sábado, 31 de janeiro de 2026

A JORNADA DE NELLIE CASHMAN - O ANJO DO CASSIAR

 

O inverno de 1874 não foi apenas rigoroso nas montanhas do norte da Colúmbia Britânica, foi implacável. A neve parecia não ter fim, cobrindo vales e trilhas, apagando qualquer vestígio de passagem humana. Os rios congelaram até o fundo, e o vento soprava como se quisesse expulsar qualquer intruso que ousasse desafiar aquele território selvagem. Foi nesse cenário que dezenas de garimpeiros, homens endurecidos pela busca do ouro, se viram aprisionados em um acampamento isolado nas Montanhas Cassiar. Sem comida, sem suprimentos, sem esperança. 

A fome chegou primeiro, corroendo as forças e a dignidade. Depois veio o escorbuto, silencioso e cruel, enfraquecendo corpos já debilitados. Os dias se tornaram indistintos, apenas uma sucessão de frio e escuridão. Nenhuma expedição de resgate ousava partir: o caminho era considerado suicida. As autoridades, consultadas, aconselhavam paciência, ou resignação. Para muitos, aqueles homens estavam condenados. Mas alguém ouviu falar deles. Uma mulher.

Nellie Cashman não era uma figura comum na fronteira. Imigrante irlandesa, de baixa estatura, vivia entre viajantes e mineiros, administrando uma pequena hospedaria e uma loja de suprimentos. Não tinha fortuna, não tinha poder político, mas possuía algo raro: uma coragem que não se deixava intimidar por convenções. Quando soube que setenta e cinco homens estavam morrendo lentamente nas montanhas, não hesitou. 

As autoridades tentaram dissuadi-la. Disseram que as passagens estavam bloqueadas, que a neve era profunda demais, que a viagem quase certamente terminaria em tragédia. Nellie ouviu, mas não se deixou convencer. Para ela, a prudência que abandona vidas não era prudência, mas covardia. 

Reuniu seis homens dispostos a acompanhá-la. Juntos, prepararam trenós carregados com mais de seiscentos quilos de comida, medicamentos e suprimentos básicos. Não havia máquinas, não havia apoio oficial. Apenas cordas, raquetes de neve, coragem e determinação. 

A travessia foi brutal. A neve engolia as pernas até os joelhos, o vento cortava como lâminas, e cada passo parecia uma batalha contra a própria natureza. As noites eram passadas em tremores, sem saber se o amanhecer chegaria. Mais de uma vez os companheiros quiseram voltar. Mais de uma vez o caminho desapareceu por completo. Mas Nellie não recuava. Não gritava, não ameaçava. Apenas lembrava por que estavam ali: homens famintos, esperando na escuridão. 

Dias depois, finalmente alcançaram o acampamento. Quando Nellie surgiu diante dos garimpeiros, muitos pensaram estar vendo uma visão. Uma mulher, vinda do nada, trazendo comida e remédios. Ela não pediu agradecimentos, não fez discursos. Começou a trabalhar imediatamente. Alimentou-os em pequenas porções, cuidou dos mais fracos, organizou o grupo até que cada homem estivesse forte o suficiente para deixar as montanhas por conta própria. 

Setenta e cinco vidas foram salvas. O feito correu pelas regiões de mineração como fogo em palha seca. Nellie passou a ser chamada de Anjo do Cassiar, título que a acompanharia pelo resto da vida. Mas ela não buscava fama. Para Nellie, o resgate não era um ato heroico, mas simplesmente o que precisava ser feito. 

A vida de Nellie Cashman não se resumiu àquele episódio. Ela se tornou uma figura lendária em várias fronteiras da América do Norte. Viveu no Arizona, no Alasca, no Yukon. Onde havia mineração, havia Nellie, não apenas como comerciante, mas como presença solidária. 

Era conhecida por levantar fundos para hospitais, ajudar órfãos, apoiar comunidades indígenas e organizar campanhas de caridade. Em Tombstone, no Arizona, administrou restaurantes e hospedarias, mas também se envolveu em causas sociais. No Yukon, durante a corrida do ouro de Klondike, enfrentou novamente condições extremas para ajudar os mineiros. 

Apesar de sua vida nômade, marcada por deslocamentos constantes, Nellie mantinha uma reputação de integridade e generosidade. Nunca se casou, nunca buscou estabilidade convencional. Sua família era a comunidade que encontrava em cada acampamento. 

O que torna a história de Nellie Cashman tão poderosa não é apenas o resgate em Cassiar, mas o que ele simboliza. Em uma época em que mulheres eram frequentemente relegadas a papéis secundários, Nellie desafiou expectativas e mostrou que liderança não depende de títulos ou de força física, mas de coragem moral.

Ela não esperou permissão. Não buscou reconhecimento. Viu o sofrimento e caminhou em sua direção.

O apelido “Anjo do Cassiar” não foi apenas uma homenagem. Foi o reconhecimento de que, em meio à brutalidade da fronteira, havia espaço para compaixão. 

Hoje, olhando para trás, a história de Nellie Cashman nos lembra que há momentos em que a coragem é mais importante do que a prudência. Que esperar aprovação pode significar perder vidas. Que liderança verdadeira não se mede por poder, mas pela disposição de agir quando todos os outros recuam.

Nellie não foi enviada oficialmente. Não foi nomeada salvadora. Ela simplesmente foi. E, ao fazê-lo, deixou uma marca indelével na história da fronteira norte-americana.


BIOGRAFIA DE NELLIE CASHMAN

Nellie nasceu em 1845, em Midleton, no Condado de Cork, Irlanda, em meio à sombra da Grande Fome. As ruas estreitas da vila eram marcadas por filas de pessoas famintas, esperando por um pedaço de pão. O cheiro de turfa queimada misturava-se ao silêncio pesado das casas abandonadas. Sua mãe, viúva, sabia que não havia futuro ali. Como milhares de irlandeses, decidiu embarcar para os Estados Unidos. 

A travessia do Atlântico foi longa e dura. Os navios de emigrantes eram conhecidos como coffin ships  “navios-caixão”  pela quantidade de vidas que se perdiam no caminho. Mas Nellie e sua família chegaram a Boston, onde se instalaram em meio a uma comunidade irlandesa vibrante, mas discriminada. Ali, Nellie aprendeu cedo que sobrevivência exigia trabalho árduo e coragem. 

Durante a Guerra Civil Americana, ainda jovem, teria servido como enfermeira voluntária. Os hospitais improvisados cheiravam a desinfetante e sangue, e os gemidos dos soldados feridos ecoavam noite adentro. Essa experiência a ensinou a lidar com dor e desesperança sem perder a firmeza. 

Nos anos seguintes, Nellie foi atraída pelo oeste. A fronteira era um lugar de extremos: saloons barulhentos, ruas de terra, homens armados e mulheres tentando encontrar espaço em um mundo que raramente lhes dava voz. Ela não buscava apenas ouro ou prata; buscava independência. 

Foi nesse espírito que, em 1874, seu nome entrou para a história. Nas Montanhas Cassiar, no norte da Colúmbia Britânica, o inverno daquele ano foi implacável. A neve caía sem cessar, cobrindo trilhas e vales. Os rios congelaram até o fundo, e os garimpeiros ficaram presos em um acampamento isolado. A fome corroía suas forças, e o escorbuto os enfraquecia silenciosamente.

As autoridades consideravam impossível qualquer resgate. Mas Nellie não se deixou convencer. Reuniu seis voluntários, carregou trenós com suprimentos e partiu. A travessia foi brutal: neve até os joelhos, ventos cortantes, noites de tremores. Mais de uma vez seus companheiros quiseram desistir, mas Nellie os lembrava dos homens que esperavam na escuridão.

Quando finalmente alcançaram o acampamento, os garimpeiros mal acreditaram na visão de uma mulher surgindo da tempestade com comida e remédios. Nellie não pediu agradecimentos. Alimentou-os em pequenas porções, cuidou dos mais fracos e permaneceu até que todos estivessem fortes o suficiente para sair por conta própria. 

Setenta e cinco vidas foram salvas. O feito correu pelas regiões de mineração, e Nellie passou a ser chamada de Anjo do Cassiar. 

Nos anos seguintes, Nellie estabeleceu-se em Tombstone, Arizona, uma cidade que parecia saída de um faroeste. As ruas eram de terra batida, os saloons fervilhavam de jogadores e pistoleiros, e a mineração de prata atraía aventureiros de todos os cantos.

Nellie abriu restaurantes e hospedarias, mas sua presença ia além dos negócios. Organizou campanhas para hospitais, ajudou órfãos e apoiou comunidades indígenas. Enquanto muitos buscavam apenas riqueza, ela se tornava referência de solidariedade.

Era comum vê-la circulando pelas ruas com passos firmes, conversando com mineiros e comerciantes, sempre pronta a ajudar. Em uma cidade marcada por tiroteios e disputas de poder, Nellie representava estabilidade e compaixão. 

No final do século XIX, a corrida do ouro do Klondike transformou o Yukon em um turbilhão humano. Multidões atravessavam trilhas perigosas, carregando sacos pesados de suprimentos, enfrentando avalanches e rios congelados. O som de picaretas e martelos misturava-se ao grito de comerciantes e ao ranger de trenós. 

Nellie estava lá. Mais uma vez enfrentou condições extremas, atravessando montanhas e vales para chegar às áreas de mineração. Não buscava apenas riqueza: sua presença era marcada pela disposição de ajudar os necessitados, organizar apoio para mineiros e manter viva a chama da solidariedade em meio à brutalidade da fronteira. 

Apesar de sua vida nômade, marcada por deslocamentos constantes entre Arizona, Alasca e Yukon, Nellie construiu uma reputação sólida. Nunca se casou, nunca buscou estabilidade convencional. Sua família era a comunidade que encontrava em cada acampamento. Sua casa era onde houvesse trabalho, sofrimento e a necessidade de alguém disposto a agir. 

Nos últimos anos de vida, já idosa, continuava ativa, ainda envolvida em negócios e causas sociais. Em 1925, faleceu em Victoria, na Colúmbia Britânica, aos 80 anos. Foi enterrada em Tombstone, Arizona, cidade que marcou parte importante de sua trajetória.

Nellie Cashman é lembrada como pioneira, filantropa e aventureira. Sua vida simboliza a coragem feminina em ambientes dominados por homens. O resgate no Cassiar permanece como seu feito mais célebre, mas sua trajetória mostra que esse ato foi apenas uma expressão de uma vida inteira dedicada a ajudar os outros. 

Ela não esperava permissão. Não buscava reconhecimento. Viu o sofrimento e caminhou em sua direção. 

O apelido “Anjo do Cassiar” não foi apenas uma homenagem. Foi o reconhecimento de que, em meio à brutalidade da fronteira, havia espaço para compaixão.

 

Texto e pesquisa

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural







ESTREITANDO OS LAÇOS DO ELOS COM A REDE SEM FRONTEIRAS


A Diretoria de Cultura do Elos Internacional anuncia, com satisfação, um importante passo na consolidação de vínculos culturais e institucionais. Nossa presidente, Matilde Slaibi Conti, acompanhada de seu irmão Nagib Slaibi Conti, Diretor Jurídico do Elos Internacional, esteve em encontro cultural com a Vice-presidente Cultural Mundial da Rede Sem Fronteiras, Ana Maria Tourinho, e com o Membro Oficial da Rede Sem Fronteiras, Euderson Kang Tourinho. 

O encontro, realizado a pedido da presidente da Rede Sem Fronteiras, Dyandreia Portugal, teve como pauta os últimos acertos para a instalação do Núcleo da Rede Sem Fronteiras em Niterói, iniciativa que simboliza a união de duas instituições comprometidas com a valorização da cultura, da literatura e da integração comunitária.

A reunião ocorreu em clima de fraternidade e cooperação, reforçando o espírito de parceria que norteia tanto o Elos Internacional quanto a Rede Sem Fronteiras. O almoço foi realizado no tradicional Restaurante Vovó Celeste, localizado na Praça Presidente Castelo Branco, nº 32, em Areal, RJ. Além das tratativas institucionais, os presentes puderam apreciar os sabores gastronômicos da região, fortalecendo ainda mais os laços de convivência e amizade. 

Este momento representa mais do que uma reunião administrativa: é a materialização de um esforço conjunto para ampliar horizontes culturais e educacionais. O Elos Internacional, sob a liderança de Matilde Slaibi Conti, tem se destacado por sua atuação voltada à promoção da literatura, da educação e da cidadania na comunidade lusófona. A Rede Sem Fronteiras, presidida por Dyandreia Portugal, é reconhecida mundialmente por sua capacidade de conectar escritores, artistas e instituições em diferentes países, criando uma verdadeira rede de intercâmbio cultural. 

A instalação de um núcleo da Rede Sem Fronteiras em Niterói, cidade que abriga uma rica tradição cultural e histórica, abre novas perspectivas para projetos conjuntos. A iniciativa permitirá que escritores, educadores e artistas locais tenham acesso a uma plataforma internacional de divulgação e cooperação, ao mesmo tempo em que fortalece o movimento Elista e seus princípios de integração comunitária. 

Matilde Slaibi Conti do Elos Internacional - reconhecida por sua trajetória literária e por sua dedicação incansável à cultura, Matilde tem promovido encontros, palestras e projetos que incentivam a leitura e a reflexão crítica. Sua liderança no Elos Internacional reafirma o compromisso com a transformação social por meio da cultura.

Dyandreia Portugal da Rede Sem Fronteiras - escritora e gestora cultural, Dyandreia é responsável por expandir a Rede Sem Fronteiras em diversos países, criando oportunidades para que autores e instituições possam dialogar e compartilhar experiências em escala global.

A presença de Ana Maria Tourinho, vice-presidente cultural mundial da Rede Sem Fronteiras, e de Euderson Kang Tourinho, membro oficial da instituição, reforça a seriedade e a relevância das tratativas. O encontro simboliza a união de lideranças que acreditam na força da cultura como instrumento de aproximação entre povos e comunidades. 

Com a instalação do núcleo da Rede Sem Fronteiras em Niterói, abre-se um novo capítulo para o intercâmbio cultural na região. 

PROJETOS CONJUNTOS ENTRE O ELOS INTERNACIONAL E A REDE SEM FRONTEIRAS DEVERÃO CONTEMPLAR 

Eventos literários e culturais voltados à comunidade local e internacional; Programas educacionais que incentivem jovens e adultos à leitura e à produção literária; Parcerias institucionais com escolas, universidades e centros culturais; Publicações conjuntas que ampliem a visibilidade de autores e pesquisadores. 

O encontro no Restaurante Vovó Celeste, além de marcar simbolicamente este momento, reafirma que a cultura se constrói também nos espaços de convivência, onde o diálogo e a partilha se tornam sementes de futuros projetos. 

O Elos Internacional e a Rede Sem Fronteiras estreitam laços em um movimento que transcende fronteiras geográficas e culturais. A união das duas instituições fortalece o compromisso com a educação, a literatura e a cidadania, abrindo caminhos para novas iniciativas em Niterói e além.

Este anúncio institucional reafirma que a cultura é ponte, é elo e é rede. E que, juntos, Elos Internacional e Rede Sem Fronteiras seguirão promovendo encontros que transformam, inspiram e aproximam comunidades em torno de um ideal comum. 

© Alberto Araújo

Diretor de Cultura do Elos Internacional





ORGULHO DE NORDESTINO


O presente vídeo diz: o poeta Antônio Mesquita diz que o sotaque é o rebolado da voz. E já que o cordel é a expressão viva da cultura nordestina, vamos expressar o nosso orgulho de ser nordestino através de um cordel de Bráulio Bessa que diz assim:

Sou gibão do vaqueiro, sou cuscuz, sou rapadura.

Sou vida difícil e dura, sou nordeste brasileiro.

Sou cantador violeiro, sou alegria onde chover.

Sou doutor sem saber ler. Sou rico sem ser granfino.

Quanto mais sou nordestino, mais tenho orgulho de ser.

 

Da minha cabeça chata, do meu sotaque arrastado,

do nosso solo rachado, dessa gente maltratada,

quase sempre injustiada, acostumada a sofrer.

Mas mesmo nesse padecer, eu sou feliz desde menino.

Quanto mais sou nordestino, mais tenho orgulho de ser.

 

Terra de cultura viva, Chico Anysio, Gonzagão,

de Renato Aragão, Ariano e Patativa.

Gente boa, criativa. Isso só me dá prazer.

E hoje, mais uma vez, eu quero dizer muito obrigada ao destino.

Quanto mais sou nordestino, mais tenho orgulho de ser.

 

E aí a gente encerra com uma frase célebre do grande Ariano Suassuna que diz: "Eu não troco o meu oxente pelo ok de ninguém, né?" Então, viva a expressão nordestina, viva o rebolar da nossa identidade cultural, viva o nosso sotaque, viva o nosso nordeste!

 

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No rebolado da voz, como disse o poeta Antônio Mesquita, pulsa o coração do Nordeste – terra de gibão vaqueiro, cuscuz quente e rapadura doce, onde a vida é dura como o solo rachado, mas fértil em alegrias que chovem mesmo na seca. Bráulio Bessa nos embala nesse cordel vivo: sou cantador de viola, doutor do saber popular, cabeça chata e sotaque arrastado que não troco pelo "ok" de ninguém, ecoando Ariano Suassuna em seu oxente eterno. 

Aqui, entre Patativa do Assaré e Gonzagão, Renato e Chico, floresce uma gente criativa, injustiçada mas resiliente, feliz no padecer, obrigada ao destino por esse orgulho que cresce quanto mais se é nordestino. É o cordel da alma, o rebolar da identidade, viva o nosso sotaque que dança no peito de quem carrega o Brasil no sangue!

 

© Alberto Araújo

Focus Portal Cultural




 

A MULHER DA RIA – A SALINEIRA, SÍMBOLO DA IDENTIDADE AVEIRENSE


Na cidade de Aveiro, situada na costa oeste de Portugal, entre os canais da Ria e as fachadas coloridas dos edifícios históricos, ergue-se uma figura silenciosa, mas eloquente: a estátua da “Mulher da Ria”. Esta escultura em bronze, de traços firmes e postura determinada, representa muito mais do que uma mulher com um cesto. Ela é a personificação da força feminina, da tradição marítima e da memória coletiva de uma comunidade moldada pelas águas da Ria de Aveiro. Para historiadores, antropólogos e estudiosos da cultura portuguesa, esta obra é um ponto de partida essencial para compreender o papel das mulheres na economia e na vida social da região. 

Aveiro é conhecida como a “Veneza Portuguesa” devido aos seus canais navegáveis e aos barcos moliceiros que cruzam suas águas. Mas além da beleza turística, a cidade tem uma história profundamente ligada à Ria de Aveiro, um sistema lagunar que se estende por dezenas de quilômetros e que, por séculos, foi fonte de sustento para milhares de famílias. A pesca, a apanha de moluscos e a extração de sal foram atividades centrais na economia local, e as mulheres desempenharam um papel vital nesse contexto. 

As “mulheres da ria” eram mariscadoras, peixeiras e trabalhadoras do sal. Enfrentavam o frio, a lama e as marés para colher berbigões, amêijoas e outros frutos do mar. Muitas vezes, essas mulheres também eram responsáveis por vender os produtos nos mercados locais, carregando cestos pesados pelas ruas da cidade. A estátua homenageia essas figuras resilientes, que sustentaram suas famílias com trabalho árduo e coragem.

A escultura foi criada pelo artista português José Moreira Rato, conhecido por retratar figuras populares e cenas do cotidiano com grande sensibilidade. A mulher representada está vestida com trajes tradicionais: uma saia longa, blusa de mangas arregaçadas e um lenço na cabeça, vestimenta típica das trabalhadoras da ria. Ela segura um grande cesto sob o braço esquerdo, enquanto a mão direita repousa na cintura, em uma pose que transmite firmeza e dignidade. 

A escolha do bronze como material reforça a ideia de permanência e resistência. A estátua está posicionada ao lado do Canal Central, próximo ao Mercado do Peixe e à Ponte dos Carcavelos, locais emblemáticos da vida comercial e marítima de Aveiro. Sua localização não é aleatória: ela ocupa um espaço de memória, onde o passado e o presente se encontram. 

A “Mulher da Ria” não é apenas uma homenagem individual, mas um símbolo coletivo. Ela representa todas as mulheres anônimas que moldaram a história da cidade com suas mãos calejadas e seus passos firmes. Em um país onde a memória popular muitas vezes é eclipsada por narrativas oficiais, esta estátua devolve visibilidade às protagonistas esquecidas da história. 

Para os habitantes de Aveiro, a escultura é motivo de orgulho. Ela aparece em roteiros turísticos, cartões-postais e fotografias de visitantes. Mas seu valor vai além da estética: ela é um monumento à dignidade do trabalho, à igualdade de gênero e à valorização das raízes culturais. 

Historicamente, as mulheres da região desempenharam funções que exigiam força física, resistência e conhecimento profundo do ambiente natural. A apanha de moluscos, por exemplo, exigia que elas entrassem na água gelada da ria, muitas vezes em horários de maré baixa, para recolher os frutos do mar com as mãos. O sal, outro produto essencial, era extraído das salinas em um processo que envolvia trabalho manual intenso. 

Essas atividades não apenas contribuíam para a economia familiar, mas também para o comércio regional. As peixeiras, com seus cestos cheios, percorriam longas distâncias para vender os produtos em feiras e mercados. Eram figuras conhecidas e respeitadas, cuja presença marcava o ritmo da vida urbana. 

Para os historiadores, a estátua da “Mulher da Ria” funciona como um documento tridimensional. Ela materializa uma narrativa que, muitas vezes, não está registrada em livros ou arquivos. A escultura permite uma leitura visual da história, revelando aspectos da cultura material, das relações de gênero e da economia popular. 

Além disso, ela serve como ponto de partida para investigações mais amplas sobre o papel das mulheres na história portuguesa. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais e regionais, obras como essa ajudam a construir uma memória mais inclusiva e plural.

Nos últimos anos, Aveiro tem investido na valorização de seu patrimônio cultural. A estátua da “Mulher da Ria” é parte desse esforço. Ela integra roteiros turísticos que incluem o Museu de Aveiro, a Catedral, os edifícios em estilo Arte Nova e os tradicionais barcos moliceiros. Muitos visitantes param diante da escultura para tirar fotos, mas poucos conhecem sua história completa. 

Por isso, iniciativas educativas e culturais têm buscado ampliar o conhecimento sobre a obra. Guias turísticos, folhetos informativos e projetos escolares têm incluído a estátua como elemento central na narrativa sobre a cidade. A valorização da figura feminina na história local é também uma forma de promover o turismo consciente e o respeito pelas tradições. 

A “Mulher da Ria” é mais do que uma escultura, ela é um arquétipo. Representa a mulher trabalhadora, resiliente, enraizada em sua terra e conectada com a natureza. É símbolo da luta diária, da sabedoria popular e da dignidade que transcende o tempo. Para os historiadores, ela é uma fonte de pesquisa viva, que desafia os limites da historiografia tradicional e convida à reflexão sobre os silêncios da história. 

Em tempos de transformação social e busca por justiça histórica, a estátua da “Mulher da Ria” permanece como testemunha silenciosa de um passado que ainda pulsa nas águas da Ria de Aveiro. Seu olhar firme e sua postura determinada continuam a inspirar gerações, lembrando que a história é feita não apenas por reis e generais, mas também e, sobretudo por mulheres com cestos nos braços e coragem no coração.


Texto e pesquisa © Alberto Araújo

Focus Portal Cultural



A MULHER DA RIA - RESISTÊNCIA ENTRE TEMPESTADES E SÓIS

Em Aveiro, às margens da Ria, ergue-se a estátua da “Mulher da Ria”, uma figura de bronze que carrega em si séculos de história, trabalho e resiliência. Mais do que uma representação artística, ela é um testemunho vivo da coragem das mulheres que, ao longo das gerações, enfrentaram as águas geladas, os ventos fortes e o sol inclemente para garantir o sustento de suas famílias.

Hoje, em tempos de ciclones e tempestades que assolam Portugal, esta escultura ganha uma nova dimensão: torna-se metáfora da resistência coletiva diante das forças da natureza e das adversidades que marcam o presente. As mulheres da ria, mariscadoras e peixeiras, sempre viveram em íntima relação com o ambiente natural. O seu trabalho dependia das marés, das condições climáticas e da força dos ventos. Enfrentavam tempestades sem proteção, com os pés enterrados na lama e as mãos calejadas recolhendo moluscos. A estátua, com seu cesto firme e sua postura determinada, cristaliza essa experiência de luta diária contra os elementos. 

Hoje, Portugal enfrenta novos desafios climáticos: ciclones, chuvas torrenciais e ventos que testam a resistência das cidades e das comunidades. Nesse contexto, a “Mulher da Ria” deixa de ser apenas memória do passado e passa a ser símbolo do presente. Ela nos lembra de que a identidade aveirense, e portuguesa, foi forjada na convivência com a instabilidade da natureza, e que a resiliência é parte essencial da cultura local. 

FORÇA COMPANHEIROS... 






 

PRESIDENTE DO ELOS INTERNACIONAL MATILDE SLAIBI CONTI DE VOLTA A NITERÓI


DIRETORIA DE CULTURA DO ELOS INTERNACIONAL

A Diretoria de Cultura do Elos Internacional compartilha com seus membros e amigos uma notícia que ressoa como símbolo de continuidade e esperança: nossa presidente, Matilde Slaibi Conti, está retornando a Niterói após dias intensos de encontros culturais na comunidade mineira. Sua presença em Minas Gerais não foi apenas uma visita, mas um marco histórico para o movimento Elista, que segue expandindo suas raízes e fortalecendo seus ideais. 

No dia 29 de janeiro, Matilde, acompanhada de seu irmão Nagib Slaibi Filho, participou de um jantar memorável no bistrô de Marco Antonio Capobiango, em Guiricema. O espaço, carinhosamente conhecido como Don Marcos, tornou-se palco da primeira reunião oficial relativa à célula Elista na região. Mais do que um encontro, foi um momento de celebração da cultura e da união comunitária. O bistrô, agora reconhecido como ponto de apoio para futuras reuniões, guarda em sua estante obras literárias da própria presidente, simbolizando a fusão entre arte, convivência e identidade coletiva. 

Durante o evento, foi anunciada uma iniciativa que já nasce como marco: a criação da primeira célula Elista rural, voltada ao público infantojuvenil. O projeto funcionará em um colégio local, em um espaço especialmente denominado Sementeira, nome que traduz a essência do movimento, semear valores, conhecimento e cidadania. A célula rural representa a expansão do Elista para além dos centros urbanos, alcançando comunidades que carregam consigo a força da tradição e o frescor da juventude. 

A responsabilidade de conduzir esta célula foi confiada à professora de português Tatiana Souza, cuja experiência e sensibilidade a tornam a escolha ideal. Sua missão será organizar as atividades iniciais, garantindo que os jovens tenham acesso a um ambiente de aprendizado e convivência pautado nos princípios do movimento. A expectativa é que a Sementeira floresça como espaço de incentivo à leitura, ao pensamento crítico e à participação comunitária, preparando novas gerações para o protagonismo cultural e social.

A trajetória de Matilde Slaibi Conti é marcada por uma dedicação incansável à cultura. Autora de diversos livros, sua produção literária já está disponível no bistrô Don Marcos, reforçando o elo entre sua obra e a comunidade que a acolhe. Ao longo dos anos, Matilde tem promovido encontros, palestras e projetos que incentivam a reflexão e a valorização da literatura como ferramenta de transformação social. Sua liderança no movimento Elista é um testemunho vivo de que a cultura pode aproximar gerações e construir pontes entre diferentes realidades. 

O retorno de Matilde a Niterói não significa um encerramento, mas sim a continuidade de um ciclo que se renova. A criação da célula rural em Guiricema é apenas o primeiro passo de uma jornada que promete expandir os horizontes do movimento Elista, levando seus valores a novas comunidades e inspirando jovens a se tornarem agentes de mudança.

A escolha de Tatiana Souza como presidente da célula rural traz consigo uma mensagem clara: o futuro do movimento está nas mãos daqueles que acreditam na força da educação e da cultura como pilares de uma sociedade mais justa e consciente. Sua atuação será fundamental para que o ideal Elista floresça em Guiricema, transformando o espaço escolar em um verdadeiro laboratório de cidadania. 

Em suas palavras, Matilde nos deixou uma mensagem carregada de afeto e significado:

Diga ao meu povo tão querido, que eu estou voltando. Vou almoçar, na viagem de volta, com a Ana Maria Tourinho. Na casa dela em Areal.” 

Essa frase, simples e poderosa, traduz o espírito de proximidade e pertencimento que guia sua liderança. Matilde não é apenas presidente de um movimento; é uma voz que ecoa entre amigos, comunidades e gerações, reafirmando que o Elista é, acima de tudo, um projeto humano, feito de encontros, partilhas e sonhos coletivos. 

Assim, celebramos o retorno de Matilde Slaibi Conti a Niterói com a certeza de que sua passagem por Minas Gerais deixou sementes férteis, prontas para germinar em novas iniciativas culturais e educacionais. O movimento Elista segue firme, expandindo suas fronteiras e reafirmando seu compromisso com a transformação social por meio da cultura. 

© Alberto Araújo

Diretor de Cultura do Elos Internacional









sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

A IDADE QUE QUEREMOS TER - CRÔNICA DE © ALBERTO ARAÚJO

Estávamos na varanda, de frente para o mar de Icaraí. Eu, sentado à mesa, com o jornal dobrado ao lado e uma xícara de café ainda quente. Shirley, minha musa, regava as plantas com calma, como quem conversa com cada folha, como quem entende que a vida também se renova em silêncio. O curioso é que ela fala com suas plantas: “Você não vai dar uma florzinha para a mamãe não?”. E não é que a planta responde, como quem entende? Muitas vezes vi, e sou testemunha, que sempre acabam lhe oferecendo flores lindas. 

Foi nesse instante que ela disse, quase sem olhar para mim, como quem fala para o vento: 

“A gente tem a idade que quer.” 

A frase ficou suspensa no ar, como uma onda que demora a quebrar. Eu a ouvi e sorri, mas dentro de mim ela começou a se expandir. Pensei nos anos que carregamos, nos números que nos definem, nos aniversários que se acumulam como páginas de um livro. Pensei nos cálices de tempo que bebemos: alguns doces, outros amargos. E percebi que talvez ela tivesse razão: a idade não é apenas o que o calendário nos impõe, mas o que escolhemos sentir. 

Dizem que a velhice é um peso. Mas talvez seja apenas um cálice cheio de anos, do qual podemos beber ou não. Alguns anos nos servem, outros não. Há lembranças que guardamos com carinho, há dores que preferimos esquecer. O cálice é grande, mas não precisamos bebê-lo inteiro. Podemos escolher o sabor que queremos levar. 

Shirley regava as plantas e parecia mais jovem do que nunca. Não porque tivesse menos rugas ou mais força, mas porque sua alma estava leve. Ela falava como se fosse uma mocinha. E talvez fosse isso: a idade que queremos ter não é a que o corpo mostra, mas a que o coração escolhe. 

O mar de Icaraí é testemunha de nossas conversas. Ele nos escuta sem pressa, devolve em ondas o que dizemos. Ali, diante do Cristo Redentor ao longe, aprendemos que o tempo é relativo. O mar é velho, mas continua jovem. As ondas se repetem, mas nunca são iguais. O Cristo permanece, mas cada olhar o vê diferente. 

Na varanda, o tempo parece suspenso. O relógio marca as horas, mas não importa. O que importa é o instante. E no instante, a idade se dissolve. 

“Mas como assim, a idade que quer?”, perguntei.

Ela sorriu, sem parar de regar as plantas:

“Ora, a idade é uma roupa. A gente veste a que cabe na alma. Se hoje quero ser jovem, sou. Se amanhã quero ser velha, também sou. O corpo não manda, quem manda é o coração.”

O vento trouxe o cheiro da maresia, e eu pensei que talvez fosse verdade. Quantas vezes já me senti menino ao ouvir uma música antiga? Quantas vezes já me senti velho ao enfrentar uma dor? Quantas vezes já me senti jovem ao rir sem motivo? 

“A gente tem a idade que quer.” Essa frase é um convite. Podemos escolher ser jovens quando dançamos, quando rimos, quando nos apaixonamos. Podemos escolher ser velhos quando precisamos de sabedoria, de paciência, de silêncio. Podemos escolher ser crianças quando nos encantamos com o simples, quando nos surpreendemos com o cotidiano.

A idade é uma roupa que vestimos. Às vezes apertada, às vezes larga. Mas sempre escolhida. 

Pensei nos anos que já vivi. Alguns pesados, outros leves. Alguns que gostaria de repetir, outros que prefiro esquecer. O cálice da memória é cheio, mas não precisamos beber tudo de uma vez. Podemos saborear aos poucos, escolher os goles que nos fazem bem.

Shirley regava as plantas e parecia conversar com elas. Cada folha era um ano, cada flor uma lembrança. Algumas secavam, outras floresciam. E ela cuidava de todas, sem distinção. Talvez fosse isso: cuidar dos anos como quem cuida de plantas. Regar os bons, aceitar os que murcham, esperar os que florescem. 

Na velhice, descobrimos que não precisamos carregar todos os anos. Podemos descartar alguns, guardar outros, reinventar o tempo. Podemos ter 90 anos no corpo e 30 na alma. Podemos ter 80 na memória e 40 no coração. Podemos ter a idade que quisermos. 

Ela disse isso com naturalidade, como quem sabe que a vida é mais leve quando não se prende a números. Regava as plantas e sorria. Eu a observava e pensava: talvez tivesse razão. Talvez a velhice não seja um peso, mas uma escolha. 

O mar continuava a cantar, o Cristo continuava a observar, e nós seguíamos na varanda. Eu sentado à mesa, ela regando as plantas. A frase ainda ecoava:

“A gente tem a idade que quer.” 

Talvez o sentido da vida seja isso: aprender a escolher a idade que queremos ter. Não a que o calendário nos impõe, mas a que nos faz sentido. Podemos ser jovens quando precisamos de coragem. Podemos ser velhos quando precisamos de sabedoria. Podemos ser crianças quando precisamos de encantamento.

A vida é um cálice de anos. Mas só interessa a idade que quisermos ter. 

Na varanda de Icaraí, diante do mar e do Cristo, aprendemos que o tempo é relativo. Que a idade não é número, mas escolha. Que a velhice não é peso, mas liberdade. 

Shirley regava as plantas e sorria. Eu a observava e pensava: talvez fosse isso. Talvez a vida seja escolher a idade que queremos ter. 

E assim seguimos, bebendo o cálice dos anos, descartando o que não nos serve, guardando o que nos faz bem. Porque, no fim, a idade é apenas um detalhe. O que importa é a essência. 

© Alberto Araújo 




CASA DE EUCLIDES DA CUNHA ABRE CAMINHO PARA A INCLUSÃO CULTURAL COM AULAS GRATUITAS DE LIBRAS EM CANTAGALO

 

Cantagalo, município serrano do interior do Rio de Janeiro, será palco de uma iniciativa que une memória, cultura e cidadania. A Casa de Euclides da Cunha, espaço cultural administrado pela Fundação Anita Mantuano de Artes do Estado do Rio de Janeiro (FUNARJ), inicia em fevereiro de 2026 um curso gratuito de Libras (Língua Brasileira de Sinais), voltado à comunidade local e regional. Mais do que uma atividade formativa, trata-se de um gesto simbólico e prático de democratização do acesso à cultura, reafirmando o compromisso da FUNARJ com a inclusão social e a valorização da diversidade. 

A Casa de Euclides da Cunha não é apenas um museu ou centro cultural: é um espaço de memória dedicado ao escritor, jornalista e engenheiro Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, obra fundamental da literatura brasileira. Situada em Cantagalo, cidade natal do autor, a instituição preserva documentos, objetos e referências ligadas à sua trajetória, mas também se abre para o presente, acolhendo atividades que dialogam com a contemporaneidade.

Nos últimos anos, o espaço tem se consolidado como um polo cultural dinâmico, promovendo exposições, oficinas, palestras e projetos educativos. Agora, ao oferecer aulas de Libras, amplia sua função social, transformando-se em um lugar de encontro entre diferentes formas de expressão e comunicação. 

A Língua Brasileira de Sinais é reconhecida oficialmente como meio legal de comunicação e expressão desde 2002. Para a comunidade surda, representa não apenas um idioma, mas também um instrumento de afirmação identitária e de acesso a direitos. No entanto, a difusão da Libras ainda enfrenta desafios, sobretudo em cidades do interior, onde cursos e formações são escassos.

Ao disponibilizar aulas gratuitas, a Casa de Euclides da Cunha contribui para reduzir barreiras comunicacionais e estimular a convivência inclusiva. O curso será ministrado por profissional especializada e acontecerá semanalmente, às quartas-feiras, às 19h30. A proposta é atender tanto pessoas que desejam aprender por interesse pessoal quanto profissionais da educação, da saúde e da cultura que buscam ampliar suas competências. 

A iniciativa integra o projeto Euclides em Foco, que busca aproximar a população das ações culturais da FUNARJ. Mais do que um curso isolado, trata-se de uma política pública que reconhece a cultura como direito e a acessibilidade como condição indispensável para sua efetivação. 

A FUNARJ tem investido em programas que tornam seus equipamentos culturais mais acessíveis, seja por meio de adaptações físicas, seja pela oferta de atividades voltadas a públicos historicamente marginalizados. Aulas de Libras, audiodescrição em exposições, visitas mediadas e oficinas inclusivas são exemplos de práticas que vêm sendo incorporadas gradualmente. 

A escolha de Cantagalo para sediar o curso não é casual. A cidade carrega a memória de Euclides da Cunha e, ao mesmo tempo, enfrenta os desafios comuns a municípios do interior: acesso limitado a serviços especializados, concentração de oportunidades nas capitais e necessidade de políticas públicas descentralizadas. 

Ao levar para Cantagalo uma ação de inclusão cultural, a FUNARJ reafirma a importância de interiorizar suas atividades, garantindo que o direito à cultura não se restrinja às grandes cidades. Para os moradores, trata-se de uma oportunidade inédita de formação e de aproximação com a comunidade surda. 

O curso de Libras na Casa de Euclides da Cunha não deve ser visto apenas como uma atividade educativa, mas como parte de um movimento maior: o reconhecimento da cultura como prática de cidadania. Aprender Libras significa abrir portas para novas formas de diálogo, reduzir preconceitos e construir ambientes mais acolhedores. 

Em espaços culturais, a presença de profissionais e visitantes que dominam Libras pode transformar a experiência de pessoas surdas, permitindo que participem plenamente de atividades artísticas e educativas. No cotidiano, amplia-se a possibilidade de interação em escolas, hospitais, repartições públicas e ambientes de trabalho. 

Euclides da Cunha, em sua obra, denunciou desigualdades e deu voz a grupos marginalizados. Ao associar seu nome a um projeto de inclusão linguística e cultural, a Casa que o homenageia atualiza esse legado. Se Os Sertões revelou ao Brasil a realidade de uma população invisibilizada, o curso de Libras reafirma a necessidade de dar visibilidade e voz, ou melhor, sinais, à comunidade surda. 

A expectativa é que o curso seja apenas o início de uma série de ações voltadas à acessibilidade em Cantagalo. A FUNARJ pretende ampliar parcerias, oferecer novas oficinas e consolidar práticas inclusivas em todos os seus equipamentos culturais. A meta é transformar iniciativas pontuais em políticas permanentes, garantindo que a inclusão não seja exceção, mas regra.

 

SERVIÇO

Início das aulas: 04 de fevereiro de 2026

Local: Casa de Euclides da Cunha, Cantagalo – RJ

Horário: Quartas-feiras, às 19h30min

Inscrições e informações: www.euclidesemfoco.com.br

ou WhatsApp (22) 98178-7523

 

O curso de Libras oferecido pela Casa de Euclides da Cunha é mais do que uma atividade formativa: é um gesto político e cultural que reafirma o compromisso da FUNARJ com a democratização do acesso à cultura. Em Cantagalo, cidade marcada pela memória de Euclides da Cunha, a iniciativa ganha contornos simbólicos, unindo passado e futuro, literatura e cidadania, memória e inclusão.

 

© Alberto Araújo

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