domingo, 24 de maio de 2026

A MEMÓRIA QUE FLUI: UMA ODISSEIA LÍRICA E CULTURAL EM LUZILÂNDIA, SOB AS ÁGUAS DO VELHO MONGE E A LUZ DE SANTA LUZIA - CRÔNICA INSPIRADA PELA FOTOGRAFIA DE ANTÔNIO LOPEZ, PUBLICADA NA PÁGINA 'IMAGENS DE LUZILÂNDIA' E DEDICADA A MARIA

Diante de mim, uma janela para o passado, para o agora, para o sempre. Uma imagem, um registro efêmero em sua essência digital, capturado no Instagram de Antônio Lopez e compartilhado na página 'Imagens de Luzilândia', que se recusa a ser apenas um dado em um servidor. Esta fotografia de minha Luzilândia natal não é um mero conjunto de pixels. É um pórtico emocional, uma porta de entrada para um universo de memórias tateáveis, sons esquecidos e cheiros que insistem em permanecer no fundo da alma. É a terra de minha mãe, Maria, e cada centímetro dessa paisagem tem seu nome gravado em silêncio.

Ao olhar para esta imagem, sinto o peso suave da história e a leveza da beleza. Vejo as cores do céu em uma dança de deuses caídos: o azul profundo e melancólico, os tons de lavanda e o ouro-velho que marcam o crepúsculo. O rio, espelho quebrado e refeito a cada instante, acolhe essas cores e as transforma em poesia líquida. E ali, como um braço estendido entre o que fomos e o que somos, a ponte se estende, um símbolo de união que vai além do asfalto e do concreto. No canto, o barranco com seu calçamento de pedras irregulares, a vegetação ribeirinha e os vestígios da atividade humana, uma estrutura de madeira, um poste ancoram a imagem na realidade do cotidiano. E no rodapé, as palavras sagradas que confirmam o local de culto: "Imagens de Luzilândia". 

Esta crônica é um ato de adoração e de escavação arqueológica sentimental. Quero mergulhar nessa imagem, nadar em suas águas, caminhar por suas margens e, ao final, entender um pouco mais de quem sou, de onde vim e de quem é a Maria de quem fui moldado. 

Não se pode falar de Luzilândia sem, antes de qualquer oração, saudar o Rio Parnaíba. Chamar este corpo d’água majestoso apenas de "rio" é pouco. Para nós, ele é o Velho Monge. O nome é uma reverência, um reconhecimento de sua ancestralidade, de sua sabedoria silenciosa, de sua presença que precede qualquer cidade e que continuará depois que a última pedra tiver caído. 

A imagem captura o Velho Monge no momento de maior introspecção do dia: o crepúsculo. As águas, geralmente marrons e vigorosas durante o dia, transformam-se em uma paleta de sonhos. Elas refletem o céu em uma união carnal e mística. O rio absorve o violeta e o rosa, criando um fluxo de cores hipnótico. É neste espelho líquido que a cidade inteira, suas dores, suas alegrias e seus segredos, são depositados e lavados. 

O Velho Monge não é apenas uma barreira física; é o elemento que define a identidade da terra. Foi ele quem trouxe os primeiros viajantes, quem alimentou gerações, quem viu nascer e morrer sonhos. A estrutura de madeira no barranco, que aparece no canto direito da foto, é um vestígio das  embarcações improvisadas que ainda hoje cruzam suas águas para levar pescadores ou ribeirinhos de um ponto a outro. É uma conexão primitiva que a modernidade da ponte, ao fundo, não conseguiu extinguir totalmente. 

Para Maria, minha mãe, e para todas as mães de Luzilândia, o Velho Monge é uma figura paterna, um avô que conta histórias com o bater das ondas nas canoas. Nele, banharam-se e levaram as primeiras roupas para lavar. Nele, aprenderam a respeitar a força da natureza. A imagem, ao capturar esta imensidão d’água sob o crepúsculo, nos lembra de que somos efêmeros, mas o rio é eterno. 

Se o Velho Monge é o corpo físico de Luzilândia, Santa Luzia é sua alma. E, embora a padroeira não esteja visivelmente pintada na ponte ou nas águas, sua presença permeia cada detalhe do crepúsculo capturado por Antônio Lopez. A luz que domina a cena é, em sua essência, a luz de Santa Luzia. 

O nome da cidade, Luzilândia, é um amálgama direto da padroeira. Santa Luzia é a protetora dos olhos, a portadora da luz que guia os cegos e ilumina as trevas. Na imagem, essa luz não é a do sol ofuscante do meio-dia, mas uma luz mansa, de fim de tarde, que permite a transição suave entre o dia e a noite. É uma luz que não brilha "sobre" a paisagem, mas que emana "dela". 

As nuvens, em sua complexidade de tons e formas, parecem estar sob a regência de um maestro invisível, que dispersa as trevas e permite que o lavanda e o ouro-velho ocupem o horizonte. É uma luz que traz conforto, que sugere que, mesmo que a noite venha e ela virá na metade superior da foto, há uma promessa de retorno e de guia. 

Para Maria, minha mãe, e para a devoção que corre nas veias da terra, Santa Luzia é mais do que uma santa em um altar. É a força que lhe deu resiliência. Em cada crepúsculo como este, minha mãe via o olhar da padroeira, um olhar que não julga, mas que entende. O olhar que nos ensinou a "ver" não apenas com os olhos físicos, mas com os olhos do coração a ver a beleza na simplicidade de um barranco, na constância de um rio e na promessa de um amanhã. A luz de Luzilândia, capturada aqui, é a luz de Santa Luzia, a luz da clarividência da alma.

A fotografia não é apenas um registro geográfico ou espiritual; é uma dedicatória a Maria. Maria, minha mãe, e Maria, a terra que a gerou. Há uma simbiose indissociável entre elas. Minha mãe é a própria Luzilândia em forma humana. 

O calçamento de pedras irregulares que aparece no canto inferior da foto, o barranco que sofre com a erosão mas se mantém firme, a vegetação que insiste em crescer, todos esses elementos são metáforas para a vida de Maria. Uma vida feita de trabalho, de sol causticante, de lutar contra as marés, mas de uma beleza rústica e inegável. 

Para minha mãe, cada por do sol era um momento de reflexão sobre o Velho Monge. O rio que via seus filhos nascerem e que, em muitos casos, os levava para o mundo ou, tragicamente, para o fundo. Ela me contava histórias de cheias e secas, de como a cidade se transformava com os humores das águas. A ponte, na foto, é uma inovação relativamente recente na história dela, um símbolo de um progresso que ela viu chegar com espanto e alívio, unindo as margens que antes dependiam das balsas. 

Ao olhar para esta ponte, vejo a união de dois mundos na vida de Maria: o mundo antigo, rústico e místico da margem onde a cidade começou, e o mundo novo, conectado e veloz do asfalto. Ela transitou por esses dois mundos, mantendo sua essência ribeirinha intocada. E ao ver a inscrição "Imagens de Luzilândia", sei que ela se via ali. Maria não apenas vivia em Luzilândia; ela era Luzilândia. Seus olhos tinham a luz de Santa Luzia, sua resiliência tinha a força do Velho Monge, e sua beleza era a simplicidade do crepúsculo. Dedicar esta crônica a ela é um ato de justiça poética. 

A postagem desta imagem na página 'Imagens de Luzilândia' e o crédito a Antônio Lopez são detalhes cruciais que merecem análise cultural. O Facebook e o Instagram, que trazem o selo no rodapé da imagem, funcionam como as novas praças da cidade, as novas margens do rio onde a comunidade se encontra para ver e ser vista. 

Antônio Lopez, ao capturar este momento, age como um historiador visual. Ele não apenas tirou uma foto, mas fixou uma emoção coletiva. A página 'Imagens de Luzilândia' é um repositório de memória viva, onde o passado se mistura com o presente através de comentários, curtidas e compartilhamentos. O crédito é essencial porque reconhece o papel do indivíduo na construção da narrativa coletiva. No entanto, ao final, a imagem pertence a todos nós. Ela é a identidade de um povo que se recusa a ser esquecido em um mundo cada vez mais globalizado. 

Esta rede digital que sustenta a imagem é, de certa forma, uma nova ponte. Uma ponte que atravessa as distâncias físicas e une os filhos de Luzilândia que, como eu, estão longe, mas mantêm o cordão umbilical prendido ao Velho Monge. É por meio de páginas como esta que me reconecto, que vejo a cidade de minha mãe resistindo ao tempo, sob a luz que nunca se apaga. O crédito é um ponto de partida, mas a imagem é um destino comum.

A imagem no rodapé confirma: "Imagens de Luzilândia". Mas, para mim, ela é muito mais que um dado geográfico. É o Velho Monge me chamando em segredo, é o olhar de Santa Luzia me dando as boas-vindas, e é o rosto de minha mãe, Maria, refletido em cada nuance de cor e sombra.

Esta crônica foi uma tentativa de decodificar uma única foto em toda a sua complexidade lírica e cultural. De entender que, diante de nós, não temos apenas um belo crepúsculo, mas um compêndio de história, de fé e de amor. Uma história de um rio que é pai, de uma santa que é luz, e de uma mãe que é terra. 

A fotografia de Antônio Lopez, ao congelar este momento de emoção em um único instante visual, nos faz entender o verdadeiro significado de "saudade". Saudade não como uma tristeza paralisante, mas como a prova de que amamos e de que fomos amados por um lugar e por uma mulher que se tornaram um só. Luzilândia, minha terra natal, eu nunca a deixei de fato. Enquanto as águas do Velho Monge continuarem a correr e a luz de Santa Luzia a brilhar, o coração de minha saudosa mãe Maria e o meu coração sempre estarão lá. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural



UMA PONTE ENTRE DOIS MUNDOS: PASSADO E PRESENTE NO CANTO DO RIO - CRÔNICA HISTÓRICA E MEMORIALISTA DE © ALBERTO ARAÚJO




Era uma vez em Nictheroy... Olhe atentamente para esta imagem, tem uma que data: Dezembro de 1920.

O que você vê hoje como um cenário urbano pulsante, há pouco mais de um século era um reduto de calmaria, moldado pelas águas e pela força da natureza. 

Neste registro precioso do mestre Augusto Malta, capturamos o exato momento em que um bonde atravessa a antiga ponte do Canto do Rio. Ele segue seu destino rumo a São Francisco, prestes a virar à direita para serpentear a Estrada Leopoldo Fróes, contornando a imponência do Morro da Fazenda Cavalão. 

O Tempo Passa, a História Fica. O que mais impressiona os olhos contemporâneos? 

Ao fundo, o morro exibe uma vegetação completamente intacta, densa e soberana, antes de dar espaço à expansão da cidade. A ponte, elegante em seu arco, desafiava o tempo. Hoje, quem passa apressado pelo local talvez não imagine que, sob o asfalto e a modernidade, ainda resistem vestígios dessa mesma estrutura. 

Mais do que um cartão-postal antigo, essa foto é um testemunho silencioso de como Icaraí cresceu. O bonde se foi, a paisagem mudou, mas a alma de Niterói permanece guardada em cada centímetro dessas memórias. 

CICATRIZES DE CONCRETO: OS VESTÍGIOS INVISÍVEIS DA NITERÓI DE ONTEM

Há quem diga que as cidades esquecem o próprio passado, soterradas pelo asfalto e pela pressa do progresso. Mas, se olharmos com atenção mística, descobrimos que a história se recusa a desaparecer por completo. Ela deixa pistas, sussurros e, às vezes, cicatrizes físicas que insistem em permanecer bem debaixo dos nossos olhos. O Canto do Rio, em Icaraí, guarda um desses segredos. 

Nas imagens que ilustram esta crônica urbana, capturadas no silêncio da noite contemporânea, a iluminação pública e os carros que cruzam a avenida parecem ditar o ritmo absoluto da modernidade. Uma grade amarela, gasta pelo tempo e pela maresia, delimita a calçada. Para a maioria dos pedestres que passam apressados, em busca do calçadão ou voltando do trabalho, ali existe apenas um canal, um recuo escuro. No entanto, aquele concreto antigo carrega o peso de um século. 

Ali estão os vestígios reais da antiga ponte do Canto do Rio, aquela mesma estrutura elegante e arqueada que o mestre Augusto Malta fotografou em dezembro de 1920. É um choque de realidade perceber que, onde hoje vemos essa estrutura esquecida sob as sombras das árvores, outrora deslizavam os bondes barulhentos em direção a São Francisco, contornando a Estrada Leopoldo Fróes. 

Tocar aquele parapeito ou observar a base que resiste ao fluxo das águas e do tempo é como tocar na pele de uma Niterói que já não existe mais na superfície. É a engenharia da década de 1920 servindo de fundação invisível para a cidade de 2026. 

Niterói não é feita apenas de belas paisagens e praias imponentes; ela é feita de camadas. Cada passo que damos por Icaraí ecoa sobre o trilho de ontem, sobre as pedras moldadas por operários de outra era, sob o olhar de um morro cuja vegetação um dia foi completamente intacta. 

Esses vestígios são um chamado ao pertencimento. Eles nos lembram de que a modernidade passa, as frotas mudam, as gerações se sucedem, mas a alma da cidade permanece ali, teimosa e resiliente, guardada no concreto que o progresso não conseguiu apagar. Da próxima vez que passar pelo Canto do Rio, diminua o passo. A história está viva, bem ali, sob as sombras da noite. 

ÁGUAS OCULTAS DO CANTO DO RIO EM ICARAÍ 

Eu não nasci embalado pelas ondas da Baía de Guanabara, nem trago na infância os passos pelas calçadas de Niterói. Sou nordestino, feito de outras terras, outras secas e outras belezas. Minha esposa também traz o Nordeste costurado em sua essência. Quando ela aportou e eu aqui em Icaraí, a cidade já se apresentava para nós com sua imponência contemporânea: o vaivém frenético dos automóveis, os edifícios altos que recortam o céu e o ritmo acelerado de quem corre pelo calçadão à beira-mar. Para quem vem de fora, o Canto do Rio parece apenas um belo e definitivo cartão-postal do presente, uma engrenagem urbana perfeitamente ajustada aos novos tempos.

No entanto, quem convive com a sensibilidade da arte e com o fôlego da literatura enxerga muito além do asfalto. Há dias, ao mostrar para minha esposa aquela fotografia icônica de dezembro de 1920, um registro precioso onde um bonde elegante cruzava uma ponte arqueada rumo a São Francisco, contornando a Estrada Leopoldo Fróes, ela me olhou com a sabedoria de quem repara nas entrelinhas da história. "Você sabia que os vestígios físicos dessa ponte ainda estão de pé?", ela me disse. 

Aquilo acendeu em mim o faro do jornalista, o instinto do cronista que precisa documentar as permanências do tempo. Não esperei o sol nascer. Fui até lá na penumbra da noite, guiado pela indicação dela. Diante daquela grade amarela, gasta pelo tempo e salpicada pela maresia, apontei a lente da minha câmera. Sob as sombras densas das árvores, o que para muitos pedestres apressados é invisível ou apenas um recuo escuro na calçada, para nós revelou-se como uma cicatriz real. Uma estrutura centenária de concreto que resiste, teimosa, conectando a Nictheroy de Augusto Malta ao nosso caminhar de hoje.

Mas a revelação da minha esposa não parou na arquitetura da ponte. Ela me trouxe uma camada ainda mais profunda, resgatada das páginas da saudosa escritora e memorialista niteroiense Yara Vidal em sua obra: “A Casa do Portão Vermelho”. Em suas memórias, a autora reconstrói a crônica de uma cidade que existia antes de ser sufocada pela canalização e pelo concreto. Aquela vala que corre hoje sob a grade amarela e sob os nossos pés, frequentemente diminuída pela pressa urbana sob o rótulo de "valão", é, na verdade, o leito histórico do Rio Icaraí. 

Houve um tempo em que o Rio Icaraí fazia jus ao seu nome indígena, que remete a "água santa" ou "rio sagrado". Antes de ser retificado e emparedado pelo crescimento imobiliário, ele era o coração pulsante do Jardim Icaraí. Suas águas límpidas desciam livremente, atravessavam o terreno que hoje abriga o Campo de São Bento, alimentando os seus lagos e banhando sua vegetação primitiva e seguiam seu curso natural até desaguar de forma sinuosa e bela ali, no Canto do Rio, exatamente onde a ponte de 1920 foi erguida para permitir que o progresso passasse por cima dele. 

Como bem lembra a literatura local, aquele espaço hoje cinzento já foi um cenário de idílio romântico. Famílias inteiras se reuniam às suas margens. Adultos conversavam à sombra das árvores enquanto patos e marrecos deslizavam suavemente pela correnteza. O rio era um playground natural: crianças de pés descalços brincavam em suas águas, pescavam pequenos peixes e acompanhavam o ritmo natural da maré que subia e descia, integrando a natureza ao cotidiano do bairro. O Rio Icaraí era vivo, limpo e comunitário. 

Olhar para as fotos noturnas que tirei, sabendo agora que aquele canal escuro guarda a memória dos patinhos de Yara Vidal e dos banhos de rio das crianças de outrora, muda completamente a nossa percepção de pertencimento. Niterói não é uma cidade feita apenas de cartões-postais estáticos; ela é um organismo vivo feito de camadas sobrepostas. O progresso escondeu o rio sob o concreto, transformou a ponte em um detalhe quase invisível na paisagem e substituiu o tilintar do bonde pelo ronco dos motores modernos. Mas a alma do lugar recusa-se a desaparecer. 

Tocar naquele parapeito de ferro oxidado ou observar a base de concreto que resiste à força das marés no Canto do Rio é um exercício místico de arqueologia urbana. É perceber que o Nordeste que nos habita encontrou abrigo em uma terra que também sabe guardar suas próprias raízes. Os vestígios da ponte e o fluxo contínuo do rio sufocado são um chamado sutil para diminuirmos o passo. Eles provam que, por mais que a modernidade tente padronizar as metrópoles, a história real permanece ali, resiliente, teimosa e poética, esperando apenas por um olhar atento para voltar a fluir. 

A ORIGEM DA FAZENDA CAVALÃO E O DONO IMPERIAL

Quando o bairro de Icaraí ainda era um vasto areal selvagem, coberto por pitangueiras, cactos e vegetação de restinga, a região foi dividida em grandes propriedades. Em 1808, quando a corte de D. João III e o Coronel Luís da França organizaram o registro oficial das propriedades da região, a Fazenda do Morro do Cavalão constava como propriedade do Tenente-Coronel Antônio José Cardoso Ramalho. 

Ela dividia os limites da região com a Fazenda de Icaraí, que pertencia a Estanislau Teixeira da Mata e as terras dos jesuítas e dos índios Temiminós de Arariboia. 

Existem duas versões históricas muito fortes na historiografia de Niterói para o nome "Cavalão": 

A versão dos animais de carga: Devido à topografia muito acidentada e às péssimas condições dos caminhos primitivos que ligavam Icaraí a São Francisco, a travessia da encosta só podia ser feita por cavalos muito robustos e fortes, os "cavalões". O termo acabou batizando a fazenda e o morro. 

Antigos moradores e geógrafos apontavam que, quando vista de determinados ângulos do mar ou da praia, a silhueta do morro lembrava o dorso ou a cabeça de um grande cavalo deitado. 

A antiga Fazenda do Cavalão e a sua mata virgem, aquela mesma que você reparou que estava intacta na foto de 1920, sempre foram um reduto de beleza cênica que atraiu grandes artistas:

No século XIX, o famoso pintor alemão Johann Georg Grimm, fundador do Grupo Grimm e inovador da pintura de paisagem no Brasil mudou-se para Niterói e imortalizou o local na tela "Vista do Morro do Cavalão, Niterói, RJ", fascinado pela luz e pela vegetação do lugar. 

Mais tarde, o poeta Vinícius de Moraes visitou o mirante do morro e, tocado pela paisagem e pelo poente, escreveu o poema chamado "Balada do Cavalão", onde canta: “A tarde morre bem tarde / No morro do Cavalão… / Tem um poder de sossego / Dentro do meu coração.” 

Com o fim do período colonial e o loteamento das terras no final do século XIX, a fazenda foi desmembrada. A Estrada Leopoldo Fróes abriu caminho contornando a propriedade para ligar os bairros, e as encostas começaram a ser ocupadas no século XX por trabalhadores, transformando a antiga fazenda na comunidade que conhecemos hoje. 

Foto antiga: Augusto Malta (Dezembro de 1920)

Resgate histórico: Memórias de Nictheroy. 

Foto atual 2026 e Texto de

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural

 








Vista da Ponta de Icaraí, 1884
Georg Grimm - Óleo sobre tela, c.i.d.
81,40 cm x 152,00 cm


Canto do Rio, Praia de Icaraí, Niterói, Rio de Janeiro 

| Enciclopédia Itaú Cultural







A FORÇA DA CULTURA ELISTA ELOS PRAIA GRANDE E ELOS JOVEM PRAIA GRANDE - TRADIÇÃO E JUVENTUDE EM MOVIMENTO - INFORMATIVO DO ELOS INTERNACIONAL

 

24 de maio de 2026. Hoje, a história e o dinamismo da comunidade elista ganham as ruas da capital paulista em uma celebração duplamente especial. Em uma iniciativa memorável, o Elos Clube de Praia Grande realiza o seu Passeio Cultural do Dia das Mães em São Paulo, contando com a participação vibrante e essencial dos Elos Jovem de Praia Grande e de outros membros elistas. 

Mais do que uma simples viagem de turismo, este evento representa a materialização dos pilares mais nobres da cultura elista e lusófona: a exaltação da família através da figura materna, a salvaguarda do nosso patrimônio imaterial e o fortalecimento dos laços fraternos entre diferentes gerações.

Para a comunidade elista mundial, a realização de atividades desta magnitude reafirma o compromisso de manter viva a chama da nossa herança cultural. Quando o Elos Clube e o Elos Jovem caminham juntos, testemunhamos a perfeita sinergia entre a experiência dos que pavimentaram o caminho e o entusiasmo dos que conduzirão o nosso movimento rumo ao futuro. É a lusofonia em sua forma mais viva, pulsante e transformadora. 

O passeio foi cuidadosamente planejado para oferecer uma imersão profunda na riqueza histórica, artística, esportiva e arquitetônica de São Paulo, uma metrópole que acolhe uma das maiores comunidades de descendentes de portugueses do mundo. 

Os participantes do Elos Clube e do Elos Jovem que fazem parte do Elos Internacional sob a presidência da Elista-mor Matilde Carone Slaibi Conti exploram pontos emblemáticos da cidade, unindo a tradição da Avenida Paulista à memória afetiva do país: 

Museu do Futebol: Localizado no histórico Estádio do Pacaembu, o espaço descortina a história do esporte que se transformou em parte indissociável da identidade e da cultura do povo brasileiro, dialogando diretamente com a paixão popular. 

Casa das Rosas: Um casarão histórico imponente na Avenida Paulista, dedicado à poesia e à literatura. Para os defensores da Língua Portuguesa, caminhar por seus jardins e salas é tocar a essência da palavra escrita e da preservação da nossa memória artística. 

Itaú Cultural: Um baluarte de vanguarda que mapeia a arte e a cultura nacional, oferecendo exposições que celebram a ancestralidade e a evolução da identidade do Brasil. 

Japan House: Um centro que promove o intercâmbio cultural e o diálogo entre povos, mostrando como a congregação das nações enriquece o patrimônio humano universal.

Mirante do SESC: Proporcionando uma das vistas panorâmicas mais deslumbrantes da metrópole, onde os elistas puderam contemplar de cima a imensidão de São Paulo e os horizontes do futuro. 

Almoço de Congraçamento: Para selar o espírito de união e celebrar as mães elistas, o grupo se reúne no acolhedor Restaurante Villa San Pietro, um momento de celebração por adesão que fortalece os laços afetivos e fraternos. 

Cada parada deste roteiro funciona como uma sala de aula sem paredes, onde os jovens elistas podem absorver cultura e os adultos podem compartilhar vivências. 

Elos Clube de Praia Grande: 32 Anos de História e Devoção 

Anfitrião e organizador deste brilhante passeio, que teve sua partida festiva às 8h da manhã na Praça 19 de Janeiro, no Boqueirão, o Elos Clube de Praia Grande é um dos pilares de sustentação do movimento elista no estado de São Paulo. Com sede na próspera cidade de Praia Grande, o clube celebra uma trajetória de respeito, relevância social e dedicação comunitária. 

Fundado em 23 de fevereiro de 1994, o Elos Clube de Praia Grande completa 32 anos de existência neste ano de 2026. São mais de três décadas dedicadas de forma ininterrupta a promover o bem, aproximar corações e exaltar os valores humanos fundamentais. 

Ao longo de sua história, o clube tem sido um fanal de cultura na Baixada Santista, promovendo eventos, ações sociais e encontros que mantêm acesos os ideais do Elos Internacional. A longevidade do clube é o reflexo direto do amor e do trabalho voluntário de seus membros, que entendem a importância de se associar em prol de causas maiores. 

O sucesso de eventos como o passeio de hoje ecoa as diretrizes e a missão maior do Elos Internacional. Como uma instituição de caráter global, o Elos atua como um escudo e um promotor de valores que são a base de uma sociedade justa e harmoniosa. 

O movimento elista apoia-se em quatro pilares inegociáveis: 

1. A Defesa da Família: Entendida como o núcleo formador do indivíduo e a base para a construção de uma sociedade solidária, aqui homenageada no abraço caloroso do Dia das Mães. Entendendo que a família é a base da sociedade. A mola propulsora de toda a nossa história. 

2. A Promoção da Paz: Cultivando a tolerância, o diálogo e o entendimento mútuo entre os povos. 

3. A Congregação dos Homens: Criando pontes de amizade, cooperação e fraternidade universal, independentemente de fronteiras geográficas.

4. A Salvaguarda do Patrimônio Imaterial: Tendo como foco absoluto a Defesa da Língua Portuguesa, o idioma que nos une, nos define e expressa a nossa alma coletiva pelo mundo. 

Por trás de grandes realizações, há sempre uma liderança inspiradora e comprometida. Este passeio cultural e a própria vitalidade do Elos Clube de Praia Grande trazem a marca da dedicação do nosso estimado Vice-presidente, Sidney Cardoso da França. Mais do que um elista exemplar, Sidney é um educador de alma e coração. Sua atuação profissional se enlaça com a sua missão de vida: transformar a sociedade por meio do conhecimento e dos valores éticos. 

Sidney Cardoso da França é Vice-presidente do Elos Internacional; Professor e Gestor Educacional; Proprietário do Colégio França e França Kids; Referência em ensino particular na Baixada Santista. 

O Colégio França e o França Kids são instituições de ensino tradicionais e amplamente respeitadas em Praia Grande. Sob a liderança do professor Sidney, a escola oferece uma formação completa, que vai desde o berçário até o Ensino Médio, unindo a excelência acadêmica à formação humana e cidadã.

É essa visão pedagógica e humanista que o Vice-presidente Sidney Cardoso da França transporta para o Elos Internacional. Ao incentivar a participação ativa do Elos Jovem em eventos culturais e familiares como o de hoje, ele aplica na prática o conceito de que o futuro se constrói agora, oferecendo à juventude as ferramentas necessárias para que se tornem os embaixadores da lusofonia de amanhã.

A Diretoria do Elos Internacional parabeniza o Elos Clube de Praia Grande, o Elos Jovem e todas as mães homenageadas nesta jornada cultural em São Paulo neste domingo, 24 de maio de 2026. 

Ao unirmos a celebração da família, o conhecimento histórico, a liderança educacional e o entusiasmo da juventude, mostramos que o Elos continua firme em seu propósito de aproximar os seres humanos através da cultura, do afeto e do orgulho pela nossa Língua Portuguesa. Que as memórias colhidas na Casa das Rosas, no Museu do Futebol e em cada canto visitado ecoem por muito tempo em nossos corações. 

Cultura, Fraternidade e Lusofonia: Este é o nosso Elo. 

Diretoria de Cultura do Elos Internacional:

Unindo Gerações, Preservando a Língua e Fortalecendo a Lusofonia.




















O FIO VERMELHO DO MUNDO: A POÉTICA TÊXTIL DE LINA PONZI

Há um sussurro que emerge da fibra, um clamor silencioso que transborda da urdidura. Diante da obra de Lina Ponzi, o olhar não apenas pousa; ele é capturado, enredado por uma cartografia de nós, tramas e texturas que parecem pulsar com a própria urgência da vida. A imagem do convite que ora nos convoca um emaranhado visceral de fios rubros entrelaçados a galhos e estruturas rústicas, é um portal para um universo onde o fazer manual se transmuta em ritual sagrado e a matéria bruta se faz poesia pura.

O vermelho de Lina não é uma escolha fortuita; é sangue, é seiva, é a linha do destino que une o visível ao invisível. Ver a obra de Lina Ponzi é aceitar o convite para um mergulho na arqueologia dos afetos. Seus trabalhos anteriores, já consagrados em múltiplas exposições, sempre demonstraram essa capacidade única de transformar o espaço tridimensional em um campo de forças emocionais. Há uma tensão latente entre a delicadeza do fio e a crueza do suporte, uma dança sutil entre a fragilidade e a resistência. O que se vê, em primeira instância, é o testemunho de um corpo que cria, de mãos que fiam o tempo e tecem paisagens que habitam a fronteira entre o orgânico e o abstrato.

Para compreender a densidade de "O que se vê, o que se sabe, o que é", é preciso caminhar pelas trilhas do conhecimento silencioso. O que sabemos sobre a arte contemporânea têxtil é que ela carrega o peso secular do ofício, mas Lina Ponzi a desvincula do mero utilitário para alçá-la ao status de filosofia visual. Saber a trajetória de Lina Ponzi é reconhecer a consistência de uma pesquisa poética que não teme o tempo desacelerado do fazer artístico. Cada ponto, cada amarração é uma tomada de posição política e estética em um mundo hipertecnológico e fugaz. 

Nesta exposição, sob o olhar atento e sensível da curadora Desireé Monjardim, e iluminada pelo texto crítico de Edmilson Nunes, a trajetória de Lina ganha um novo e poderoso capítulo. A produção precisa de Alexandre Ponce costura os bastidores dessa experiência imersiva. O que se sabe, portanto, transcende a biografia da artista: sabe-se que a arte, quando legítima, funciona como um espelho coletivo. As tramas de Lina evocam as redes de conexões humanas, os nós que apertam o peito, os laços que nos sustentam e as linhas de fuga que inventamos para continuar respirando. É a sabedoria do entrelaçamento, onde a ancestralidade do tear encontra o grito expressionista da contemporaneidade. 

Por fim, despem-se as aparências e os conceitos para que reste apenas a imanência: o que é. A obra de Lina Ponzi é presença. É o impacto tátil que reverbera na retina. É a fusão indissolúvel entre a natureza e o artifício, onde os galhos secos parecem ganhar uma nova circulação sanguínea através dos fios que os envolvem. É uma celebração da imperfeição, do desfiado, do transbordo. A exposição não nos propõe uma resposta fechada, mas um estado de ser e de sentir. É a própria vida em sua complexidade emaranhada, bela e por vezes dolorosa, mas sempre pulsante. 

Não haveria solo mais fértil para acolher essa cartografia sensível do que o MADD (Música, Arte, Dança e Design). Desde sua fundação em 2015, encravado na paisagem inspiradora de Pendotiba, em Niterói, o MADD consolidou-se como um verdadeiro organismo vivo da economia criativa fluminense. Mais do que uma galeria, o espaço idealizado como ateliê, escola de artes e palco múltiplo funciona como um pulmão cultural que respira a vanguarda da arte contemporânea.

Ao cruzar os portões do casarão na Estrada Caetano Monteiro, o visitante é convidado a desacelerar e integrar-se a esse ecossistema onde as linguagens artísticas se cruzam e se retroalimentam. A arquitetura acolhedora e a vocação plural do MADD transformam o ato de visitar a exposição em um acontecimento comunitário e sensorial. Aqui, a arte de Lina Ponzi encontra o seu eco perfeito, reverberando nas paredes de um lugar que pulsa criação há mais de uma década. 

Convidamos o público, os amantes das artes, os poetas do cotidiano e os caminhantes da sensibilidade para a grande noite de abertura. Permita-se ser capturado pelas linhas de Lina Ponzi e pelo magnetismo de um dos espaços culturais mais dinâmicos de Niterói.

Abertura: 28 de maio de 2026, às 18h

Local: MADD Galeria — Estrada Caetano Monteiro, 2380 – Vila Progresso, Pendotiba, Niterói - RJ

Visitação Regular: Terças e Quartas: 14h às 19h

Sábados: 14h às 17h


"O fio que amarra é o mesmo que liberta. No emaranhado do mundo, a arte de Lina Ponzi nos ensina a encontrar o prumo. – Alberto Araújo"

 

Será um absoluto prazer recebê-lo.

 

Postagem do Focus Portal Cultural

© Alberto Araújo


 

O BRILHO DE PENTECOSTES POR INTERMÉDIO DE TROVA DE MIMI LÜCK




Hoje, 24 de maio, é o Domingo de Pentecostes. Como a data é calculada sempre 50 dias após o Domingo de Páscoa, ela muda todos os anos. Em 2026, o calendário litúrgico reservou o dia de hoje para essa celebração tão bonita do Espírito Santo. A trova da Mimi Lück casou perfeitamente com o dia atual, pois celebrar Pentecostes é renovar a nossa fé e abrir o coração para a força mais pura do universo.


"O Espírito Santo ensina

sobre o amor de Jesus!

Transborda, inspira e ilumina,

lançando raios de luz!"

— Mimi Lück

 

Que no dia de hoje nos permitamos ser preenchidos por essa energia divina. Que o Espírito Santo transborde em nossas vidas, trazendo clareza para os passos, inspiração para os dias e muita luz para os nossos caminhos.

 

FELIZ PENTECOSTES!



 

ENTREVISTA EXCLUSIVA: "A ARQUEOLOGIA DA PALAVRA E O DIÁLOGO DOS TEMPOS" COM O POLÍMATA MARCELO MORAES CAETANO


A verdadeira erudição nunca é estática; ela pulsa como uma ponte viva entre o passado clássico e os abismos do presente. Marcelo Moraes Caetano pertence a essa estirpe rara de intelectuais que transitam pelos nossos dias com a profundidade dos humanistas renascentistas, desafiando a velocidade efêmera e superficial da modernidade. Escritor, filólogo e pianista erudito, ele habita o território exato onde o rigor acadêmico se funde à mais pura sensibilidade artística.

Às vésperas de sua aguardada preleção no prestigioso ciclo "Quinta é Cultura" da Academia Brasileira de Letras, sob a sofisticada coordenação do acadêmico Antonio Carlos Secchin, Marcelo abriu as portas de seu pensamento ao Focus Portal Cultural. O resultado é um diálogo denso, que foge do comum para tocar as frestas da alma e do intelecto.

Neste encontro memorável, descemos às fundações da nossa identidade para desvelar a arquitetura de sua mais recente e vigorosa obra: “Língua Portuguesa: geo-história filológica do latim ao presente”. Contudo, os caminhos da conversa nos levaram muito além da técnica. Percorremos as teias sociais, os clamores históricos e as tensões que moldam a nossa herança oral; investigamos a secreta e íntima influência da música erudita na precisão rítmica das palavras; e lançamos o olhar sobre o porvir do idioma diante do crepúsculo tecnológico da Inteligência Artificial.

Chancelado por baluartes do nosso pensamento gramatical, como o saudoso mestre Evanildo Bechara e o acadêmico Ricardo Cavaliere, Marcelo Moraes Caetano não nos oferece apenas respostas cartesianas. Ele nos entrega uma partitura do tempo e um espelho da nossa própria travessia cultural.

Acompanhe, a seguir, as dezesseis questões que compõem esta cartografia da linguagem uma imersão profunda na arqueologia do verbo e na trajetória de um dos mais fascinantes pensadores contemporâneos.

ENTREVISTA

1. Pergunta: Professor Marcelo, sua obra realiza uma verdadeira "autópsia no tempo" ao recuar até 218 a.C., momento da expansão romana na Península Ibérica. Como as pressões sociais e o "latim vulgar" daquela época ainda ecoam na sintaxe e na organicidade do português que o brasileiro comum fala hoje nas ruas?

Resposta: Em vários aspectos. Por exemplo, o latim vulgar foi perdendo as declinações do latim clássico (sintetismo) e substituindo-as por formas preposicionadas (analitismo). O português hoje precisa de preposições para marcar certas funções sintáticas, como o objeto indireto. Isso é herança do latim vulgar. Também no léxico temos várias palavras que o latim clássico reprovava, por exemplo no Appendix Probi, que mostrava as formas “erradas”, as quais são exatamente as que usamos. Por exemplo, usamos “gato”, quando Marco Valério Probo, o autor do Apêndice, mandava que usássemos “felix”. Outras formas que ele reprovava no latim vulgar, mas que ficaram na nossa deriva são  “autor”, “murta”, “casa”, “cavalo”, “fogo”. 

2. Pergunta: O subtítulo do seu livro utiliza o termo "geo-história filológica". De que maneira a geografia física e as fronteiras geopolíticas atuaram não apenas como limites, mas como agentes modeladores das mutações da língua desde a Europa até a sua fixação na América?

Resposta: Sigo a premissa do nosso grande geógrafo Milton Santos, para quem, aqui parafraseado, a cultura é sinônimo da territorialidade. O estudo do espaço físico é fundamental para se compreenderem movimentações culturais. Não é fortuito o interesse, a partir do século XIX, de Humboldt e Ritter, na Alemanha, ou de La Blache, na França, em moldar uma disciplina que descrevesse a Terra, literalmente a Geo-Grafia. A filologia, nascida, a propósito, muito próxima a essa necessidade de dominar o conhecimento sobre a territorialidade, teve, desde seu nascimento, preocupação também com as línguas ou dialetos falados no espectro dos espaços geográficos. “A Grammatik der romanischen Sprachen”, “Gramática das línguas românicas”, de Meyer-Lübke, publicada em 1890, é um marco fundamental da filologia, e, em seu primeiro volume, falava de pronúncias ou sotaques, pois se debruçou sobre a fonética, nos moldes filológicos, que viriam a ganhar outros contornos no início dos anos 1920, com Mathesius, Trubetzkoy e Jakobson. Também Hugo Schuchardt escreveu sua obra pioneira atentando à fonética do latim vulgar. Tratava-se, no caso da filologia, da dialetologia, que foi precursora, como explicito em meu livro, das sociolinguísticas, como a conceberiam Hymes, Labov, Herzog, Weinreich. A língua que chegou à América já não era o latim vulgar nem o romanço galego-português, mas a língua portuguesa, obviamente numa fase arcaica, por exemplo, se seguirmos as balizas de Serafim da Silva Neto e Bechara. Aqui, do ponto de vista geopolítico, essa língua chegou à condição de colonizadora, porta-voz da metrópole, como superestrato, e encontrou falantes nativos em nosso território que viria a ser o Brasil, como substratos. Desse contato, nasceram os adstratos, que se somaram às demais influências também encontradas, posteriormente, no território brasileiro, como os negros, que vieram em condição de escravizados, mas trouxeram consigo a riqueza e a pluralidade das suas culturas linguísticas. Na Península Ibérica, os africanos também já haviam exercido influências no português ibérico, por exemplo, com os moçárabes de Magrebe a partir do século VIII, que conquistaram parte de Portugal e deixaram suas influências, que também foram trasladadas para a América. Muito do “pretuguês” de que nos fala Lélia Gonzales veio não apenas dos negros que chegaram ao Brasil, mas também de africanos que já estavam em território ibérico há séculos. Todo esse caldeamento sociocultural influenciou a língua portuguesa do Brasil, ao mesmo tempo em que foi influenciado por ela. As línguas moldam culturas. Bakhtin aponta que se trata do mais sensível indicador das mudanças sociais. Eu digo que a língua é a ponta de lança da cultura.

3. Pergunta: Ao analisar a deriva do português, como o senhor enxerga o eterno dilema entre a manutenção de uma unidade linguística mútua entre os países lusófonos e a inevitável fragmentação gerada pelos regionalismos e sotaques?

Resposta: A realidade empírica e material das línguas é a mudança contínua, não a estaticidade. Saussure já nos ensinava que “o rio da língua flui sem interrupção: que seu curso seja lento ou de torrente, é de importância secundária”. No entanto, dentro dessa diversidade, há uma unidade subjacente, que é positivada em compêndios formais do idioma, como o dicionário e a gramática normativa, a que Auroux chamava de “instrumentos de gramatização”, Faraco de “instrumentos normativos” e Orlandi de “instrumentos linguísticos”. Esses compêndios registram a norma culta e a norma-padrão da língua, prescrevem usos adequados para situações em que a formalidade e o registro tenso são exigidos, tanto na língua falada quanto na língua escrita, como, por exemplo, em gêneros, discursos e textos acadêmicos, diplomáticos, jurídicos, críticos, filosóficos, científicos, ensaísticos etc. A discursividade está sujeita aos fatores condicionadores que levam às variações e, dessas, em alguns casos (não em todos), à mudança. Existem infinitas variantes dentro do que convencionamos chamar no singular de língua portuguesa. A gramática normativa é uma das variantes dessa língua, e é heterônoma, monitorada, obedece a fins de políticas de língua. Já a pluralidade sociodiscursiva está à mercê dos usos e fazeres constitutivos das formações culturais em seus nascedouros, sendo esses usos e fazeres, por isso, autônomos, livres de coerções da norma-padrão, e obedecem às necessidades, desejos, anseios e esperanças dos povos e comunidades que os falam e escrevem. Ou seja, sempre haverá unidade na diversidade e diversidade na unidade, em sociedades multiculturais e complexas como as nossas, clivadas por estruturas de poder, atravessadas por várias revoluções industriais, por imperativos do neoliberalismo, por reações do proletariado e do Estado Social Democrático de Direito, pelas transformações do capitalismo ao longo dos séculos, pela passagem da sociedade de produção para a sociedade de consumo, pela pulverização dos poderes em grupos e assim por diante. Só se pode entender esse enigma da unidade e da diversidade em convívio na língua a partir das dialéticas, que não buscam reconciliar fatos equipolentes, mas extrair-lhes uma síntese, sempre provisória, pois as variações e mudanças continuam ininterruptamente, criando novas dialéticas necessárias com novas sínteses sucessivamente. 

4. Pergunta: O senhor afirma que a história, a antropologia e a geografia são conduzidas por discursos em constante "luta de classes". Como o português do Brasil reflete textualmente as vitórias, derrotas e resistências das classes subalternizadas ao longo dos séculos?

Resposta: Eu observo os fenômenos de língua e linguagem com a metodologia e teoria das dialéticas, especialmente as de Hegel e de Marx. Sem me aprofundar nas duas dialéticas, que se intercruzam (até porque Marx admite verbalmente ter sido motivado pela dialética hegeliana), Hegel e Marx viam no contraste constante de opostos conflitivos (uma tese e uma antítese) o fenômeno da ascensão de um liame entre estes (uma síntese), e concordavam em que esse processo de conflitos gerando “resoluções” temporárias é o motor da história humana. Apesar dessa concordância, em Hegel a ideia é a de que essa dialética leva à evolução da humanidade para um “Espírito do Mundo” (por isso sua obra se chama “Fenomenologia do espírito”), dotado de uma razão universal: trata-se do famoso idealismo hegeliano. Marx não acompanha esse idealismo, embora, como eu disse, admita que sua visão de dialética não existiria se não fosse Hegel. A dialética produz conhecimento a partir da correlação de elementos opostos, sem preconizar a eliminação do conflito. Como lembra Hannah Arendt, a dialética não destrói a doxa (o acúmulo de obras de reconhecido valor para o pensamento e o conhecimento), mas, pelo contrário, revela a doxa em sua complexidade e pluralidade. Então, as classes oprimidas, como diria Paulo Freire, ou subalternizadas, como você pontua, sempre estarão em contradição com as oligarquias detentoras do poder sociopolítico e socioeconômico. Interessante observar que, ao menos na realidade empírica material e histórica do Brasil, quem detém o poder sociocultural são justamente as classes oprimidas. Vejam-se as grandes manifestações culturais do Brasil e onde elas se situam: o carnaval, a música brasileira em geral, o nosso cinema, o nosso teatro, a literatura, quase sempre retratando as agruras do homem e da mulher do povo (ainda quando aparecem como burgueses ou pequeno-burgueses no romance de certas épocas e autores). Então, há sempre derrotas e vitórias, como teses e antíteses, que encontram sínteses provisórias e empurram as sociedades para outros níveis, mesmo que, eventualmente, cíclicos.

5. Pergunta: No texto, menciona-se que vozes indígenas, africanas e migrantes "guerrearam e se amalgamaram ao tronco latino". Como a filologia pode ajudar a resgatar essas vozes que muitas vezes foram gramaticalmente silenciadas ou marginalizadas pela norma culta tradicional?

Resposta: A filologia sempre se preocupou com os falantes nativos dos territórios posteriormente ocupados por falantes colonizadores. O próprio indo-europeísmo é um campo de estudos que busca resgatar as línguas faladas na Europa antes do advento de idiomas da chamada Antiguidade Clássica e, portanto, centralizadores, como o grego e o latim. A germanística, por exemplo, busca os troncos linguísticos que não recebem influências tão fortes das línguas soberanas como o grego e, principalmente, o latim. As três grandes famílias linguísticas europeias (“germes”, como diz Darcy Ribeiro) são a românica, a anglo-saxônica e a eslava. É claro que há muitas outras, mas essas são as que contemplam a maioria das línguas do continente europeu. Todas as línguas oriundas dessas famílias foram, em algum momento histórico, produtos de vozes silenciadas. Mas as línguas não se curvam a nenhum tipo de dogmatismo heterônomo. Elas escapolem das amarras que alguns lhes querem impor, e seguem suas derivas. No Brasil, muitos de nossos filólogos se preocuparam com as vozes que não estão na gramática normativa. Essa é uma tradição forte na filologia nacional. Nomes como Said Ali, Amadeu Amaral, Clóvis Monteiro, Mario Marroquim, Antenor Nascentes e muitos outros foram buscar a fala dos excluídos dos muros acadêmicos, marginalizados, periféricos, levando-os ao centro desses estudos e tornando-os hegemônicos. 

6. Pergunta: Sua postura intelectual recusa abertamente o "academicismo engessado e purista". Onde reside o limite ético e científico do filólogo entre preservar a memória e a estrutura histórica da língua e aceitar a soberania da fala popular contemporânea?

Resposta: Nós, acadêmicos, precisamos nos lembrar sempre de que fazemos parte de uma elite privilegiada no Brasil. Darcy Ribeiro fazia questão de recordar sempre isso. Quando falo contra o academicismo purista, quero dizer exatamente isso. O acadêmico, sobretudo o de ciências humanas, não pode se perder em castelos e torres de marfim enquanto a realidade fática do povo “é o beco”, rememorando nosso Manuel Bandeira. O filólogo deve ser, antes de um técnico, um humanista. A sua ética deve ter como farol exatamente esse parâmetro. Se sua pesquisa, baseada em textos e documentos, esbarra com evidências que desabonam parte do que até ali ele supunha uma conclusão filológica ou linguística, ele precisa ter a modéstia acadêmica, fundamental às ciências em geral, e reformular suas hipóteses. No direito, fala-se no princípio da primazia da realidade. Ele significa que, se a realidade foi contra a sua tese, refaça o seu caminho. O filólogo tem de fato o dever de guardar a memória escrita de um povo. Por isso a filologia e a gramaticologia são irmãs gêmeas. Eu só me considero gramático não porque publiquei três gramáticas, com edições desde 2007, mas porque sou antes disso um filólogo. Gramáticos e filólogos têm como objeto de estudo o texto escrito. Devemos, nesse ofício, preservar, sim, a memória, a língua padrão, a norma culta. Mas, voltando ao que eu disse no início, não podemos abstrair a realidade concreta do cotidiano sociodiscursivo, onde a língua falada corre nas bocas de todas as pessoas que compõem o imenso caleidoscópio brasileiro.  

7.Pergunta: Como pianista clássico premiado internacionalmente, o senhor lida com a matemática e a sensibilidade das partituras de Viena ou Paris. De que forma a estrutura do pensamento musical influencia o ritmo da sua prosa literária e o rigor da sua pesquisa filológica?

Resposta: A música, como você lembra, possui uma estrutura matemática implacável. O piano é um instrumento em que cada mão possui vozes, ritmos, melodias e harmonias distintos, o que o torna especialmente difícil. Eu estudo piano desde os 5 anos, e sempre em nível elevado. Às vésperas de concursos internacionais, entre os 13 e os 17 anos, eu chegava a estudar dezesseis horas por dia. E, para além desse domínio técnico, a música exige domínio emocional, expressivo, interpretativo, exige maturidade, calma, respiração, inspiração. Sem nenhuma dúvida eu sou influenciado pela música em geral, e pelo piano em particular, em absolutamente todas as tarefas a quem me dedico. Eu, diante do espelho, sozinho, na meditação das horas, sei que eu sou, no centro de tudo, um músico, um pianista. Tudo o que faço, penso, reflito orbita essa essência musical que me determina. E, numa confissão, considero-me privilegiadíssimo e muito bem-aventurado por ter nascido com a vocação que eu tenho para a música, porque ela é a forma mais perfeita de comunicação que as criaturas podem ter com a criação. Na música os mistérios se dissolvem, os véus dos enigmas se desfazem, todas as filosofias se respondem. A propósito, lembrei que Machado de Assis, em “Esaú e Jacó”, põe a personagem Flora tocando piano no momento em que se anuncia a proclamação da república, e diz que, ao que me lembro, a música apresenta a “vantagem de não ser presente, passado ou futuro”. Essa possível ironia machadiana pode perfeitamente ser lida como um exame verdadeiro da boa e grande qualidade da música, que é atravessar o campo efêmero e temporal das trações e contrações da comunicação verbal com uma visão simultaneamente mais distante e mais íntima, permitindo enxergar o que as entrelinhas do texto sozinhas não permitem.

8. Pergunta: Em sua tese de pós-doutorado na Dinamarca, o senhor publicou “Platão e Aristóteles na terra do sol”. Como o rigor racionalista da filosofia grega clássica sobrevive ou se ressignifica quando confrontado com o sincretismo, o calor e os paradoxos da cultura brasileira?

Resposta: Uso Platão e Aristóteles como metonímias respectivamente do intelectual que se coloca à distância da realidade (Platão) e aquele que vai ao encontro dessa realidade como ela é (Aristóteles). É uma crítica ao academicismo, num modelo um pouco nietzschiano, exatamente retornando àquele ponto em que mostro que o academicismo tem uma tendência de se insular, alheando-se à realidade das classes trabalhadoras, operárias, proletárias, mesmo quando se trata de pesquisadores de ciências humanas. É preciso ser humanista, repito. E o platonismo é a vertente que retira parcela do humanismo dos estudiosos de humanidade. Lembremos que a Academia foi a instituição fundada por Platão. Ela segue, ainda, em muitos casos, seu fundador, distanciando-se do plano das “coisas”, pois são consideradas degenerações das “ideias”, e distanciando-se ainda mais do plano da representação das coisas, que são o que Platão chamou de “simulacro”. Whitehead diz que toda a filosofia ocidental não passa de notas de rodapé de Platão. É sobre isso que falo neste livro. Numa realidade policromática como a brasileira, ser platônico equivale a sonegar totalmente a realidade dos fatos da vida como ela é. Veja bem, não é uma crítica à filosofia de Platão em si, muito menos à Academia em si, cujas funções são cada vez mais indispensáveis como contraponto à loucura da vida estilhaçada da pós-modernidade. E também é preciso lembrar que o par Sócrates-Platão fundou, por muitos ângulos, a dialética de que Hegel e Marx se valeram, que intelectuais importantes usam como método e teoria. O que critico sobre Platão é a aplicação que se lhe deu a partir de leituras exatamente puristas e engessadas, como eu critico, por parte de alguns acadêmicos, que preferem manter-se confortável e assepticamente distantes dos ruídos, manchas e fragmentos que compõem, como um mosaico, a realidade concreta. Aristóteles se dissociou de seu Mestre Platão, a quem seguiu por décadas, principalmente por discordar dele justamente nesse ponto. Para Aristóteles, por exemplo, a representação da realidade, que Platão refutava como simulacro, está descrita na Arte Poética. Ao estender o Logos platônico ao Ethos e ao Pathos, totalmente ligados à materialidade das pessoas em coletividades ou subjetividades, Aristóteles se consagrou como um dos pais das ciências, interessando-se por aquilo que Platão repudiava. Essa dialética existe na cultura brasileira desde as suas fundações, antes mesmo de os portugueses chegarem. Somos sincréticos, platônicos e aristotélicos, sagrados e profanos, urbanos e rurais, eruditos e populares, chiques e cafonas, cosmopolitas e regionais.

9. Pergunta: O senhor transita do alemão e francês até as filologias do russo, mandarim e sânscrito. Dominar estruturas de pensamento tão radicalmente distintas altera a sua percepção sobre as potências e as limitações específicas da língua portuguesa?

Resposta: Sim, muito. Cada língua possui categorias próprias, como diriam Aristóteles, Sapir, Wittgenstein, Coseriu, Mattoso Câmara Jr. Em linhas muito simples, posso dizer que uma categoria linguística é algum conteúdo cuja expressão (para usar o binômio de Hjelmslev) é necessária e possível. O dúplice critério de necessidade e possibilidade perfaz uma categoria. Às vezes, o conteúdo do sistema de uma língua (ou seu paradigma, para recorrer agora a Saussure) necessita expressar algo, mas não encontra meios ou possibilidades. Às vezes, ao contrário, é possível expressar algo, mas algo que não se mostra necessário naquela língua. Assim, ao conhecer outras línguas, de famílias e procedências tão díspares, eu consigo entender que as categorias de uma língua não necessariamente possuem correlatos com outras línguas. Em inglês, por exemplo, o gênero só precisa ser mostrado por um único artigo (“the”), já em português possuímos um artigo masculino e um feminino. Em alemão, além de haver também um artigo neutro (”das”), os gêneros das palavras não coincidem, quase nunca, com os das palavras em português. Este é, sem dúvida, um dos problemas dos tradutores: levar ao plano da expressão de uma língua, categorias que, nos planos do conteúdo e expressão de outra língua, não encontram correspondências com a língua vertida ou traduzida. Em resumo, conhecer línguas e filologias distintas permite, sim, observar a língua portuguesa com seus limites e potências, Érgon e Enérgon, como diria Humboldt.

10. Pergunta: Escrever mais de 60 obras e receber o reconhecimento da ONU, UNESCO e ABL exige uma disciplina criativa quase ascética. Qual é o seu método de organização mental para fazer dialogar o Marcelo cientista da linguagem com o Marcelo artista da ficção e da música?

Resposta: É preciso ter muito foco para se fazerem muitas coisas com algum nível de qualidade. Eu talvez tenha tido uma educação formal muito rígida, porque estudei no Brasil e na Bélgica em escolas muito rigorosas. No meu caso, considero excelente essa formação, porque me obrigou, desde muito cedo, a saber, gerenciar meu tempo. Além disso, minha dedicação ao piano desde muito criança exigiu toda a minha disciplina. Eu, além disso, estudava idiomas, como alemão, inglês, francês, espanhol. Meus pais sempre foram primorosos em me oferecer toda essa sorte de conteúdos. Talvez meu único mérito tenha sido saber aproveitar. Na época de faculdade, eu comecei letras e, depois, comecei direito. E psicanálise. E à medida que eu ia entrando nessas atividades, eu não ia deixando nada para trás. Nunca deixei o piano, sempre me mantive ativo em recitais e assim por diante. Eu atribuo a esses fatores a minha organização para lidar com tantas esferas tão exigentes sem precisar deixar de viver uma vida feliz, prazerosa, leve.

11. Pergunta: Seu livro conta com o prefácio do professora Evanildo Bechara e orelha do professor Ricardo Cavaliere, seus confrades na Academia Brasileira de Filologia. Como foi o processo de debate intelectual com esses dois gigantes da nossa língua durante a gestação desta obra?

Resposta: Eu fui aluno do professor Cavaliere no doutorado da UERJ e do professor Bechara no mestrado também na UERJ (na época, como ouvinte), e de filologia portuguesa na mesma UERJ. Bechara foi minha inspiração para escrever as gramáticas que publiquei. Li as obras dele várias vezes, do início ao fim, como se fosse um romance. As obras de Cavaliere são também importantíssimas. Tive o privilégio de dividir capítulos em livros com ambos, mais de uma vez. Também tivemos sempre uma ótima convivência na Academia Brasileira de Filologia e nos eventos acadêmicos. Recentemente, Cavaliere e eu demos palestras em parceria na UERJ e UFF sobre obra de Said Ali organizada por Thaís de Araujo Costa, da UERJ. Especificamente quanto a este livro, assim que eu o terminei, a primeira pessoa que procurei foi o Bechara, para saber sua opinião. Ele recebeu o manuscrito e em apenas uma semana me respondeu com sua generosidade de sempre endossando a obra e elogiando-a muito pelo meu método pancrônico de abordar o tema e por eu ter escolhido a morfologia, sobretudo a verbal, para descrever a geo-história da língua. O prefácio, ele escreveu espontaneamente. Bechara foi, como ele mesmo diz no prefácio, o primeiro leitor do livro. O Cavaliere viu a obra depois de pronta e também lhe endereçou elogios, que ele registrou na orelha do livro, compondo a sua fortuna-crítica.    

12. Pergunta: Em uma era de comunicação hiperveloz, fragmentada e dominada por algoritmos, qual deve ser o papel de instituições como a Academia Brasileira de Letras e a Academia Brasileira de Filologia para garantir que a profundidade do pensamento crítico não se perca?

Resposta: As Academias são verdadeiros templos de humanismo em tempos em que a humanidade vem sendo cada vez mais precificada por imensos conglomerados econômicos cuja comunicação se dá exatamente do modo hiperveloz que você menciona. Assim como a língua é a síntese da diversidade na unidade e da unidade na diversidade, a Academia desempenha o papel de servir como contraponto dialético á lógica neoliberal de consumo que tomou conta de nossa sociedade, sequestrando esse mesmo pensamento dialético, reflexivo, crítico, humanista, empático, que não pode se dar na hipervelocidade, mas, ao contrário, necessita de tempo de amadurecimento e germinação. As Academias, seguindo o lado excelente de que Platão, seu fundador, dispunha, como um dos fundadores da dialética como forma de produzir conhecimento vigoroso e perene, é a grande assembleia dos diálogos, da dialética, do debate qualificado, do respeito à tradição, no sentido de lastro ancestral para quaisquer culturas, erudita ou popular. A Academia é a chama acesa de Voltaire, D´Alembert, Diderot, Montesquieu, Rousseau, Da Vinci, Mirandola.

13. Pergunta: O título da sua palestra fala em passado e presente para explicar a nossa "(multi)cultura". O sincretismo brasileiro é uma obra inacabada ou o senhor acredita que já temos uma identidade linguística e antropológica madura e consolidada?

Resposta: A cultura sempre será uma obra inacabada, porque parte de dialéticas entre teses e antíteses que geram sínteses sempre transitórias. Por isso as culturas se movimentam e por isso são multifacetadas. O sincretismo brasileiro, que eu abordo neste livro com o conceito que cunhei de “sincretismo filológico”, é consequência daquele caudal de influências, subjetividades, poderes, políticas, relações discursivas que nos formam e que nós próprios, como coletividade, ajudamos a formar. A nossa identidade está justamente nesse processo, nesse caminhar constante, que são causa da nossa imensa maturidade antropológica enquanto nação, povo, coletividade.  

14. Pergunta: O ciclo "Quinta é Cultura" fará uma transição da sua palestra filológica para uma análise de “Morte e Vida Severina” no Pará. Como a secura e a precisão da linguagem de João Cabral de Melo Neto conversam com a sua tese de que a geografia e a antropologia moldam o dizer brasileiro?

Resposta: João Cabral é um dos meus poetas favoritos, justamente porque soube traduzir em palavras as vicissitudes de seu território natal, sem enfeites. Volto a Milton Santos, nosso genial intelectual, para quem cultura e territorialidade são sinônimos. Na Comunidade Europeia, há 24 línguas oficiais, sem contar as variantes, dialetos etc. O alemão oficial da Áustria, da Suíça, da Alemanha e da Bélgica é diferente um do outro. Como o Brasil, com a dimensão que o caracteriza, seria uniforme em suas expressões da mesma língua portuguesa? Seria um contrassenso. A filologia tem como fato consensual, sem grandes controvérsias, que a antropologia e a geografia participam ativamente dos processos de variações e mudanças nas línguas.

15 - Pergunta: Ao final da leitura de “Língua Portuguesa: geo-história filológica do latim ao presente”, qual é a principal provocação ou inquietação que o senhor espera ter plantado na mente dos estudantes e pesquisadores que forem lhe ouvir na ABL?

Resposta: Creio que é preciso compreender que a filologia e a gramática não são “inimigas” do falar popular e de suas manifestações espontâneas. São apenas dois lados da mesma moeda chamada língua. Os estudos de discursividade e os estudos gramaticológicos e filológicos oferecem ao estudioso de língua e linguagem mananciais riquíssimos de material teórico, empírico, metodológico e prático. A filologia e as atividades sociodiscursivas sincrônicas andam de mãos dadas, porque tratam como objeto ulterior do mesmo fenômeno: a língua. Disputas entre defensores puristas de língua oral, de um lado, ou de língua escrita, de outro, parecem alheios à realidade material concreta das línguas. A união dessas duas perspectivas básicas é o objetivo deste meu livro, para mostrar que geo-história se casa perfeitamente com prismas sincrônicos e diacrônicos, formais e funcionais.

16- Pergunta: Sua trajetória evoca o humanismo clássico: são mais de 60 livros, prêmios internacionais de piano, o domínio de línguas ancestrais como o sânscrito. Olhando para trás, onde nasceram as raízes dessa curiosidade universal? Foi a música que te levou à filologia, ou foi o encanto pelas palavras que te abriu as portas dos palcos do mundo?

Resposta: Como eu disse, se há uma única qualificação que me atribuo é a de músico, ou melhor ainda, pianista. Foi a música que sempre me guiou para buscar além do tangível. Tenho também um trajeto no direito e na psicanálise, também eternos works in progress, campos com que eu sempre busco dialogar em minhas pesquisas sobre língua, linguagem, literatura. Além disso, sou romancista e poeta, com prêmios bastante importantes, se me permite pôr a modéstia à parte, como o prêmio de poesia Paulo Henriques Brito, da PUC-Rio, Globo Universidade, Editora Record, o prêmio de poesia do Patrimônio Fluminense, da Fundação Biblioteca Nacional, Fundação Osvaldo Cruz, Jardim Botânico do Rio, Museu Imperial de Petrópolis, o prêmio de poesia da Fundação Guttemberg, SESI, FIRJAN, da Bienal Internacional de Literatura do Rio de Janeiro, o de melhor obra acadêmica, com uma das edições da minha gramática, no prêmio Claudio de Sousa, acadêmico da Academia Brasileira de Letras e fundador do PEN Clube do Brasil, do qual sou membro, recebi por dois anos consecutivos o prêmio de melhor ensaio promovido pela Academia Brasileira de Letras, ONU e UNESCO, recebi a Médaille de Vermeil do governo francês, por minha atuação como escritor e pianista.

No piano, fui vencedor de concursos internacionais em São Paulo, Córdoba, Paris e Viena. Digo isso para mencionar que eu sempre mergulhei com imensa profundidade em todas as atividades em que laboro. E, voltando à pergunta, sim, foi a música que abriu para mim um horizonte infinito de possibilidades que eu, com a curiosidade que você menciona, decidi velejar para sempre. Estudar e escrever são as duas atividades que mais me completam, porque aprender é a maior entre as graças universais. Como dizia Paulo Freire, até o último dia de nossas vidas, continuamos nos alfabetizando.

 O ECO DO VERBO E A PERENIDADE DO SABER

Ao término desta jornada intelectual, o sentimento que prevalece não é o de um ponto final, mas o de uma abertura para o infinito. Ler Marcelo Moraes Caetano é compreender que a erudição, quando genuína, deságua em generosidade. Suas respostas não se encerram na rigidez dos conceitos; antes, expandem-se como ondas sonoras, onde a exatidão do filólogo se submete à sensibilidade do pianista e à escuta atenta do psicanalista. Diante de nós, o que se revelou não foi apenas o retrato de um polímata contemporâneo, mas a certeza de que o humanismo permanece vivo, pulsante e necessário como um farol contra a dispersão dos nossos dias.

Neste crepúsculo tecnológico, onde a pressa muitas vezes ameaça a profundidade do pensamento e a Inteligência Artificial tensiona as fronteiras da linguagem, a trajetória de Marcelo nos recorda as nossas raízes mais profundas. Sua obra e sua vida testemunham que a palavra humana carrega uma arqueologia sagrada, moldada por dores, lutas, ritmos e afetos que máquina alguma é capaz de replicar. O idioma, sob a sua ótica filológica, é um organismo vivo que respira a nossa própria história.

Terminamos este encontro com o olhar voltado para o horizonte que ele insiste em desbravar. Marcelo Moraes Caetano continua a içar suas velas, movido por aquela curiosidade universal que transforma o ato de aprender na maior das graças. Ele nos deixa uma partitura de esperança e rigor: a de que o intelecto e a arte, quando unidos em profundidade vertical, são as ferramentas mais nobres que possuímos para compreender quem fomos, decifrar quem somos e desenhar, com precisão e poesia, o amanhã. Fica o convite ao leitor para que revisite estas linhas não como respostas definitivas, mas como um mapa para as suas próprias travessias culturais.

© Alberto Araújo

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BIOGRAFIA DE MARCELO MORAES CAETANO

Navegar pela imensidão do saber humano não é um acúmulo de títulos, mas um estado de espírito. Para Marcelo Moraes Caetano, o estudo e a escrita não se dividem em gavetas acadêmicas; são as duas atividades vitais que se completam na busca pela maior entre as graças universais: o ato de aprender. Psicanalista, filólogo, escritor e pianista clássico, ele escolheu velejar para sempre em um oceano onde a ciência da linguagem, as profundezas da mente e o rigor da harmonia musical são correntes que se alimentam mutuamente. Afastando-se da pressa e da fragmentação contemporâneas, sua trajetória se define pelo mergulho vertical. Nela, decifrar o verbo, escutar o inconsciente e dedilhar o marfim não são ofícios distintos, mas a tradução de uma mesma e inesgotável curiosidade universal.

No cerne de sua produção acadêmica habita uma devoção inabalável à memória e à evolução das línguas. Como Professor Associado de Língua Portuguesa e Filologia Românica da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e coordenador do Centro Filológico Clovis Monteiro (CEFIL-UERJ), Marcelo atua na vanguarda da preservação e do estudo científico do idioma. Sua trajetória na docência também registrou sua passagem como professor adjunto do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (CAp-UERJ), espaço vocacionado à excelência pedagógica de onde posteriormente pediu exoneração para se dedicar inteiramente aos novos horizontes de sua pesquisa.

Sua autoridade no campo da linguística e da filologia é referendada por sua presença em algumas das mais prestigiosas instituições do país e do exterior. Ele ocupa a Cadeira 38 como membro efetivo da Academia Brasileira de Filologia, além de integrar o PEN Clube do Brasil (Rio-Londres) e a tradicional Academia Fluminense de Letras, onde é o titular da Cadeira 18. O reconhecimento de seu papel como guardião da herança humanística atravessou fronteiras, conferindo-lhe assento na Académie des Arts, Sciences et Lettres de Paris e na Academia de Letras y Artes de Chile.

A produção escrita de Marcelo no campo da linguística e do direito é vasta e pedagógica, buscando desmistificar o idioma sem subtrair sua erudição. Em sua bibliografia técnica, destacam-se os volumes de Morfologia da Língua Portuguesa, o celebrado tratado Uma gramática normativa - sem preconceito e sem trauma, e suas incursões na intersecção entre o discurso e a lei, expressas nas obras Princípios de argumentação jurídica: A Lógica e a Retórica e Argumentação jurídica: indo além das palavras (esta em coautoria com Alexandre Chini). Por esses e outros estudos, recebeu o Prêmio Claudio de Sousa, outorgado por acadêmicos da Academia Brasileira de Letras, na categoria de melhor obra acadêmica por uma das edições de sua gramática.

Se a palavra escrita confere contorno ao pensamento de Marcelo Moraes Caetano, foi a música clássica que abriu para sua vida um horizonte infinito de possibilidades. É no piano que o rigor matemático da métrica encontra o lirismo mais puro. Vencedor de concursos internacionais de piano desde os 14 anos de idade, sua técnica e sensibilidade interpretativa o levaram a palcos das Américas e da Europa.

Seu nome inscreveu-se na história da música instrumental ao vencer o renomado Concurso Internacional Solistas Instrumentistas Ciudad de Cordoba em 1989, e ao conquistar o exigente 2º lugar no Concurso para Solistas da Orquestra Sinfônica de Viena, na Áustria, em 2010, além de premiações em certames de São Paulo e Paris. A música, portanto, não surge em sua biografia como um adorno estético, mas como a chave mestra que afinou seu ouvido para a precisão rítmica das palavras e para as sutilezas do silêncio.

Autor prolífico com mais de 60 livros publicados no Brasil e no exterior, Marcelo Moraes Caetano transita livremente entre a prosa ficcional de fôlego e a poesia de alta voltagem lírica. No romance Os arcanjos, o autor demonstra seu domínio da tessitura narrativa; já na coletânea Silêncio, ele depura a linguagem até encontrar a essência poética do intangível. Essa faceta literária foi amplamente coroada por importantes láureas nacionais, incluindo o Prêmio de Poesia Paulo Henriques Brito da PUC-Rio, o Prêmio Globo Universidade, distinções da Editora Record, o Prêmio de Poesia do Patrimônio Fluminense, e reconhecimentos concedidos pela Fundação Biblioteca Nacional, Jardim Botânico do Rio de Janeiro, SESI, FIRJAN e pela Bienal Internacional de Literatura do Rio de Janeiro.

Paralelamente, a busca de Marcelo pela compreensão do humano o conduziu à clínica e à teoria psicanalítica. Como psicanalista, dedica-se a decifrar o sofrimento e as complexidades da vida contemporânea. Essa intersecção entre mente, sociedade e comportamento gerou obras seminais como Freud e psicanálise: primeiros contatos com a teoria e a prática clínica e o instigante livro Em busca do novo normal: Reflexões sobre a normose em um mundo diferente, onde investiga a patologia da normalidade rígida em uma sociedade em constante mutação.

O ecletismo de sua genialidade, que abarca também a atuação como roteirista e tradutor fluente de sete idiomas clássicos e modernos (inglês, francês, alemão, espanhol, italiano, latim e grego), além de investigador das filologias russa, mandarim e galega, rendeu-lhe consagrações de alcance global. Suas obras foram premiadas e reconhecidas por organismos internacionais como a ONU e a UNESCO, além de receber por dois anos consecutivos o prêmio de melhor ensaio promovido por essas entidades em parceria com a Academia Brasileira de Letras. Suas teses e criações receberam distinções de universidades e centros de pesquisa de grande prestígio, tais como a UFRJ, PUC-Rio, Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Fundação Casa de Rui Barbosa, Museu Imperial de Petrópolis, Museu Nacional e o Kendall College Chicago.

Em 2011, o conjunto de sua atuação luso-brasileira e sua projeção na Europa foram celebrados pelo governo francês com a concessão da Médaille e da distinta Comenda de Vermeil de Paris, selando em definitivo seu nome entre os grandes polímatas e humanistas do nosso tempo. Marcelo Moraes Caetano permanece, assim, içando velas rumo ao desconhecido, movido pela certeza de que escrever, tocar e compreender são as formas mais nobres de perenizar a travessia humana.


ALGUMAS DE SUAS OBRAS DE DESTAQUE INCLUEM:

 

Obras de Linguística, Filologia e Argumentação

Morfologia da Língua Portuguesa – Volume 1 e 2

Princípios de argumentação jurídica: A Lógica e a Retórica

Uma gramática normativa - sem preconceito e sem trauma

Argumentação jurídica: indo além das palavras (com Alexandre Chini)

Psicanálise e Comportamento

Freud e psicanálise: primeiros contatos com a teoria e a prática clínica

Em busca do novo normal: Reflexões sobre a normose em um mundo diferente

Literatura, Poesia e Ficção

Os arcanjos (romance)

Silêncio (poesia)

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Biografia de Marcelo Moraes Caetano 

feita exclusivamente para essa postagem

© Alberto Araújo

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ALGUNS MOMENTOS DE MARCELO MORAES CAETANO

NO CENÁRIO CULTURAL

 

Carlos Nejar e Marcelo Caetano



Marcelo Caetano em Bruxelas
Lilia Moritz Schwarcz e Marcelo Caetano
Ex-Ministro do STF Luis Roberto Barroso  
e Marcelo Caetano

Antonio Carlos Secchin e Marcelo Caetano



Marcelo Caetano e Evanildo Bechara

Com a Nélida Piñon, em 2005, na Academia Brasileira de Letras. Em 2005 e 2006 foi um dos vencedores, duas vezes consecutivas, do concurso de ensaios da ONU-UNESCO e ABL. Nas ocasiões, como parte do prêmio, foi a Paris, à sede da UNESCO. Os dois ensaios que escreveu nessas épocas foram traduzidos para o inglês e o francês, e distribuídos em centenas de bibliotecas da ONU e da UNESCO pelo mundo.

Haroldo Costa com Marcelo Caetano

Marcelo com Ana Maria Machado, quando ingressou no PEN Clube do Brasil, em 2000, levado pelo Mestre Antonio Carlos Secchin.

Com o João Portinari, filho único do gênio Candido Portinari


Quando o seu ingresso e atual professor associado UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Com o Mauro Villar, coautor do "Grande dicionário Houaiss", junto com o próprio Antonio Houaiss,

Com o José Roberto de Castro Neves, membro da Academia Brasileira de Letras, seu colega da PUC-RIO e da UERJ, editor de várias obras que escreveu com o Alexandre Chini publicadas pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Federal, Instituto Justiça e Cidadania.

Com a Myrian Dauelsberg, sua eterna Professora de piano.

Durante a XXXV Conferência do Elos Internacional 2025

Com a Ministra Cármem Lúcia do STF

Marcelo exibe o busto de LISZT em carrara

Com a soprano Magda Belloti, sua confreira da Academia Fluminense de Letras, cantando para homenagear Maria Lucia Godoy, que aconheceu quando tinha aulas de piano com a Myrian Dauelsberg, Um passeio por Edino Krieger, Francisco Mignone (conheceu tanto os dois em sua infância), além de Lorenzo Fernandez, Villa-Lobos e verdadeiros diamantes do cancioneiro popular brasileiro.






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