O vídeo que inspirou esta reflexão não é apenas um registro geológico; é um testemunho. Quando olhamos para a publicação de Neto Fotografia somos imersos em um verdadeiro hino de paixão e reverência à terra piauiense. Neto, com um olhar sensível, convida o espectador a reconhecer que, no cerrado do Piauí, a natureza revela algo muito maior: a própria grandeza da criação de Deus.
É um relato que transborda orgulho, transformando cada pedra e cada detalhe da paisagem em um testemunho da beleza inigualável do estado e da cultura piauiense. Ao declarar que "o nosso Piauí é bonito demais!", ele não apenas compartilha uma imagem, mas celebra a essência e a alma de uma terra que guarda belezas que só quem conhece verdadeiramente consegue admirar com tamanha devoção.
Foi esse mesmo sentimento que me moveu a escrever sobre as belezas naturais do Piauí e que, inesperadamente, gerou um eco que encurtou as distâncias do Brasil.
Estava eu mergulhado na repercussão da crônica “O Piauí é bonito demais” que publiquei recentemente, alimentada pelo vídeo e pela devoção que o trabalho de Neto Fotografia tão bem enlaça, quando o destino decidiu me pregar uma peça poética. Ao entrar no grupo da Rede Sem Fronteiras, uma notificação saltou aos olhos como um vaga-lume na escuridão de uma noite sertaneja. Era uma mensagem de Marta Verônica, curta, precisa e quase musical em sua brevidade:
"Aqui temos formações muito parecidas, em Itacambira."
Naquele momento, o Brasil encolheu. O Piauí, com suas chapadas de luz e pedra, a rocha que Neto Fotografia imortalizou na imagem de referência e Minas Gerais, com seu berço montanhoso, apertaram-se num abraço geológico. Marta não estava apenas comentando; ela estava me convidando a uma viagem que não exige passagens aéreas, mas apenas a disposição de enxergar a unidade na diversidade.
Fui buscar o que onde situava Itacambira. Localizada no Norte de Minas Gerais, no Vale do Jequitinhonha, a cidade é uma joia a 509 quilômetros de Belo Horizonte, conhecida turisticamente como a "Suíça Norte Mineira" devido ao seu clima ameno e relevo montanhoso.
E foi aí que a conexão de Marta Verônica ganhou contornos de revelação. As formações rochosas que foram vistas no vídeo sobre o Piauí, as esculturas geológicas que parecem feitas pelas mãos de um artesão antigo, encontraram eco na Pedra da Ursa e na Cachoeira do Curiango, em Itacambira. Como é possível que a natureza desenhe o mesmo alfabeto em pontos tão distintos? É a geologia conversando através dos milênios, provando que a pedra é uma testemunha muda que não conhece fronteiras. O que o Piauí guarda com orgulho, Minas preserva com a mesma devoção.
Ao refletir sobre a fala de Marta, percebi que a verdadeira rede, a "Sem Fronteiras" que dá nome ao grupo, não é feita de tecnologia, mas de reconhecimento. Reconhecer a beleza do outro é, em última instância, validar a nossa própria existência.
Quando trouxe a imponência do Piauí, estava mostrando a força da terra que Neto tão bem filmou. Quando Marta aponta para Itacambira, ela completa o quadro. Ela me trouxe o Curiango, e imaginei o som da água batendo na rocha, o mesmo som que reverbera nos nossos desfiladeiros. É uma melodia universal. A natureza não divide; nós traçamos linhas nos mapas. Mas a rocha, a cachoeira, o vento, esses não entendem de divisas. Eles apenas existem, em um permanente estado de comunhão.
A mensagem de Marta Verônica foi mais do que uma colaboração; foi um lembrete. Muitas vezes, perdemo-nos procurando o exótico no distante, ignorando que o espanto está logo ali, na esquina do próximo estado, ou na semelhança inesperada de uma pedra que, há milhões de anos, já sabia que seríamos irmãos de paisagem. Esta crônica é sobre a possibilidade de ver o Brasil como um contínuo, uma tapeçaria onde o fio que começa na Pedra da Ursa em Itacambira, se entrelaça com o pó das chapadas piauienses.
A vida é uma sucessão de descobertas que nos levam de volta a nós mesmos. Se o Piauí me ensinou sobre a paciência do tempo, Itacambira, através da sensibilidade de Marta, me ensinou sobre a universalidade dessa paciência. Que as "formações muito parecidas" continuem a nos unir. Que as cachoeiras, sejam elas de minas ou de sol, sigam sendo os pontos de encontro para quem ainda acredita que a beleza é a única linguagem capaz de derrubar as barreiras que teimamos em construir.
O Piauí e Itacambira agora guardam, em mim, um lugar comum. Um espaço onde a pedra é história, a água é memória e a rede, enfim, não tem fronteiras. É ali, nesse território onde a geologia se faz poesia, que encontro o sossego de saber que, não importa onde estejamos, a terra é sempre a mesma casa, e a beleza é a nossa morada compartilhada. Marta, obrigado pela ponte!
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural
10 de julho de 2026
Cachoeira do Curiango

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