beleza. Suas obras, muitas vezes interpretadas por músicos
locais em procissões que subiam e desciam as ladeiras de Ouro Preto ou Mariana,
transformaram a rua em uma extensão do presbitério. Para um cronista como você,
que valoriza a memória e o registro da cultura, é fascinante notar como essa
música servia de espinha dorsal para a vida comunitária:
A
música funcionava como um elemento de união social, congregando artesãos,
escravizados e a elite em torno da mesma celebração.
A
inventividade melódica desses compositores brasileiros trouxe uma
expressividade mais calorosa e emotiva, distanciando-se um pouco da sobriedade
austera das catedrais europeias.
A
história da música ocidental não é apenas uma sucessão de estilos, mas uma
crônica da tentativa humana de dar corpo ao inefável. Dentre os mistérios que a
teologia cristã ofereceu à arte, nenhum foi tão fértil e persistente quanto o
da Eucaristia. O Corpus Christi, o Corpo de Cristo, é o ponto em que o infinito
se faz presente no cotidiano, transformando o altar em uma ponte entre o tempo
e a eternidade. Mas essa celebração, que na Idade Média floresceu sob o rigor
intelectual das catedrais europeias, encontrou, em solo brasileiro, um sotaque
novo, uma luminosidade própria que merece ser revisitada por quem, como você,
cultiva a memória através das letras.
Não
se pode compreender a música eucarística sem retornar ao século XIII, à figura
intelectual de São Tomás de Aquino. Por ordem do Papa Urbano IV, Aquino compôs
o ofício para a recém-instituída festa. Dele brotaram pérolas como o Pange
Lingua, cujas estrofes finais, o Tantum Ergo, tornaram-se o alicerce melódico
de séculos de devoção.
Essa
fórmula de adoração atravessou eras, moldando o pensamento de compositores tão
diversos quanto Palestrina, Bruckner e Fauré. A estrutura do texto impõe uma
disciplina ao compositor: é um convite à reverência. Quando a voz humana entoa
"veneremur cernui", adoremos prostrados, a música deixa de ser um
objeto estético e transforma-se em um ato de prosternação intelectual e
espiritual. É a música que não quer se impor, mas se entregar.
No
crepúsculo do século XVIII, o Ave Verum Corpus de Mozart nos ensina que a
perfeição reside na simplicidade. Composto em 1791, meses antes de sua morte,
este moteto é um paradoxo: enquanto a música de sua época buscava a
grandiloquência sinfônica, Mozart aqui retira os ornamentos. A obra respira um
equilíbrio clássico que mascara uma profundidade abissal, contemplando o corpo
de Cristo “verdadeiramente ferido”.
Séculos
depois, Olivier Messiaen, o grande teólogo-compositor, elevaria o O Sacrum
Convivium a um patamar de misticismo sem precedentes. Para ele, o som tinha
cor. Sua escrita coral, densa e luminosa, tenta capturar a “garantia da glória
futura”. Diferente da sobriedade de Mozart, a música de Messiaen é um convite
ao êxtase; a celebração do banquete não como um memorial estático, mas como um
evento vivo que suspende o tempo para que a graça inunde o espaço.
Ao
atravessarmos o Atlântico, a música de Corpus Christi ganha uma nova vida. O
Brasil colonial, com suas irmandades e sua fervorosa vida cultural, não apenas
absorveu a liturgia europeia; nós a vestimos com a nossa própria luz.
Compositores como José Maurício Nunes Garcia e Lobo de Mesquita são os
artífices dessa tradução.
O
Padre José Maurício, mestre da Capela Real no Rio de Janeiro, compreendeu que o
Corpus Christi exigia uma música que fosse, simultaneamente, imperial em sua
estrutura e profundamente humana em sua voz. Em suas obras, há uma melodia que
respira a liberdade das nossas terras, uma elegância que não desmerece a
Europa, mas que a completa com um calor que apenas o sol tropical poderia
conferir.
Lobo
de Mesquita, por sua vez, levou essa tradição para as ladeiras das Minas
Gerais. Suas procissões, que subiam e desciam as ruas de pedra de Ouro Preto e
Mariana, transformavam a geografia urbana em um presbitério a céu aberto. Ali,
a música servia de espinha dorsal para a coesão social: congregava o mestre de
obras, o artesão, a poetisa e o povo, todos unidos pela mesma harmonia. É nessa
polifonia barroca, onde vozes diversas se unem num só corpo, que encontramos a
metáfora perfeita do próprio rito da Eucaristia.
A
música Corpus Christi Carol, resgatada por Benjamin Britten, é um lembrete de
que o mistério também habita a dor. Com sua imagem do cavaleiro ferido e da
pedra que sangra, ela escapa à exegese fácil. É a prova de que o rito não é um
distante ato cerimonial, mas algo que se encontra exatamente onde a ferida está
exposta. Britten transforma essa carola medieval em um momento de beleza
assombrosa, onde a dor não é negada, mas transfigurada pela devoção.
Estes
compositores não criaram entretenimento; criaram catedrais sonoras. Eles nos
recordam que, embora o nosso corpo seja frágil, possuímos a capacidade de
participar de algo que nos transcende. A celebração do mistério eucarístico não
é um exercício de repetição histórica, mas um ato criativo contínuo.
A
música, afinal, é o convite que nunca cessa, ecoando através dos séculos,
ressoando em cada nota, transformando o silêncio do mundo na adoração da
beleza. É o Verbo, que na arte, torna-se, finalmente, som.
PARA
SABER MAIS
REFERÊNCIAS:
BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA
Hoppin,
Richard H. Panorama da Música Medieval. Editora Martins Fontes. (Essencial para
compreender o contexto do Pange Lingua e a transição para a polifonia).
Grout,
Donald J. & Palisca, Claude V. História da Música Ocidental. Editora
Gradiva. (Uma obra de referência completa que situa o Ave Verum de Mozart e a
evolução da música sacra).
Baggio,
Robert. A Estética da Música Sacra. (Foca na relação entre o rito litúrgico e a
forma musical).
Sales,
Alberto (org.). A Música nas Irmandades do Brasil Colonial. (Excelente para
conectar o trabalho de Lobo de Mesquita e José Maurício Nunes Garcia com o
cotidiano das procissões brasileiras).
Messiaen,
Olivier. A Minha Linguagem Musical. (Para entender a filosofia de composição de
quem escreveu O Sacrum Convivium).
REFERÊNCIAS
DIGITAIS (SITES E PORTAIS)
Academia
Brasileira de Letras (ABL): Consultar os verbetes sobre literatura e cultura
ajuda a contextualizar a influência dos poetas na música sacra, um tema que
você domina bem ao citar seus poetas preferidos.
IMS
(Instituto Moreira Salles) - Acervo de Música: O portal do IMS possui um acervo
rico sobre a música no Brasil, com artigos excelentes sobre o Barroco Mineiro e
a obra de José Maurício Nunes Garcia.
CPDL
(Choral Public Domain Library): É a maior biblioteca online de música coral do
mundo. Se você quiser buscar partituras ou o contexto histórico de peças como o
Tantum Ergo de vários compositores, este é o site definitivo.
YouTube
- Canal "The Polyphonists": Uma fonte fantástica para ouvir
interpretações de alta qualidade de obras renascentistas e modernas. Clicar no
link:
Enciclopédia
Itaú Cultural: A seção de música da enciclopédia é um guia seguro e profundo
para pesquisar compositores brasileiros e o contexto histórico do nosso período
colonial.
3 - O SACRUM CONVIVIUM, OLIVIER MESSIAEN para coro misto de quatro
vozes (1937) - Conjunto Aedes - Maestro: Mathieu Romano - Gravado ao vivo, 6 de abril
de 2013, Théâtre Impérial de Compiègne.
O Coral Infantil do Texas se apresentando no Concerto de Natal de 2015
na OLLU, em San Antonio, Texas. Andrea Walker, soprano e ex-aluna do Coral
Infantil do Texas, cantando a Terceira Variação de "Nasceu um
Menino", Opus 3, de Benjamin Britten.