quarta-feira, 20 de maio de 2026

DO CAFÉ DA MANHÃ AO ATLÂNTICO: A REDESCOBERTA DO TSUNÂMI EM LISBOA QUE ATINGIU O BRASIL EM 1755 - ENSAIO HISTÓRICO-CULTURAL © ALBERTO ARAÚJO

 

Foi numa manhã comum, entre goles de café e conversas leves, que surgiu um tema que atravessa séculos. Minha esposa, lembrando de sua passagem por Portugal, comentou sobre um episódio pouco conhecido: o terremoto de Lisboa de 1755 e o impacto que ele teria tido até mesmo no Brasil. 

A princípio, soou como uma curiosidade distante, quase improvável. Mas aquela frase ficou ecoando. Ainda com o gosto do café na boca, mergulhei em pesquisas, cruzando relatos históricos, cartas coloniais e estudos científicos contemporâneos. O que parecia apenas uma conversa revelou-se um capítulo esquecido da nossa história: o raro tsunâmi que atingiu o litoral nordestino brasileiro no século XVIII. 

Essa descoberta não foi apenas fruto de arquivos e dados, mas nasceu de uma conversa íntima, de uma memória compartilhada à mesa. E é justamente essa ponte entre o cotidiano e o extraordinário que torna a narrativa ainda mais fascinante.

O resultado dessa investigação, que agora registro no Focus Portal Cultural, é a tentativa de dar voz a um acontecimento que atravessou oceanos e séculos, conectando Lisboa e o Brasil em um mesmo instante de tragédia e transformação.

O TSUNAMI ESQUECIDO QUE TOCOU O BRASIL EM 1755

No dia de Todos os Santos, 1º de novembro de 1755, Lisboa foi sacudida por um dos maiores terremotos já registrados na história da Europa. A cidade, então centro do império português, viu igrejas ruírem durante a missa, palácios desmoronarem e incêndios devastarem bairros inteiros. O tremor, estimado entre magnitude 8,8 e 9,1, não apenas destruiu a capital lusitana: ele desencadeou uma onda gigante que atravessou o Atlântico e deixou marcas também no Brasil.

Poucos brasileiros sabem que o Nordeste foi atingido por um tsunami histórico, capaz de invadir quilômetros de terra firme, arrastar casas simples e provocar mortes. O episódio, por muito tempo relegado às páginas de cartas coloniais e crônicas esquecidas, hoje ganha nova luz graças a pesquisas científicas que unem universidades brasileiras e portuguesas.

Documentos guardados no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa revelam testemunhos preciosos. O arcebispo da Bahia, governadores de Pernambuco e da Paraíba, além de um militar, registraram em cartas o que viram e ouviram: águas que avançaram sobre vilas costeiras, moradores em fuga e a perda de vidas. 

Pesquisadores da UERJ, liderados pelo professor Francisco Dourado, em parceria com especialistas da Universidade de Coimbra, Universidade de Lisboa e Instituto Português do Mar e da Atmosfera, decidiram investigar se o Brasil realmente havia sido atingido. 

O trabalho de campo percorreu 270 quilômetros de litoral, entre o Rio Grande do Norte e o sul de Pernambuco. Em 22 praias, foram coletadas amostras de sedimentos. O resultado surpreendeu: elementos químicos típicos de águas profundas e microfósseis marinhos foram encontrados em locais onde jamais deveriam estar. 

Uma carta datada de maio de 1756 descreve: “As águas transcenderam os seus limites e fizeram fugir os habitantes das praias”. Outra, escrita em março do mesmo ano, relata que em Lucena e Tamandaré a enchente avançou “uma légua terra adentro”, levando casas de palha e ceifando a vida de um rapaz e de uma mulher. 

Também quatro cartas escritas à época, e que atualmente encontram-se no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa, comprovam o evento, sendo elas escritas pelo então arcebispo da Bahia, pelos governadores de Pernambuco e da Paraíba e por um militar.

Uma outra comprovação do evento que foi encontrada por pesquisadores brasileiros e portugueses foi vestígios de microanimais e de elementos químicos que só poderiam ter sido trazidos a determinadas praias brasileiras por grandes ondas. O primeiro passo foi fazer uma simulação matemática de como teria sido o tsunâmi. Baseado nessa simulação, os pesquisadores foram a campo. Na praia de Pontinhas, na Paraíba, eles identificaram uma camada de areia grossa que teria vestígios do fenômeno.

Ao todo, foram 270 quilômetros de trabalho de campo em 22 praias entre Rio Grande do Norte e o sul de Pernambuco, com quatro pontos de coleta de amostras. Mas a onda gigante atingiu toda a costa nordestina, com relatos de ter chegado também ao Rio de Janeiro, no sudeste do País.

No material coletado, a gente vê elementos químicos que não eram pra ser encontrados ali. Eram pra ser encontrados em regiões com mais profundidade. Ou seja, algo trouxe aqueles elementos até ali. Da mesma forma, há vestígios de microanimais que não deveriam ser encontrados na praia. 

Na região da praia de Lucena, na Paraíba, as ondas variaram entre 1,8 e 1,7 m de altura. Na região de Pitimbu, no mesmo estado, a altura das ondas ficou entre 1,5 e 1,1 m; na região pernambucana de Tamandaré, variou entre 1,9 e 1,8 m. As ondas não chegaram muito altas, mas o volume de água foi grande.

As ondas inundaram até 4 quilômetros distantes da linha de costa, principalmente em locais com influência de rios, nas proximidades da Ilha de Itamaracá (PE). Em Tamandaré a inundação foi de até 800 metros. Já em Lucena foi de aproximadamente 300 metros. 

Esses relatos, por muito tempo considerados curiosidades históricas, agora se confirmam como evidência de um fenômeno natural de proporções raras. 

Esses vestígios confirmam que uma onda gigante trouxe materiais do fundo do oceano até a costa. Em Lucena, na Paraíba, as ondas chegaram a quase 2 metros de altura. Em Tamandaré, Pernambuco, a inundação avançou até 800 metros. Em áreas próximas a rios, como na Ilha de Itamaracá, a água penetrou até 4 quilômetros terra adentro. 

O terremoto de Lisboa não foi apenas uma tragédia local. Ele devastou o sul da Espanha e do Marrocos, gerou tsunamis que alcançaram a Irlanda e o Caribe, e deixou entre 20 mil e 100 mil mortos. 

O impacto cultural foi imenso: filósofos como Voltaire e Kant refletiram sobre o desastre, que se tornou símbolo da fragilidade humana diante da natureza. Para a ciência, o episódio inaugurou uma nova era nos estudos sismológicos. 

No Brasil, porém, a memória do tsunami permaneceu adormecida. Talvez porque o país não esteja em zonas de grandes falhas geológicas, o imaginário coletivo nunca associou nossas praias a ondas gigantes. Mas a história mostra que até aqui, em terras tropicais, o Atlântico pode trazer surpresas. 

As comunidades atingidas em 1755 eram pequenas, formadas por pescadores e agricultores. Casas de palha e madeira foram arrastadas, e famílias perderam tudo. O mar avançou sobre áreas que hoje são pontos turísticos, como Lucena e Tamandaré, transformando o cotidiano em caos. 

O episódio não deixou marcas monumentais como em Lisboa, mas foi suficiente para entrar na memória oral e nos registros oficiais. Ainda assim, ao longo dos séculos, a narrativa se apagou, até ser resgatada por historiadores como Alberto Veloso, autor de “Tremeu a Europa e o Brasil também”, e pelos cientistas que hoje confirmam a veracidade do fenômeno. 

O tsunâmi de 1755 no Brasil é mais que um dado geológico: é parte da nossa cultura esquecida. Ele mostra como o país, mesmo distante dos epicentros sísmicos, não está imune a desastres naturais globais. 

A arte da época registrou o terremoto de Lisboa em quadros e gravuras, mas pouco se falou sobre o reflexo no Brasil. Agora, com a ciência trazendo provas físicas, abre-se espaço para que museus, escolas e meios culturais resgatem essa memória. 

Recontar essa história é também um ato de prevenção: lembrar que o mar pode ser força destrutiva e que a preparação para desastres deve ser parte da nossa realidade.

O tsunami que atingiu o Brasil em 1755 não é mito, mas fato histórico e científico. Ele atravessou o oceano, invadiu praias nordestinas, destruiu casas e tirou vidas. Por séculos, ficou escondido em cartas e memórias. Hoje, retorna como símbolo da conexão entre continentes e da vulnerabilidade humana diante da natureza. 

LINHA DO TEMPO DO TERREMOTO DE LISBOA E O TSUNÂMI NO BRASIL 

O terremoto de Lisboa de 1755 não foi apenas um evento sísmico isolado. Ele se transformou em um marco histórico que atravessou fronteiras, oceanos e séculos. Para compreender como o Brasil foi atingido, é preciso olhar para a sequência de acontecimentos que conectam Lisboa às praias nordestinas. 

1º de novembro de 1755 – Lisboa treme:  

Um terremoto de magnitude próxima a 9 devasta a capital portuguesa. Igrejas desmoronam durante a missa de Dia de Todos os Santos, incêndios se espalham e milhares morrem. 

O tremor gera ondas gigantes que atingem o litoral europeu, alcançando Espanha, Marrocos e até a Irlanda.

As ondas atravessam o oceano e chegam ao Caribe. No Brasil, relatos coloniais descrevem o mar invadindo vilas costeiras no Nordeste.

Autoridades coloniais enviam correspondências a Lisboa relatando o fenômeno. O arcebispo da Bahia, governadores de Pernambuco e da Paraíba e um militar descrevem casas destruídas e duas mortes.

O episódio permanece esquecido, sem espaço nos livros escolares ou na cultura popular brasileira.

Pesquisadores da UERJ e de universidades portuguesas encontram evidências físicas nas praias nordestinas: sedimentos de águas profundas e microfósseis marinhos. O mito se transforma em fato científico. 

O terremoto de Lisboa inspirou reflexões profundas na Europa. Filósofos como Voltaire questionaram a ideia de um mundo ordenado e justo diante da catástrofe. Kant iniciou estudos sobre sismologia, buscando compreender os mecanismos da Terra. 

No Brasil, porém, o reflexo cultural foi tímido. O tsunami não entrou no imaginário coletivo, talvez por ter atingido comunidades pequenas e por estar distante dos grandes centros coloniais. Hoje, ao recuperar essa memória, abre-se espaço para novas interpretações sobre nossa relação com o mar e com os desastres naturais. 

AS PRAIAS QUE GUARDAM A HISTÓRIA 

Lucena (PB): ondas de até 1,8 m, inundação de 300 m.

Tamandaré (PE): ondas de quase 2 m, água avançando 800 m.

Itamaracá (PE): inundação de até 4 km, favorecida pela presença de rios.

Pitimbu (PB): ondas entre 1,1 m e 1,5 m.

Esses locais, hoje destinos turísticos, guardam em suas camadas de areia e sedimentos a memória de um mar que um dia ultrapassou todos os limites. 

A linha do tempo do terremoto de Lisboa e do tsunâmi no Brasil mostra como um evento europeu se transformou em uma catástrofe transatlântica. Mais que números e dados, é uma história de conexões culturais, científicas e humanas.

Resgatar esse episódio é dar ao Brasil um capítulo esquecido de sua história natural, lembrando que o Atlântico não apenas nos une a Portugal, mas também pode trazer consigo forças capazes de mudar destinos. 

Para o Focus Portal Cultural, contar essa história é dar voz a um capítulo esquecido da nossa trajetória, lembrando que o Brasil também já enfrentou o poder avassalador de um tsunami. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural

Erupção do vulcão nas Ilhas Canárias despertou preocupações entre algumas pessoas de um tsunami no Brasil

Distrito de Alfama, em Lisboa, foi o único que escapou do terremoto de 1755, o maior já registrado na Europa.

Praia de Lucena, na Paraíba, foi um dos lugares atingidos por tsunami em 1755, segundo pesquisadores.

Terremoto de 1755 em Lisboa foi o mais forte registrado na Europa e gerou tsunami no Brasil, segundo pesquisadores





Registros históricos contam como um tsunami atingiu o litoral brasileiro em 1755, incluindo a Paraíba — Foto: Centro de Pesquisas e Estudos sobre Desastres (CEPEDES)/UERJ/Divulgação



Tsunami em 1755 atingiu quase toda a costa nordestina. Na Paraíba, as praias de Lucena e Pitimbu sofreram com as ondas gigantes. — Foto: Centro de Pesquisas e Estudos sobre Desastres (CEPEDES)/UERJ/Divulgação


Terremoto em Lisboa (1755), pintura de João Glama (1708-1792). — Foto: Getty Images via BBC





terça-feira, 19 de maio de 2026

O RELÓGIO DE VIDRO E A LABAREDA INVISÍVEL - CRÔNICA SOBRE VELHICE DE © ALBERTO ARAÚJO

Há um erro de cálculo na arquitetura do tempo. Uma espécie de ironia fina, desenhada por um dom que aprecia o contraste, ou por uma física que ainda não soubemos batizar. O mundo, em sua pressa utilitária, insiste em olhar para as rugas como quem olha para as ruínas de um prédio antigo. Veem o reboco que cede, a pintura que descasca, a marcha mais lenta que os passos de ontem. Mas esquecem-se, por pura distração dos sentidos, de que os templos mais antigos são aqueles que guardam os fogos mais sagrados.

Fica velho apenas o estojo. A joia, lapidada pelo atrito dos anos, permanece intocada, brilhando no escuro de uma caixa que o tempo teima em desgastar.

O espelho é um mentiroso superficial. Pela manhã, ele me devolve uma geografia que mal reconheço: linhas de expressão que parecem rios secos, fios de prata que colonizaram a cabeça, e uma gravidade que, aos poucos, vai cobrando seu imposto sobre a carne. O corpo é esse relógio de vidro. Ele conta as horas de forma implacável. A pele perde o viço como a folha de outono perde a clorofila; as articulações protestam contra a umidade; o fôlego encurta na subida da ladeira.

É o corpo dizendo, em seu dialeto de dores mansas, que ele é feito de terra. E à terra retorna.

No entanto, basta que eu feche os olhos por dois segundos para que o milagre da insurreição aconteça. Atrás das pálpebras, não há rugas. Não há bengalas, não há remédios na mesa de cabeceira, não há a lentidão dos passos. Ali, na cidadela do pensamento, eu ainda tenho dezessete anos e corro descalço pela grama úmida. Ali, tenho trinta anos e sinto o coração acelerar diante do primeiro amor, com a mesma urgência febril de quem acabou de descobrir o fogo.

A mente não tem rugas. O pensamento não claudica. A alma, essa substância misteriosa que nos habita, ignora solenemente o calendário. Ela é uma labareda invisível que arde com a mesma intensidade, quer o candeeiro seja de bronze novo ou de barro trincado.

O paradoxo da velhice é este: ser um jovem prisioneiro de uma armadura que enferruja. O espírito permanece ágil, faminto de novidades, capaz de indignação, de paixão e de poesia. Mas o veículo que o transporta pede repouso. É como se colocássemos o motor de um jato supersônico dentro da fuselagem de um biplano da Primeira Guerra. O motor quer voar além da velocidade do som; as asas de lona e madeira tremem com o esforço.

Se a juventude é a primavera barulhenta, cheia de flores que ainda não sabem se virarão frutos, cheia de polens que causam alergia e promessas exageradas, a velhice é o outono mais maduro.

Não há menor beleza na árvore que perde as folhas. Pelo contrário. É quando as folhas caem que a arquitetura dos galhos se revela. É possível ver a força do tronco, a direção que as ramificações tomaram para buscar o sol, as cicatrizes dos invernos passados. A árvore despida mostra sua verdadeira essência. Ela não precisa mais do artifício da folhagem para ser majestosa.

A pele envelhecida não é feia; ela é um pergaminho onde a vida escreveu suas melhores histórias. Cada linha ao redor dos olhos é o registro de um milhão de sorrisos; cada sulco na testa é o rastro de uma preocupação superada, de um luto que se transformou em saudade, de uma batalha que nos deixou mais sábios.

Enquanto a superfície do mar, o corpo, sofre com as tempestades, as ondas que quebram e a erosão da costa, as profundezas do oceano, a mente, permanecem em uma calmaria azul e imensa. Lá embaixo, onde a luz do sol chega filtrada pela experiência, guardam-se os tesouros naufragados, as pérolas que só o tempo sabe cultivar.

É preciso uma imensa coragem para aceitar que somos dois seres em um único invólucro. Um que caminha em direção ao poente, e outro que teima em olhar para o nascer do sol.

Se você quiser saber a verdadeira idade de alguém, nunca olhe para as mãos, nem para o pescoço, nem para a curvatura das costas. Olhe nos olhos. Os olhos são a única parte do corpo que o tempo não consegue colonizar.

Há velhos de oitenta anos cujo olhar guarda uma vivacidade infantil, uma faísca de curiosidade que faz tremer os jovens mais apáticos. São olhos que ainda buscam o espanto. Que se emocionam com o desabrochar de uma rosa, com o acorde de uma música antiga, com a injustiça do mundo. E há, infelizmente, jovens de vinte anos cujos olhos já estão cobertos pela poeira do tédio e do cinismo, velhos antes do tempo porque permitiram que a mente se aposentasse antes da carne.

Ficar velho é um processo biológico; tornar-se ancião é uma obra de arte. A mente que não envelhece é aquela que mantém as janelas abertas. Ela continua acumulando livros que talvez não tenha tempo de ler; continua fazendo planos para o próximo ano; continua aprendendo uma palavra nova, um idioma novo, uma forma nova de compreender o vizinho. Ela não se esconde no "no meu tempo", porque compreende que o único tempo que existe é o agora. O passado é uma biblioteca de consulta; o futuro é uma hipótese; o presente é o palco onde a alma continua dançando.

Há dias, no entanto, em que o peso da matéria se faz notar com mais força. Dias em que a neblina do cansaço físico tenta invadir a sala da mente. É nesses dias que a memória atua como a melhor das alquimistas.

Sentado na poltrona que já tem o desenho do meu corpo, posso viajar sem pagar passagem. Posso caminhar pelas ruas de uma cidade onde morei há cinquenta anos, sentir o cheiro do café que minha mãe passava na cozinha da minha infância, ouvir a voz de amigos que o tempo já levou para o outro lado do mistério. Essas pessoas não morreram; elas habitam o condomínio fechado da minha memória, onde não há IPTU, nem desgaste, nem esquecimento.

A velhice do corpo nos dá esse superpoder: a capacidade de viver em várias dimensões simultaneamente. Enquanto mastigo um pedaço de pão no café da manhã, estou, ao mesmo tempo, jantando em Paris em 1984, e correndo atrás de uma bola de gude em 1965. Quem tem uma mente ativa nunca está sozinho, e nunca está preso a um único espaço.

"O tempo é um rio que me arrebata, mas eu sou o rio", já dizia o poeta. Somos a água que passa e a margem que fica. Somos o fluxo constante de pensamentos que se recusa a congelar, mesmo quando o inverno do corpo se aproxima.

Há uma dignidade secreta em envelhecer que a juventude, em sua soberba colorida, não consegue alcançar. A juventude corre porque não sabe para onde vai; a velhice caminha devagar porque já conhece o caminho e prefere saborear a paisagem.

Somos como os vinhos finos. O cântaro de barro ou a garrafa de vidro podem ficar empoeirados na adega. O rótulo pode desbotar, a rolha pode ressecar e exigir cuidado ao ser extraída. Mas o líquido lá dentro... ah, o líquido concentrou os açúcares, apurou o aroma, perdeu a adstringência, a secura da pele agressiva dos primeiros anos e transformou-se em veludo. É preciso paciência para beber um vinho velho. É preciso silêncio para escutar o que ele tem a dizer.

O corpo que envelhece é apenas o preço que pagamos por termos vivido histórias demais. Cada dor na coluna é o eco de um abraço apertado ou de um fardo que carregamos para salvar alguém. Cada esquecimento bobo, o nome de um ator, a chave esquecida na porta, é apenas a mente fazendo uma limpeza no arquivo morto para abrir espaço para as novas sensações que ainda hão de vir.

Não há o que lamentar. A decadência física é o tributo inevitável da matéria. Mas o espírito, esse pássaro de fogo que não conhece gaiolas, continua a bater asas em direção ao infinito.

Quando o meu corpo finalmente decidir que a caminhada terminou e que é hora de se deitar na terra para virar árvore ou poeira de estrelas, ele o fará com a certeza de que cumpriu sua missão de casca. Mas eu, a mente desse cronista que escreveu estas linhas, o ser que riu, que chorou, que amou sem garantias, estarei alhures, em algum canto do universo, ainda jovem, ainda imenso, rindo do tempo e de suas vãs tentativas de me apagar.

Porque o tempo, com toda a sua prepotência, só consegue tocar naquilo que é poeira. O que é luz, meu adorável amigo, essa permanece.

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural




 

VII CONFERÊNCIA DISTRITAL DO ROTARY – UM MARCO DE TRANSIÇÃO - DIAS 14 A 17 DE MAIO DE 2026 - HOTEL FAZENDA RAPOSO - ITAPERUNA- RJ

Entre os dias 14 e 17 de maio de 2026, o Hotel Fazenda Raposo, em Itaperuna-RJ, foi palco da VII Conferência Distrital do Rotary Internacional - Distrito 4751. O evento reuniu rotarianos, rotaractianos, interactianos, representantes das Casas da Amizade e intercambistas em um ambiente de celebração, aprendizado e companheirismo. A programação foi marcada por palestras inspiradoras, apresentações culturais, premiações de clubes com destaque em diversas áreas e momentos de confraternização que reforçaram o lema da gestão: “Unidos para Fazer o Bem”.

O ponto alto da conferência aconteceu no domingo, dia 17, quando ocorreu a cerimônia de posse do novo governador distrital para o período 2026-2027. O companheiro GD Roney Correa Ribeiro, do Rotary Club de Bom Jesus do Itabapoana, recebeu oficialmente o bastão da liderança das mãos da governadora GD Maria Luzia Borges Amaral Ramos, que encerrou sua gestão 2025-2026. A passagem de comando simbolizou não apenas a continuidade do trabalho realizado, mas também a renovação da esperança e do compromisso com os ideais rotários.

Em um ambiente carregado de emoção, Maria Luzia destacou os avanços conquistados durante sua gestão, especialmente nas áreas de imagem pública, projetos humanitários e fortalecimento do quadro associativo. Já Roney Correa Ribeiro assumiu o compromisso de dar sequência a esse legado, trazendo sua visão e energia para ampliar o impacto do Rotary na comunidade. A cerimônia foi acompanhada por autoridades rotárias, familiares e convidados, que testemunharam a transição de liderança e celebraram o espírito de união que caracteriza o Distrito 4751.

A conferência encerrou-se com a saída das bandeiras em desfile, coroando quatro dias de intensa programação e reafirmando o papel do Rotary como força transformadora na sociedade. Mais do que um encontro distrital, o evento simbolizou a continuidade de uma missão: servir acima de si mesmo e fortalecer os laços que unem os clubes em prol do bem comum. 

PROGRAMAÇÃO DA VII CONFERÊNCIA DISTRITAL DO ROTARY – DISTRITO 4751 14 A 17 DE MAIO DE 2026, RAPOSO/ITAPERUNA-RJ 

SEXTA-FEIRA – 15/05/2026 

14h30mim – 15h30min Reunião ABROL RJ e ES (apenas membros e convidados)

16h - Abertura Distrital

16h05min Entrada das bandeiras dos clubes e formação da frente de autoridades

16h25min Palavras do Diretor do RI 2025-27 César Luís Scherer (vídeo) 

16h45min Palavras da Representante do Presidente do RI 2025-26 Anne Gomes da Silva Cavali

17h10min Apresentação do Patrono da Conferência Canavarro Gontijo Filho e Rotary Itaperuna

17h20min Orquestra Retocando + palavras da Governadora GD Maria Luzia

18h Encerramento do 1º dia

21h Festa de Boas-Vindas – Noite da Alegria (Espaço Raposo)

SÁBADO – 16/05/2026 (MANHÃ)

09 – 17h Evento paralelo – reunião candidatos e familiares do PIJ

06h30min – 08h30min Alvorada Fanfarra Feminina Rotary Club de Colatina / Corrida e Caminhada Rotary

08h40min Palavras da Representante do PRI 2025-26 Francesco Arezzo

09h Palestra GD Ângela Rezende

09h20min Cases de sucesso + premiação RC em desenvolvimento de Rotary

09h30min Palestra GD Irma Mariotti Meneghel Paiva – “O Aroma que nos Une”

09h50min Sorteio quadro associativo DQA + premiação (GD Ricardo Pinho)

10h Show do Mágico Pipoca

10h10min Palestra Comp. George Carvalho

10h30min Case de sucesso + premiação RC em EPN e entrega de Paul Harris (Coord. Almiro Schimidt)

10h50min Apresentação projetos de subsídios distritais 2025-26

11h00min Cases de sucesso + premiação FR (Comp. Brunilda Provenzano, GD Celso Gonçalves, GD Denise Vieira)

11h20min Entrega do reconhecimento Amigos do Distrito

11h40min Apresentação Fanfarra Feminina RC Colatina

12h Intervalo para almoço

SÁBADO – 16/05/2026 (TARDE) 

14h Reabertura da Conferência – Orquestra Primeiro Acorde (PM)

14h25min Premiação dos clubes – plantio de árvore e divulgação

14h45min Case de sucesso + premiação RC em DEI (GD Hélvio Pichamone)

15h05min Animação com Mirelle Simões de Aguiar

15h25min Cases de sucesso + premiação RC em Imagem Pública (Coord. Carlos Daniel)

15h45min Posse ABROL RJ e ES

16h Reconhecimento de presidentes e governadores assistentes

16h25min Divulgação do Projeto EME (Comp. Allan Johnys)

16h45min Reconhecimento dos projetos 2025-26 (GD Maria Luzia)

17h05min Divulgação da Convenção Internacional RI (GD Lesio Pires da Luz)

17h15min Palestra Ten. Cel. Michelle

17h30min Palavras da Representante do PRI 2025-26 GD Anne Gomes da Silva Cavali

17h50min Palavras da GD Maria Luzia Ramos

18h Encerramento do 2º dia

19h Assembleia Geral Ordinária ADR 4751 (Presidentes e representantes habilitados)

20h45min Baile de Máscaras – Espaço Raposo 

DOMINGO – 17/05/2026 

09h Reabertura da VII Conferência (Espaço Raposo)

09h10min Apresentação intercambistas (Comp. Eduardo Sancho e Comp. Raquel Piacenza)

09h30min Apresentação GDE, GDI, GDD, RDR e RDI 2026-27

09h45min Premiação clubes e caravanas

10h10min Posse GD Roney e Equipe Distrital

11h20min Estatística e protocolo

11h30min Agradecimentos

11h40min Palavras da Representante do PRI 2025-26 GD Anne Gomes da Silva Cavali

11h55min Encerramento da VII Conferência Distrital (GD Maria Luzia Borges Amaral Ramos)

12h Saída das bandeiras em desfile

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DIRETORIA DISTRITAL 2026-2027 

Governador – Roney Correa Ribeiro (Bom Jesus do Itabapoana)

Vice-Governador – GD Almiro Schimidt (Colatina)

1º Secretário – Hugo Leonardo Ribeiro Ávila (Bom Jesus do Itabapoana)

2ª Secretária – Sylvia Fasciotti (Niterói)

3ª Secretária – Maria Aparecida de Oliveira Vargas (Itaperuna)

Secretária Executiva – Alexandra Ferreira de Sousa (Vitória)

Presidente de Finanças – GD Hélvio Augusto Pichamone Candido Jr (Vitória Praia do Canto)

2º Tesoureiro – Bárbara Gomes Vicente (Vitória Rotaract Praia do Canto)

Comissões e Subcomitês

Facilitador de Aprendizagem Distrital / Pres. do CADRE – GD Hélvio Pichamone Juniores (Vitória Praia do Canto)

Doações e Arrecadação de Fundos – Neuza da Conceição Medeiros Biolchini (Teresópolis)

Sociedade Paul Harris – Miguel Mendonça Pinheiro (São Gonçalo do Paraíso)

Embaixador da Hepatite C – Elizabete Pinto Andrade (Vitória Vila Velha)

Filiação Distrital DQA – GD Ricardo Fonseca de Pinho (Niterói)

Desenvolvimento de Novos Clubes – Joel Coelho dos Santos Jr (Niterói), Claudio Pires de Paula (São Fidélis), Wilson Aguiar (Vitória Praia do Canto)

Fundo Anual do Distrito – GD Celso Gonçalves Alves (Cachoeiro de Itapemirim)

Imagem Pública – GD Maria Luzia Borges Amaral Ramos (Itaperuna), Patrick Veloso (Magé Piabéta), Wilson Aguiar (Vitória Praia do Canto), Hugo Leonardo Ribeiro Ávila (Bom Jesus do Itabapoana), Maria Aparecida Amim (Niterói)

Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) – GD Flavio Alejandro Zárate Chabluk (E-Club Distrito 4751), Allan Johnys da Silva (Campos São Salvador)

Serviço Internacional – GD Denise Vieira dos Santos (Cachoeiro de Itapemirim), GD Elias Cauerk Moyses (Vitória Praia Comprida)

Proteção à Juventude – GD Hélvio Augusto Pichamone Candido Jr (Vitória Praia do Canto)

Convenção Internacional RI – GD Lesio Pires da Luz (Vitória Praia Comprida)

Comissão Jurídica – Filipe Matos Monteiro de Castro (Bom Jesus do Itabapoana), Rosângela Monteiro de Castro (Bom Jesus do Itabapoana), Claudinier Neves (Campos São Salvador), Rosa Claudia da Silva Ribeiro (Niterói), GD Elias Cauerk Moyses (Vitória Praia Comprida), Rosângela Caterina Cessano (Nova Friburgo)

Companheirismo – Alice do Carmo Leite de Souza (Campos Guarus), Marily Tenório Ney (Bom Jesus do Itabapoana), Luiza Figueiredo Salles (Campos), Maria Dulce A. Bersot (Conceição de Macabu).

Portanto a VII Conferência Distrital do Rotary Internacional – Distrito 4751, realizada em Raposo/Itaperuna entre os dias 14 e 17 de maio de 2026, foi marcada por momentos de celebração, reconhecimento e fortalecimento do espírito rotário. Durante quatro dias, rotarianos e parceiros se reuniram em torno de palestras, apresentações culturais, premiações e atividades que reforçaram o lema da gestão: “Unidos para Fazer o Bem”. Cada instante da programação demonstrou o poder transformador do Rotary, seja na valorização dos clubes que se destacaram em projetos humanitários, na promoção da diversidade e inclusão, ou na integração das novas gerações através do Rotaract, Interact e intercambistas. 

O ápice do evento ocorreu no domingo, 17 de maio, com a posse do novo governador distrital GD Roney Correa Ribeiro (2026-2027), do Rotary Club de Bom Jesus do Itabapoana. Em uma cerimônia emocionante, ele recebeu o bastão da liderança das mãos da governadora GD Maria Luzia Borges Amaral Ramos (2025-2026), que encerrou sua gestão com a marca de avanços significativos em imagem pública, fortalecimento do quadro associativo e projetos de impacto comunitário. A transição simbolizou não apenas a continuidade de um trabalho sólido, mas também a renovação da esperança e da energia para ampliar o alcance do Rotary no distrito e no mundo. 

Esse momento de passagem de comando reafirma o caráter global da organização: cada distrito, ao fortalecer suas ações locais, contribui para o impacto coletivo do Rotary Internacional, que há mais de um século promove paz, saúde, educação e desenvolvimento sustentável em escala mundial. A união demonstrada em Itaperuna ecoa além das fronteiras, lembrando que o compromisso de servir acima de si mesmo é o elo que conecta rotarianos em todos os continentes. 

Por fim, cabe um agradecimento especial à Maria Panait, cujo generoso compartilhamento de informações e registros fotográficos possibilitou ilustrar e enriquecer esta postagem no Focus Portal Cultural. Sua colaboração reforça a importância de preservar e divulgar os momentos que constroem a história do Rotary e inspiram futuras gerações a seguir o caminho do serviço e da amizade. 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural



Roney Correia e a esposa Carla Azevedo.







EUCLIDES DA CUNHA: UM LEGADO VIVO NA CULTURA BRASILEIRA - COMPILAÇÃO CULTURAL E MEMORIAL SOBRE EUCLIDES DA CUNHA © ALBERTO ARAÚJO

A presença de Euclides da Cunha na cultura brasileira ultrapassa o tempo. Mais de um século após sua morte, ele continua a ser lembrado não apenas como autor de Os Sertões, mas como um intérprete profundo do Brasil, capaz de unir ciência, literatura e política em uma visão singular. Seu legado permanece vivo em museus, estudos acadêmicos e na memória coletiva, representando um marco cultural que ainda inspira. 

O Escritor e Sua Obra 

Os Sertões é considerado um dos maiores clássicos da literatura brasileira. Publicado em 1902, o livro é ao mesmo tempo relato histórico da Guerra de Canudos, análise sociológica e descrição científica. Euclides construiu uma narrativa que revela o sertanejo como “antes de tudo, um forte”, frase que se tornou símbolo da resistência e da dignidade do povo do interior. 

A obra não apenas descreveu um conflito, mas também expôs as contradições da República nascente, mostrando como o Brasil profundo era ignorado pelas elites urbanas. Por isso, Os Sertões permanece atual: é leitura obrigatória para compreender as desigualdades e os desafios nacionais.

Euclides foi engenheiro, jornalista, professor e funcionário do Itamaraty. Sua vida profissional refletia o espírito positivista da época, mas também uma inquietação constante diante das injustiças sociais. Ele acreditava que o meio ambiente moldava o homem, e suas análises buscavam explicar o Brasil a partir da geografia, da raça e da cultura. 

Essa postura fez dele um intelectual engajado, que não se limitava à teoria: sua escrita era uma forma de intervenção política e social. 

A Tragédia e a Memória 

A Tragédia da Piedade, em 1909, marcou sua morte precoce e reforçou o caráter trágico de sua biografia. O episódio, amplamente explorado pela imprensa, transformou Euclides em um mártir intelectual. Sua vida passou a ser vista como um drama clássico, em que razão e paixão se confrontam. 

Apesar da polêmica, sua obra sobreviveu ao escândalo e ganhou ainda mais força. Hoje, Euclides é lembrado como um dos maiores escritores brasileiros, e Dilermando de Assis permanece como figura controversa na história. 

A Preservação em São José do Rio Pardo 

A cidade de São José do Rio Pardo, no interior paulista, tornou-se guardiã da memória de Euclides. Foi ali que ele escreveu parte de Os Sertões, e hoje o município abriga o Museu Euclides da Cunha, instalado na casa onde viveu. O espaço promove exposições, atividades culturais e mantém viva a lembrança de sua obra.

O Monumento Euclides da Cunha e eventos literários locais reforçam o vínculo da cidade com o escritor, transformando o lugar em referência para estudiosos e admiradores. 

O Legado Cultural 

Euclides da Cunha representa: O intérprete do Brasil profundo, que deu voz ao sertanejo e às regiões esquecidas; O intelectual engajado, que usou a escrita como forma de intervenção social; O mártir trágico, cuja morte precoce reforçou a dramaticidade de sua vida. 

Hoje, estudiosos ressaltam que Euclides foi um intelectual engajado, preocupado com os rumos da República e com a integração nacional. Sua análise determinista, que via o meio ambiente como força moldadora do homem, é revisitada sob novas perspectivas, dialogando com temas como ecologia, antropologia e estudos culturais. 

Críticos literários apontam que sua escrita, marcada por rigor científico e paixão literária, continua a inspirar autores contemporâneos. Ele é visto como precursor de uma tradição que une literatura e ciência, razão e emoção, numa busca por compreender o país. 

A Memória Cultural 

A memória de Euclides é preservada em espaços como o Museu Euclides da Cunha, em São José do Rio Pardo, e em homenagens espalhadas pelo Brasil. Sua presença é lembrada em eventos literários, seminários acadêmicos e até em debates políticos, mostrando que sua obra ainda provoca reflexão. 

A imprensa da época transformou sua morte na Tragédia da Piedade, mas a posteridade o consagrou como mártir intelectual. Hoje, sua imagem é de um escritor que buscou compreender o Brasil em sua complexidade, e que continua a nos ajudar a pensar sobre quem somos. 

Universidades e Pesquisas Acadêmicas 

Instituições brasileiras e estrangeiras mantêm cursos e grupos de pesquisa dedicados a Euclides. Em universidades, Os Sertões é analisado em disciplinas de literatura, história, sociologia e até geografia. 

Universidades destacam como o livro antecipa debates sobre exclusão social e marginalização do sertanejo. 

Pesquisadores apontam que Euclides foi pioneiro ao unir ciência e literatura, criando uma narrativa híbrida que ainda inspira estudos interdisciplinares. 

Críticos Literários e Temas Atuais 

Críticos modernos relacionam, “Os Sertões” a temas que continuam centrais no Brasil, a obra mostra como populações deslocadas sofrem com abandono e falta de políticas públicas. Euclides expõe a distância entre o sertão e as elites urbanas, questão que ainda marca o país. Sua visão determinista, que via o ambiente como força moldadora do homem, é revisitada hoje em diálogo com ecologia e antropologia.

Essas leituras contemporâneas revelam que Euclides não é apenas um escritor do passado, mas um pensador que continua a iluminar o presente.

A Força Cultural de Euclides 

A obra de Euclides é celebrada em eventos literários, seminários acadêmicos e homenagens culturais. O Museu Euclides da Cunha, em São José do Rio Pardo, mantém viva sua memória, enquanto críticos e professores reforçam sua relevância para compreender o Brasil. 

Ele é visto como um intérprete do país, alguém que buscou entender as contradições nacionais e que, mesmo em sua morte trágica, deixou um legado de reflexão e resistência. 

Euclides da Cunha: Entre a Amazônia, Os Sertões e a Tragédia da Piedade 

A vida de Euclides da Cunha é marcada por contrastes intensos: o engenheiro e escritor que se tornou um dos maiores intérpretes do Brasil, o homem que viveu entre a disciplina militar e a paixão pela literatura, e o marido que terminou tragicamente em um duelo motivado por uma história de amor e traição. Para compreender sua trajetória, é preciso percorrer tanto sua experiência na Amazônia quanto os bastidores de sua vida pessoal, que culminaram na célebre Tragédia da Piedade. 

A Jornada à Amazônia 

Em 1904, Euclides foi enviado em missão oficial para a Comissão de Reconhecimento do Alto Purus, na Amazônia. O objetivo era demarcar fronteiras entre Brasil e Peru, em meio a disputas territoriais ligadas ao ciclo da borracha. Essa viagem durou cerca de dois anos e foi marcada por condições duríssimas: doenças tropicais, isolamento e dificuldades logísticas. 

Durante esse período, Euclides manteve contato com o Brasil por meio de cartas e relatórios, mas também aproveitou para refletir sobre o país profundo. Foi nesse ambiente que amadureceu ideias que já vinham desde sua cobertura da Guerra de Canudos, resultando na obra monumental Os Sertões, publicada em 1902, pouco antes da viagem. 

Embora Os Sertões já estivesse escrito, a experiência amazônica reforçou sua visão sobre o Brasil como um território de extremos, onde natureza e sociedade se entrelaçam em tensões permanentes. 

O Retorno e a Vida no Rio de Janeiro 

Ao regressar da Amazônia, Euclides encontrou sua família em situação delicada. Sua esposa, Anna Emília Ribeiro, havia se aproximado dos irmãos Dilermando e Dinorah de Assis, jovens cadetes que viviam na pensão de Madame Monat, no Flamengo. 

Euclides não aprovava essa amizade e levou a família para Botafogo. No entanto, Anna e Dilermando continuaram a se encontrar. O relacionamento extraconjugal resultou em filhos: Mauro, que morreu ainda bebê, e Luís, nascido em 1907, reconhecido como filho de Dilermando. As tias de Dilermando sabiam do caso e revelaram a Euclides que Luís não era seu filho biológico. Esse episódio aumentou a tensão doméstica e abalou profundamente o escritor. 

O Homem Público e o Intelectual 

Enquanto enfrentava turbulências pessoais, Euclides vivia um período de intensa atividade profissional. Ele trabalhava no Itamaraty, lecionava no Colégio Pedro II e escrevia artigos e ensaios sobre política, ciência e sociedade. 

Sua obra refletia uma visão positivista e determinista, marcada pela crença de que o meio ambiente moldava o homem. Em Os Sertões, descreveu o sertanejo como “antes de tudo, um forte”, frase que se tornou célebre.

Além disso, Euclides era visto como um intelectual engajado, preocupado com os rumos da República e com a integração nacional. 

A Tragédia da Piedade 

O desfecho dessa história ocorreu em 15 de agosto de 1909. Euclides, tomado pela indignação e pela honra ferida, foi armado à casa de Dinorah, em Piedade, para enfrentar Dilermando. 

O confronto terminou em tiroteio: Euclides feriu Dinorah, mas Dilermando, com treinamento militar, reagiu e matou Euclides. O episódio ficou conhecido como a Tragédia da Piedade, um dos casos mais famosos da história brasileira, misturando literatura, política e drama pessoal. Dilermando foi absolvido sob a alegação de legítima defesa, mas o caso marcou para sempre sua reputação. Anna continuou sua vida ao lado dele, e Luís foi criado como filho legítimo de Dilermando. 

Curiosidades e Legado 

Euclides produziu relatórios técnicos sobre a região amazônica, que ainda hoje são referência para estudos de geografia e fronteiras. Os Sertões: Considerado um dos maiores clássicos da literatura brasileira, mistura relato histórico, análise sociológica e descrição científica. Apesar de sua formação militar, Euclides tinha espírito crítico e chegou a romper com o Exército em alguns momentos. Sua morte precoce, aos 43 anos, reforçou a imagem de um homem dividido entre o dever e a paixão, entre a ciência e a literatura, entre a razão e o drama humano.

As Cartas de Euclides da Cunha

Além de sua obra pública, Euclides deixou um conjunto de cartas pessoais que revelam sua dimensão íntima. Nessas correspondências, enviadas a amigos, colegas e familiares, transparece o homem sensível, angustiado e apaixonado pela verdade. 

Durante sua estadia na Amazônia, escreveu cartas relatando as dificuldades da expedição, descrevendo a selva como um espaço grandioso e hostil. Nessas linhas, misturava observações científicas com reflexões existenciais, mostrando como a experiência moldava sua visão de mundo. Em cartas dirigidas a Anna, percebe-se o esforço em manter o vínculo afetivo apesar da distância. Contudo, também surgem sinais de tensão e desconfiança, prenunciando os conflitos que viriam. Essas cartas são valiosas porque revelam o lado humano de Euclides, diferente do intelectual austero que aparece em seus livros. Elas mostram um homem dividido entre o amor e o dever, entre a ciência e a emoção, entre a esperança e o desencanto. 

Hoje, estudiosos consideram essa correspondência essencial para compreender não apenas o escritor de “Os Sertões”, mas também o homem que viveu intensamente as contradições de seu tempo. 

Além da trajetória já conhecida de Euclides da Cunha, alguns aspectos curiosos e pouco comentados ajudam a compor um retrato mais humano e concreto do escritor. Essas informações, reunidas por estudiosos como o professor Marco Antonio, revelam detalhes de sua vida cotidiana, hábitos e até mesmo circunstâncias específicas de sua morte.

Euclides era descrito como um homem franzino, de aparência física delicada, o que contrastava com sua postura firme e intelectual vigoroso. Sua caligrafia era considerada horrível, fato que comprometeu o valor da primeira edição de Os Sertões. Por isso, a edição mais valorizada pelos colecionadores e estudiosos é a terceira edição, revisada e corrigida. 

Casou-se com Anna Emília Ribeiro, que passou a ser chamada Anna da Cunha, mas era conhecida como S’Anninha. O casamento durou 19 anos, marcado por tensões e pelo relacionamento extraconjugal de Anna com Dilermando de Assis. Em termos de residência, Euclides morou em diferentes bairros do Rio de Janeiro: Laranjeiras, Botafogo e Copacabana, refletindo sua mobilidade dentro da cidade.

Euclides morreu em 15 de agosto de 1909, na então Estrada Real de Santa Cruz, em Piedade, atual Avenida Dom Hélder Câmara. Na noite anterior, fumou cinco maços de cigarros em companhia das irmãs Angélica e Lucinda Ratto. 

Na manhã do domingo chuvoso, saiu de Copacabana às 6h e chegou a Piedade por volta das 9h. Antes, passou na casa dos primos Arnaldo e Nestor, em Botafogo, para pegar um revólver Smith & Wesson calibre 22, já enferrujado. 

Dilermando, por sua vez, usava um revólver Nagant e era campeão de tiro ao alvo, o que lhe deu vantagem decisiva no confronto. O tiro fatal atingiu Euclides no lado direito, perfurando seu paletó e a carteira marcada com as iniciais “EC”.

A causa mortis foi registrada como ferimentos no flanco direito, úmero, pulso e pulmão direito. Às 10h daquela manhã, Euclides já estava morto. A cena foi marcada pela chuva fina e pelo silêncio de um bairro com comércio fechado, onde apenas fiéis que saíam da missa cruzavam seu caminho. 

Esses detalhes complementares reforçam a dramaticidade da vida de Euclides da Cunha, mostrando não apenas o intelectual e escritor, mas também o homem comum, com fragilidades, hábitos e circunstâncias que o aproximam de nós. Após a morte de Euclides da Cunha em 15 de agosto de 1909, o caso rapidamente ganhou enorme repercussão nacional. A tragédia envolvia não apenas um dos maiores intelectuais brasileiros, mas também questões de honra, traição e violência, que chocaram a opinião pública da época. 

Dilermando de Assis foi levado a julgamento acusado de homicídio. A defesa alegou legítima defesa, sustentando que Euclides havia invadido a casa armado e disparado primeiro contra Dinorah, irmão de Dilermando. O tribunal aceitou essa versão, considerando que Dilermando apenas reagira para proteger a própria vida e a de sua família. Ele foi absolvido, mas o processo não encerrou a polêmica: muitos viam a decisão como injusta, pois acreditavam que Euclides havia sido vítima de uma emboscada ou de um desfecho inevitável de sua fragilidade emocional. 

A morte de Euclides foi recebida com comoção nacional. Intelectuais, jornalistas e políticos lamentaram a perda de um dos maiores intérpretes do Brasil. Ao mesmo tempo, Anna Emília Ribeiro, conhecida como S’Anninha, foi alvo de duras críticas e julgamentos morais, acusada de ter provocado a tragédia com seu relacionamento extraconjugal. Dilermando, apesar da absolvição, carregou por toda a vida o estigma de ser “o homem que matou Euclides da Cunha”. Embora tenha seguido carreira militar e alcançado o posto de general, sua imagem pública permaneceu marcada pelo episódio.

O caso também reforçou debates sobre honra masculina, papel da mulher na sociedade e os limites da justiça. A tragédia foi vista como um drama que misturava literatura, política e vida privada, tornando-se um dos episódios mais comentados do início do século XX. O julgamento e a reação social consolidaram a imagem de Euclides como um intelectual mártir, cuja vida foi ceifada em circunstâncias passionais. Sua morte precoce, aos 43 anos, reforçou o caráter trágico de sua biografia e deu ainda mais força à sua obra, especialmente “Os Sertões”, que passou a ser lida como testemunho de um homem que buscava compreender o Brasil em toda sua complexidade. 

Assim, a Tragédia da Piedade não foi apenas um episódio policial: tornou-se parte da história cultural brasileira, lembrada até hoje como um símbolo das tensões entre razão e paixão, ciência e emoção, vida pública e vida privada. 

A imprensa da época transformou a morte de Euclides da Cunha em um escândalo nacional, chamando o episódio de “Tragédia da Piedade”. Manchetes destacavam o drama da honra, da traição e da violência, e o caso foi tratado como um verdadeiro espetáculo público. 

Como a Imprensa Retratou o Caso 

Designação “Tragédia da Piedade”: jornais passaram a usar essa expressão para dar peso dramático ao episódio, comparando-o a tragédias clássicas da literatura grega, como as de Ésquilo. 

A imprensa ressaltava que o caso envolvia não apenas um escritor famoso, mas também valores da República recém-instalada, como a honra e o papel dos militares na sociedade. O homicídio foi descrito como um “drama social republicano”, expondo a fragilidade das relações familiares e a tensão entre vida pública e privada . 

Manchetes e Narrativas 

Jornais destacaram que Euclides era “o maior nome das letras nacionais” e que sua morte representava uma perda irreparável para a cultura brasileira. 

A figura de Anna Emília Ribeiro, a S’Anninha, foi retratada como pivô da tragédia, alvo de críticas e julgamentos morais. 

Dilermando de Assis foi descrito como “o amante da esposa” e “o homem que matou Euclides”, mesmo após sua absolvição judicial. 

Charges e ilustrações circularam, reforçando o caráter de espetáculo midiático do caso. O episódio foi visto como um escândalo de honra, em que a traição conjugal e o duelo armado expunham valores da sociedade brasileira do início do século XX. A imprensa ajudou a consolidar a imagem de Euclides como um mártir intelectual, cuja morte trágica reforçava a dramaticidade de sua vida. O caso também alimentou debates sobre o papel da mulher, a moralidade pública e os limites da justiça.

A cobertura jornalística da Tragédia da Piedade transformou um drama íntimo em um evento nacional, misturando literatura, política e vida privada. A imprensa não apenas noticiou, mas também moldou a memória coletiva, perpetuando a imagem de Euclides da Cunha como um herói trágico e de Dilermando como o antagonista marcado pelo estigma.

Manchetes e Cobertura

O jornal O Paiz descreveu Euclides como “um dos maiores nomes das letras nacionais” e lamentou a perda irreparável para a cultura brasileira.

O Correio da Manhã destacou o caráter escandaloso do caso, chamando-o de “drama social republicano”, em que honra e traição se misturavam. Algumas notas de imprensa chegaram a retratar Anna Emília Ribeiro, a S’Anninha, como “a mulher culpada”, responsabilizando-a pela tragédia. 

Dilermando de Assis foi estigmatizado como “o homem que matou Euclides”, mesmo após sua absolvição judicial. 

A imprensa descreveu minuciosamente o cenário da manhã chuvosa de domingo: o comércio fechado, os fiéis saindo da missa e a chuva fina que caía sobre Piedade. Esses detalhes foram narrados como se a cena fosse parte de um romance, reforçando o caráter trágico do episódio. 

Charges e ilustrações circularam, reforçando a ideia de que o caso não era apenas policial, mas um drama nacional. A narrativa jornalística transformou Euclides em um mártir intelectual, cuja morte simbolizava o choque entre razão e paixão. 

A cobertura moldou a memória coletiva: Euclides foi visto como herói trágico; Anna como figura controversa, alvo de julgamento moral; Dilermando como antagonista marcado pelo estigma. 

O caso alimentou debates sobre honra masculina, papel da mulher na sociedade e os limites da justiça. A imprensa, ao dramatizar o episódio, garantiu que a Tragédia da Piedade permanecesse viva no imaginário brasileiro por décadas. 

O Túmulo de Anna de Assis e a Coincidência com Euclides 

Entre os muitos detalhes curiosos ligados à vida e à memória de Euclides da Cunha, há também aqueles que envolvem sua esposa, Anna de Assis, conhecida como S’Anninha. No Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro, encontra-se o túmulo de Anna, que foi objeto de pesquisas minuciosas realizadas por estudiosos como o professor Marco Antonio. Ao catalogar nomes e datas, ele observou uma coincidência curiosa: próximo à aleia onde está o túmulo de Anna, há uma separação. Seguindo pelo lado esquerdo, junto ao muro do cemitério, ficava o túmulo de Euclides da Cunha, posteriormente transferido para São José do Rio Pardo, cidade onde escreveu parte de “Os Sertões”. Já pelo lado direito, encontra-se o túmulo de Anna. Essa disposição espacial, quase como um encontro simbólico, chamou atenção por parecer refletir, mesmo na morte, a relação marcada por distância e desencontros. A coincidência reforça o caráter trágico e literário da história do casal, lembrando que, apesar das tensões e da tragédia que os separou em vida, seus destinos permaneceram ligados também na memória e nos espaços de sepultamento. 

São José do Rio Pardo e a Memória de Euclides

Foi em São José do Rio Pardo, no interior paulista, que Euclides viveu parte de sua vida e escreveu trechos de “Os Sertões”. A cidade preserva sua memória com o Museu Euclides da Cunha, instalado na casa onde ele residiu, e com o Monumento Euclides da Cunha, que homenageia sua contribuição à literatura e à história nacional. 

O município tornou-se um verdadeiro resguardador de sua obra e de sua lembrança, recebendo visitantes e estudiosos que buscam compreender melhor o homem por trás do clássico. Ali, a memória de Euclides é celebrada não apenas como escritor, mas como figura trágica que marcou profundamente a cultura brasileira. 

A obra de Euclides da Cunha continua a ser celebrada e reinterpretada, e parte desse esforço se deve ao trabalho de especialistas e acadêmicos que dedicam suas vidas a preservar sua memória. Entre eles, destaca-se o professor Marco Antonio Martins Pereira, que se tornou referência por suas pesquisas minuciosas e por sua dedicação em reunir documentos, catalogar informações e organizar arquivos que ajudam a compreender não apenas o escritor de Os Sertões, mas também o homem por trás da obra. Marco Antonio é reconhecido por seu olhar atento e detalhista. Ele percorre cemitérios, arquivos e bibliotecas, catalogando nomes, datas e registros que compõem o universo euclidiano. Sua biblioteca pessoal abriga um verdadeiro arquivo sobre Euclides, resultado de anos de pesquisa e dedicação. 

Esse trabalho não se limita ao campo acadêmico: é também uma forma de manter viva a memória de Euclides da Cunha para o público em geral, aproximando leitores e curiosos da história de um dos maiores intérpretes do Brasil. 

A memória de Euclides também é celebrada em eventos promovidos por escritores como o acadêmico: Jose Augusto Oliveira Huguenin - "Vidas Sertanejas", inspirada na obra de Euclides da Cunha e pelas pesquisadoras Anabelle Loivos Sangenis Considera em parceria com Luiz Fernando Sangenis. Euclides da Cunha: da face de um tapuia. Niterói: Nitpress, 2013 também fez a conferência na ABL: "Euclides, mestre-escola". abordando aspectos do pensamento social euclidiano. Também o saudoso Edmo Rodrigues Lutterbach escreveu inúmeros artigos e o livro: “A Eternidade de Euclides da Cunha” pela Cátedra em 1988.

A Presidente da Academia Fluminense de Letras Márcia Pessanha marcando os 115 anos sem Euclides da Cunha participou do Fórum Euclides 115 - 1ª Jornada Euclidiana de Cantagalo, nos dias 20 e 21 de março de 2026. A Presidente Márcia Pessanha e o Acadêmico José Huguenin fizeram o lançamento da 2ª edição do livro: “A eternidade de Euclides da Cunha”, de Edmo Rodrigues Lutterbach – primeiro título a sair pelo selo editorial da AFL e muitos outros autores escreveram sobre Euclides da Cunha, no final dessa postagem encontra-se um link onde tem nomes de importantes escritores.

Esses encontros reúnem estudiosos, leitores e admiradores para discutir a atualidade da obra euclidiana, reforçando seu papel como patrimônio cultural brasileiro. 

Os eventos não apenas revisitam “Os Sertões”, mas também exploram aspectos menos conhecidos da vida de Euclides, como sua trajetória na Amazônia, sua atuação como engenheiro e jornalista, e os dramas pessoais que culminaram na Tragédia da Piedade. 

A obra de Euclides é também constantemente revisitada em seminários recentes, que discutem sua atualidade diante dos desafios contemporâneos. Nessas ocasiões, pesquisadores relacionam “Os Sertões” a temas como migração, desigualdade social e meio ambiente, mostrando como o pensamento euclidiano continua relevante. Além disso, diversas teses acadêmicas aprofundam a análise da obra, explorando desde sua linguagem literária até sua contribuição para a sociologia e a antropologia brasileiras. Esses estudos reforçam que Euclides não é apenas um autor do passado, mas um pensador que ainda nos ajuda a compreender o presente. 

O Valor Cultural de Euclides 

Mais do que escritor, Euclides é símbolo de resistência, reflexão e busca por compreensão de um país vasto e desigual. Sua obra permanece como um espelho das incoerências brasileiras e como inspiração para novas gerações. 

Alegre e culturalmente, Euclides da Cunha continua presente. Sua escrita não envelheceu: ainda provoca, questiona e ilumina. Ele representa o Brasil que insiste em se compreender, que busca sentido em sua diversidade e que encontra na literatura uma forma de se reconhecer. 

Site que contém os inúmeros escritores que escreveram sobre Euclides da Cunha. Clicar no link: https://euclidesite.com.br/obras-sobre-euclides-da-cunha/  


BIOGRAFIA DE EUCLIDES DA CUNHA 

Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu em Cantagalo, interior do Rio de Janeiro, em 20 de janeiro de 1866. Filho de uma família modesta, cresceu entre o ambiente rural e a formação urbana, o que lhe deu desde cedo uma percepção aguda das desigualdades brasileiras. 

Ainda jovem, ingressou na Escola Militar da Praia Vermelha, onde se destacou pela inteligência e pela inquietação intelectual. Seu temperamento crítico o levou a romper com a disciplina militar em alguns momentos, mas também lhe deu a base para compreender a lógica da guerra e da organização social. Mais tarde, estudou engenharia na Escola Politécnica, aproximando-se das ideias positivistas que marcariam sua obra. 

Como jornalista, trabalhou em A Província de São Paulo, atual O Estado de S. Paulo, onde desenvolveu uma escrita vigorosa e engajada. Em 1897, foi enviado como correspondente para cobrir a Guerra de Canudos, experiência que mudaria sua vida. Ali, testemunhou a resistência sertaneja contra o Exército e percebeu o abismo entre o Brasil oficial e o Brasil profundo. Dessa vivência nasceu Os Sertões, 1902, obra monumental que uniu relato histórico, análise sociológica e descrição científica, tornando-se referência do pré-modernismo. 

Reconhecido pelo impacto de sua obra, Euclides foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1903. Pouco depois, participou da Comissão de Reconhecimento do Alto Purus, na Amazônia, onde enfrentou condições duríssimas e produziu relatórios técnicos que ainda hoje são referência para estudos de fronteira. Essa experiência reforçou sua visão de um país marcado por extremos naturais e sociais. 

Sua vida pessoal, no entanto, foi marcada por tensões. Casado com Anna Emília Ribeiro, viveu um relacionamento conturbado que culminou na célebre Tragédia da Piedade, em 1909. Ao descobrir o caso extraconjugal da esposa com o cadete Dilermando de Assis, Euclides tentou confrontá-lo armado. O desfecho foi fatal: Dilermando, experiente atirador, matou Euclides, que tinha apenas 43 anos. 

Sua morte precoce chocou o país e foi amplamente explorada pela imprensa, que o transformou em mártir intelectual. Apesar da tragédia, sua obra sobreviveu ao escândalo e ganhou ainda mais força, consolidando-o como um dos maiores intérpretes do Brasil. 

Hoje, Euclides é lembrado como:

O intérprete do Brasil profundo, que deu voz ao sertanejo e às regiões esquecidas; O intelectual engajado, que usou a escrita como intervenção social; O mártir trágico, cuja morte reforçou a dramaticidade de sua vida; O clássico literário, cuja obra continua a ser estudada em universidades e celebrada em eventos culturais. 

O nome do escritor Euclides da Cunha está inscrito no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria. É o que estabelece a Lei 13.622/2018, publicada no dia 16 de janeiro de 2018, no Diário Oficial da União. A lei tem origem no PLC 205/2015, aprovado no Senado em dezembro passado.

O PLC é de autoria do deputado Carlos Bezerra (PMDB-MT) e foi relatado pelo senador Otto Alencar (PSD-BA) na Comissão de Educação, Cultura e Esporte (CE) do Senado. Euclides da Cunha foi escritor, professor, sociólogo, repórter jornalístico e engenheiro militar, tendo se tornado famoso internacionalmente por sua obra-prima Os Sertões, que enfoca a Guerra de Canudos (1896/1897).

Fonte: Agência Senado

Cidades como São José do Rio Pardo preservam sua memória com museus e monumentos, e a Semana Euclidiana reúne estudiosos e admiradores para refletir sobre sua obra. Mais de um século depois, Euclides da Cunha permanece atual: sua escrita continua a provocar, questionar e iluminar, ajudando o Brasil a se compreender em sua diversidade e contradições.

Texto e pesquisa cultural

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural 


Primos Arnaldo, Euclides e Nestor Pimenta da Cunha c. 1900

Casa de Zinco em São José do Rio Pardo onde Euclides da Cunha escreveu "Os Sertões"

Folha de rosto de Os Sertões (1902)



Anna, esposa de Euclides da Cunha

Ana Emília Ribeiro e o amante Dilermando de Assis / Crédito: Wikimedia Commons



A casa no bairro da Piedade na qual Euclides morreu. À frente do portão, posa para a câmera Dinorah de Assis.



Busto Euclides da Cunha em Petrópolis



REFERÊNCIAS 

EUCLIDESITE. Obras sobre Euclides da Cunha. Disponível em: 

https://euclidesite.com.br/obras-sobre-euclides-da-cunha/  (euclidesite.com.br in Bing ). Acesso em: 19 maio 2026.

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Euclides da Cunha. Disponível em https://www.academia.org.br/academicos/euclides-da-cunha  

(academia.org.br in Bing). Acesso em: 19 maio 2026.

ESTADÃO. Os Sertões e a Guerra de Canudos. Disponível em: https://www.estadao.com.br/ . Acesso em: 19 maio 2026.

NITPRESS. Euclides da Cunha: da face de um tapuia. Niterói: Nitpress, 2013. Disponível em: http://www.nitpress.com.br/ .  Acesso em: 19 maio 2026.

FOCUS PORTAL CULTURAL. Semana Euclidiana e memória cultural. Disponível em: https://focusportalcultural.com/

Acesso em: 19 maio 2026.