Na
rua tranquila de Niterói onde mora Leonila Murinelly, o tempo parece se
derramar em ondas suaves, como se o mar próximo emprestasse seu ritmo às casas
alinhadas. As janelas se abrem para o canto dos pássaros, o cheiro de pão
fresco vindo da padaria da esquina e o murmúrio distante das crianças indo para
a escola. É um cenário comum, mas dentro de uma dessas casas pulsa um reino
secreto, invisível aos olhos apressados: o reino agateado de Leo.
Esse
reino não tem muralhas nem bandeiras, mas é marcado por pequenos rituais que se
repetem com a solenidade das grandes histórias. No centro dele está Leonila,
escritora e professora, que encontra na rotina doméstica a inspiração para suas
palavras. Ao seu redor, dois felinos reinam com graça e personalidade: Luigi, o
fofoqueiro incansável, e Chiara, a dócil sentinela da paz. Irmãos inseparáveis
de quatro anos, eles transformam cada canto da casa em território mágico.
Mas
o reino de Leo também é feito de memórias afetivas e de outras realezas que
deixaram pegadas eternas em seu coração e em sua literatura. Antes de Luigi e
Chiara, a vida de Leonila foi marcada por Baggio e Francesco, companheiros inesquecíveis
que ganharam vida eterna nas páginas do livro O Quarteto Fora de Si, publicado
por Leonila em parceria com Márcia Pessanha, Iran Pitthan e Mauro Nolasco.
Baggio
era um belíssimo Siamês que acompanhou Leonila por impressionantes 23 anos. Ele
nasceu em 1994, em pleno ano de Copa do Mundo, batizado no exato momento
histórico em que o jogador italiano Roberto Baggio isolou a icônica cobrança de
pênalti no estádio Rose Bowl, na Califórnia, garantindo o empate de 0x0 nas
penalidades e consagrando o tetracampeonato mundial do Brasil. O miniconto que
Leonila escreveu em sua homenagem, é intitulado "O Campeão":
"Nos olhos, a dor do gol desperdiçado. Chora uma
“squadra azurra”. Em um campo distante, nasce um campeão - uma homenagem é
concedida na espiral do tempo... Abraçados, na madrugada fria, dormem entre
pelos, miados e patinhas aconchegantes o Baggio e a sua Dama."
Havia
também o doce Francesco, carinhosamente chamado de Fran, um Persa deslumbrante
de pelagem longa, focinho achatado e um temperamento extremamente calmo e
dócil. Fran levava uma vida digna de "realeza": profundamente apegado
a sua tutora, ele reinava no silêncio, apreciando os momentos de tranquilidade,
bem longe de grandes agitações ou escaladas. Sobre ele se destaca o sensível
miniconto "Francesco", onde Leonila traduziu com perfeição a alma de
seu companheiro de olhar amarelo:
"É assim todos os dias... Sempre atrás da porta – à
espera. De repente, o barulho de chaves... Olhos atenuados... A ausência é
sempre justificada. Não houve abandono. Mais tarde, vem a recompensa. Quanta
intimidade neste olhar amarelo. Há enigma em seus arranhões macios exigindo
carícias. Ah, minha companhia diuturna... Parceiro de voos sobre abismos e de
esperanças contidas entre pelos azuis!"
Essas
lembranças de amor e escrita pavimentaram o caminho para os atuais guardiões do
lar. Hoje, Luigi, com sua pelagem laranja e branca, é o vigia do bairro. Seus
olhos verdes vigiam o mundo como quem coleciona segredos. Ele sabe quando o
vizinho chega, quando o carteiro passa, quando um pássaro ousa jogar-se na
janela. Nada escapa ao seu olhar curioso, e Leonila brinca dizendo que ele é o
fofoqueiro oficial da rua.
Chiara,
ao contrário, prefere o silêncio. Sua pelagem rajadinha parece feita de nuvens,
e seus olhos transmitem uma serenidade que acalma até os dias mais turbulentos.
Ela é o custódio do sossego, a que traduz o silêncio em afeto.
O
reino agateado se revela nos detalhes: no rabinho que balança quando Leonila se
prepara para sair, no miado que anuncia novidades, no ronronar que embala
tardes de escrita. É um espaço onde a rotina se transforma em poesia, onde cada
gesto dos gatos é metáfora viva. Luigi ensina que a curiosidade é uma forma de
arte; Chiara mostra que a ternura é um caminho de paz. Juntos, eles compõem uma
narrativa silenciosa que se renova a cada amanhecer.
O
relógio marca o início da manhã, e a casa desperta lentamente. Luigi e Chiara
já estão de pé ou melhor, sentinelas lado a lado, atentos ao ritual diário da
dona. Eles conhecem cada movimento: o barulho da xícara pós-pousando no pires,
na mesa, o som das chaves tilintando, o leve toque do perfume antes de sair. É
o prelúdio da partida, e os dois felinos se preparam para o momento que mais os
comove.
Luigi,
o fofoqueiro, é o primeiro a se posicionar diante da porta. Seu rabo se move de
um lado para o outro, como se marcasse o compasso de uma música invisível.
Chiara se aproxima logo depois, silenciosa, mas com o mesmo gesto, o rabinho
erguido, balançando suavemente, como um aceno discreto de quem entende a rotina
e aceita o breve afastamento. É uma cena que se repete todos os dias, mas nunca
perde o encanto.
Leonila
sorri. Abaixa-se, acaricia os dois e fala com a voz doce que só os gatos
parecem compreender. Luigi responde com um miado curto, quase uma reclamação,
ele não gosta de ver a porta se fechar. Chiara, ao contrário, encosta o focinho
na mão da dona e fecha os olhos, como se dissesse: “Vai tranquila, estaremos aqui.” E assim, entre gestos e silêncios,
acontece o pequeno ritual da despedida.
Durante
o dia, Luigi ronda a casa, curioso, atento a qualquer som que possa anunciar a
chegada de Leonila. Chiara prefere o descanso, mas de tempos em tempos
levanta-se e vai até a porta, como se conferisse se tudo está em ordem. E quando
o som das chaves volta a ecoar, os dois se transformam. Luigi corre, Chiara se
ergue, e o rabinho de ambos começa novamente a balançar, agora em ritmo de
festa. É o reencontro, o momento em que o tempo se dobra e tudo volta a ser
como antes.
Leonila
entra, cercada por miados e carinhos. Luigi exige atenção imediata, Chiara
oferece ternura. A casa se enche de vida, e o dia se encerra com o mesmo
encanto com que começou. Para Leonila, não há dúvida: seus gatos são protetores
do afeto, zeladores da rotina, poetas silenciosos que transformam cada saída e
cada retorno em uma celebração do vínculo.
Não
é por acaso que tantos escritores e pensadores se deixaram seduzir pelos gatos.
Guimarães Rosa via nos animais uma poesia silenciosa, capaz de revelar segredos
da alma humana. Nise da Silveira, revolucionária da psiquiatria, reconhecia nos
felinos uma força terapêutica, presença curadora que devolvia confiança aos
pacientes.
Mas
os gatos não inspiraram apenas Guimarães Rosa, com sua poesia silenciosa, ou
Nise da Silveira, que os reconhecia como presenças terapêuticas. Ao longo da
história, muitos outros autores se deixaram seduzir por esses seres mistérios.
Ernest
Hemingway vivia cercado de gatos polidáctilos, tinha uma grande paixão por
gatos com essa característica. Na década de 1930, ele ganhou de um capitão de
navio um gato branco de seis dedos chamado Snowball, Branca de Neve. O escritor
acolheu o animal, que gerou dezenas de filhotes em sua casa em Key West, hoje
transformada em museu, onde ainda habitam dezenas de descendentes felinos. O
escritor Julio Cortázar escreveu sobre seus gatos Flanelle e Theodor W. Adorno,
transformando-os em personagens literários de contos e ensaios; Mark Twain
chegou a conviver com dezenove gatos ao mesmo tempo, afirmando que eram
melhores companheiros do que os humanos; Charles Bukowski via nos gatos uma
forma de salvação, e dedicou-lhes poemas como My Cats; Patricia Highsmith
reuniu em Os Gatos narrativas e reflexões sobre sua convivência com eles; Doris
Lessing, Nobel de Literatura, escreveu Sobre Gatos, obra que celebra sua
relação íntima com os felinos; Edgar Allan Poe deu ao gato preto um papel
central em uma de suas narrativas mais sombrias e simbólicas; Neil Gaiman
também se confessa apaixonado por gatos, que aparecem em várias de suas
histórias, como em Coraline; Charles Baudelaire os cantou como símbolos de
mistério e beleza; Jorge Luis Borges um dos maiores escritores, poetas,
ensaístas da literatura universal olhava para eles como criaturas metafísicas,
habitantes de um tempo paralelo; T.S. Eliot lhes dedicou versos que inspiraram
até o teatro musical.
No
teatro musical, Andrew Lloyd Webber transformou os poemas de T.S. Eliot em
Cats, peça que conquistou o mundo com seus felinos Jellicle e a canção
‘Memory’. Assim, Luigi e Chiara, em sua rotina agateada, parecem dialogar com
essa tradição: personagens de uma peça íntima e cotidiana, onde cada gesto é
cena e cada miado é verso.
Leonila,
ao observar Luigi e Chiara, sente-se parte dessa linhagem. Seus gatos não são
apenas companhia: são musos inspiradores, sentinelas de uma literatura íntima e
cotidiana. Cada miado de Luigi é uma crônica em potencial; cada ronronar de
Chiara é um poema que se escreve no silêncio.
Assim,
o reino agateado de Leo se conecta a uma tradição maior, onde os gatos são não
apenas animais, mas metáforas vivas da imaginação.
Esta
crônica nasceu, precisamente, da observação atenta desse convívio cotidiano com
seus gatos; mais do que personagens, eles foram a própria inspiração,
transformando a rotina de casa na matéria-prima desta narrativa.
Na
casa de Leonila Murinelly, cada dia é uma crônica viva. Luigi e Chiara são os
protagonistas silenciosos de uma história que se renova a cada amanhecer. Eles
ensinam que o amor pode ser simples, que a curiosidade é uma forma de poesia e
que o silêncio, às vezes, diz mais do que mil palavras. E Leonila, com sua
sensibilidade de escritora, transforma essas lições em literatura, porque sabe
que, no fundo, toda vida compartilhada é uma narrativa.
Assim,
no pequeno reino agateado de Leonila, Luigi e Chiara continuam a espalhar
encanto e alegria. O fofoqueiro e a dócil, o inquieto e a serena, o fogo e a
brisa, dois gatos que, juntos, revelam o segredo mais bonito da convivência: o
equilíbrio entre o olhar curioso e o coração tranquilo.
©
Alberto Araújo
Focus Portal Cultural