quarta-feira, 27 de agosto de 2025

O ENCONTRO DOS ÍCONES MACHADIANOS - CONTO-DIALOGADO © ALBERTO ARAÚJO


Convido o leitor, antes de tudo, a atravessar comigo um portal invisível, desses que só a literatura é capaz de abrir. Imagine-se entrando no  Capitu Café, um espaço onde o tempo se curva à imaginação e as paredes respiram palavras. Ali, os fantasmas das páginas ganham corpo, e vozes que um dia foram apenas letras agora ecoam como música num salão de memórias. 

Naquela noite singular, o café não recebia clientes comuns, mas visitantes ilustres: personagens que Machado de Assis concebeu e que, agora, se reuniam frente a frente, como velhos conhecidos convocados para um banquete imprevisto. 

Brás Cubas, com seu sorriso enviesado, foi o primeiro a se pronunciar:

— Meus senhores e senhoras, que prazer inusitado! Um defunto autor presidindo um encontro entre vivos de papel. Não vos parece uma deliciosa ironia? 

Capitu, recostada na cadeira, deixou escapar um olhar que parecia atravessar a sala inteira. Com voz baixa, mas firme, replicou:

— Ironia maior é estar eternamente julgada por olhos que nunca souberam ver além da própria sombra. 

Bentinho, já trêmulo, bateu a xícara no pires:

— Sempre essa evasiva, Capitu! Até aqui, entre paredes que nem existem, preciso eu ainda perguntar? 

Brás Cubas riu alto:

— Ah, Bentinho, o ciúme é o verdadeiro defunto que não se enterra nunca.

Sofia, elegante, interferiu, olhando para Palha com cumplicidade:

— Deixem de lado essas paixões gastas. A vida é mais produtiva quando se pensa em ganhos. Não é, Palha? 

Palha, ajeitando o colete, completou:

— O amor passa, minha cara, mas os lucros ficam. Quem não aposta nisso perde o jogo. 

O Conselheiro Aires pigarreou, levantando os olhos de seu diário:

— Meus amigos, vosso encontro é raro. Vejo aqui um mosaico da própria humanidade: a paixão desconfiada, a ambição desmedida, a ironia resignada… e, por trás de tudo, um autor invisível a nos observar. 

Capitu voltou-se a ele com seus olhos insondáveis:

— Então escreva, Conselheiro, mas escreva com justiça. Porque até hoje ninguém conseguiu dizer quem eu fui de verdade. 

Aires sorriu com melancolia:

— Minha senhora, a justiça é uma palavra que, no papel, obedece mais ao leitor do que à personagem. 

O silêncio caiu sobre a mesa, pesado e doce. Só Brás Cubas ousou quebrá-lo:

— Pois eu vos digo: não há verdade, senão a que se inventa. E, no fim das contas, ao vencedor… 

Sofia interrompeu, rindo, como quem rouba a fala alheia:

— … as batatas. 

E todos, por um instante, até mesmo Bentinho, riram como se partilhassem de um segredo eterno. 

Mas a paz durou pouco. Bentinho, incapaz de se conter, levantou-se abruptamente. Seu olhar fixo em Capitu ardia de uma febre antiga:

— Dize-me, Capitu! Agora, diante de todos, diante de quem quiser ouvir… responde! Foi ou não foi? 

A sala pareceu prender o fôlego.

Capitu, sem se abalar, ajeitou lentamente os cabelos e devolveu o olhar com firmeza. Sua voz soou clara como o estalar de um cristal:

— Bentinho, não percebes? A dúvida é a tua verdadeira esposa. Foi ela que deitaste no leito, foi ela que embalaste nos braços. Eu, eu nunca te bastaria.

Brás Cubas gargalhou, batendo as mãos na mesa:

— Bravo! A dúvida é a legítima herdeira do matrimônio! Vede, senhores, eis a mais fiel das companheiras! 

Sofia, entediada com a cena, comentou:

— Enquanto discutem sombras, o mundo gira. Há quem prefira perder a vida em perguntas, e quem prefira ganhá-la em negócios. 

Palha completou, erguendo o cálice:

— Quem aposta na dúvida perde sempre. Eu, ao menos, aposto na vantagem. 

O Conselheiro Aires, conciliador, interveio:

— Meus caros, cada um de vós carrega em si um espelho partido. Talvez seja essa a grande lição: a vida é feita de fragmentos, e cabe ao leitor juntá-los, ou não.

Capitu voltou a falar, desta vez não a Bentinho, mas a todos:

— Eu nunca pedi para ser julgada. Fui escrita assim: metade verdade, metade mistério. Se me quereis decifrar, sabei que cada um de vós me enxergará com os próprios olhos. 

De repente, como se obedecessem a um mesmo impulso, todos ergueram as taças — Bentinho com as mãos trêmulas, Capitu serena, Sofia e Palha com malícia, Brás Cubas com ironia, e Aires com melancolia. 

Brás Cubas declarou, com solenidade zombeteira:

— Pois brindemos, meus caros, ao destino que nos uniu! À dúvida que nos sustenta, à ambição que nos move, ao amor que nos envenena, e, sobretudo, ao autor invisível que, de algum canto, nos observa e sorri. 

As taças tilintaram, como se ecoassem não só no Café Capitu, mas na eternidade literária. 

EPÍLOGO

E quando a última gota de vinho foi sorvida e o eco das taças já não se ouvia, o Café Capitu começou a dissolver-se como uma miragem. As paredes, antes vivas de palavras, transformaram-se em sombras. As cadeiras vazias rangiam, como se quisessem guardar para si o segredo daquela noite impossível. 

Brás Cubas se despediu com um aceno zombeteiro, prometendo narrar tudo, ainda que a morte já lhe houvesse roubado a pressa. Capitu caminhou altiva, seus olhos de ressaca ainda lançando enigmas na penumbra. Bentinho a seguiu, sempre dividido entre o amor e a dúvida. Sofia e Palha desapareceram em sussurros de conchavos. O Conselheiro Aires fechou o diário, satisfeito por ter anotado não os fatos, mas os silêncios.

Por fim, restou apenas a figura discreta de Machado de Assis. Ele fechou o livro invisível que estivera folheando e, com seu sorriso irônico, deixou escapar em voz baixa: 

— O que importa não é o que foi dito, mas o que ficará na memória de quem leu. 

E então, leitor, o café se apagou de vez. Você, que ousou atravessar esse portal da imaginação, retorna agora à realidade, mas talvez com uma estranha sensação: a de que, em algum lugar secreto da literatura, os personagens ainda conversam, rindo de nós, como nós rimos deles. 

Porque assim é o legado de Machado: eterno, ambíguo, fascinante e sempre à espera de um leitor disposto a embarcar nessa viagem. 

© Alberto Araújo

 










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