Por
intermédio da postagem do professor Marco Antônio Martins Pereira em sua página
no Facebook, somos convidados a uma reflexão necessária sobre um pilar da nossa
cultura: Joaquim Maria Machado de Assis. Em suas palavras, o professor
estabelece uma distinção cirúrgica e fundamental: "Machado de Assis não é
um escritor contemporâneo, mas é um escritor atual".
Essa
provocação inicial serve como um portal para compreendermos que a obra do
"Bruxo do Cosme Velho" não se submete às veleidades das modas
literárias ou às efemeridades dos calendários. Enquanto o contemporâneo, por
vezes, busca o frescor da novidade imediata, o atual, na acepção machadiana, é
aquilo que, mesmo vindo do século XIX, permanece pulsante, inquietante e
revelador sobre a condição humana em qualquer tempo.
O
professor Marco Antônio aponta, com precisão, que o lugar de Machado na
literatura brasileira norteia o que ele chama de "a convergência na
divergência". Machado é o ponto onde todas as tensões da literatura
brasileira se encontram e, simultaneamente, se dispersam.
Verdade,
O professor Marco Antônio quer dizer que Machado não tentou resolver as
contradições do Brasil. Ele não finge que o país é coeso ou simples. Ele coloca
essas contradições na mesa, de forma brilhante, fazendo com que a obra dele seja
um espelho fiel de um país, e de um ser humano, que nunca é uma coisa só. Ele
é, ao mesmo tempo, o ápice do realismo e o prenúncio de uma modernidade que só
viria a ser plenamente compreendida décadas após sua morte.
Em
sua escrita, o clássico e o inovador convergem. Sua prosa, lapidada com a
precisão de um ourives, permite a divergência de interpretações: o leitor que
busca o entretenimento encontrará o sarcasmo fino; o crítico que busca a
análise sociológica encontrará a denúncia das entranhas do Segundo Reinado; o
filósofo que busca o sentido da existência encontrará o vazio niilista de um
Brás Cubas.
Ao
citar o "anacronismo do crítico", o professor nos lembra de um perigo
constante: tentar reduzir Machado às pautas urgentes do presente sem observar a
arquitetura complexa de seu tempo. Contudo, ele é assertivo ao destacar a
significação do primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras.
A
"significação" de Machado não vem de uma leitura superficial que
tenta torná-lo um contemporâneo nosso, como se ele fosse um autor do século XXI
escrevendo sobre as nossas redes sociais. A grandeza dele está justamente em
ter sido tão profundamente fiel ao seu próprio tempo que, ao dissecar aquele
mundo, ele acabou descobrindo as leis universais que regem a alma humana em
qualquer era.
O
professor, portanto, nos dá uma aula de humildade intelectual: certamente nos
convida a ler Machado com o respeito que se deve a um gigante, sem tentar
adaptá-lo ao seu tamanho, mas permitindo que ele aumente o tamanho da sua visão
sobre a vida.
Machado
não foi apenas um observador; ele foi o arquiteto de uma identidade literária
nacional que não se curvava ao servilismo colonial, mas que dialogava, de igual
para igual, com os gigantes do cânone europeu. A relevância da sua obra reside
justamente em sua recusa em ser apenas um espelho do seu tempo.
Ao
ser o "Bruxo do Cosme Velho", Machado operou um feitiço literário
onde o particular, o Rio de Janeiro da escravidão, das casas burguesas, das
repartições públicas se tornava o universa, a vaidade, a luxúria, o cinismo, a
dúvida.
A
permanência de Machado no Brasil e no exterior, como bem pontuou o professor,
não é obra do acaso. Ela repousa sobre dois pilares, conforme destaca a
postagem: a universalidade e a multi-significação.
Machado
entendeu, antes de muitos, que o Brasil não era um exótico apêndice do mundo,
mas um laboratório da alma humana. Suas feridas eram as mesmas de Shakespeare,
de Cervantes, de Dante. Ao escrever sobre as relações de poder, ele descreveu a
natureza humana em toda a sua crueza.
A
obra machadiana é uma cebola de significados. Você retira uma camada e encontra
uma crítica social; retira outra, e encontra um estudo psicológico profundo
sobre a negação do eu; retira mais uma, e encontra uma estrutura narrativa
lúdica que desafia o leitor a ser, ele mesmo, um coautor do texto.
Dizer
que Machado de Assis é atual é reconhecer que, sempre que abrirmos Dom
Casmurro, seremos confrontados com a dúvida, a nossa própria dúvida. Sempre que
lermos Memórias Póstumas de Brás Cubas, seremos espelhados pela ironia do
"defunto autor". Sempre que percorrermos as páginas de Quincas Borba,
veremos a luta inglória entre o "vencido e o vencedor" que rege as
relações humanas até hoje.
O
professor Marco Antônio Pereira, em sua análise, não nos entrega apenas um
elogio a um autor clássico; ele nos entrega um roteiro de leitura. Machado é o
escritor que sobrevive ao tempo justamente porque nunca tentou ser "do
tempo". Ele foi do tempo da alma, e é por isso que, enquanto houver
humanos capazes de olhar para si mesmos e, em um momento de honestidade,
reconhecer o seu próprio ridículo e a sua própria glória, haverá sempre um
livro de Machado de Assis à espera.
Como
bem encerra a reflexão, Machado é, ao mesmo tempo, respeitado e contraditório.
É essa contradição que nos mantém vivos enquanto leitores, que nos impede de
fechar o livro com a certeza de quem compreendeu tudo, forçando-nos a retornar
à leitura, repetidas vezes, em busca daquele detalhe que escapou e que, talvez,
seja a chave para nos entendermos um pouco melhor.
Esta
análise baseia-se na provocação intelectual do professor Marco Antônio Pereira,
cujo olhar sobre a obra de Machado de Assis reafirma que a literatura, quando é
arte, não envelhece: ela simplesmente aguarda o leitor certo, na hora certa, para
revelar o que sempre esteve lá.
MACHADO
DE ASSIS
Escritor,
jornalista, tipógrafo, abolicionista, funcionário público, fundador da Academia
Brasileira de Letras.
Filho
do pintor e decorador Francisco José de Assis e da açoriana Maria Leopoldina
Machado da Câmara, ambos negros livres, Joaquim Maria Machado de Assis nasceu
na cidade do Rio de Janeiro (RJ), no dia 21 de junho de 1839, em uma chácara no
Morro do Livramento. Seus padrinhos foram Joaquim Alberto de Sousa da Silveira e
dona Maria José de Mendonça Barroso, os proprietários do imóvel. Seus pais eram
agregados na chácara e moravam nos limites do terreno. Machado de Assis passou
toda sua infância na região do Livramento e teria sido alfabetizado nesse
período por sua própria mãe.
Maria
Leopoldina, no entanto, faleceu em 1849, quando Machado tinha apenas 10 anos,
provavelmente vítima da tuberculose. Seu pai, então, casou-se novamente com
Maria Inês da Silva e mudou-se com Machado para um sobrado localizado na rua
São Luiz Gonzaga, no bairro de São Cristóvão (RJ). Entre 1854 e 1855, quando
tinha 15 anos, Machado se mudou para o Centro da cidade e já assegurava seu
próprio sustento. Nesses anos o jovem publicou seus primeiros textos: o soneto
“À Ilma. Sra. D.P.J.A.” no Periódico dos Pobres, os poemas “A palmeira” e
“Ela”, no periódico Marmota Fluminense e o conto “Três tesouros perdidos”.
Em
1856, se tornou tipógrafo na Imprensa Nacional e lá conheceu Manuel Antônio de
Almeida, escritor que se tornaria seu protetor e amigo. Por intermédio de
Almeida, Machado passou a atuar como revisor e colaborador do periódico Correio
Mercantil. Nesse período, ele também teria aprofundado uma relação de amizade
com o padre-mestre Silveira Sarmento. Para alguns biógrafos, Silveira Sarmento
teria sido uma espécie de tutor de Machado, dando ao jovem lições de português
e francês. Em 1859, o jovem escritor publica os textos “O jornal e o livro”,
“Aquarelas” e “A reforma pelo jornal”.
Através
da relação com Manuel Antônio de Almeida, Machado construiu forte amizade com
Quintino Bocaiúva e Francisco Octaviano. Em março de 1860, Machado passou a
fazer parte da redação do Diário do Rio de Janeiro, que tinha Bocaiúva como
redator. Na época, o escritor também colaborava com periódicos como Correio Mercantil,
Semana Illustrada, Jornal das Famílias, O Futuro e a revista O Espelho – onde
escrevia como crítico teatral. O primeiro livro de Machado foi publicado em
1861 e consistiu na tradução de “Queda que as mulheres têm para os tolos”, do
belga Victor Hénaux. Entre este ano e 1862, Machado participou de disputas
eleitorais. E, em 1864, publicou “Crisálidas”. Em 1867 – durante a Guerra do
Paraguai, foi ajudante do diretor de publicação do Diário Oficial. E dois anos
depois, em 1869, Machado casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais –
portuguesa e irmã de seu amigo Faustino Xavier Novais.
Em
1870, Machado publicou “Falenas” e Contos fluminenses. Dois anos depois, em
1872, Machado publicou o romance Ressurreição. Em 1873, foi nomeado primeiro
oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras
Públicas. Neste mesmo ano publicou Histórias da meia-noite. Em 1874, tem o seu
romance A mão e a luva publicado em folhetins no periódico O Globo e também
atua como colaborador nos periódicos O Cruzeiro, A Estação e Revista
Brasileira. Em 1875, publicou a poesia indianista “Americanas”. E nos anos de
1876 e 1878, publicou os romances Helena e Iaiá Garcia. É neste período,
igualmente, que apresentou os primeiros sintomas da epilepsia e passou uma
temporada em Nova Friburgo por recomendação médica. Em 1880, recebeu o convite de
Pedro Luís Pereira de Sousa, ministro interino da Agricultura, Comércio e Obras
Públicas para assumir o cargo de oficial de gabinete. Já no ano seguinte,
publicou o afamado Memórias póstumas de Brás Cubas, que esteve nas páginas da
Revista Brasileira entre março e dezembro de 1880. Em 1882, produziu Papéis
avulsos e outras coletâneas de contos.
Das
trocas estabelecidas entre os membros da Revista Brasileira, nasceu a ideia da
criação da Academia Brasileira de Letras. Expressivo nome na concepção de
criação da Academia, quando de sua criação, em 1881, Machado foi eleito
presidente da instituição. Nesse período, as crônicas de Machado eram
recorrentes na Gazeta de Notícias. Em 1884, se mudou juntamente com sua família,
para a Rua Cosme Velho, no bairro das Laranjeiras. No ano seguinte, foi
promovido à Diretoria do Comércio no Ministério da Agricultura. Em 1892,
recebeu mais uma promoção, se tornando diretor-geral da Viação da Secretaria da
Indústria e Obras Públicas. Em 1899, publicou Dom Casmurro e, em 1904, Esaú e
Jacó. Nesse mesmo ano, falece sua esposa, o que agravou a situação de saúde do
escritor.
Machado
faleceu em 29 de setembro de 1908 em sua residência, na Rua Cosme Velho,
amparado pelos amigos Graça Aranha, Mario de Alencar, José Veríssimo, Raimundo
Corrêa, Coelho Neto, Rodrigo Otavio e Euclides da Cunha. É considerado um dos
maiores escritores de toda literatura portuguesa.
PRINCIPAIS
PUBLICAÇÕES
Obras
e publicações ver:
https://machado.mec.gov.br/#obraCompleta
“O
passado, o presente e o futuro da literatura” (1858)
“Aquarelas”
(1859)
“Revista
dos teatros” (1859)
“Ideias
sobre teatro” (1859)
A
reforma pelo jornal (1859)
“O
jornal e o livro” (1859)
“A
crítica teatral. José de Alencar: Mãe” (1860)
Revista
Dramática (1860)
“Hoje
avental, amanhã luva” (1860)
“Desencantos”
(1861)
“Flores
e frutos, de Bruno Seabra” (1862)
“Pareceres
– Conservatório Dramático” (1862-1864)
“Revelações,
poesias de A. E. Zaluar” (1863)
“O
caminho da porta/O protocolo” (1863)
“Quase
ministro” (1864)
“Crisálidas”
(1864)
“O
ideal do crítico” (1865)
“Os
deuses de casaca” (1866)
Cartas
fluminenses (1867)
“Falenas”
(1870)
Badaladas
(1871-1873)
Ressureição
(1872)
Contos
Fluminenses (1873)
Histórias da meia-noite (1873)
A
mão e a luva (1874)
“Americanas”
(1875)
Visconde
de Castilho (1875)
Helena
(1876)
História
de quinze dias (1876-1877)
“O
bote de rapé” (1878)
Iaiá
Garcia (1878)
“Notas
semanais” (1878)
“Tu,
só tu, puro amor” (1880)
Memórias
Póstumas de Brás Cubas (1881)
Papéis
avulsos (1882)
Histórias
sem data (1884)
Casa
Velha (1885)
Quincas
Borba (1891)
Várias
histórias (1896)
Páginas
recolhidas (1899)
“Não
consultes médico” (1899)
Dom
Casmurro (1899)
Esaú
e Jacó (1904)
“Ocidentais” (1901)
Relíquias
de Casa Velha (1906)
“Lição
de botânica” (1906)
“O
Almada” (1908)
Memorial
de Aires (1908)
©
Alberto Araújo
Focus
Portal Cultural