Amigos da cultura, da cidade e da memória,
O Focus Portal Cultural dirige-se ao Rio de Janeiro e ao mundo para refletir sobre um acontecimento que transpõe o campo da arquitetura e se inscreve na história da cidade: a chegada de Francis Kéré com o projeto da Biblioteca dos Saberes, parte da iniciativa Praça Onze Maravilha.
Francis Kéré não é apenas um arquiteto premiado. Ele é um pensador que entende a arquitetura como ferramenta de transformação social. Ao longo de sua trajetória, desde a vila de Gando até os grandes centros urbanos, sua obra demonstra que construir é também um ato político. Cada parede, cada espaço aberto, cada sombra projetada carrega uma intenção: devolver dignidade, criar pertencimento, promover encontros.
No Rio, essa filosofia encontra terreno fértil. A Biblioteca dos Saberes nasce em um espaço carregado de memória: o antigo Terreirão do Samba, vizinho ao Sambódromo e ao monumento a Zumbi dos Palmares. Ali pulsa a história da Pequena África, território simbólico da diáspora africana no Brasil. Ao escolher esse lugar, Kéré não apenas ergue um edifício; ele inscreve sua obra em um diálogo profundo com a ancestralidade e com a resistência cultural que moldaram a identidade carioca.
O projeto da Biblioteca dos Saberes não se limita à estética. Ele representa uma intervenção urbana de grande alcance. Com mais de 40 mil metros quadrados, o espaço reunirá teatros, anfiteatro, cozinhas comunitárias, salas de estudo, jardins suspensos e uma torre circular aberta à luz natural. Essa diversidade de usos transforma o edifício em um equipamento cultural multifuncional, capaz de atender às demandas de educação, lazer, convivência e memória.
Do ponto de vista urbano, a obra reposiciona a região da Cidade Nova como polo cultural e educativo. Ao integrar-se à Praça Onze Maravilha, a biblioteca contribui para revitalizar uma área marcada por contradições: de um lado, a riqueza histórica da Pequena África; de outro, décadas de abandono e invisibilidade. A presença de um projeto internacional, assinado por um arquiteto de renome, devolve visibilidade e valor simbólico ao território.
Socialmente, o impacto é ainda mais profundo. A biblioteca será espaço de acesso democrático ao conhecimento, especialmente para populações historicamente marginalizadas. Ao unir saberes africanos e brasileiros, o projeto reafirma que a cultura é plural e que o futuro só pode ser construído a partir da diversidade.
Francis Kéré se declara admirador de Oscar Niemeyer. Essa admiração não é mero detalhe: ela revela uma afinidade estética e filosófica. Niemeyer acreditava que a arquitetura deveria ser poesia, liberdade, curvas que se abrem ao horizonte. Kéré, por sua vez, traz a mesma convicção, mas enraizada em sua experiência africana: espaços que respiram, que acolhem, que se adaptam ao clima e às necessidades das comunidades.
Na Biblioteca dos Saberes, essa ponte se materializa. Os pilotis e cobogós evocam a tradição modernista brasileira, enquanto os jardins suspensos e a torre circular remetem à leveza e à sustentabilidade que caracterizam a obra de Kéré. O resultado é um edifício que dialoga com o legado de Niemeyer, mas que também inaugura uma nova linguagem, marcada pela fusão de referências culturais e pela busca de inclusão.
O Focus Portal Cultural entende que a Biblioteca dos Saberes é mais do que um projeto arquitetônico. É um refletor cultural, destinado a iluminar não apenas a cidade do Rio de Janeiro, mas também o mundo. Ao unir Brasil e África em um mesmo gesto, Francis Kéré nos lembra que a arquitetura pode ser memória, pode ser resistência, pode ser esperança.
Que este espaço seja, portanto, um território de encontros. Que nele se celebrem histórias, se construam novas narrativas e se fortaleça a identidade coletiva. Que cada criança que entrar em suas salas encontre não apenas livros, mas também a certeza de que o conhecimento é direito de todos.
Em nome da cultura,
da memória e da
esperança,
Focus Portal Cultural
© Alberto Araújo
FRANCIS KÉRÉ: DA VILA DE GANDO AO CORAÇÃO DO RIO DE JANEIRO
Diébédo Francis Kéré é um nome que hoje ocupa lugar de destaque na arquitetura mundial. Nascido em Gando, uma pequena comunidade de Burkina Faso, ele cresceu em meio a limitações que moldaram sua visão de mundo. Ainda criança, enfrentava salas de aula abafadas e pouco funcionais, o que despertou nele o desejo de transformar espaços em ambientes mais acolhedores e inteligentes. Essa inquietação infantil se tornaria, décadas depois, a base de uma carreira marcada pela inovação e pelo compromisso social.
A trajetória de Kéré é singular. Ao conquistar oportunidades de estudo na Alemanha, ele não se afastou de suas raízes africanas. Pelo contrário, buscou constantemente integrar técnicas tradicionais e materiais locais às soluções arquitetônicas contemporâneas. Essa fusão entre saberes ancestrais e modernidade fez dele um dos arquitetos mais respeitados do planeta. Em 2022, recebeu o Prêmio Pritzker, considerado o “Nobel da Arquitetura”, tornando-se o primeiro africano a alcançar tal reconhecimento.
Apesar de sua origem africana, Kéré afirma sentir uma conexão profunda com o Rio de Janeiro. Ao apresentar o projeto da Biblioteca dos Saberes, parte da iniciativa Praça Onze Maravilha, declarou que se considera “carioca por adoção”. Para ele, a energia e a criatividade do povo carioca dialogam com sua própria visão de arquitetura: espaços que não apenas abrigam pessoas, mas que promovem encontros, trocas culturais e experiências coletivas.
O projeto da Biblioteca dos Saberes é ambicioso. Com mais de 40 mil metros quadrados, o edifício será erguido na região da Cidade Nova, próximo ao Sambódromo e ao monumento a Zumbi dos Palmares. O espaço ocupará o antigo Terreirão do Samba e se integrará à chamada Pequena África, área marcada pela memória da diáspora africana no Brasil.
A proposta arquitetônica combina elementos típicos da tradição brasileira, como cobogós e pilotis, com soluções que remetem à leveza e à sustentabilidade. Jardins suspensos e uma torre circular aberta à luz natural reforçam a ideia de que a arquitetura deve dialogar com o ambiente e proporcionar bem-estar. Internamente, a biblioteca contará com teatros, anfiteatro, cozinhas comunitárias, salas de estudo, áreas expositivas e acervos voltados à memória e às expressões populares.
Mais do que um edifício monumental, a Biblioteca dos Saberes nasce como um espaço de reflexão e convivência. A intenção é que ali se discutam histórias, se celebrem culturas e se fortaleça a identidade coletiva. É um projeto que busca unir Brasil e África em um mesmo gesto arquitetônico, reafirmando a importância da diversidade como motor de transformação social.
O trabalho de Francis Kéré sempre esteve pautado pela ideia de que a arquitetura deve servir às pessoas. Em Gando, sua vila natal, ele construiu escolas e centros comunitários utilizando técnicas simples, mas eficazes, que aproveitam a ventilação natural e materiais locais. Essa abordagem não apenas reduz custos, mas também valoriza o conhecimento tradicional e fortalece o senso de pertencimento das comunidades.
No Rio, sua filosofia se mantém. A Biblioteca dos Saberes não é apenas um prédio imponente; é um convite ao diálogo, à educação e à cultura. Kéré acredita que espaços bem planejados podem transformar vidas, e sua obra é prova disso. Ao unir referências africanas e brasileiras, ele cria uma ponte simbólica entre continentes e reafirma que a arquitetura é, antes de tudo, uma ferramenta de inclusão.
Com 60 anos, Francis Kéré acumula prêmios e reconhecimentos, mas continua fiel ao propósito que nasceu em sua infância: construir lugares melhores para as pessoas. Sua presença no Rio de Janeiro e o projeto da Biblioteca dos Saberes representam não apenas uma conquista pessoal, mas também um marco para a cidade. Trata-se de um equipamento cultural que promete impactar gerações, oferecendo conhecimento, memória e convivência em um espaço que celebra a pluralidade.
Ao se declarar fã de Oscar Niemeyer, Kéré demonstra que sua admiração pela arquitetura brasileira vai além da técnica. Ele reconhece na obra de Niemeyer a mesma busca por formas que libertam, que convidam ao encontro e que transformam a paisagem em poesia. Essa inspiração se reflete em sua própria produção, que agora ganha um capítulo carioca.
Francis Kéré, arquiteto burquinês e primeiro africano a receber o Pritzker, assina o projeto da Biblioteca dos Saberes no Rio de Janeiro. O edifício, parte da iniciativa Praça Onze Maravilha, será um marco cultural e arquitetônico que une Brasil e África em um espaço de memória, diálogo e convivência.
© Alberto Araújo
Focus Portal Cultural







.png)
Nenhum comentário:
Postar um comentário